Carlos Drummond de Andrade

  • Almoço mineiro

    Quarta-feira. Meio-dia. Belo Horizonte está nublada, como uma cidade que acabou de sair do banho. Desço a Rua da Bahia, venho do Minas Tênis Clube, fazer algo que não vem ao caso. Atrás de mim está a Praça da Liberdade, com os bancos onde já se sentaram Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade e Manuel Bandeira. A cidade não é só um convite à crônica — ela é uma crônica pronta, basta olhar para ela.

    Decido ir andando até a Rua dos Caetés para almoçar. Almoço é coisa séria. E meu prato favorito é: arroz, feijão andu, língua de boi, couve refogada, farofa e ovo.

    Levo comigo o livro Amores difíceis, de Italo Calvino, além de uma carta que escrevi para um amigo meu, que está no Rio de Janeiro.

    Escolho uma mesa, noto que agora colocaram mesas e que a gente só come no balcão se quiser.

    — O seu é o que, amigo?

    — Com língua de boi, por favor.

    Perguntam se quero beber alguma coisa, mas só peço chope depois de comer.

    Enquanto o prato não chega, olho para as mesas: uma mulher come sozinha, debruçada no balcão. O garçom sorri como se fosse da família da gente; aliás, qualquer um ali — seja quem for, que se apaixona pelo mesmo prato — é como se fosse da família da gente.

    Penso que cada um tem seu prato favorito. O meu é minha alma exterior, como dizia um personagem antigo de Machado de Assis. Penso nos personagens de Italo Calvino, cujo livro está bem diante de mim, sobre a mesa.

    Eles se divertem com paixões impossíveis, desejando quem nunca terão. Eu não. Meu amor é mais possível, por aquele prato, que comi rezando, pelo chope que o garçom já trouxe.

    Depois do almoço, vou caminhando para fazer a digestão. Sinto vontade de escrever um conto, mas ando mais um pouco e espero passar. Vou ao banco e deposito algum dinheiro.

    No guardanapo que trouxe comigo, anoto: “O amor é uma coincidência. Às vezes coincide com o amor do outro, às vezes não; mas, com um prato de comida como aquele, até a dor de amor dói bem menos.”

    Gosto de caminhar. A cidade é cheia de árvores e gente simples andando na rua. Andu, para quem não sabe, é meu restaurante favorito — vou lá batendo perna sozinho, lendo um livro ou matutando um texto. Nem pensar em convidar um amigo. Vai que ele inventa de comer em outro lugar?

    Mas eu já te falei do meu prato preferido — e, se você comer, vai ser o seu também.

  • Outono, bem-vindo!

    O outono chegou, espalhando seu tapete de petalas de flores pelas ruas e enchendo o ar com um frescor renovador. Hoje é o primeiro dia dessa estação que sempre me traz simbologias e memórias.

    Que época maravilhosa! O poeta Carlos Drummond de Andrade enalteceu os dias de abril: “Não basta sentir a chegada dos dias lindos. É preciso proclamar!” E eu concordo. O céu de um azul inigualável, a temperatura amena, o ar mais leve — tudo parece nos tocar de forma sutil e encantadora.

    As folhas amareladas dançam ao vento, antes de cair e formar caminhos dourados nas calçadas. Paineiras e jacarandás nos brindam com flores delicadas, as cerejeiras se vestem de tons suaves, e o vento frio no início e no fim do dia nos lembra que a natureza segue seu ciclo, renovando-se.

    Os parques se tornam mais convidativos: pais e filhos passeiam, jovens pedalam, amigas conversam, idosos descansam nos bancos. O outono parece aliviar o peso do cotidiano, trazendo leveza ao nosso olhar sobre a cidade. Até mesmo aqueles de quem se diz que estão no “outono da vida” parecem renascer. A alma se revigora, as janelas se abrem, os sorrisos se tornam mais frequentes.

    E como toda estação tem seus rituais, o outono é tempo de aquecer a casa com sabores que nos trazem conforto e história. Sei bem o que ele provoca em mim: saudades. Mas daquelas boas, que aquecem o coração.

    No inverno, a comida tem um papel quase sagrado na convivência familiar, e o outono é o prenúncio desse tempo acolhedor. Os encontros em casa se tornam mais frequentes, trazendo caldos fumegantes, fondues compartilhados, chocolates quentes e bolos acompanhados de café. Ninguém faz essas delícias só para si — é tempo de reunir-se à mesa, de criar momentos. Tão diferente do churrasco de verão, com sua algazarra de amigos, vizinhos e agregados! O outono pede aconchego.

    Na época dos meus pais, nos juntávamos na cozinha, aquecidos pelo fogão a lenha. As labaredas crepitavam, iluminando os rostos, enquanto esperávamos a “janta” entre histórias e risadas. Minha mãe, carregando sua própria saudade, preparava os pratos típicos do povo guarani, ao qual pertencia. Sopões encorpados, milho cozido, bijou com chá mate… sabores de raízes profundas.

    Lembro-me especialmente de um prato simples e delicioso: carne moída, caldo de feijão, macarrão cabelo de anjo e, por fim, ovos quebrados direto na panela. Comida para dar “sustância”, como diziam os antigos. O outono e o inverno fortaleciam o senso de família, e esses costumes, ainda que transformados pelo tempo, resistem em algumas casas.

    E que bom que resistem! Porque, no fim, o outono sempre nos renova. Seu nascer do sol aquece a alma, suas tardes douradas acalmam, suas noites frescas aconchegam. Como disse o poeta:

    “E o raio de sol benevolente, pousando no objeto, tem alguma coisa de carícia.”

    Que saibamos sentir essa carícia e deixar o outono nos transformar.

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