Caetano Veloso

  • O silêncio dos culpados

    “Cauby cantando “camarim”, Orlando “faixa de cetim”, Milton, “o que será” e Dalva, “poeira do chão”. Melhor do que isso, só mesmo o silêncio. E melhor do que o silêncio, só João” (Caetano Veloso, “Prá Ninguém”)

    O sol exausto salpica seus derradeiros, débeis e sonolentos sinais de despedida, aquecendo com leveza minha pele e abrindo delicadamente seus poros para o que o universo possa com ela se conectar.

    De olhos fechados, sentado no banco da praça, posição de lótus, tento buscar um lugar longínquo para repousar a felicidade fugaz que inesperadamente em mim aportou. Concentrado, procuro invocar o lago azul extraído de uma tela de Monet ou de alguma clareira interior. Tento resgatar sons primitivos perdidos pela civilização que apôs sua marca sonora industrial estridente em nosso cotidiano. Talvez num plano mais profundo, possa recuperar sons angélicos de harpas celestiais.

    Abruptamente, um clamor brada arrebatador: “Olha aí, freguesia, pamonhas fresquinhas, pamonhas caseiras. Pamonhas! Pamonhas! Pamonhas!”

    Palavras que traduzem o martírio anunciado por megafones, alto falantes e toneladas de decibéis que crescem na velocidade da tecnologia eletrônica de áudio, da estupidez amplificada e da ausência de normas.

    Ao lado, pessoas passam indiferentes como se lá não houvesse mais do que um mendigo escalpelado ou um cadáver em decomposição. Cúmplices, pamonhas, impotentes, surdos do barulho que desaba desagregador, paquidérmico.

    Sou sequestrado do meu interior protetor. Meus ouvidos tornaram-se reféns de curaus, morangos de Atibaia, ambulâncias, sirenes, bombeiros, britadeiras, bate-estacas, celulares, cachorros, aviões, rojões, raves. Todos concorrendo para adentrar pelo gargalo estreito da minha cavidade auricular, para atingir brutalmente a delicada membrana timpânica que, em silêncio, só implora uma nota dissonante de Satie.

    O gratuito espaço sonoro foi loteado. O silêncio original foi violentado por desordeiros, funkeiros e rappers tresloucados que, com seus alto falantes e sub woofers, requisitam o monopólio das ondas sonoras, embrutecendo nossa sensibilidade com a sua falta de, desconstruída silenciosamente em gerações de marginalização social. O pancadão dominou as periferias e à exclusão social seguiu-se a exclusão do sossego.

    O silêncio tornou-se um conceito idílico, abstrato, surreal, inalcançável na superfície deste esfacelado e estuprado planeta.

    A natureza, em sua sapiência, criara o fundo musical básico e delicado para nos acolher em seus domínios com ondas batendo, ventos sibilando, pingos gotejando, grilos trilando, pássaros gorjeando.

    A insatisfação e a arrogância do homem fizeram-no impor sua própria trilha sonora, amplificando os decibéis de sua insensatez até os píncaros da suportabilidade. Milênios de escabrosas práticas anticivilizatórias levaram-nos à mais absoluta barbárie estereofônica.

    A pureza sonora foi irremediavelmente vilipendiada por hordas de hunos, hackers, hitlers, hulks, hooligans e hardcores. Homens, enfim.

  • Matando o tempo

    “Tempo, tempo, tempo, tempo, és um dos deuses mais lindos”.
    (Caetano Veloso, Oração ao Tempo)

    Quando criança, eu observava fascinado as mutações do tempo. Não me refiro ao tempo como período dos acontecimentos, medido pelo relógio, mas como condição meteorológica. Enquadrava-se o tempo no rol dos enigmas além de nossa compreensão, assim como o infinito ou o mistério da vida. As alterações do tempo, imaginava eu, dependiam dos humores dos deuses, a quem cabia a incumbência de reger a dança dos ventos, o ribombar dos trovões e o movimento das nuvens. Determinavam as divindades se o tempo seria chuvoso, ensolarado, frio, quente. E nós, humildemente, acatávamos. Quando inspiradas, brindavam-nos elas com um deslumbrante arco-íris, que só podia mesmo ser obra celestial.

    O comportamento errático do tempo era intrigante.  Fazia calor em épocas em que a disposição do planeta levaria a crer que deveria fazer frio. Passavam-se, sabe-se lá por que cargas d’água, meses sem chover, reduzindo ameaçadoramente o nível das represas e colocando em xeque a presteza das torneiras de jorrar o precioso líquido o tempo todo e sob qualquer tempo. Nossa capacidade de interferir nos propósitos das nuvens que, teimosas, recusavam-se a colaborar, era nula. Para superar os contratempos do tempo, só mesmo rezando pela intercessão de São Pedro. Restava abastecer-nos com trajes e acessórios apropriados como capas, guarda-chuvas, botas, casacos, cobertores das mais variadas espessuras, para nos precaver dos desígnios do tempo.

    Apesar de tais oscilações, havia certa regularidade nas intermitências do tempo que nos trazia uma sensação de alívio. Na cidade de São Paulo, por exemplo, a umidade do ar nunca seria tão baixa quanto a do deserto do Saara e a temperatura jamais cairia a ponto de a água virar gelo. As tênues variações que vinham ocorrendo sequer nos fizeram perceber que, de repente, na “cidade da garoa” parou de garoar.

    Hoje, quando escuto falar em ‘mudanças climáticas’, sinto um arrepio na espinha. Como assim mudanças climáticas? Quer dizer que o tempo vai deixar de obedecer às determinações divinas conforme vinha ocorrendo desde os tempos de Adão e Eva? O que mais vai mudar? Não teremos mais primaveras e outonos? O céu vai também deixar de ser azul?  Os raios do sol deixarão de brilhar pelas manhãs?

    Quando os telejornais passaram a incluir, além de tediosos boletins meteorológicos diários, eventos climáticos catastróficos com temperaturas extremas nunca vistas, tufões devastadores, secas, incêndios e enchentes cada vez maiores, nossa reação era dar os ombros e dizer “o tempo ficou doido”, ajustando o ar condicionado para adequar artificialmente as condições climáticas dentro de casa. E assim íamos tocando a vida, sem nos preocupar quem era o responsável pelas anomalias do tempo ‘lá fora’.

    Não sei para você, caro leitor, mas para mim soa terrivelmente assustador que a interferência do homem no planeta tenha chegado a tal ponto que até o perene e ‘atemporal’ tempo está sendo afetado. Sim, pois o que está ocorrendo no clima não é fruto de praga divina, mas resultado de uma criminosa ação humana. Criminosa, sim. Pois o ato de agredir o meio-ambiente que abriga a vida no planeta deveria ser considerado tão delituoso quanto o de atentar contra o lar, onde residimos com nossa família.

    As condições para a formação da vida estão sendo alteradas obscenamente pelo homem e ninguém se importa. Nossa civilização doentia aceita com naturalidade a agressão impune à natureza. E os infratores são até exaltados por muitos como desbravadores e promotores do progresso.

    Sim, meu amigo, devo pesarosamente informar-lhe: o tempo está mudando. E isso não quer dizer que vai ficar nublado. Mas não se preocupe. A coisa vai ficar ainda pior. Há outras ‘mudancinhas’ em curso enquanto você lê esse texto. Os mares estão sendo infestados de plásticos, os rios envenenados por mercúrio, as florestas devastadas, o ar tornando-se irrespirável, as fontes de água potável estão rapidamente se esgotando e em poucos anos, a maior parte da população mundial não terá como saciar suas necessidades pelo líquido vital.

    O mundo tal qual estávamos acostumados não existe mais. E a maior parte da população está pouco se lixando. Ninguém abre mão sequer da conveniência do saquinho de plástico do supermercado, confiando que, como por milagre, o mesmo ‘progresso’ que gerou essa situação consiga salvar o tempo. A tempo.

    Resta perguntar a nossos filhos se eles concordam com o ‘admirável tempo novo’ que estamos lhes deixando.

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