Carlos Collet

  • Valeu, Mestre Ciça!

    João Pedro é um menino de 9 anos nascido na cidade de Niterói. Como todo garoto, costuma ocupar seu tempo fazendo coisas que outros de sua idade também fazem. Estuda, vai ao colégio, joga videogame, usa seu celular para ver o que acontece nas redes sociais e passar o tempo se distraindo com games.

    O menino sempre acompanhou a paixão de seus pais pela escola de samba de coração, a Viradouro. Os sambas da escola sempre fizeram parte dos churrascos de domingo com sua família. Durante a cerimônia familiar, o garoto sempre ficava se perguntando por qual motivo aqueles que o trouxeram ao mundo amavam tanto esse tipo de música que ele nunca conseguiu gostar.

    No ano de 2026, Pedro sentiu uma euforia além do normal em sua casa, ele via seu pai bradando pelos quatro cantos sua empolgação pelo enredo que homenagearia Mestre Ciça. Até então, o garoto não fazia a mínima ideia de quem se tratava. Resolveu, então, então perguntar a Roberto, seu genitor, que tentou explicar de todas as formas, mas, ainda assim. o garoto não conseguia compreender tamanha empolgação.

    Seu pai, então, resolveu fazer um convite, o chamou para assistir ao desfile da Unidos do Viradouro que aconteceria na madrugada do dia de segunda para terça. Cansado, após fazer muitas coisas ao longo do dia, João dormiu, mas foi acordado no horário por Silvia, sua mãe. Um pouco contrariado, foi ele assistir ao tão aguardado desfile.

    No início, pouco entendeu sobre o que estava acontecendo. No entanto, ao ver a comissão de frente que trazia um garoto com idade semelhante, ele começou a se interessar. Daquele menino, surgiu a figura homenageada içada ao ponto mais alto de um tripé da comissão de frente que parecia visivelmente emocionado ao ser saudado por todo o Brasil. Naquele instante, o garoto entendeu que algo diferente estava acontecendo e passou a assistir vidrado a tudo o que acontecia na avenida.

    Cada figura que aparecia, fazia o curioso Pedro perguntar aos pais de quem se tratava. Desse modo, o menino conseguiu entender o inexplicável. Percebeu que a mágica dos desfiles acontece dentro da avenida. Dali para frente, assim como seus pais, Pedro se tornaria mais um apaixonado pelo samba e quis assistir a todos os desfiles seguintes.

    Nesse texto, o menino João é apenas um nome fictício para representar as milhares de crianças que, assim como o garoto Ciça, se apaixonaram pelo carnaval e pelos desfiles das escolas de samba em algum momento da vida.

    Eu mesmo, sou um deles.

    O sambódromo é um local onde o inimaginável se materializa em forma de emoção e faz a mágica acontecer. Coisa que pouquíssimas experiências conseguem realizar de forma tão eficiente como ocorre no carnaval. Ciça, após a Viradouro ganhar o título, disse que esse não é um título próprio, mas um título que cada sambista e apaixonado pelo carnaval carrega junto com o mestre. Essa frase demonstra um espírito de solidariedade que raramente pode ser vislumbrado em uma sociedade capitalista como a que vivemos. Mais do que nunca, precisamos não só viver o carnaval das escolas de samba, precisamos ser o carnaval das escolas de samba.

    Que mais crianças como João Pedro possam entender a magia dessa festa e que o espírito do carnaval seja proliferado.

    Valeu Viradouro! Valeu Mestre Ciça! E. por último, um valeu especial a todos os sambistas antigos e os novos que ainda surgirão!

  • 11ª Escola a Desfilar: Grande Rio – A Nação do Mangue

    ‘’Freire ensine um país analfabeto que não entendeu o manifesto da consciência social”. É com esse grande soco na cara que a Grande Rio inicia seu samba enredo fazendo alusão a um dos maiores intelectuais que esse país já teve. Paulo foi teórico que tentou, por meio da educação, ver a emergência das periferias. O Manguebeat, por meio da música, tentou o mesmo. Você conhece esse movimento?

    Manguebeat foi um movimento que surgiu no Recife, no início dos anos 1990, que fazia uma junção de vários ritmos regionais, como o maracatu, o coco e a ciranda, com ritmos já consagrados, como o rock, o hip hop e a música eletrônica. Seu maior expoente foi Chico Science, infelizmente já falecido. Esse movimento tinha como seu principal objetivo criticar a desigualdade social.

    Dessa forma, a Grande Rio vem com um enredo que já deixa claro sua intenção desde o início. Falar sobre um Brasil que, apesar de sempre tentar ser esquecido, emerge das margens e escancara suas mazelas sociais.

    Curiosamente, e felizmente, o faz por meio da arte, meio pelo qual é possível transformar o caos e a lama em riqueza. Essa que não se refere ao dinheiro, mas a cultura.

    Vale a pena recorrer ao próprio texto da sinopse para entender um pouco mais do que esse movimento era, segue o trecho: “A nação do Mangue – o Antromangue idealizado por Chico Science – é a nação dos que festejam como resistência, os que dançam em volta da roda, batem seus tambores, bebem cerveja antes do almoço, pensam melhor, pulsam com as caixas de som, rompem as fronteiras do mundo, creem na arte, na ciência e na natureza das coisas, vestem-se como reis e rainhas, beijam seus beijos, amam seus amores, fazem carnaval, brincam com quem têm que brincar, brigam quando têm que brigar, celebram a vida e, do todo entranhado nos corpos, erguem e honram seus impressionantes castelos de lama’’.

    Ou seja, do ordinário viver comum, emerge algo extraordinariamente rico, poderoso e revolucionário. O Brasil teve e sempre terá essa capacidade.

    Viva o Manguebeat e viva Chico Science!

  • 7ª Escola a Desfilar: Viradouro – Pra Cima, Ciça!

    “Não esperamos a saudade pra cantar”. Essa frase do samba-enredo da Viradouro faz lembrar os versos da música de Nelson Cavaquinho “Quando me chamar saudade”. Nela, o poeta clama para que “flores” sejam conferidas em vida. Parece que a escola entendeu essa mensagem ao decidir homenagear o grande Moacyr da Silva Pinto, muito mais conhecido como Mestre Ciça, no ano em que esse gigante completa 70 anos. Como a escola pretende cumprir essa missão?

    O ano de 2026 será marcado por muitas homenagens. Aqui nessa página já foram comentadas personalidades que “receberão suas flores” de diversas formas. Baseado em seu enredo, parece que a Viradouro vai homenagear seu mestre de bateria fazendo algo semelhante ao que fará a Acadêmicos de
    Niterói, ou seja, contando sua história na avenida.

    Isso porque, a escola falará sobre a ligação do mestre com a Estácio de Sá. Berço do samba e local onde estão fincadas as raízes do homenageado. Ela também pretende falar sobre sua trajetória no samba como passista, integrante de bateria e, finalmente, maestro da batucada.

    O vascaíno Ciça fez história em muitas escolas por onde passou, iniciando sua trajetória na Estácio, escola em que comandou a bateria em um desfile que homenageava o maior rival de seu time, o Flamengo. O mestre não podia deixar tal fato passar dessa forma. Então, foi comandar a Tijuca no desfile do centenário de seu time do coração.

    Dessa forma, o mestre foi fazendo e construindo sua história. Essa, que, aliás, o coloca entre as grandes lendas portadoras da batuta que passaram na Sapucaí. Com seu talento, Ciça ganhou carnavais com uma bateria sempre afinada e doutora em fazer a galera mexer o corpo e sambar no ritmo mágico das baterias por ele comandadas.

    Por tudo isso que foi falado, não é nenhum exagero dizer que a escola de Niterói acertou em cheio na escolha de seu enredo. Conseguem imaginar a emoção que será ver esse mestre conduzindo sua bateria enquanto homenageado? Aguardo ansioso para ver.

  • 3ª Escola – Portela: O Mistério do Príncipe do Bará – A oração do Negrinhoe a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande

    “O pampa é terra negra em sua essência”. Essa é uma das frases presente no samba-enredo da Portela em 2026. É possível que essa afirmação seja questionada por quem acredita que o Estado do Rio Grande do Sul tem influência unicamente europeia. A maior vencedora do carnaval carioca vem questionar essa versão com um enredo afro-gaúcho que vai falar sobre o Príncipe Custódio por meio de um encontro entre o Negrinho do Pastoreio e Bará. Você sabe quem são essas figuras?

    A lenda do Negrinho do Pastoreio conta a história de um menino escravizado que foi severamente abandonado em um formigueiro como forma de punição.

    Esse garoto se recupera e se torna uma entidade protetora famosa no folclore gaúcho.

    Já Bará é o senhor dos caminhos e das encruzilhadas, do movimento, abertura de portas, justiça a prosperidade. Também é chamado de Exu Bará e o enredo o caracteriza como o dono dos caminhos e senhor das histórias.

    Em relação ao grande protagonista desse enredo, ou seja, o Principe Custódio (Osuanlele Okiziero), trata-se de um Principe que chega ao Brasil, ainda na condição de príncipe e não como escravizado e, após mudar-se para a região Sul, torna-se o fundador da religião conhecida como Batuque, a religião com mais adeptos e casas abertas no Brasil.

    A Portela conterá sua história em partes e envolvendo as duas primeiras figuras apresentadas. Na primeira parte, o Negrinho do Pastoreio comunica a Bará sobre o achado de uma coroa cujo dono (o príncipe) é desconhecido pelo brasileiro. Depois, a chegada desse príncipe ao Rio Grande com posterior criação do Batuque. Criação essa que assentou a cultura negra nos Pampas.

    No final Negrinho do Pastoreio, representando a juventude negra sulista, recebe a missão de levar adiante as lições de Custódio, o príncipe negro dos Pampas Gaúchos.

    Todo esse bonito enredo merece que seja dado o devido destaque a uma frase do samba: “Enquanto houver um pastoreio/ A chama não apagará”. Essa parece ser a principal mensagem do enredo portelense, ou seja, a esperança de manutenção deste legado está na juventude negra gaúcha.

  • 2ª Escola a Desfilar: Imperatriz Leopoldinense – Camaleônico

    “Eu sou o poema que afronta o sistema/ A língua no ouvido de quem censurar/ Livre para ser inteiro/ Pois, sou homem com H”. Dessa forma, e de muitas outras, o samba da Imperatriz Leopoldinense apresenta seu homenageado.

    Não é muito difícil saber quem é, não é mesmo? Quer dar um palpite? Se você é fã, é impossível não ter acertado que se trata do incrivelmente talentoso Ney Matogrosso, um dos maiores cantores que o Brasil já teve. A escola, por meio de seu carnavalesco Leandro Vieira parece ter compreendido muito bem o que esse grande cantor representa. Um talento que vai muito além da música, mas que se consolida no ato revolucionário de ser quem é. Sim, porque para ser Ney Matogrosso é necessário ter coragem. Não é qualquer pessoa que tem.

    Leandro Vieira deixa claro que admira o escolhido no texto que introduz o enredo da Escola. Chamou atenção a seguinte descrição do carnavalesco: “A voz dos que não tem voz. Corporificação dos sujeitos não apreciados. Divindade que incorporou a subversão. O grito dos loucos. A porção da mulher dos malandros. O anjo safado. A iconografia dos marginais. A performance máscula dos afeminados. O canto dos desgarrados e sem paradeiro. A chave dos trancados nas gaiolas’’.

    Ou seja, Ney é afronta! Ney é revolução! Ney Matogrosso é MUITO NECESSÁRIO!

    O foco, ao contrário do primeiro enredo comentado, não parece aqui estar na história do homenageado, mas no que ele representa, em seu gigantismo e na exaltação à sua coragem.

    Leandro Vieira já provou muitas vezes do que é capaz. Ao abordar esse enredo tenho muita curiosidade de saber a forma como será conduzida essa homenagem, pois o carnavalesco não parece estar disposto a fazer o convencional. Será que assistiremos mais uma vez ao Leandro fazendo história na Sapucai? Não sei a resposta, mas tenho certeza de que Ney Matogrosso merece.

  • 1ª Escola a Desfilar: Acadêmicos de Niterói – Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil

    “Vale uma nação/ Vale um grande enredo/Em Niterói o amor venceu o medo”. Será que o medo foi realmente vencido? O samba-enredo da Acadêmicos de Niterói, ao menos, mostra que essa escola não teve medo nenhum ao escolher qual seria o tema de seu desfile. Isso porque, em um país extremamente polarizado, essa escolha certamente despertará a admiração de alguns e o ódio de outros. A escola (estreante no grupo especial) de Niterói promete que passará na avenida mais um samba popular. Será?

    Sem mais perguntas, vamos falar mais um pouco sobre o enredo da Acadêmicos de Niterói. Conforme já deve ter percebido, a escola fará uma homenagem ao atual presidente Luiz Inácio da Silva, o Lula, que, segundo cita a sinopse, é o político mais bem sucedido de seu tempo. Concorda com essa afirmação? Independente disso, fato é que Lula tem uma história a ser contada. Se assim o é, como isso será feito?

    De acordo com a sinopse, tudo se inicia em sua infância no agreste pernambucano, onde Lula, menino pobre, foi criado por Dona Lindu junto aos seus sete outros irmãos, ouvindo histórias de almas penadas. Diante da seca de 1952, saiu de Pernambuco em migração para São Paulo em viagem que durou 13 dias e 13 noites. Na nova cidade, tornou-se operário, virou figura chave na luta sindical durante a ditadura militar e tornou-se presidente com mais de 52 milhões de votos.

    Essa claro, é a história super resumida. Fato é que a escola pretende exaltar os feitos de Lula voltados aos trabalhadores e a redução da pobreza. Isso, é claro, sem perder a oportunidade de alfinetar o seu grande adversário no cenário político atual.

    Sobre o samba e o enredo que será apresentado pela escola, a maior curiosidade está relacionada a aceitação do público. Será que o samba será cantado pela Sapucai? Vamos aguardar. Além disso, será que a escola vai conseguir cumprir o desafio de se manter no Grupo Especial?

  • Na verdade, a verdade é Judicial

    Enquanto acordava comecei a pensar sobre uma palavra que tem sido bastante falada nesses últimos tempos, ou seja, “verdade”. O que seria verdade? Segundo o DICIO, essa palavra significa: “Que está em conformidade com os fatos ou com a realidade: as provas comprovavam a verdade sobre o crime”. Dada a significação, eu volto a perguntar: é possível dizer com precisão os fatos ou a realidade?

    Deixo esse primeiro parágrafo apenas como uma reflexão. Isso porque, nos últimos tempos estamos vivendo no mundo uma verdadeira disputa pelo que é verdadeiro. Acontecimentos históricos são reinterpretados de acordo com as ideologias de quem os conta. Dessa constatação, ganhou muito espaço o conceito de pós-verdade, que segundo o mesmo DICIO significa: “Contexto em que se desvaloriza a verdade objetiva, comprovada pelos fatos, aceitando qualquer discurso como correto”.

    Nesse sentido, será que existe verdade ou é tudo pós-verdade? Ou seja, será que é impossível chegar a uma versão verdadeira sobre um fato? Esse texto de perguntas e mais perguntas, no fundo, serve como uma mera reflexão, pois a intenção é dizer que se tem uma palavra cujo real significado ficou perdido, trata-se do termo “verdade”. Apesar disso, a busca por ela é uma constante na vida de todo o ser humano, seja qual ideologia ele segue.

    Por exemplo, o reconhecido pensador Walter Benjamin defende a ideia de “escovar a história a contrapelo”. Nesse sentido, diante da predominância da versão do vencedor sobre a do vencido, é importante que os historiadores se preocupem também em contar a história de quem perdeu. Esse autor faz pensar na perspectiva de um interessantíssimo ponto de vista. Agora, será que em um contexto de redes sociais podemos falar em um contexto de história do vencido e do perdedor?

    Quando eu falo isso, me refiro ao caráter extremamente plural das redes sociais. Até seu surgimento, muitas pessoas poderiam se sentir totalmente isoladas do que ocorre no mundo. Agora, com a possibilidade de conexão em escala global, até a pessoa com os hábitos socialmente mais esquisitos pode achar outras com quem se identifique. Em um contexto como esse, existe a possibilidade de existência de “múltiplas verdades”.

    Voltando ao conceito de verdade, para exemplificar, eu diria que ela, na realidade, não é definitiva, mas muito parecida com o objetivo de um processo judicial. Ou seja, nele partes opostas tentam provar seu ponto de vista sobre um fato trazendo provas que os favoreçam. Esses pontos de vista contarão com diversas figuras de apoio (advogados, promotores, testemunhas de defesa ou acusação, dentre outros). No final, tudo isso será decidido por um juiz que será o responsável por “estabelecer a verdade”.

    Como seria mágico se em nossas vidas tivesse um juiz que determinasse a verdade, não é mesmo? Dessa forma não precisaríamos nos preocupar e nem arrepiar os cabelos. Bastaria seguir o que o juiz determinou. Falou, está falado. Infelizmente, a vida não é assim, e sendo a verdade judicial (ou processual) é muito importante que estejamos sempre servindo como guardas ou vigias dela. Caso contrário, daqui a alguns anos estaremos sofrendo sérias consequências pela predominância de versões absurdas de fatos passados.

  • Sobre “A melhor mãe do mundo”

    Nos últimos dias, tenho percebido nas redes sociais a grande repercussão que o filme “O Filho de mil homens” tem tido. Trata-se, realmente, de uma obra muito interessante e sobre ele quero comentar após ter lido o livro que o originou, de Walter Hugo Mãe. No entanto, gostaria de usar esse espaço para falar sobre outro que foi cotado para ser indicado ao Oscar e, também, está disponível na Netflix. Ou seja, “A melhor mãe do mundo”, de Anna Muylaerte.

    Ele retrata uma série de acontecimentos na vida de uma catadora de lixo chamada Gal (Shirley Cruz). Nele, a personagem é obrigada a fugir da casa onde vive com seu companheiro Leandro (Seu Jorge) em razão das agressões que vinha sofrendo deste pelo consumo de álcool. Ela pega seus dois filhos, Rihanna (Rihanna Barbosa) e Benin (Benin Ayo), e inicia uma grande epopeia pela cidade de São Paulo.

    Nesse sentido, me chama atenção o fato de o filme não estar sendo tão comentado quanto deveria, pois diferentemente de atores famosos, o protagonismo fica com aqueles que ainda não são muito conhecidos. Entretanto, esse fato não tira o mérito das atuações, Shirley Cruz entrega uma excelente atuação no potente papel que lhe foi conferido. Os intérpretes de seus filhos também estão muito bem.

    Um dos fatores que merece destaque é a construção dos personagens. Isso porque, diante de uma atmosfera de miséria e precarização, não seria um crime se eles não dessem nenhum espaço para a felicidade. No entanto, a história demonstra um espírito brasileiro que, mesmo diante de sérias dificuldades, não renuncia às pequenas gigantes coisas que os mantém vivos, ou seja, seu churrasco, cerveja ou time de futebol, pois elas são essenciais para viver e sobreviver. Como diria o grande filósofo Zeca Pagodinho “Deixa a vida me levar”.

    Gal é, então, uma sobrevivente que utiliza a felicidade e a fantasia como recurso para a fuga de uma realidade cruel. Esse fator me fez associar o filme ao clássico de Roberto Benigni, A vida é bela. Eu diria que “A melhor mãe do mundo” é a versão brasileira desse filme com todas as adaptações que a realidade do país exige. A cena do banho na Fonte dos Desejos, especialmente, me levou a essa comparação.

    Vale, ainda, ressaltar a coragem de Anna Muylaerte ao trazer à tona a importância das ocupações diante da tragédia causada pela especulação imobiliária no centro de São Paulo. Embora eu nunca tenha morado e conheça pouco a cidade, sei que o tema é amplamente discutido e nele são evidenciadas injustiças sociais nuas e cruas do sistema capitalista. Por isso, falar sobre movimentos sociais, em um momento em que o fascismo faz coro para incriminá-los, é essencial.

    Por fim, destaco que esse texto não se trata de uma crítica ao protagonismo de “O filho de mil homens” pois esse é um filme que trata de importantes temas e merece ser assistido. No entanto, precisamos começar a olhar com carinho para a realidade dos esquecidos e marginalizados por nosso sistema e “A melhor mãe do mundo” é importante pois ajuda a fazê-lo.

  • Seu Paventino

    Seu Paventino, um idoso aposentado e viúvo, não gosta de ficar em casa. Por isso, seu maior passatempo é passar os dias no boteco do João, na esquina de sua casa. Lá ele é figura tão presente que já faz parte do folclore local.

    O maior divertimento de Paventino é abordar novos clientes de João e fazer uma pergunta bem clássica:

    — Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?

    Esse senhor possui um ritual próprio. Sai de sua casa assim que o boteco abre pela manhã, vai até a banquinha do Seu Altair comprar o jornal do dia, para depois ir bater ponto na sua segunda morada. Lá, ele coloca o jornal no balcão, pede um chopp gelado e fica a espreita. Quando percebe a entrada de alguém novo, lá vai ele fazer sua pergunta. Se a pessoa responde que foi a galinha, ele pergunta: e quem foi que chocou o ovo? Se responde o contrário, de onde veio esse ovo? Ou seja, independente da resposta, a diversão de Paventino estaria garantida.

    Um dos seus únicos desgostos era não conseguir fazer sua piada com os clientes costumeiros do bar. Como todos eles já conheciam muito bem seu costume, ninguém dava muita bola. Restava esperar por novos alvos.

    Um certo dia, ele fez exatamente tudo igual. Já deviam ser quase três horas da tarde e entrou no bar um senhor de cabelo bem branco, com uma camisa florida, bermudão e papete de couro. Ele logo pediu um chopp. Paventino, então, se aproximou, puxou assunto e indagou se o outro idoso seria capaz de responder uma pergunta. Ele respondeu positivamente. Esse era o momento de consolidar sua alegria e então perguntou:

    — Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?

    O senhor parou por poucos segundos (que soaram como horas) e respondeu:

    Os ovos, que são estruturas reprodutivas amniotas, existiam há milhões de anos antes da galinha. O primeiro indivíduo da espécie Gallus, o gallus domesticus, chocou de um ovo posto por um animal de uma espécie ligeiramente diferente.

    Dessa resposta, surgiu um silêncio apavorante no Boteco de João. Todos que ali estavam pareciam olhar para aqueles dois senhores que ali conversavam. Na realidade, o olhar era voltado para o novo cliente que ousou dar aquela resposta a Paventino. Esse, por sua vez, ficou branco, mais branco do que costumava ser e durante um tempo ficou sem resposta. No entanto, não poderia deixar aquilo barato. Sentindo vontade de dar um grande brado retumbante, ele decidiu ser um pouco mais elegante e só falou:

    — Pombas, meu camarada, ciência? Não vem com essa que não quero saber disso não.

    Paventino, então, levantou e foi se sentar em uma outra mesa onde acabava de chegar ao bar um jovem que, provavelmente, veio se refugiar daquele calor infernal que fazia na cidade naqueles dias. Então puxou assunto e fez a pergunta clássica:

    — Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?

    E assim se passava mais um dia na vizinhança e no Boteco do João.

  • De(i)vaga(R)ções sobre o surgimento de um novo líder no Morro(?) do Pau(?) da Bandeira – Sobre falar o óbvio(?)

    Brevíssimas considerações iniciais: Antes de iniciar esse texto, eu peço licença a você (leitor) para que possa fazer uma breve diferenciação semântica entre dois temos. Sei que a pressa dos dias atuais torna essa introdução chata, mas considero que esse movimento inicial pode enriquecer sua leitura. Dito isso, segundo o Dicio, o termo devagar significa: “De maneira lenta; que não possui nem apresenta pressa; vagarosamente”. Já divagar: “Vagar; caminhar sem destino certo: divagava pelas ruas vazias”. Esses não são os únicos significados destes termos, mas, para o intuito desse texto, são os necessários. Dito isso, vamos ao que interessa (?!).

    Na última semana do mês de outubro do ano de 2025, o Brasil teve um grande acontecimento. Para quem está achando que se trata do jogador Vinicius Junior assumindo a influencer Virginia como nova namorada, sinto dizer que você está errado.

    Na verdade, o que realmente causou polêmica, e ajudou a dividir ainda mais o país, foi a chamada megaoperação nos Complexos do Alemão e da Penha na cidade do Rio de Janeiro. Como alguém que gosta de acompanhar a reação das pessoas nas redes sociais, tenho percebido que existem defensores e críticos da operação. Não entrarei nesse detalhe, mas queria chamar atenção para um outro ponto, o aumento astronômico da popularidade do secretário de Polícia Civil Felipe Cury. Será que estamos diante do surgimento de um novo líder?

    Quando penso sobre essa pergunta, minha mente musical leva logo a canção “Zé do Caroço”, composição da incrível Leci Brandão. Quem conhece a letra sabe que nela a compositora se refere ao surgimento de um novo líder. Curiosamente, a primeira lembrança visual que tenho deste samba é do filme “Tropa de Elite 2”. Para quem não se lembra, no filme, quando o líder da milícia em uma comunidade vai receber políticosn para fazer campanha eleitoral, essa é a música que é tocada. Enquanto ela toca, o “dono da localidade” dança com uma pistola em punho escancarando todo o seu poder.

    Agora, precisamos voltar a falar sobre Felipe Cury. Um homem que, na última semana deu declarações como: “O traficante não é vítima da sociedade”, “o traficante outro dia passou a ser vítima do usuário” (Em clara alusão a uma fala recente do presidente Lula), “o policial está sendo tratado como vilão”, dentre muitas outras. Ele chegou até mesmo a levantar a hipótese de que corpos apareceram decapitados por obra dos próprios moradores. No entanto, o que mais assusta é o uso do termo “adolescentes apreendidos” e “bandidos neutralizados”. Assustador, não? (!?!) As falas têm um objetivo claro de desumanizar pessoas. Quando isso acontece, é fácil justificar mortes. A pergunta é, quem serão os próximos a sofrerem desumanização? A lógica do inimigo não possui limites. É ai que mora o grande perigo.

    Todo o ocorrido a que me referi anteriormente, obriga ao exercício esquisito de explicar o óbvio (?). Aliás, em tempos de pós-verdade, eu nem sei mais se é possível falar que essa palavra existe. Infelizmente, o Brasil é um país em que as pessoas não foram preparadas por meio de uma educação crítica, isso gera uma série de problemas facilmente visíveis e perceptíveis hoje em dia. Não ficarei falando sobre esse assunto, mas aproveitarei para comentar sobre outro que é tema deste texto. Antes disso, é preciso deixar algo bem claro.

    Imagino que, depois de falar tudo o que disse até agora, já posso ser rotulado, por alguns, como “defensor de bandidos”. Por isso, quero deixar claro que considero que o combate ao crime organizado deve ser uma das principais prioridades do governo brasileiro atualmente. Também que eu não acho que um traficante seja totalmente uma vítima da sociedade (embora ache que o tráfico nas favelas é diretamente derivado de problemas sociais. Para essa conversa vocês já estão preparados?). Não acho também que o policial é um vilão. Acho a polícia, embora tenha hoje muitos problemas, fundamental para a garantia da segurança. Enfim, são muitas coisas que, apesar de obvias, precisam ser faladas. Apesar de saber que esse exercício é inútil, pois quem quer rotular o fará por puro ato de má-fé.

    Dito isso, precisamos falar sobre Direitos humanos (Tá defendendo? Então leva um bandido pra morar na sua casa!). É muito interessante que, ao contrário dos mortos nos conflitos, essa palavra foi “humanizada”. Quem nunca ouviu alguém dizer: “Daqui a pouco vem o Direitos Humanos aqui pra defender“. Ou seja, além de humanizado, o conceito se tornou uma espécie de Geni que, tal qual a da música, foi feito para apanhar e para se cuspir. A pergunta é, qual o intuito de humanizar ou desumanizar algo? Na prática, pedras são jogadas ou tiros são dados sem que ao menos se dê chance de defesa.

    Aliás, quando se fala em direito de defesa, estamos falando na condição que difere (ou pelo menos deveria diferir) o Estado do poder paralelo. O tráfico não respeita as leis, ele executa por possuir poder. Esse poder, certamente, leva a uma série de injustiças. É por conta dessas injustiças que o Estado Democrático criou um mecanismo que permite a todo mundo se defender antes de sofrer uma pena. Mesmo que alguém seja culpado, é importante que responda dentro dos limites da lei. Se não, o que garante que, no futuro você (cidadão de bem) não pode ser vítima de uma injustiça do estado? Infelizmente, ninguém está alheio a isso.

    É por esse motivo que, às vezes, por mais absurdo que seja, precisamos defender as leis e o Estado Democrático de Direito. Da mesma forma que precisamos combater o crime e valorizar nossos policiais, médicos, enfermeiros, professores e tantas outras profissões dignas. Essa defesa é inegociável e não podemos renunciar a ela.

    Quanto ao personagem inspirador desse texto, vou esperar para ver se ele realmente se tornará uma nova figura política desse país. Agora, recorrendo mais uma vez a um mestre da música brasileira e, especialmente, do samba, acho que é preciso divagar devagarinho (com o perdão da alteração na letra) para que não voltemos a alçar ao posto de heróis figuras que o Brasil (e principalmente os cariocas) já estão cansados de conhecer.

    *As ideias expressas pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não refletem necessariamente o posicionamento do portal Crônicas Cariocas, que preza pela liberdade de expressão e não interfere no conteúdo de seus colaboradores.

  • Era uma vez Dona Namoradeira

    Dona Maria era uma mulher metódica. Todos os dias cumpria seu ritual sem faltar. Acordava pelas manhãs logo que o dia raiava, preparava um café bem preto, forte e aguardava por Zequinha, o menino que vinha trazer seu pão, sempre quentinho e fresquinho. Quando chegava, ela despejava o líquido, ainda quente, em sua xicara e ia bater ponto em sua janela. Maria jamais atrasava nesse compromisso matinal.

    Gostava sempre de chegar em seu “serviço” bem cedo, pois o tempo perdido poderia ser o causo não presenciado.

    Geralmente, logo pela manhã era difícil que algo acontecesse. Todo mundo da vila passava em disparada para que não atrasasse no seu dever sagrado diário. Cada pessoa que passava pela janela daquela casa falava “Bom dia Dona Namoradeira” e ela retrucava “Meu nome é Maria, fio(a) de satanás”. A verdade é que todos sabiam que já havia adotado aquele apelido carinhoso, mas ela fazia questão de demonstrar que não gostava nada daquilo.

    Certa vez, um garoto que costumava passar o dia brincando naquela rua e era bem do atrevido decidiu lhe perguntar de onde vinha aquele apelido. Brava, ela respondeu:

    — Foi um sujeitinho saidinho que andava por essas bandas faz muito tempo e era doidinho pra se engraçar pro meu lado. Como eu nunca dei bola, ele tentou criar essa história de namoradeira, vê se pode meu fio?

    Nada que acontecia por naquela vila passava despercebido aos olhos da senhorinha. Por esse motivo, o povo da vila criou o hábito de logo de noitinha, um pouco depois da noite tomar conta da cidade, se reunir na casa de Maria. Nessa hora, ela se dedicava a contar os causos do dia. As histórias eram diversas, como no dia em que o marido da vizinha voltou mais cedo pra casa e encontrou sua mulher na cama com o carteiro. Ela contou, a quem estava naquela sala a seguinte história:

    — Meus fios, hoje aconteceu por aqui a tragédia que estava se anunciando faz é tempo. Todo dia eu percebia que o carteiro trazia uma carta pra Celinha e ficava lá dentro da casa dela de proza. O ritual era sagrado. Até que hoje, o Gumercindo, coitado desse homi trabalhado que só ele, decidiu voltar pra casa mais cedo, Trouxe até flores! Só que quando chegou viu a danada da Celinha no rala e rola com o carteiro. Que confusão meus fios. Vuou foi roupa e mala pra todo lado. Tadinho do seu Gumercindo, tão trabalhadô.

    Geralmente, ela procurava contar as histórias e acontecimentos do dia, mas nem sempre seu radar conseguia apurar notícias fresquinhas. Nesse caso, era comum que ela contasse histórias do passado, de uma época em que nenhum dos que se faziam presentes naquela sala viveu. Foi assim que descobriram que certa vez morou naquela vila um homem bem estranho que, como muitos falavam na época, todo dia de lua cheia saia de sua casa uivando atordoado igual a um animal descontrolado.

    Certo dia, o povo daquela vila passou pela janela da namoradeira e viu que ela não estava cumprindo seu dever diário. Todo mundo estranhou, mas, na correria do dia, ninguém teve tempo de ir perguntar a senhora o que havia acontecido.

    De noite, ao perceberem que ela não apareceu em sua janela durante nem uma hora daquele dia, os moradores decidiram bater em sua casa. Batidas sem nenhuma resposta… Alfredo, o fortão da vila, decidiu arrombar a porta e, quando todos entraram, se depararam com Dona Maria totalmente em paz em sua cama dormindo um sono eterno. Ao lado, na cabeceira, havia um bilhete que dizia “meus fios, o homem e a muié morrem, a carne vira comida pra bicho, mas as histórias nunca podem morrer. Eu estou indo, mas nunca deixem que morram as histórias que contei e as histórias que ainda acontecerão nesse lugar.”

  • Poema #01: Chiclete com Banana

    Eu só boto bip-bop

    no meu samba quando o tio Sam pegar o tamborim

    Somos povo
    Somos pluralidade
    Somos originais
    Somos natureza
    Somos beleza
    Somos muito
    Colônia, de novo?
    Nunca!
    Sobre tudo
    Somos… tudo
    Somos … CUL-TU-RA!
    Por isso
    Eu só boto o bip-bop
    No meu samba
    Quando o tio Sam
    Pegar no tamborim!

  • Sobre vida, arte, educação, democracia, anistia, blindagem…

    Além da crônica ou do conto, hoje vou com um texto de opinião que, perdoem o pleonasmo, vem em primeira pessoa. Tenho acompanhado com bastante curiosidade os últimos acontecimentos políticos que tem ganhado destaque neste país lindo, e controverso, chamado Brasil. Como roteirista amador e apaixonado por cinema, acho incrível como a realidade brasileira consegue igualar, ou até mesmo superar, a criatividade dos maiores escritores mundiais desse gênero. É tanto plot twist que eles devem ter inveja. Agora, pensando em todos esses acontecimentos em relação a minha trajetória de vida, não posso deixar de fazer algumas considerações que deixarei soltas neste singelo texto.

    Minha primeira graduação foi em Direito. Desde então, tenho convivido com muitos questionamentos pessoais em relação a essa profissão. Entretanto, apesar desses, eu não tenho como diminuir a importância que essa ciência tem para a sociedade e para a democracia. O direito é um instrumento essencial para a garantia desse termo hoje tão falado, mas cujo real significado poucos realmente conhecem. Será que os jovens não aprendem sobre seu significado nas escolas? Ou será que nosso ensino se tornou tão mercadológico e finalista que seu significado se perde dentre outras milhares de exigências? Essa é uma discussão que poderia gerar teses sobre educação e que não vale o aprofundamento aqui. Polemizando um pouco, talvez falte um pouco mais de Paulo Freire, apesar de muitos dizerem que esse é o grande problema da nossa educação.

    Voltando ao tema democracia, talvez ela não seja um modo perfeito de governo. Aliás, será que a perfeição existe fora do seu significado? Apesar disso, considero que ela seja o melhor modelo, pois permite que a pluralidade humana coexista em espaços comuns. Ou seja, somos seres plurais e, por isso, precisamos respeitar o que cada um pensa. Não importa se uma pessoa é de direita ou esquerda, heterossexual ou homossexual, conservadora ou liberal ou qualquer outra coisa, o que deve sempre prevalecer é o respeito. Além dele, a liberdade de todo o indivíduo se expressar livremente, desde que isso não prejudique os direitos de outro. Seguindo, nesse regime todos são iguais perante a lei, ainda que as vezes seja preciso garantir que, aqueles que são prejudicados pelo sistema, possam usufruir de políticas para minimizar desigualdades, como a política de quotas, por exemplo. Somos iguais nos direitos e nos deveres.

    Todo esse brainstorm de características remete a questões tão obvias que, certamente, o leitor desse texto está se perguntando o porquê estou falando tudo isso. Talvez eu volte a questão dos roteiros do primeiro parágrafo para entrar na seguinte questão, o absurdo. Pensando em um contexto sem nenhum tipo de ideologia de esquerda ou de direita. Será que alguém concordaria que nossa democracia pode ser colocada em risco por qualquer pessoa que tente um golpe de estado? Será que seria razoável permitir que alguém, junto com seus pares e colegas, decida se ele(a) mesmo irá decidir sobre um crime que cometeu? Acho que a resposta para ambas é negativa. Ao menos, espero que seja. Se o é, por qual motivo alguns tem aceitado renunciar a elementos tão caros e importantes a nossa democracia pelo fato de defender certo posicionamento político? Será que isso vale a pena?

    Não se trata aqui de ser de esquerda ou de direita. Hoje, apesar de qualquer posicionamento político, eu me considero um fã da democracia. Talvez essa tenha sido uma das principais lições que aprendi ao cursar direito. Precisamos defender esse modelo para que possamos realmente conservar nossa liberdade de expressão para opinar, seja lá como for, dentro dos limites que exigem a legalidade. Não existe ditadura benéfica aos humanos, sejam elas de direita ou de esquerda. Qualquer tipo de restrição ao ser livre é burro.

    Finalmente, chego aos atos realizados no dia 21 de setembro de 2025 em todo o Brasil. É muito bom ver que, independente de correntes ideológicas, tivemos milhares de pessoas lutando por um objetivo tão nobre, ou seja, defender a nossa democracia. O ato mostra como o Brasil é lindo e gigantesco culturalmente, como temos talentos que fazem ter orgulho real por sermos brasileiros. precisamos cuidar desse país para que toda essa pluralidade floresça cada vez mais. Nisso consiste o real patriotismo.

    *Textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, a opinião do Crônicas Cariocas.

  • O Clube dos Poetas Amadores em Extinção

    Era madrugada, por volta de uma da manhã. M. faz um grande esforço para sair de seu apartamento sem fazer barulho. Precisava se fazer invisível. Caminha até a porta e observa o movimento da rua. Embora conhecesse todos os pontos não filmados por onde poderia passar, precisava ter o máximo de cuidado. Embora fosse ateu, caminhava sussurrando orações que nem sabia ao certo.

    As ruas estavam desertas. Escuras. Uma espécie de barulho contínuo assombrava seus ouvidos, não conseguia saber se era real ou mera fantasia causada pelo seu medo de ser descoberto. Andava rápido, mas silenciosamente, como se fosse um invasor no lugar onde nasceu e viveu ao longo de toda a sua vida.

    Após toda a tensão, conseguiu chegar ao local desejado. Era uma portinha, bem castigada pelo tempo, que somente uma pessoa muito observadora, ou um robô perfeitamente programado, poderia notar. O local perfeito para o obrigo de esquecidos.

    Seu interior era uma sala pequena com uma mesinha iluminada no meio que deixava escuros os cantos do ambiente. Quando chegou, viu os que já estavam presentes. Ao todo cinco. Cumprimentou a todos e perguntou:

    — Será que vem mais alguém?

    — Vamos esperar. Chegar até aqui virou tarefa para poucos. Os robôs de ronda estão cada vez melhores. Chegará o dia em que não conseguiremos mais nos encontrar. — disse J.

    Esperaram durante um tempo. Apenas mais três chegaram. Então W., o anfitrião da reunião, toma a palavra:

    — Vamos iniciar. Hoje são oito, ontem eram dez. Amanhã? Ninguém sabe. Vamos aproveitar este momento.

    G., um dos integrantes comenta:

    — Hoje quase fui pego ao tentar chegar aqui. Eles não sabem o que é errar, exigem que sejamos perfeitos, da mesma forma que foram criados para ser. Quando nos detectam nas ruas, nem perguntam. Em segundos, perdemos nossas vidas. Eles não têm coração — disse P.

    — Vamos a primeira leitura da noite. M., por favor.

    — O preto é preto/ O branco é branco/ Se o preto não é branco/ O branco nunca será preto.

    Todos os presentes naquela sala começam a gritar e a se abraçar com enorme euforia. Alguns extremamente emocionados abraçam M. Outros permanecem chorosos em seus lugares. F., sem conseguir se conter, grita:

    — Como é bom poder ouvir livremente poesias ruins!

    Emocionado, W. se prepara para chamar o responsável pelo próximo poema.

    Toda euforia ali vivenciada, era sinal de um novo tempo. O mundo já não era o que foi um dia. A Inteligência Artificial aprisionou os humanos e tentava reprimir sua humanidade. Valores como o amor, a solidariedade, a amizade e. até mesmo, o erro, não podiam ser tolerados. Algoritmos só funcionam se criados com perfeição. Nesse mundo, poder escrever poesias ruins era um privilégio. Aqueles homens, ao rirem da imperfeição, faziam uma revolução em busca da liberdade.

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