Ana Helena Reis

  • Poema #03: Em branco

  • Poema #03: Habitar o intervalo

    “A tapeçaria é uma articulação singular entre linhas e vazios, flexibilidade e resistência, o que faz do tear a metáfora por excelência da criação narrativa: porque o ar circula entre os fios como o silêncio entre as palavras.” *

    Os emaranhados da vida
    tapeçaria mal tecida
    De palavras sufocadas por amarras
    por nós
    Arremates enrijecidos do tempo
    entre as costuras

    Vida vivida
    em monobloco

    Esgarçar a tessitura
    do tempo mal vivido

    Esburacar a trama
    de pontos suturados

    Criar um circulador
    de silêncios no espaço

    Arear lembranças
    do que resta calado

    (*) Lara Manesco, em Entre Tecer e Narrar

  • Poema #02: Sem alarde

    Não era o primeiro a chegar
    também não era o último
    ficava no meio.

    Lugar pouco disputado,
    onde ninguém posa
    e quase ninguém repara.

    Enquanto alguns se apressavam em brilhar
    e outros reclamavam da falta de luz
    ele aguardava.

    Não parecia esperar nada específico
    talvez só o tempo exato em que algo se revela
    sem fazer alarde.

    Foi assim que aprendi:
    nem toda claridade quer vencer a noite
    algumas só querem caber dentro dela
    por um instante e depois seguir

    vagalumeando

  • Meu relógio é de borracha

    Às vezes, me canso um pouco de ler as crônicas do cotidiano publicadas nos inúmeros sites e veículos de comunicação (logo eu, que sou uma delas?). E não é por conta da qualidade literária dos textos — que, na maioria dos casos, é inquestionável —, mas por sentir que estou sempre comendo aquele mesmo pudim que retorna à mesa depois de congelado.

    Por isso mesmo, me deliciei com um texto novo que falava sobre os Tidsoptimistas. O termo é difícil até de pronunciar, mas desperta curiosidade — tanta que fui em frente para descobrir seu significado.

    E qual não foi minha surpresa ao perceber que o texto falava exatamente de mim! Será que a autora me conhecia de alguma reunião em que ficou claro ser eu uma Tidsoptimista clássica? Ou teria captado as vibrações do meu ser de luz, sempre pronto a ajudar outras criaturas afortunadas que têm uma visão otimista do tempo, como eu?

    Senti um estranho calor, como se — imagino — estivesse tomando um chá fumegante de Santo Daime, à medida que me reconhecia nas situações expostas. Estou vingada! (pensava, ticando cada uma delas). Assim que compartilhar esse texto, todos vão entender que minha intenção sempre foi boa; que o problema é apenas uma diferença de visão sobre o tempo — a deles é objetiva, a minha, subjetiva!

    Para que não reste dúvida de que a autora, Becky S. Korich, se inspirou na minha pessoa para psicografar esse texto, seguem aqui algumas situações citadas:

    O encontro é às 20h. Às 19h55, saindo de casa e ajeitando o cabelo no espelho do elevador, manda a clássica: “Chegando.”

    A reunião é às 14h. São 13h40. Calcula: “Trânsito, 25 min; me troco em 5; dou tchau em 2; saio em 10… dá tranquilo.”

    Tem um voo às 10h. Decide sair às 8h10, confiante de que tudo vai colaborar: o Uber vai chegar em 2 minutos, os faróis abrirão em sincronia, não haverá fila no check-in e o portão será logo ali.

    Quem já conviveu comigo certamente poderá engrossar essa lista com muitas outras situações optimistic e… me perdoar!

  • Chegar partindo

    Sempre é tarde quando se pede perdão. Tarde demais para apagar o que não devia ter sido feito, falado, sentido, e até pensado, mas que explodiu algumas vezes em uma súbita golfada, outras em uma enxurro daquilo que fermentava há tempos.

    E aí, a dor é sufocante, a vergonha chega a ser desoladora. Saber que o único caminho é pedir perdão consome as entranhas e cutuca insistente, como um alfinete esquecido na roupa.

    Na tentativa de minorar a culpa, a busca de alguma justificativa que abrande o remorso, acalme o coração.

    Mas eu não sabia que você sabia.
    Que a vida é tão boa.

    Não sabia, não queria, não, não…a negação brota e floresce com a proposta de um bálsamo para a dor do erro. Escusa que se repete como um mantra e ressoa, na esperança da complacência divina, humana, ou da própria consciência. Há perdão para quem não percebe a grandeza da vida?

    Se é tarde, me perdoa.
    Eu cheguei mentindo.
    Eu cheguei partindo.
    Eu cheguei à-toa.

    Ninguém chega à toa nessa vida. A chegada é uma porta que se abre para qualquer direção.

    Chegar partindo é chegar mentindo para si mesmo, como se nada houvesse entre o nascente e o poente. É como quebrar a bússola que orienta o caminho da existência, para que ela nãoMmostre os desencantos do amor ao Sul, os banhos de lágrimas ao Leste, mas também o quentura do amor ao sol do Leste. Somente o ponto Oeste da redentora despedida.

    Em cima da mesa, um bilhete dobrado. Maria sentou-se para ler, ainda atordoada pela partida de João. Chegou como quem chega do nada, nunca esteve totalmente presente na relação, e do nada se afastou. A que veio então? O bilhete assim dizia:

    Se é tarde, me perdoa.
    Trago desencantos.
    De amores tantos pela madrugada.
    Se é tarde me perdoa.
    Vinha só cansado.

    Tema de inspiração: Carlos Lyra / Ronaldo Bôscoli: Se é tarde, me perdoa

  • Rio abaixo…

    Reconectar, rever, retomar a amizade – foi o mantra de Clô ao receber o convite para a festa dos 40 anos de formatura. Quarenta! Ela leu a lista de colegas com um sorriso nostálgico no rosto e um pensamento ligeiramente suspeito:

    “Que tempos maravilhosos… mais ríamos do que estudávamos, e ainda assim conseguimos o diploma! Milagre puro. Laís, Marina e eu éramos uma trinca imbatível!” Sabiam tudo da vida uma da outra – inclusive os detalhes mais cabeludos.

    Só que a vida, essa bagunceira, foi jogando cada uma para um lado. “Como estarão agora? Bonitinhas, como éramos? Ou detonadas pelo tempo, como todo mundo?”

    Aí veio o pânico, aquele clássico pânico feminino com data marcada.

    Dois meses até o evento. Tempo suficiente para virar uma versão 2025 de si mesma – sem filtro, sem Photoshop, ao vivo e em HD.

    Missão Clotilde em modo turbo:
    - Reforçou a academia (alô, personal trainer);
    - Clareamento nos dentes (tchau, café e vinho);
    - Mechas loiras (tom “iluminada e despreocupada”);
    - Botox e uma esticadinha nas pálpebras (cirurgia rápida, que ninguém precisa saber);
    x Harmonização facial? Quase. Mas faltou coragem. Ainda bem.

    Chegou ao evento com a autoestima no volume máximo. O espaço era charmoso, mesas e sofás espalhados, vibe “sunset de senhora elegante”.

    E lá estavam elas: Marina e Laís. Reconhecíveis, porém… um pouco vencidas pelo prazo de validade.

    “Gastei horrores pra nada. Estão caidinhas. Ufa!”

    Mas Clô era educada. E disfarçava bem.

    Abraços, beijinhos, aquela conversa-padrão de reencontro:
    “Casou?”
    “Tem filhos?”
    “Trabalha ainda?”
    “Mora onde?”
    “E seus pais, vivos?”

    Checklist da vida em andamento.

    Logo vieram umas lembranças – aquelas piadas internas que antes causavam ataques de riso e agora só rendiam sorrisos educados.

    A festa seguia animada: bebida boa, DJ animado, comida de primeira… tudo propício ao tal reencontro inesquecível.

    Menos… na mesa de Clô.

    Ali, o silêncio começou a pesar como prataria herdada.

    Ela olhou para as “meninas” e viu… duas estranhas. Nada da antiga conexão, nenhuma faísca do trio explosivo que um dia foram.

    Sem rodeios, soltou: — Gente… que tal dar uma voltinha por aí?

    Levantou-se, ajeitou o vestido, ergueu o queixo renovado pelo botox e, ao dar o primeiro passo, lembrou de uma frase que leu num cartão postal ou num biscoito da sorte, sei lá: “O rio nunca passa duas vezes no mesmo lugar.”

    E, naquele momento, ela achou a metáfora perfeita.

    Para as amigas, para a noite, para a vida.

  • TOC-TOC: crônica das loucuras cotidianas

    Desconfio que, em vidas passadas, andei frequentando a Casa Verde do Simão Bacamarte. Não que eu me dedique profissionalmente ao estudo da loucura, mas traçar o perfil das manias alheias é um talento que cultivo com facilidade — e um tantinho de desfaçatez.

    Outro dia quase me levantei da mesa e despedi com uma desculpa qualquer quando um amigo passou álcool num copo de vinho antes de se servir. Mas o leitor há de convir que essa neura de contaminação acaba com qualquer romantismo de um encontro, não?

    E o que dizer daquelas pessoas que, em qualquer situação, soltam um sonoro “Louva Deus”? Um cacoete religioso? Ou uma saudação digna dos fanáticos de Handmaid’s Tale“Bendito seja o fruto”? Só mesmo rebatendo com um bem-humorado “Que o Senhor abra”.

    Repassando as loucuras que identifico nos outros, cheguei ao fascínio por simetria. Convidada para um almoço, a pessoa entra na minha casa e pede permissão para arrumar o quadro que está um pouco fora do alinhamento. Em seguida, comenta que a mesa de almoço não está centralizada com o lustre, e termina perguntando se eu não me importo dela alinhar os talheres. Dou aquele sorriso bem-educado, e digo “fique à vontade”, com vontade de trocar o “i” pelo “u”.

    Cheia de razão (assim eu achava), rotulei esses comportamentos como TOC — Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Pobres criaturas, devem sofrer com isso… por que não buscam uma ajuda psicológica?

    Até que, outro dia, ao organizar as pastas no computador, percebi que estava renomeando aquelas que fugiam do padrão. Se começo usando maiúsculas no nome da pasta, todas precisam estar em maiúsculas. Inadmissível misturar!

    Epa… será que eu também tenho o meu TOC?

    Mas vejam bem: nem de longe isso me preocupa. Afinal, como já dizia Bacamarte, de médico e de louco todo mundo tem um pouco. Agora, com licença que vou ali renomear umas pastas fora do padrão.

  • Ema, ema, ema cada um com seus problemas

    Emília entra no elevador enorme da repartição pública, desses feitos para transportar pelo menos vinte pessoas, mas que, naquele horário, estava quase vazio. Quase. No fundo, uma pessoinha encolhida chorava baixinho.

    Emília desvia o olhar. Final de um dia estressante — só me faltava agora ter que consolar alguém que nem conheço. Vira-se de frente para a porta, torce a boca e entoa seu meme preferido: ema, ema, ema, cada um com seus problemas.

    Milena se joga no sofá para conferir as mensagens de WhatsApp que ainda estavam na caixa. Começa pelas mais urgentes: o grupo da faculdade marcando um happy hour, a faxineira avisando que não vai poder trabalhar amanhã. Em seguida, aparece uma que começa com: Família, quem pode me ajudar? — acompanhada de emojis com mãozinhas postas em prece.

    Milena titubeia. Se abrir a mensagem, vai ter que responder, se envolver. Melhor nem abrir. Afinal, também tem seus próprios problemas. Portanto… ema, ema, ema, cada um com seus problemas. E passa para a próxima.

    Amélia segue paciente na fila de carros para pegar a filha na escola. Já está quase na sua vez quando, de repente, um carro emparelha e a janela se abre. Uma moça, descabelada, suplica:

    — Será que eu poderia passar na sua frente? Minha filha está tendo uma crise de angústia. Ela está no espectro do autismo, preciso pegá-la o mais rápido possível. É uma urgência.

    Amélia hesita por um segundo. Pensa que ainda precisa levar a filha ao dentista, que já está atrasada. Então acelera o carro. Afinal, ema, ema, ema, cada um com seus problemas.

    Emília, Milena, Amélia. Trocam-se as letras, muda-se o cenário — o refrão é o mesmo.

    Talvez sejamos todos um pouco essas emas. Não por crueldade, mas por exaustão. Cansaço, medo, excesso de solicitações. Nossos problemas individuais sempre se sobrepondo aos dos outros, como se não houvesse espaço para mais nada.

    Nunca tivemos tantos “problemas próprios” e tão pouco espaço para os problemas alheios. Talvez não seja falta de empatia, mas excesso — de tarefas, de ruído, de cansaço. Cada um cheio demais de si para caber no outro. E assim seguimos: um coro afinado na pressa, cantando juntos a mesma cantiga. Ema, ema, ema, cada um com seus problemas.

  • Onde mora o seu olhar

    Nunca havia pensado na morada dos olhos, e sua relação com a inspiração necessária para um bom escritor, até que me caiu no colo o texto magnífico de Rubem Alves – A arte de ver.

    Me encantou esse termo, morada dos olhos, pois ele dá uma outra dimensão à diferença entre o ver e o olhar, que está relacionada à morada onde guardamos aquilo que nossos olhos captam.

    Se captamos as imagens somente com a visão, elas são armazenadas em uma caixa de retratos.

    Colecionamos imagens que nos são úteis para referenciar, objetivamente, o mundo que nos cerca. Pensando na arte da escrita, essa caixa nos fornece material para descrever a forma, a cor, o tamanho dos objetos que vemos – um bolo de chocolate com cobertura, por exemplo. Se bem descrito, podemos até sentir na boca sua cremosidade.

    Mas, se captamos o que nos cerca com o olhar, se abrimos nossos escaninhos, conseguimos romper com a racionalidade objetiva e nos conectarmos com significados e emoções que vão muito além do objeto. E, aí, a morada desse olhar é uma porta aberta dentro de nós; o olhar nos habita, mas é livre, cigano, vagando por aqui e ali. É o olhar do escritor poeta, que ao pousar em um bolo de chocolate, é capaz de sentir e nos fazer sentir, em seu texto, a cremosidade de um beijo apaixonado.

    Como poeticamente colocou Alberto Caeiro (citado no texto de Rubem Alves), para isso é preciso “partejar olhos vagabundos”

  • A lágrima extra

    O dia prometia ser quente e úmido — combinação ideal para cabelos rebelados e para quem trabalha imóvel ao ar livre. Depois de entregar o filho à vizinha que o levaria à creche, voltou ao seu reino: um quarto-cozinha-banheiro, tudo no mesmo perímetro afetivo.

    Abriu o velho armário que rangia como se quisesse dar opinião. De lá tirou seu uniforme de batalha: camisa preta com gravata borboleta, colete branco, calças bufantes que herdara de algum século passado, meias brancas e sapatos pretos tão lustrados que poderiam servir de espelho, se não fosse ele já ter um.

    No espelho, iniciou o ritual. Espalhou a base branca, delineou os olhos caídos — reflexo do estado civil com o sono — e arqueou as sobrancelhas como quem diz “não fui eu”. Demarcou o sorriso e, por fim, a lágrima no canto esquerdo, que sempre julgou exagerada, mas o público adorava um dramalhão. Vestiu as luvas, ajeitou a boina e testou o sorriso congelado. Parecia irreconhecível. E ligeiramente ridículo. Perfeito.

    Desceu pela ladeira até o parque municipal, seu escritório a céu aberto. Ali ficava por horas, imóvel, trocando de pose apenas para evitar virar uma estátua de sal. Ganhar dinheiro era quase um milagre; mas, com sorte, rendia legumes, arroz e, quando a semana era boa, até um iogurte para o filho.

    O público passava, ria, deixava moedas. Ele reconhecia cada reação: o adulto curioso, a criança encantada, o adolescente que tentava fazê-lo piscar. Em suas poses — a mão ao céu, a cara de susto, o herói carregando o mundo — havia mais ciática que simbolismo, mas ninguém precisava saber disso.

    Estava justamente no papel de Atlas contemporâneo quando ouviu uma voz conhecida. Congelou ainda mais do que a profissão exigia. Um grupo de crianças da creche vinha em direção a ele. No meio delas, seu filho.

    Ótimo. Justo hoje que o suor ameaçava soltar a maquiagem e revelar que o palhaço, na verdade, precisava urgentemente de um ventilador e não de aplausos.

    As crianças o cercaram, rindo e rodopiando, como se ele fosse um planetário com pernas. O pânico subia como a maré. Se a base branca derretesse, fim do mistério.

    Seu filho parou bem diante dele, apertando os olhos como quem tenta decifrar um código secreto.

    — Professora… por que o palhaço está chorando?

    Ele prendeu a respiração.

    — Sabe, meu pai tem um trabalho sério — mas lá em casa ele gosta de fazer palhaçada pra mim.

    A gente ri um montão. Mas ele nunca chora…

    E ali ficou o palhaço: imóvel, suando, com a lágrima oficial pintada e outra teimando em escorrer, tentando decidir qual delas era a mais difícil de explicar.

  • Presença de Espírito: Pena que Não Vem com Manual

    Sabe aquela habilidade de reagir rápido, com graça, esperteza e a frase perfeita? Pois é… não veio no meu pacote. Diante de situações inesperadas, viro uma estátua com sorriso de paisagem. Meia hora depois, claro, surgem respostas brilhantes — todas atrasadas, todas inúteis. E eu fico furiosa comigo mesma.

    Por isso admiro profundamente quem tem presença de espírito. Aquela gente que rebate na hora, cria na hora, brilha na hora. E dois casos sempre me vêm à mente.

    O primeiro é de um político das antigas, mestre em se safar de qualquer saia-justa — e com memória prodigiosa (ou assessores eficientes soprando nomes). Em um evento, aproximou-se um sujeito que a equipe rapidamente identificou como “filho de fulano”. O político abriu um sorriso:

    — Que prazer em vê-lo! Como vai seu pai, o nobre…?

    — Deputado… meu pai morreu há cinco anos!

    Ele nem piscou:

    — Morreu pra você, filho ingrato! Para mim segue vivíssimo na lembrança.

    Sério, quem pensa tão rápido? Outro exemplo é de uma conhecida que recebeu aquele clássico telefonema do “sequestro da filha”. Sem perder o fôlego — nem a fé — ela respondeu:

    — Irmão, não tenho dinheiro nem filha! Sou irmã de caridade. Largue essa vida, venha para o bem, vamos orar juntos.

    Bip bip. Golpista convertido ou, no mínimo, arrependido.

    E aí fico pensando: o que esse povo tem que eu não tenho? Fui atrás de explicações sérias.

    Resumindo o que aprendi: algumas pessoas conseguem aproveitar o microsegundo entre ouvir e responder para inventar alternativas inesperadas. É o tal do pensamento “fora da caixa”, que não se contenta com o óbvio e prefere o caminho criativo — às vezes absurdo, às vezes genial.

    Ou seja: quem tem presença de espírito escolhe se divertir com a própria inteligência.

    No fim das contas, presença de espírito é isso: um talento raro, quase uma arte marcial da criatividade. Alguns já nascem com cinturão preto. Eu, por enquanto, sigo no nível iniciante — procurando o tal manual que ninguém escreveu, mas que bem poderia existir. Até lá, sigo treinando. Vai que um dia o timing e eu finalmente combinamos um encontro. No caso deles… fazendo acrobacias. No meu, talvez só uma caminhada leve. Mas seguimos tentando.

  • Pandora

    Certo dia resolvi organizar as fotos que ficavam naqueles albunzinhos que as Fotóticas da vida ofereciam junto com os filmes revelados, da época em que se revelava fotografia e colocava em álbuns. Foram guardados numa grande caixa, esperando o dia em que eu ia me dispor a organizar.

    O tempo passou, não fiz isso quando deveria ter feito e, agora, essa se tornou uma Caixa de Pandora. De vez em quando olho para ela, pensando se gostaria ou não de abri-la. Lá estão registrados anos e anos da vida, que de certa forma, ao serem guardados nessa caixa, ficaram congelados.

    Me dei conta de que fotos em papel impactam diferente na gente. Quando tudo passou a ser digital, parece que nossa memória também digitalizou, e as fotografias passaram a ocupar outro espaço, menos emocional, longínquo, o espaço virtual.

    Nesse plano digital estão álbuns mais recentes, que podem conter momentos parecidos e com as mesmas pessoas que estão nos antigos registros de papel, mas a nossa relação com eles parece ser diferente, mais distante.

    As fotos digitais parecem não fazer parte de nós e sim de uma plataforma – elas habitam fora de nós, em uma nuvem. Esse distanciamento nos possibilita facilmente deletar, corrigir, cortar, criar outros contextos para os momentos ali retratados.

    Se algo desagrada, ou traz uma lembrança indesejada, com um clique está tudo resolvido e nem nos lembramos mais de que, um dia, esses momentos foram captados, registrados. Já as fotos em papel não. Eliminá-las exige rasgar, queimar, colocar no lixo, sei lá. E isso é um processo cirúrgico dolorido.

    Se desfazer de flagrantes do passado que hoje não são mais significativos, da fisionomia de pessoas que não deixaram marcas – hoje são praticamente estranhas – dá uma sensação de sacrilégio. É como se esses retratos tivessem vida própria, não nos pertencessem e sim à nossa história.

    A digitalização, no fundo, desumanizou esses relatos, criou um espaço confortável entre nós e aquilo que está na tela, para que pudéssemos ir ceifando, sem dó nem piedade, tudo aquilo que incomoda, que não faz mais sentido e, assim, compor o álbum com a história que gostaríamos de contar.

    Mas as fotos em papel criam vida, e não há como apagar a história que contam. Elas ficam ali, naquela Caixa, como guardiãs fiéis do nosso passado.

  • Onde está Fênix?

    O final de semana prometia ser intenso. Depois de anos sem nos reunirmos, decidi chamar Roberto, Samanta e Maritza para a casa de praia. Oficialmente, discutiríamos os detalhes das comemorações de Natal. Mas, no fundo, eu queria testá-los — ver até onde cada um iria, agora que o mundo estava virando do avesso.

    O governo de transição havia decretado novas normas financeiras e sociais, e o colapso lá fora fazia a cidade oscilar entre apagões e sirenes distantes.

    Dentro da casa, queria um microcosmo de controle absoluto, protegido pelo cheiro salgado do mar e pelo vento que assobiava pelas janelas mal vedadas.

    Samanta chegou primeiro, trazendo consigo Fênix, a gata preta de olhos verdes que pareciam perfurar minha mente. Eu não suportava felinos — alegava alergia, mas o que realmente me incomodava era essa sensação de ser avaliado a cada gesto. A gata se instalou na minha poltrona favorita, como se fosse a dona da casa, e me fitou com uma calma que doía.

    Logo depois, Roberto surgiu com seu Land Rover e uma caixa de espumantes caros, tentando impor normalidade. O vento carregava o aroma do álcool e do mar para dentro da sala.

    — Um brinde ao velho mundo! — anunciou.

    Brindei, polidamente. Ele não percebeu o veneno escondido na minha voz. Maritza chegou por último, exalando o cheiro químico do trabalho com taxidermia, os olhos brilhando de excitação e imprevisibilidade.

    — Não se preocupem — disse, rindo alto demais —, não trouxe o material.

    Mas vocês entenderam o recado.

    Ninguém riu. Sua risada reverberava, arrastando um eco que parecia pertencer a outra casa.

    O jantar foi uma encenação meticulosa. Rimos, brindamos, trocamos farpas sutis. A luz das velas tremia, projetando sombras alongadas e distorcidas pelas paredes descascadas. O vento arrastava folhas para dentro da varanda, e cada sussurro do mar parecia aproximar-se de nós. Eu os observava, maestro de um
    concerto dissonante, e sentia prazer no controle absoluto.

    Fênix permanecia imóvel sobre a poltrona, fitando-me com olhos que queimavam no escuro, como se compreendessem cada pensamento. Meu coração disparava, uma mistura de medo e fascínio.

    Mais tarde, aproximei-me de Maritza.

    — Maritza… aquela gata é perfeita. A pelagem, os olhos… uma obra de arte viva.

    Ela franziu o cenho.

    — Você está bêbado.

    — Ou lúcido demais — retruquei. — Imagine preservá-la… congelar o instante.

    Não é o que você faz com suas peças?

    Ela riu, nervosa, e o som reverberou pelo corredor.

    Na madrugada, não consegui dormir. Andei pelos corredores escuros, sentindo o chão frio sob os pés descalços. Cada rangido parecia amplificado, cada sombra movia-se de maneira suspeita. Roberto dormia, Samanta ressonava, e a tigela de Fênix estava vazia. A poltrona também.

    Acordei tarde, garganta seca, coração acelerado. Maritza e o furgão haviam desaparecido. Samanta perguntou pela gata.

    — Deve ter fugido — murmurei, tentando soar natural.

    Na tarde seguinte, Maritza retornou. Entrou silenciosa, depositou um pano preto sobre o banco traseiro do furgão e subiu para dentro da casa. Nada mais.

    Nenhum gesto, nenhum comentário. Apenas o pano imóvel, sem volume, como se fosse uma sombra esquecida.

    À noite, sozinho na sala, senti o ar pesado, o cheiro salgado misturado com algo metálico que não consegui identificar. Meus olhos se fixaram na poltrona vazia, e por um instante jurei ver dois olhos verdes me fitando. O olhar era intenso, perfurante, penetrando minha consciência como se me acusasse.

    Pisquei. A poltrona estava vazia. Mas a sensação permaneceu, tão viva que o som do vento e do mar se misturava a cada batida do meu coração. Como se Fênix, de algum modo, ainda estivesse lá.

  • Desconfio que nasci pata. Pata pateta?

    Sabe aquela pessoa especialista em uma atividade, focada, perseverante, que se destaca pela alta performance? Não estou falando de quem nasceu com um dom divino — porque aí seria fácil dizer: se não foi abençoado, desista. Falo do ser comum que escolhe um caminho e segue nele, dia após dia, sem desvio. Pois é… essa não sou eu. Pelo contrário.

    Sempre tive necessidade de pular de galho em galho: cada hora um foco, um novo desafio, sempre para explorar algo diferente em mim. Da taquigrafia à flauta doce, da escrita literária ao pudim de leite sem furinhos — tudo me capturava a atenção, mas nunca a dedicação. No meu pula-pula, abri tanto o leque e o passo da dança que nunca fui virtuose em nada, a bem da verdade.

    E aí vem aquela pergunta que arrepia: qual é a sua especialidade?

    Para esse tipo de angústia, só mesmo consultando os universitários — no caso, uma psicóloga. Ela me perguntou — Já pensou em escolher um animal que a represente?

    Respondi sem hesitar: — Sim, sempre imaginei um pássaro. Um sabiá, talvez… ou um beija-flor, voando em busca de novos rumos.

    E qual não foi a minha surpresa quando ela disse: — Que tal um pato?

    Pato? Só me faltava essa! Lembrei logo do Pato Pateta da música do Toquinho, já sentindo meu bico crescer e amarelar. Antes de soltar um “quá, quá”, resolvi esperar o diagnóstico.

    — Veja — explicou ela —, o pato é a única ave que anda, nada e voa. Faz de tudo um pouco. Não com perfeição, mas com competência. É isso que chamamos de “multipotencialidade”.

    Aos poucos a ficha caiu: o pato pode até parecer desengonçado na terra, mas na água desliza com elegância, e no céu encara o vento com coragem. Não precisa ser o rei de nada para ser bom em muita coisa.

    Respirei fundo. Ufa, redimida! Sou uma multipata.

  • O retratista fiel

    Folhear álbuns de fotografias antigas — em papel ou digitais — tem me causado um certo estranhamento, uma sensação de que os ambientes, as pessoas, as fisionomias não eram bem assim como estão retratadas.

    Na foto do meu aniversário de 15 anos, o vestido que, à época, me fez sentir uma princesa hoje mais parece um tule de cobrir bolo. Difícil acreditar que fui eu mesma quem escolheu aquela roupa, que em nada me valorizava.

    Na varanda da casa onde morei com meus filhos pequenos — e que, aos meus olhos, parecia abrigar a família inteira —, a foto mostra um espaço em que mal cabiam quatro cadeiras. E nada tinham a ver com os móveis charmosos de jardim que eu havia comprado.

    Meu bolo de aniversário com cobertura de chocolate, que à luz das velas me pareceu brilhante e festivo, aparece seco, simples demais para a importância daquela comemoração.

    No começo, pensei que a culpa fosse das fotos: iluminação ruim, ângulo errado, talvez o dia nublado tivesse apagado as cores. Mas, aos poucos, percebi que não eram elas que me traíam — era minha memória, minha lente afetiva, que guardou lembranças muito além dos flagrantes de uma máquina, seja ela qual for.

    Minha memória registrou o que foi captado pelos sentidos: o olhar de admiração que me fez feliz naquele vestido, o som das risadas gostosas que ampliaram a varanda, o gosto de chocolate do beijo depois do bolo que iluminou minha boca.

    Sabem de uma coisa? Aprendi que é melhor confiar no que ficou registrado em mim: a memória é o mais generoso dos retratistas.

  • O diário secreto de Miss Marple

    O ritual da noite era sempre o mesmo: minha irmã fechava as portas do armário, apagava a luz e decretava silêncio. Só então eu podia, sorrateiramente, pegar o meu livro, lápis, um caderninho e me esgueirar para o meu refúgio de leitura noturna – o banheiro– nada confortável, convenhamos, mas privativo, o que considerava um privilégio.

    O livro escolhido era adequado a essa leitura furtiva – algum título da coleção de Agatha Christie que minha mãe guardava na biblioteca. O Assassinato do Expresso Oriente, Morte no Nilo, Appointment With Death, Poirot Perde uma Cliente…. lia avidamente todas essas histórias que envolviam mistérios, crimes, e finais surpreendentes. Me encantava com Poirot, o investigador astuto e bigodudo e Miss Marple, uma velhinha a quem não se dava o menor crédito como investigadora, mas era brilhante ao tecer a linha de raciocínio dos assassinos e chegar ao desfecho do crime.

    Na minha mente infanto-juvenil me imaginava parte da trama, escondida atrás de uma cortina a observar uma atitude suspeita, aflita para poder trocar ideias com Poirot sobre as minhas hipóteses. No silêncio espesso da madrugada pensava: E se fosse ali, na minha banheira amarela, que encontrassem o próximo corpo? Isso me fazia esquecer completamente a pouca luz do ambiente, a dor nas costas de ficar sentada no chão e o silêncio da casa que, muitas vezes, me fazia imaginar que alguém abriria a porta e eu é que seria a próxima vítima.

    Aquelas anotações noturnas foram meu primeiro ensaio de investigação – mas não de crimes, e sim de mim mesma. Naquele pequeno banheiro de ladrilhos amarelos, cercada de meus companheiros da noite, eu tinha voz própria, acolhimento e o respeito que me faltava pela singularidade de menina fora da roda.

    Minha leitura era intercalada por momentos em que registrava no caderninho reflexões sobre a vida fora da fantasia, as descobertas reais sobre mim e sobre os outros participantes do duelo entre a inocência da infância e a impiedade da adolescência… enigmas que nem Miss Marple, com sua clarividência própria de uma mulher, conseguiria decifrar.

    Esse diário foi a porta de entrada para, muitas décadas mais tarde, me aventurar pela escrita criativa, refugiada em um outro espaço ladrilhado que foi o isolamento durante a Pandemia.

    Fui buscar lá no fundo minha veia investigativa para me dedicar aos contos de ficção, deixando sempre uma porta aberta no final dos textos para que o leitor pudesse fazer a suas próprias descobertas. Não é por menos que o meu primeiro livro de contos, se chama “Conto ou não conto”. Tenho certeza de que Miss Marple gostaria desse título.

  • Os Jardins de Áurea

    O ambiente cheirava a alfazema, misturada ao odor morno da roupa de cama recém-trocada, que aguardava no cesto para ser levada à lavanderia. Do lado de fora, um beija-flor pairava diante da janela, como se buscasse algo que havia perdido.

    Áurea já estava pronta para receber as visitas da tarde. Vestia o traje estampado mais elegante do guarda-roupas, embora não fosse aquele que desejava usar. Sentiu as mãos ágeis de alguém prendendo seu cabelo com um elástico no alto da cabeça. Indefesa, agradeceu em silêncio por não haver espelhos ali. No escuro das lembranças, preferiu se ver de pretinho básico, desfilando pelos corredores como Audrey Hepburn, com ares de Bonequinha de Luxo. Quis afastar a lágrima que ameaçava escorrer em direção ao pescoço, mas era impossível. Conformada, fechou os olhos e abriu a fechadura do seu jardim das maravilhas.

    Nesse instante, Carlota entrou, com seu inseparável relógio pendurado no pescoço. Nas mãos, um copo d’água e a sequência de comprimidos amargos do horário. Seu andar era firme, mas automático, como quem já não pensa no caminho. Áurea, com o olhar perdido, viu nas pupilas enevoadas surgir a figura do Coelho Branco, gentil e solícito, oferecendo-lhe os copinhos. A cada gole, o sabor de torta de cerejas, de caramelo, de creme de leite, de torradas amanteigadas. Um fio do líquido escapou pela boca trêmula, aparado de imediato pelas luvas do coelho.

    Tudo pronto. Áurea foi conduzida ao salão, onde balões vermelhos pendiam do teto e cadeiras estavam alinhadas rente às paredes. Aos poucos, vultos silenciosos, de fisionomia pálida e olhar vazio, ocuparam os lugares. Imobilizada em sua poltrona de honra, ela passeou os olhos pela plateia, em busca de algum sinal familiar. Nenhum lampejo. Apenas rostos indecifráveis, sombras de um tempo esmaecido.

    O chá começou a ser servido, cada residente com sua porção, cada qual em seu canto, resignado. Quem a auxiliava era um rapaz magro, de longos cabelos encaracolados presos sob um boné. Seus dentes brancos, manchados aqui e ali, lembravam um teclado de piano desafinado. O olhar impaciente queimava mais do que o chá pelando que descia pela garganta. Ele precisava que Áurea terminasse logo, para atender o próximo da fila. Meio adormecida pelo calor da bebida, ela se viu diante do Chapeleiro Maluco, seu relógio pendurado na lapela, repetindo que o tempo não gosta de ser marcado.

    Então, voltou os olhos para os balões vermelhos, que oscilavam sob a brisa do ar-condicionado. Hipnotizada por seu movimento pendular, começou a rodopiar pelos salões de baile da memória. O tempo brincava com retratos amarelados: ela adolescente, a filha se casando, ela no colo dos pais, as brincadeiras com os netos. Tempos em que a vida resplandecia, de fora para dentro.

    Mas veio o tempo em que, num estalar de ponteiros, a ordem da Rainha foi dada: “Cortem-lhe a cabeça!” E então, nenhum movimento restou — só as pupilas escuras, insondáveis, opacas. Era sua chave para o túnel que a levava ao jardim dos sonhos. Lá onde tudo é luz, onde tudo se reveste de cores, perfumes e sabores.

    De volta ao quarto, Áurea foi colocada em sua cadeira, diante da janela. O entardecer deixava entrar os últimos raios de sol de outono, refletindo em seus olhos imóveis. Sentiu-se diminuindo de tamanho, como Alice após a poção mágica, até que se viu fora de si, pairando no ar. Seguiu então o beija-flor que ainda batia no vidro à sua procura — leve, invisível, em paz.

  • Bandeira branca

    Chega um momento na vida em que é melhor hastear a bandeira branca e desistir de certas lutas. Insistir em batalhas perdidas só serve para agigantar o inimigo que vive dentro de nós.

    É tempo de revisitar as bases que um dia abandonamos por medo ou fraqueza — e reconhecer que, mesmo tendo hoje mais forças, tentar retomá-las só nos faria ver que talvez nunca tenham sido, de fato, nossas.

    É preciso aceitar as baixas no exército de projeções otimistas e evitar justificá-las com o imensurável ou o imprevisível. Fazer isso seria apenas colocar novas imprudências na linha de frente.

    Não adianta escavar valas profundas onde deixamos projetos de vida natimortos, à procura de uma cura milagrosa. Estaríamos apenas tentando prolongar a sobrevida de ideias que talvez só façam sentido em outro tempo, em outro corpo.

    Abrir as campas dos amores decompostos? Pura ilusão. Mesmo que ali estivessem intactos, seriam apenas mortalhas ocas, refletindo — como espelhos — o amor que um dia foi.

    Batalhas perdidas. Depois de muitas vidas vividas, chega uma hora em que é preciso fazer as pazes com elas. Para seguir mais leve, com mais espaço dentro da alma.

    Para mim, essa hora chegou. Bandeira branca hasteada.

  • A Praça das Agulhas Silenciosas

    1. O Observador
    Da sacada do sobrado em frente à praça, meu posto de observação favorito, assisto aos rituais diários que ali se repetem com precisão quase matemática. Entre fornadas de tortas para entrega — meu trabalho enfadonho —, distraio-me inventando histórias para os visitantes anônimos do lugar. Mas nada me preparou para o enredo que estava prestes a se desenrolar diante dos meus olhos. Victor é o primeiro a chegar. Meia-idade, roupas gastas, semblante sempre apreensivo. Um jornal debaixo do braço, que parece carregar com a mesma seriedade de quem segura um relatório confidencial. Senta-se sempre no mesmo banco, como se tivesse reservado pelo celular. Começa pela seção de classificados. Circula alguns anúncios com caneta vermelha, outros em amarelo. Quinze minutos depois, vai embora, deixando o jornal ali, aparentemente sem qualquer apego.

    2. A Professora de Bordado
    Às nove em ponto, ela chega. Meia-idade também, luto visível na roupa preta e no rosto sereno. Duas alianças no dedo anelar denunciam o passado de esposa e o presente de viúva. Para mim, é Natália. Carrega uma bolsa com material de artesanato, um guarda-chuva e um chapéu. Vai até a mesa de concreto com bancos ao redor e começa a preparar sua aula. Panos, linhas, rendinhas, caderno de anotações. Tudo meticulosamente organizado.

    As alunas vêm uma a uma. Jovens, graciosas, mas com um certo ar de urgência — talvez econômica. Cada uma permanece por cerca de quinze minutos, borda alguns pontos nas amostras e vai embora levando um pequeno embrulho feito com o jornal que Victor deixara.

    O detalhe não me escapou: sempre o mesmo jornal, sempre aquele deixado no banco. E as garotas? Nunca trazem os trabalhos prontos na semana seguinte.

    3. O Homem de Terno
    Assim que a última aluna parte, chega um senhor elegante, de terno escuro. Vai direto ao banco ao lado da mesa de Natália. Não se cumprimentam, não trocam palavras. Mas os olhares? Dizem tudo. Há familiaridade ali. Talvez romance, talvez conspiração. Dei-lhe o nome de Vladimir.

    Ele fuma devagar. Ao final, joga o maço vazio no chão — um gesto grosseiro, mas que Natália sempre corrige. Antes de partir, ela recolhe o maço, junto aos restos de linhas e panos, e o descarta na lixeira. Quase um ritual. Quase um código.

    4. A Teia Invisível
    Enquanto sovo massas de torta e sonho com meu futuro restaurante nas montanhas — o Samantha’s Bistrô, cozinha autoral especializada em caças e aves —, passo a enxergar o trio com outros olhos. E se Victor, Natália e Vladimir estivessem ligados?

    Foi quando a faísca acendeu. Victor circula anúncios para codificar mensagens. Deixa o jornal no banco. Natália recolhe, embrulha material com ele, e as alunas — agentes disfarçadas? — levam o conteúdo para fora da praça. Vladimir entrega o próximo comando no maço de cigarros, discretamente depositado e discretamente recolhido.

    5. A Confirmação
    Minha mente fervilha com a descoberta. Estaria eu presenciando a ação de uma rede de espionagem? Uma célula operando à luz do dia, debaixo do nariz de toda a cidade?

    No dia seguinte, corro à banca antes de Victor chegar. Compro o mesmo jornal que ele costuma usar. Comparo. Estudo. Tento decifrar. Então, horas depois, como uma bofetada do destino, a verdade vem no título do jornal do dia:

    JORNAL O GLOBO
    PRESA EM SÃO PAULO NATÁLIA BUTINA, A VIÚVA NEGRA
    Treinada pela Sala Vermelha, organização com laços com a antiga KGB, recrutava jovens para atuar como espiãs e assassinas.

    Fico paralisada. Natália. A mesma. A mulher que ensinava bordado na praça, que sorria às suas alunas. Que recolhia lixo como quem cuida do planeta.

    E Victor? E Vladimir?
    O jornal não diz. Mas eu sei. Eu vi. A praça nunca foi tão silenciosa. Nem tão
    perigosa.

    Fim.

  • Missão Pascal

    .

    Conto baseado na poesia de Gabriela Mistral, Prêmio Nobel de Literatura 1945.

    Pascal foi incumbido de escolher a imagem de Cristo que iria ser utilizada na pregação da Sexta-Feira Santa. 

    Saiu à procura daquela que fosse capaz de comover a consciência dos fiéis, nesses tempos tão sombrios de conflitos, intolerância, violência e genocídios. 

    Buscava algo que transmitisse o sofrimento do Criador, não por sua condição de torturado no alto de uma cruz, mas sim pelo reflexo de sua dor naqueles que padecem no mundo dos vivos.

    Queria uma imagem que iluminasse o coração e o cérebro dos que a ela elevassem os olhos, e fosse capaz de acender uma centelha de reflexão, primeiro passo para a expiação das culpas de um rebanho desgovernado.

    Percorreu céus e terras analisando representações de Jesus talhadas em madeira, mármore, granito, mas, apesar de sua beleza, nenhuma delas conseguia transmitir o sofrimento terreno que achava importante representar nesta sexta-feira.

    Sentou-se para descansar em um banco de praça, e logo se deparou com uma cena cada vez mais comum na cidade. Uma família, abrigada na cobertura da marquise ao lado. Voltou-se para a mulher que embalava a criança e o observava com um meio sorriso. O que buscas? — Perguntou a desconhecida.

    — Estou à procura de uma imagem de Cristo para a pregação da Sexta-feira Santa. Uma que represente todo o sofrimento do Criador ao ver que sua palavra não tem conseguido refrear as injustiças, a violência e a falta de solidariedade de seus seguidores — respondeu Pascoal.

    — Se queres retratar o sofrimento, não procures nas estátuas, nos altares e templos. Vá buscar essa imagem nas ruas, entre as pessoas sem teto, onde há gente morrendo, crianças famintas, mulheres vítimas do abuso. Você vai encontra-la entre os pobres, uma imagem de carne e osso. 

    Pascal fechou os olhos por um instante para refletir sobre a revelação. Quando os abriu novamente, a mulher e a criança tinham desaparecido, como por encanto.

  • Direto ao ponto

    Falta de objetividade é uma característica, no mínimo, enervante! Ela se manifesta de várias formas, em diferentes situações, e não é típica do avanço da idade, muito menos da falta de capacidade intelectual. Como diriam os advogados em suas argumentações, senão vejamos:

    Às vezes ela é um subterfúgio do interlocutor que não entendeu a pergunta ou o assunto a ser tratado, então responde com evasivas para ganhar tempo. O mais comum é a pessoa simplesmente olhar para você e repassar a sua pergunta, do tipo:

    P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar?

    R: O que achei da trama desse filme que ganhou o Oscar?

    Em outros casos, é pelo simples gosto que algumas pessoas têm de compartilhar sua excelente memória, fugindo totalmente ao tema para contar um caso que vem de Adão e Eva.

    P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar?

    R: Bem… ele me fez lembrar de uma tia minha, sabe, tia Cotinha? Então, ela tinha uma funcionária que fazia uns bolinhos de chuva deliciosos. Eram de comer rezando! Ao final da tarde, quando meus primos estavam nos visitando e era comum isso acontecer, pois moravam perto de casa, sentávamo-nos para assistir a um filme na sala de televisão, e esperar pelos bolinhos que vinham quentinhos, polvilhados de açúcar. Então, posso te dizer que refleti bastante sobre essa trama, infelizmente sem os bolinhos de chuva, e blá, blá, blá…

    E ainda existem aquelas criaturas que não aprenderam a sintetizar uma ideia, dão a resposta correta, porém utilizando mil e quinhentas palavras quando o esperado era um sim ou não.

    P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar? Gostou?

    R: Veja bem… (se começar assim, pode se sentar e esperar, pois a explicação será longa). Em se tratando da ambientação, acredito que reproduziu fielmente a época, pois reparei que o jardim da casa tinha variedades de plantas não comuns ao paisagismo contemporâneo. Isso sem falar na escada de madeira bastante íngreme que subia para o segundo piso e fazia uma curva acentuada, típica das residências antigas. Agora, em relação à trama, considerando o contexto em que se desenrola, eu gostei bastante, porque blá, blá, blá…

    Sou vítima várias vezes dessas três modalidades e vocês?

  • Ilusões

    Surgem como uma pulsada, naquela subida de sangue que invade o cérebro, insufla as veias, tonteia, bambeia as pernas.

    Se fazem presentes no sonho desperto, no pensamento à toa, na dispersão do foco. Se estabelecem, prosperam.

    Na quentura do coração, fermentam. Levain que cresce a cada dia. Da própria farinha imaginária se alimentam. Regadas por nossos sonhos se multiplicam, se agigantam.

    Atingem seu auge, ocupam os vazios, preenchem, inebriam. Esplendor colorido de uma bola de chiclé sabor tutti-frutti.

    Pingue-pongue! A costura da vida alfineta, impiedosa. A esfera estala, murcha. Lá se vão as quimeras com que inflamos nosso balão de ilusões.

    Resta só uma goma indigesta que gruda na nossa cara, perplexa.

  • Nós que aqui estamos…

    Está se aproximando o Halloween e, com ele, o momento de brincar com algo que nos assusta. Mesmo que não se leve nada a sério, entrar na brincadeira, se fantasiar, é ter contato com figuras fantasmagóricas, com o objetivo de causar medo. Assumir a identidade dessas criaturas é uma forma lúdica de extravasar a face maligna que, de certa forma, está presente em todos nós. Aquele território obscuro do mal que nos habita.

    Me chama a atenção que as representações figurativas do mal venham, na maioria das vezes, associadas à morte. Talvez porque, na cultura ocidental, consideramos morrer algo negativo, a passagem para o indefinido. Seja para os que acreditam que não há nenhum outro plano de existência depois da morte, seja para as pessoas com alto grau de crença na vida eterna, ou mesmo entre os que acreditam na reencarnação, não há certeza do que nos espera do outro lado.

    Não por menos, o Dia das Bruxas antecede o Dia dos Mortos, como se a brincadeira de se vestir de alma penada por um dia fosse uma forma de se preparar para encarar a passagem para o outro lado, no dia seguinte.

    Nessa sequência comemorativa do final de outubro, o Dia dos Mortos é reverenciado com visitas aos cemitérios, e outros rituais. As pessoas reagem de diferentes formas à perspectiva da morte: algumas a encaram de uma maneira suave e natural; outras se apavoram, não podem nem ouvir falar nessa palavra; e há aquelas que cultuam esse momento, seja de pessoas próximas ou mesmo desconhecidas e, como carpideiras, aproveitam para liberar lágrimas de outras emoções reprimidas.

    Sem entrar no mérito de qual seria a melhor maneira de lidar com a passagem para a morada eterna, creio que qualquer pessoa evita pensar em quão próxima ela está.  Por isso mesmo, ao ler esse “convite” colocado no portal de um cemitério, dei uma risada, confesso, um pouco nervosa.

    Nós que aqui estamos, por vós esperamos.


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