beija-flor

  • 6ª Escola a Desfilar: G.R.E.S. Beija-Flor de Nilópolis – Bembé

    “Deixa girar, que a rua virou Bembé/ Deixa girar que a rua virou Bembé”. Começo a escrever esse texto escutando a versão cantada pelo lendário Neguinho da Beija-Flor. Será que o primeiro ano sem ele vai gerar saudades? Pergunta retórica, não é? Fato é que seus substitutos também parecem estar em total condição de levar o bonito samba da escola na avenida. Agora, vocês sabem o que é o Bembé de Mercado?

    De acordo com o próprio enredo trata-se do “maior candomblé do mundo-nascido da transgressão de João de Obá, mantido na resistência do Pai Tidu, acalentado na doçura de Mãe Lidia, insistido na inquietude de Pai Pote e preservado na firmeza de sua Iyá Egbé e de seus detentores.”

    Acho importante citar todas essas figuras. Também o é falar um pouco sobre a história dessa festa que nasceu em Santo Amaro, no ano de 1889, por meio da ocupação de João de Obá para realizar uma grande festa de candomblé que durou três dias. Desde então, todo 13 de maio, a festa se repete no Largo do Xeréu e reúne quase uma centena de casas dedicadas a essa religião.

    É essa festa carregada de representatividade e de poder ancestral que a Beija-Flor pretende reproduzir na Sapucai. Quando falo em reprodução, o faço em sentido literal. Isso porque, tanto o samba-enredo quanto o enredo indicam que a escola pretende fazer um grande Xirê na avenida.

    Conseguem imaginar a força que esse desfile promete trazer para a avenida? A Beija-Flor, atual campeã do carnaval carioca, vem forte com um desfile que parece prometer colocá-la como forte candidata ao bicampeonato. Como um amante do carnaval posso dizer que esse enredo causou grande impacto e
    uma promessa de muitos arrepios ao longo do desfile. As forças ancestrais agradecem a escola por trazer ao conhecimento do Brasil que não conhecia uma festa tão cercada de representatividade e brasilidade.

  • Os Jardins de Áurea

    O ambiente cheirava a alfazema, misturada ao odor morno da roupa de cama recém-trocada, que aguardava no cesto para ser levada à lavanderia. Do lado de fora, um beija-flor pairava diante da janela, como se buscasse algo que havia perdido.

    Áurea já estava pronta para receber as visitas da tarde. Vestia o traje estampado mais elegante do guarda-roupas, embora não fosse aquele que desejava usar. Sentiu as mãos ágeis de alguém prendendo seu cabelo com um elástico no alto da cabeça. Indefesa, agradeceu em silêncio por não haver espelhos ali. No escuro das lembranças, preferiu se ver de pretinho básico, desfilando pelos corredores como Audrey Hepburn, com ares de Bonequinha de Luxo. Quis afastar a lágrima que ameaçava escorrer em direção ao pescoço, mas era impossível. Conformada, fechou os olhos e abriu a fechadura do seu jardim das maravilhas.

    Nesse instante, Carlota entrou, com seu inseparável relógio pendurado no pescoço. Nas mãos, um copo d’água e a sequência de comprimidos amargos do horário. Seu andar era firme, mas automático, como quem já não pensa no caminho. Áurea, com o olhar perdido, viu nas pupilas enevoadas surgir a figura do Coelho Branco, gentil e solícito, oferecendo-lhe os copinhos. A cada gole, o sabor de torta de cerejas, de caramelo, de creme de leite, de torradas amanteigadas. Um fio do líquido escapou pela boca trêmula, aparado de imediato pelas luvas do coelho.

    Tudo pronto. Áurea foi conduzida ao salão, onde balões vermelhos pendiam do teto e cadeiras estavam alinhadas rente às paredes. Aos poucos, vultos silenciosos, de fisionomia pálida e olhar vazio, ocuparam os lugares. Imobilizada em sua poltrona de honra, ela passeou os olhos pela plateia, em busca de algum sinal familiar. Nenhum lampejo. Apenas rostos indecifráveis, sombras de um tempo esmaecido.

    O chá começou a ser servido, cada residente com sua porção, cada qual em seu canto, resignado. Quem a auxiliava era um rapaz magro, de longos cabelos encaracolados presos sob um boné. Seus dentes brancos, manchados aqui e ali, lembravam um teclado de piano desafinado. O olhar impaciente queimava mais do que o chá pelando que descia pela garganta. Ele precisava que Áurea terminasse logo, para atender o próximo da fila. Meio adormecida pelo calor da bebida, ela se viu diante do Chapeleiro Maluco, seu relógio pendurado na lapela, repetindo que o tempo não gosta de ser marcado.

    Então, voltou os olhos para os balões vermelhos, que oscilavam sob a brisa do ar-condicionado. Hipnotizada por seu movimento pendular, começou a rodopiar pelos salões de baile da memória. O tempo brincava com retratos amarelados: ela adolescente, a filha se casando, ela no colo dos pais, as brincadeiras com os netos. Tempos em que a vida resplandecia, de fora para dentro.

    Mas veio o tempo em que, num estalar de ponteiros, a ordem da Rainha foi dada: “Cortem-lhe a cabeça!” E então, nenhum movimento restou — só as pupilas escuras, insondáveis, opacas. Era sua chave para o túnel que a levava ao jardim dos sonhos. Lá onde tudo é luz, onde tudo se reveste de cores, perfumes e sabores.

    De volta ao quarto, Áurea foi colocada em sua cadeira, diante da janela. O entardecer deixava entrar os últimos raios de sol de outono, refletindo em seus olhos imóveis. Sentiu-se diminuindo de tamanho, como Alice após a poção mágica, até que se viu fora de si, pairando no ar. Seguiu então o beija-flor que ainda batia no vidro à sua procura — leve, invisível, em paz.

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