Aniversário

  • 10 para 14

    Se você é um dos seis leitores que caridosamente escolhem ler o que eu escrevo às sextas-feiras aqui nesse nobre espaço saiba que, hoje, 27 de fevereiro de 2026, faltam 10 para 14.

    10 dias para minhas filhas completarem 14 anos. (Suspiro, sorrio e continuo.)

    14 anos… Que aventura!

    Pintam os cabelos. Pintam as unhas. Pintam os olhos. Pintam o caneco. Mas não quebram a louça.

    Se vestem de preto. Usam coturno. Amam blusinhas. E adoram chaveiros de K-pop.

    Se xingam. Se amam. Se riem. Se conversam. Se encantam. Se fofocam. Se protegem.

    Andam de mãos dadas na rua.

    Olham cada uma para um lado. Mas atravessam na faixa.

    Sonham acordadas. Voam pela Liberdade. Se enroscam nos meandros da galeria Sogo.

    Conhecem tudo como a palma das mãos.

    São curiosas. São entediadas. São impacientes. São presentes. Mesmo de fone de ouvido.

    Questionam. Respondem. Afirmam. Teorizam. Reafirmam. Defendem. Atacam.

    Concluem.

    Sempre tem razão mas amam saber mais.

    Têm certeza que são, que estão e que serão.

    E nisso tudo eu, o espectador privilegiado, sorrio e aperto os olhos espremendo uma lágrima pequena em nome da mais pura contemplação.

  • Festa ao Entardecer

    Daqui a poucos dias faço aniversário… O que vou pedir de presente? Alguma lembrancinha, mais para atender aos filhos e netos que me olham atentamente, tentando adivinhar meus sentimentos, ou meu estado de espírito, nesse dia que me leva cada vez mais ao entardecer da vida.

    Eu os conheço bem: cada um, à sua maneira, vai me sondar, tentar “me ler” nas entrelinhas.

    Não os condeno, pois por longos anos também passei pelo estranho papel de me sentir mãe, em vez de filha.

    Sendo assim, sei bem dos subterfúgios, das desculpas e disfarces para não preocupar os nossos.

    Minha mãe, aos 93 anos, ainda pedia vestido novo para ir às consultas médicas.

    Não saía sem passar o seu batonzinho rosa e não perdia nenhum evento familiar: aniversários, batizados, colações de grau. 

    Tanto podia ser do jardim de infância ou de graduação das suas três dezenas de netos. Ah, festejou também nascimentos e batizados de bisnetos e até uma tataraneta! 

    Eu penso que ela de fato tinha o espírito festeiro do povo latino. 

    Tenho a descendência e as lembranças do convívio  e costumes da minha grande família de origem. Festas, rezas, procissões… sentimentos externados… eu diria até exagerados. Bonitos e barulhentos, que acalentam as minhas memórias afetivas.

    O problema está nessa minha predileção em conversar com os meus pensamentos.

    Sinto que, nesta fase da vida, a calmaria tomou o trono, a paciência encontrou o seu espaço, os hormônios impetuosos se aplacaram, e tudo o que antes demandava tempo e urgência passou a ter a placidez que pode ser resumida com apenas uma expressão: E daí?

    E daí?

    Daí que, apesar de gostar da minha solitude, vou passar o meu aniversário com filhos e netos, sorrindo feliz com as demonstrações de carinho, festejando a vida.

    Tenho a convicção de que fui e sou importante na dinâmica familiar. Meus filhos e netos me reverenciam e agem de forma a me fazer crer na grandeza dos inúmeros papéis que desempenhei, mesmo quando eu mesma ainda estava perdida na ignorância e falta de prática. 

    Sendo assim, pegando carona no amor e carinho amealhado em meus anos de vida, vou me alegrar com a alegria deles.

    Afinal, viver é uma dádiva, em todas as fases, em várias nuances. Buscar e distribuir sorrisos, amar e ser amado, ser a presença amiga na caminhada e no repouso. 

    Aqui onde minha alma encontrou abrigo e serenidade, vou festejar com alegria e emoção dizendo: 

    Feliz aniversário para mim!

  • Papilas gustativas do viver 

    Na última semana, por ocasião do aniversário de uma grande amiga, me deparei com o desafio de escrever um cartão de felicitação. Não me servia aquele que já vem com a mensagem pronta e só precisamos assinar. Tampouco queria escrever apenas: Parabéns! Saúde e Paz.

    Muito embora essas palavras, por si só, já representem as joias raras da sorte, queria desejar algo a mais. É certo que dependemos da saúde para realizarmos qualquer feito e da paz para desfrutarmos de qualquer situação, mas há que se ter outros requisitos para a magia do sorriso solar acontecer.

    Visando garantir a minha amiga o melhor dos mundos, achei de bom tom incluir a coragem. A vida depende desse impulso, dessa força propulsora que quebra a potência destruidora do medo de errar e de ser quem se é.

    Caprichei na letra e nas palavras para que a mensagem carregasse em si o poder magnético do afeto, da amizade e do pensamento positivo.

    Já estava pronta para assinar quando algo me inquietou por dentro. Tudo estava dito, o novo ciclo seria perfeito, repleto de bons acontecimentos, sonhos e conquistas. Mas, nesses termos, pareceu inverossímil o meu voto de felicidade.

    Necessitava alertar minha amiga de que essa expectativa de sucesso e vitórias infindas era uma arrumação ilusória de belas palavras. Decidi avisar sobre a possibilidade de momentos difíceis, porque a vida é real e um pouquinho injusta, mas para isso temos a esperança, agasalho dos dias frios de sofrimento.

    De imediato, achei indigesto falar de tristeza, decepção num cartão de aniversário… todavia, sem isso também não se experimenta as papilas gustativas do viver.

    Por fim, escrevi:

    “Amiga, que a vida lhe sorria muito, mas se lhe fizer chorar, não lhe falte garras para seguir em frente, lanhando a cara do infortúnio. Nos dias nublados, toque uma flor, abrace uma árvore. Jamais se esqueça: as nuvens carregadas trazem a chuva que rega a terra.”


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