BORNOUT

  • BORNOUT

    Nasci um nada. Fui criado para ser um nada. Desde pequeno, nunca soube que o dinheiro pode ser usado para o lazer. Aliás, qual o significado disso? Meus pais só trabalhavam e tudo era minimamente economizado para podermos pagar as parcelas de nossa casa em um condomínio classe média e do carro do ano, a grande paixão do meu genitor. Objetos nos quais ele empregava seu tempo livre e sua matéria.

    Enfim, fui criado para ser insignificante e decidi vencer esse destino.

    Logo aos dez anos de idade comecei a trabalhar vendendo doce na porta da escola. Era onde eu estudava? Não. Para sustentar seus desejos de aparência, meus pais sempre me matricularam em escolas públicas. Longe da minha casa, é claro. Ninguém tinha grana para comprar doce de criança. Então, eu não podia vender lá. Por isso, ia para um colégio de bacanas onde a playboyzada sempre comprava tudo. Nunca soube se era por pena ou só para se livrar rápido de mim. Foda-se, isso não importava, estava fazendo o meu dinheiro.

    Minha relação com a grana sempre foi de respeito. Ao mesmo tempo em que eu queria juntar cada vez mais, tinha medo de ficar deslumbrado e gastar tudo. Por isso, deixava ela lá, guardada, bem no cantinho dela. O único motivo justificável para mexer nas economias era para investir. Sempre buscava novas formas de aumentar minhas economias.

    Trabalhei durante toda a minha infância e adolescência, nunca tive tempo para brincadeira ou para perder tempo com inutilidades. O trabalho era meu único foco. Quando fiz dezoito anos, peguei o que tinha, comprei uma moto, aluguei uma quitinete e sai da casa dos sonhos. Nunca mais voltei a falar com meus pais, apesar de eles terem tentado muito. Eu não tinha raiva deles. O que não tinha era tempo.

    Passava os dias fazendo entregas em meu “amigo” de duas rodas, quase nunca ia para a casa. Quando raramente estava livre, ficava pensando em qual era a utilidade de pagar aquele lugar. Entretanto, logo caia na real. Ali, ao menos, poderia jogar meu corpo cansado quando precisasse. Não dá para morar em uma moto.

    Por esse motivo, meus anos como motoboy foram sempre objetivando comprar um carro. Não queria um modelo pra aparecer para ninguém. Queria um econômico que não quebrasse muito. Trabalhei como boy por cinco anos até tingir esse objetivo.

    Agora, eu precisava de mais, eu sempre quis mais. Meu objetivo era conseguir juntar o meu primeiro milhão. Dá para juntar isso sendo motorista de aplicativo? Impossível? Eu não conhecia essa palavra. Se alguma hora ela viesse em minha cabeça, eu ligava o celular, colocava um vídeo de motivação e assistia focado. Meu pouco tempo livre era unicamente dedicado a assistir um canal de um cara que saiu do nada e ficou rico. Ele ensinava os outros a fazerem o mesmo. Eu ouvia aquilo até cansar para ver se acontecia
    comigo.

    Comecei trabalhando dez horas, muito pouco. Passei para doze, dá pra aumentar. Quatorze, posso fazer um esforço. Dezesseis, foca no seu objetivo. Dezoito? Tá puxado, quase não pareço um ser humano, mas preciso aguentar.

    Certo dia, eu já estava completando umas dezesseis horas de trabalho, meu corpo pedia arrego, mas minha mente me chicoteava pedindo pra aguentar mais. Faltavam “só” duas horinhas. No meio dessa briga, eu apaguei. Quando fui acordar, estava em cima de uma cama de um hospital. Quando acordei, meus pais logo se aproximaram. Olhavam com uma puta cara de tristeza de merda. Eu fiquei puto, falei “o que ta acontecendo“. Minha mãe apenas falou “Filho, sinto muito, você perdeu todos os movimentos da cabeça para baixo“.

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