azáfama

  • O tempo da praça

    Vários dos pedestres que percorrem aquela avenida, em meio ao tráfego acentuado e aos estabelecimentos comerciais, mal imaginam que, logo ali, há um espaço independente de toda essa atmosfera. Muito menos quem faz uso de automóveis; o vidro fechado isola o motorista, algo que ele próprio almeja, mas que obnubila sua relação com o mundo.

    Incrustrada nesse meio e em contraste com ele, tomando a forma de um enclave, encontra-se uma praça.

    Como uma ilha ou uma república autônoma, o funcionamento da praça é diferente do vivido no seu entorno. Neste, sobressai a azáfama, nenhum segundo pode ser perdido.

    Naquele, tranquilidade, remanso, reinando um sobretempo, no qual, as horas do relógio se prolongam desmedidamente ou nem sequer existem.

    A correria diária mingua as possibilidades de se dedicar um bom período a passear no recinto. Os horários, os compromissos, o ponto a bater, nada permite isso. Todavia, regular ou esporadicamente, diversas pessoas o visitam. Sujeitos que se fazem presentes no espaço e que fazem ele.

    Entre as personagens que compõem a paisagem diária do local – os que se exercitam no arco externo, mais sob efeito das buzinas do que dos cantos dos pássaros; os casais de jovens, a contrariar a opinião corrente de que não se namora mais em praça; os que recorrem à privacidade dos locais públicos, a fim de fugir da vigilância preconceituosa da sociedade e da casa –, a que mais me chama atenção é a do trabalhador que procura aquele lugar para aliviar o jugo do tempo que recai sobre seus ombros.

    Necessitando cortar caminho, alguns só atravessam o rossio. Porém, no seu interior, o tempo corre lento; assim, a marcha é desacelerada e a morosidade assume a direção. Por vezes, entre um trajeto e outro, até se deixam perder pelos caminhos e arvoredos, nem que seja por um átimo, até que a lembrança dos encargos ascenda subitamente.

    No horário do almoço ou após o expediente, aproveitam o curto período que possuem, sentam-se nos bancos da praça, permanecendo sem qualquer motivo ou ambição. Se há algum direito ao ócio na vida cotidiana daquelas pessoas, ele é exercido ali, durante o curto instante que possui ares de eternidade. Ficam apenas para estar, porque estando, são.

    O transcurso célere dos dias se encontra interditado naquela área. No trabalho e em casa, os ponteiros do relógio comandam a rotina. Naquela praça, não. Não existe hora, minuto ou segundo, somente um tempo suspenso, incapaz de ser medido. Desse modo, os “escravos martirizados do tempo” sentem afrouxar suas grilhetas por um instante, talvez, até sonhem em não mais as ter.

    Ao contrário do que afirmou o grande escritor Marques Rebelo, os pobres não ignoram as árvores e o “consolo que há no seu aconchego e na sua sombra.” Sabem estimar elas muito bem. Se não vão a sítios e a hotéis, onde os ricos passam os finais de semana, valem-se das praças nos breves ínterins disponíveis.

    As plantas, os pássaros, o silêncio, a sensação de quietude presente no local e internalizada em quem está nele, tudo parece contrastar com o ambiente externo e com a própria vida. Possivelmente, a atração por esse tipo de lugar se origine justamente disso, residindo na possibilidade de se embriagar por um momento e “não sentir o fardo terrível do tempo.”

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar