No fim do ano passado eu havia decidido parar de palpitar sobre política. Não faltam assuntos mais aconchegantes, como o bafo dos Dragões de Komodo após o lanchinho da tarde. Aviso de antemão, não quero usar da ironia nem do sarcasmo, ainda que um comentário ou outro possa ser interpretado dessa forma. E, digo logo, se isso acontecer, a culpa é sua, leitor, não minha.
Então, a verdade é que fiquei desanimado ao ver os nossos nobres vereadores correrem para aumentar os próprios salários antes das férias coletivas. Alguns dizem que nunca trabalharam com tanta voracidade. Outros dizem que só trabalham em causa própria. Eu discordo, claro. O fato é que o Natal teve gosto de imposto e não foi só no recheio.
Não que eu acredite na honestidade deles, mas também não desacredito. Para mim, a honestidade política está no mesmo patamar dos Alienígenas. Não acredito nem desacredito; porém, precisamos considerar o seguinte: se aparecer um Disco Voador por aqui, você sabe, fica difícil desacreditar. Aí o problema é outro: convencer as pessoas sem parecer alienado.
Eu também estava cansado daquela velha salada de frases feitas e discussões direita-esquerda, verdade-mentira, santo-criminoso, doce-salgado, vestido-pelado, dinheiro-cueca ou qualquer outra concepção maniqueísta que inflou a sociedade nos últimos anos. Convenhamos, em maior ou menor grau, falar de política havia se tornado algo como reafirmar a própria beleza para o espelho. Pois é. E nem sou tão bonito assim.
Tenho de admitir que vez ou outra ainda me surpreendo, mesmo com expectativas negativas. A tão falada PEC da blindagem é um exemplo. Um texto inusual e magnífico. Ponto para nossos tão excelentíssimos representantes. Longe dos debates de menor valor, como a inflação, o saneamento básico e a emergência climática, a PEC da blindagem deu sinais de um respiro aliviado à política brasileira. Finalmente, ela poderia voltar para uma rota firme, bem encabeçada e sem devaneios. Sejamos sinceros, em pleno 2025, é de políticos assim que precisamos, só não vê quem não quer. Afinal, todos sabemos que um grande país é construído por homens e livros, mesmo que um tanto mambembe (mais pra lá do que pra cá). Só não vê quem não quer, repito.
Indiferente à política, hoje não ponho o dedo na ferida nem questiono verdades absolutas. Figuro mais como um hamster domesticado do que como um comentador anônimo insatisfeito (vulgo sujeito-que-merece-uma-coça). Mas, considerando a bela proposta da PEC da blindagem, comecei a divagar sobre como aplicá-la em outras áreas. Resumindo, a PEC da blindagem pode até não ser a melhor proposição política do ano (está mais para um trupicão* bem dado, daqueles em que a cara alcança o chão bem antes do resto do corpo), mas baseará a minha sugestão de emenda.
Alô CBF. Gostaria que os caríssimos dirigentes do esporte de preferência nacional levassem em consideração o meu projeto. Serei breve, não quero tomar o atribulado tempo de tão importantes autoridades. Então, sem mais delongas, com base na supracitada, proponho a criação da PEC do Cartão Vermelho. Explico: sempre que ocorrerem faltas violentas ou sequência de cartões amarelos, o VAR será chamado e os jogadores deverão votar pela expulsão ou pela anulação dos cartões do companheiro. Por obviedade, cada voto será individual e secreto. Só então o árbitro tomará as devidas providências, evidentemente, sem poder de veto. Aproveito para propor uma segunda emenda, como defluência da primeira: a Pequinha do Pênalti, seguindo os mesmos democráticos modelos da anterior. Chega das decisões autoritárias e imperativas do juiz.
Preciso frisar, entretanto, que a proposta não nasceu da minha revolta com as expulsões indevidas sofridas pelo Grêmio no Campeonato Brasileiro. Os três pênaltis do último Grenal também não influenciaram, juro. Trata-se de uma sugestão de melhoria para todos (inclusive para o lado vermelho do Rio Grande do Sul**). Eu jamais usaria de tal subterfúgio para benefício próprio. Sou partidário da mais pura e transparente idoneidade.
Estou certo de que teríamos grandes avanços e elevaríamos o futebol brasileiro a um nível mais equânime, responsável e organizado; porém, como toda boa ideia neste país, vai acabar esquecida e, mesmo na área, derrubada, sem pênalti. Entendo que o meu histórico como comentador insatisfeito e como integrante de torcida organizada também não contribua muito. Mas, com a proposta em mãos, pelo bem de todos e felicidade futebolística da nação, o que posso fazer***?
*Sim, caros colegas, como vocês viram também no título, por vezes utilizo o linguajar erudito da política nacional, com a devida vênia.
** Aqui (só aqui), talvez, um pouco de ironia?
*** Touché! Não falei de política.