chico viana no Crônicas Cariocas

  • Carnaval e Solidão

    “Festa do pecado” – foi com esse tipo de rótulo que o Carnaval, desde cedo, apresentou-se à minha imaginação. Falava-se nele como “festa da carne”, alegria dos baixos instintos, frenesi do demo. Por isso eu sempre o recebi com uma ponta de remorso. Brincar o carnaval era transgredir não sei que piedosas regras, era se comprometer com o inferno. O corpo gozava, mas esse prazer de poucos e efêmeros dias acabava tendo um preço.

    No entanto o Carnaval não é apenas gozo do corpo, prazer dos instintos. Comporta uma outra dimensão, cheia de fantasia e sonho, alimentada pelo dramatismo de paixões que entristecem e dilaceram. Em cada folião ou foliã anônimos, sonhando nas esquinas sombrias com o próximo parceiro, reflete-se a paixão transfigurada de Pierrô, Colombina e Arlequim. Ninguém admite que saia à rua apenas para brincar – pelo contrário: a brincadeira é também esperança de algo maior, transcendente. É o sonho de uma grande paixão, o desespero fantasiado em riso.

    Dos autores que escreveram sobre essa festa, um dos que mais me impressionaram foi João do Rio. Há em suas crônicas e nos seus contos o sentimento do homem dividido entre a alegria e o remorso, e para quem o prazer físico é uma emoção torpe. João do Rio retrata a belle époque, tempo de crise e subversão de valores no qual as contradições, por mínimas que fossem, ganhavam um acento patético. Mesmo descontando-se os exageros da época, ressalta de seus textos, colorida e potencializada pelo impressionismo do estilo, a velha oposição entre carne e espírito, que comumente vem à tona numa época como a de agora. 

    E lá estão, nos textos do carioca, personagens ansiosos por mergulhar na noite, perder-se na devassidão e no abismo de outros corpos. Vão arrependidos, exalando em palavras de autocomiseração e tédio o odor de seus baixos instintos. Até que são punidos por uma espécie de logro que lhes é dado pelo objeto de desejo, que se apresenta horroroso e hediondo.

    Assim, por exemplo, a mulher mascarada e aparentemente linda revela-se, quando lhe arrancam a máscara, doente e disforme. Não é uma Vênus, como parecia; é um aleijão, de cujo nariz jorra pus. Por essa deformação estética, que frustra qualquer possibilidade de satisfação física, corrige-se um desvio ético e revela-se, ao mesmo tempo, o moralismo do autor. O esnobe e homossexual João do Rio, tão criticado pela sociedade da época, não passava de um moralista severo.

    Mas o nosso tempo é outro, bem mais prático e comercial. Longe estamos dos excessos da belle époque. Hoje é o governo que alardeia preocupação com a nossa saúde venérea, incitando-nos ao uso da camisinha. O pecado é não se prevenir, ficar doente, mas não é errado transgredir os limites do corpo. Este parece aberto a todo tipo de prazer. E a virgindade vale muito pouco.  

    Mesmo assim o Carnaval ainda preserva o romantismo de outros tempos. É falsa, mesmo na permissividade da folia, a alegação de que ninguém é de ninguém. Para além do corpo que se oferece, em riso lúbrico e escancarado, sonhamos com alguém que venha e não vá embora. Alguém que fique e nos socorra depois – quando a lembrança do gozo desfeito não for mais que uma evidência de solidão.

  • De bichos exuviáveis

    O verão e as mulheres. Mestre Rubem Braga tratou longa e exaustivamente do assunto, mas quem seria capaz de esgotá-lo? Renova-se o verão e renovam-se as mulheres, sendo preciso que haja cronistas de fôlego novo para dar conta dessas explosões cíclicas. O que o Braga escreveu é definitivo, como definitivo era o que Camões registrava das navegações portuguesas – mas a época dos descobrimentos passou. Vivemos agora outro verão e nos cumpre assinalar, por dever de um ofício docemente autoimposto, o quadro que se nos depara. Com menos talento, certamente, mas não com menor empenho. E com o Braga em surdina.

    O verão e as mulheres. Para senti-los bem, é preciso imergir numa espécie de quarentena cívica e moral. Ficar de férias da vida ou, mais exatamente, de certa feição dela: a que envolve os ritos de sobriedade e rotina. Remeter-se a uma adolescência que se imaginava enterrada na vala dos compromissos roazes, voltando a existir antes de tudo em corpo. Pois o verão, sendo a mais poética das estações, vive primeiro da forma. É todo um aceno ao prazer. Daí, nele, a prevalência da cor e do tato, medidas de uma apreensão de vida basicamente sensual. O espírito se esvai, langue, e se funde com a carne. Reinstaura-se então a unidade. Na praia somos edênicos, sem pecado e sem culpa, agindo sob o império quase absoluto do sol.

    As mulheres no verão. Ei-las que saem de casa, sós ou aos bandos, como se atendessem a um chamado misterioso. O que as faz procurar a praia? Talvez a simples vaidade de esplender ao sol, afirmar com exuberância os atributos do sexo. Talvez o gosto íntimo, animal, de ativar humores, compensando a estase a que ficam submetidas no inverno e em nossa incipiente, parca primavera. Talvez a necessidade de se ensolarar e mudar de pele, como certos pássaros que precisam renovar periodicamente a plumagem.

    O verão é sensual mas não é pecaminoso; não se confunda viço com vício. Na praia as mulheres se desnudam com adequação. Pois tudo ali é explícito, não havendo o que o sol não ilumine, o mar não lave e o vento não leve. A nudez não tem a explicitude alardeada pelos filmes pornográficos, que embutem na mensagem uma intenção cafajeste. A musa da praia é a antiatriz dos filmes pornôs. Ali a nudez se amplia noutras nudezes, e a ênfase se desloca do indivíduo para o grupo. Fala-se em mulheres, no plural, e não numa certa mulher. Em desejo, abstratamente, não num objeto específico do desejo.

    O verão e as mulheres. Bichos exuviáveis, elas cambiam de pele num processo que percorre todas as gradações do dourado. Uma delas conheço que está na terceira muda e, falando francamente, penso que não deve prosseguir. Deve se recolher, moderar a febricitação interior. Sob pena de arruinar a tez, dando-lhe o aspecto fosco e dessecado que se encontra nas que perderam a medida do sol. Pois esse é o perigo no verão. O ideal seria colocá-la numa redoma térmica ou retirá-la da praia impreterivelmente às dez e quarenta e cinco da manhã – enquanto há tempo.

  • O colecionador de palavras

    O hábito começou muito cedo. Dizia “papá” e “mamã” com um prazer especial em jogar com as sílabas. “Pa… pá”, “mã… mã” –  os sons iam e voltavam até que ele os guardava para depois, quando quisesse, brincar de novo. Com o tempo foi juntando outros fonemas (“bu… bu”, “pi… pi”, “tó…tó”). Um dia teve febre e ouviu “dodói”; enamorou-se da palavra e ficou repetindo-a em seu delírio.   

    Cresceu e foi refinando as escolhas. Agora prestava atenção não apenas aos sons, mas também ao casamento que havia entre eles e o sentido. Às vezes a união lhe parecia perfeita, como em “croque” (sentia o atrito de um fonema no outro), “bafo” (a palavra terminava num sopro) ou “empecilho” (pronunciar essa foi um obstáculo que venceu a duras penas).

    Noutras vezes, achava que palavra e som eram como estranhos. “Erisipela”, por exemplo. Ficaria bem para designar um metal precioso (“Usava um colar de erisipela legítima”), mas não para indicar uma doença. O mesmo se diga de “faniquito”, que mais parecia nome de passarinho (“Na manhã clara e ensolarada, faniquitos em bando cortavam o azul do céu”). Teve pena da tia por ela sofrer de uma doença cujo nome não combinava em nada com as ulcerações que havia em suas pernas.

    Descompassos como esse lhe deram uma vaga ideia das incoerências do mundo. Havia palavras bonitas para coisas feias e palavras feias para coisas bonitas, assim como havia pessoas lindas com uma alma escura, e outras, de rosto nada atraente, com um espírito luminoso. O mais das vezes – foi aprendendo – o nome era uma falsa aparência das coisas. Isso não o levou a desistir da coleção, só que agora ele tinha um critério; passou a dividir as palavras conforme a semelhança que tinham com os objetos ou seres que designavam.

    Agrupou de um lado, por exemplo, “sanfona”, “crocodilo”, “miosótis”, “turmalina” (se bem que essa mais parecesse nome de mulher) – e do outro “presidente”, “cadeira”, “promotor”, “recurso” (palavras que não excitavam a língua e que a gente, quando as ouvia, não tinha a curiosidade de saber o que significavam).

    À medida que envelhecia, tornava-se mais exigente com a sua coleção. Algumas palavras lhe pareciam insípidas, por isso ele resolveu esvaziar parte do baú. Uma das primeiras que jogou fora foi “jucundo”, cuja hipocrisia não mais suportava (parecia designar algo triste, mas significava “alegre”). Trocou “jucundo” por “meditabundo”, palavra mais honesta e de acordo com seu atual estado de espírito. Jogou fora também “vagar”, “flanar”, “leviano”, e por pouco não se livrava de “paciente” (“prudência”, que ia substituir a outra, aconselhou-o a esperar mais um pouco).

    A coleção agora tinha pouquíssimos vocábulos, mas cada um pesava tanto que o homem não conseguia transportar o baú. Deixou-o embaixo da cama e nele foi inserindo, sem muito entusiasmo, as palavras que ainda o impressionavam (sabia que, se parasse de colecionar, morria). Um dos novos termos foi “achaque”, que vagamente lhe soou como uma dança fúnebre de tribo africana (riu ao perceber que ainda tinha imaginação poética).  Outro foi “próstata”, que lhe pareceu o som de uma chicotada (ta-ta). E um dos últimos foi “tumor”, que ele sem graça botou no lugar de “humor”.

     Depois que morreu, os amigos e parentes ficaram intrigados com aquele baú embaixo da cama. Abriram-no e nada encontraram em seu interior. “Ele era meio tantã”, comentou a mulher. “Passava horas diante desse baú vazio.” Resolveu guardá-lo, como lembrança, e aos poucos foi metendo nele os objetos inúteis da casa.

  • Oito anos

    Minha amiga está soturna, posto que falante. Vive a crise dos oito anos – oito anos de casada. Parece que seu rancor, antes de conjugal, é numérico.

    Deve ter lido em alguma revista especializada que existe “a crise dos oito anos” e, apercebendo-se de que está nessa faixa de tempo, convoca os agentes recônditos do cansaço e do tédio, o exército roaz produzido pelos infindáveis minutos, horas e dias de todos esses anos.

    “Oito anos”, ela pondera, como se os instantes tivessem de repente se transformado num bloco que a puxa para trás, um condensado handicap de história e de vida orientado em sentido negativo. Um tempo dado unicamente a outrem, a alguma coisa que não a ela. Tempo que terá sido “ausência” pela exclusão das alternativas e das vias paralelas – as muitas vias que espreitam tentadoramente a trilha das nossas opções.

    Realmente, por que se fixar nos oito anos? Conheço pessoas que referem como insuperável a crise dos cinco. Outros quase não passam pela barreira dos dois. E se a gente pesquisa, encontra quem mal tenha resistido ao limite dos seis meses e até ao do dia seguinte – aquele momento em que o sujeito olha para um lado e para outro e, epa!, depara-se nesse outro com alguém que, a partir dali, vai se constituir numa referência fixa, espécie de fronteira irremovível de sua pessoa. E como isso dá medo.

    Minha amiga vem fazendo análise. O objetivo, segundo ela, é “questionar profundamente os meus sentimentos e as minhas relações”. Devo dizer que está se frustrando um pouco, pois esperava através do processo analítico ganhar forças para revolucionar a vida pelo conhecimento de si mesma. Esperava talvez deter, na casa dos seis anos, o processo que redundaria nessa crise dos oito. Ela me diz, no entanto, que tudo está sendo em vão. A “ideia revolucionária” parece mais uma fantasia que, no decorrer das sessões, desvenda-se ante seus olhos. De fato, ninguém se transforma no que não é. Eu podia mesmo lhe citar Sartre: “On change souvent pour rester soi-même.”

    Agora faz essa catarse extra-analítica diante de mim, terapeuta sem divã. Além de falante, sombria. Fala dos oito anos como se ele fosse um recorde, parecendo não compreender que esse tempo é complicado porque condensa o bom e o ruim. Pesa porque é âncora. Generosamente, deixo minha amiga falar. É o melhor que se pode fazer por alguém nessas ocasiões.

    Ela fala, fala, e me ocorre, maldosamente, que esse é um tipo de sofrimento que comove e também diverte. Deve-se ficar atento, respeitar a dor da amiga – mas não se impressionar demais com o seu tom indignado, com o ar meio apoplético e cheio de ansiedade, com a postura o seu tanto esforçada
    e ridícula. Essa é uma dor minúscula, mais aborrecida do que pungente.

    Conversando com ela, ou melhor, ouvindo-a falar, a gente sabe que pode encontrá-la no dia seguinte saindo do cartório, aonde terá ido providenciar os papéis da separação – mas essa possibilidade é remota. O mais provável será surpreendê-la saindo do restaurante com o marido, depois de brindarem a mais um ano (o difícil oitavo, ufa!) de casamento. Tudo pode acontecer.

  • A arte de malhar

    Em mais uma dessas reportagens sobre hábitos de vida, leio que a maioria dos brasileiros é de sedentários. São raros os que fazem exercícios físicos e pouquíssimos aqueles que, pelo menos, gostam de andar a pé.

    Acho isso curioso, pois o que não falta hoje são advertências sobre os riscos da inação (um sinônimo pomposo para sedentariedade). Sabe-se que ela provoca de câncer a doenças cardíacas; quando não chega a esses extremos, compromete a tão propalada “qualidade de vida”.

    Ainda assim, poucos se comovem. A se levantar cedo para andar, correr ou fazer ginástica, preferem ficar na cama, num letargo fatalista segundo o qual só se morre no dia. Ou acham que é mais provável morrer esbofando-se no asfalto, ou em cima de uma esteira rolante, do que no recesso seguro do lar.

    A verdade é que ninguém se torna adepto de atividade física por ler artigos ou reportagens sobre os benefícios que ela pode trazer. Existem almas naturalmente preguiçosas, espíritos langorosos que consideram uma violência submeter o organismo a movimentos puxados e aparentemente gratuitos.

    Vinicius de Moraes conta, numa crônica, que ele e Antônio Maria voltavam de uma farra e se depararam com um grupo de pessoas fazendo ginástica. O sol mal começava a nascer no mar de Copacabana.

    Os dois boêmios, tresnoitados e ainda sob o efeito do uísque, olharam desdenhosos os corpos que repetiam com esforçado sincronismo os mesmos movimentos. Então fizeram ali, para a vida e para a morte, o pacto solene de jamais praticar gestos repetitivos e inúteis…

    Entende-se a ironia dos dois. Para que nos devotemos a uma coisa, é preciso primeiro ver nela sentido. Ora, esse é um requisito subjetivo por excelência. O que faz sentido para uns pode parecer a outros um aborrecido disparate. Conheço gente que acha inútil caminhar cinco ou 10 quilômetros para ir a lugar nenhum. Só andam por necessidade, e com um objetivo bem definido.

    Uma coisa é flexionar os braços e as pernas carregando tijolos nas construções, manuseando máquinas nas fábricas, transportando papéis nos escritórios. Outra é realizar esses movimentos para nada. Muitos não veem sentido em tal gratuidade; outros acham que essa agitação “inútil” restabelece o corpo e gratifica o espírito.

    A ginástica, a caminhada, os exercícios de modo geral inscrevem-se naquela “finalidade sem fim” de que nos fala Kant. Por essa ótica, aproximam-se da arte. A arte é gratuita, não visa a nenhum objetivo prático; solicita-nos a contemplação, e em troca nos dá Beleza.

  • A visita

    É domingo e ele vai à casa de um tio. Não gosta de visitas familiares, mas nem sempre é possível evitar. Para aumentar o desconforto, o fato de desprezar tais encontros já é motivo de culposos sentimentos – e o menino sofre duas vezes. Primeiro consigo mesmo, devido a essa intolerância aparentemente inexplicável e injusta – sobretudo injusta; depois pela ocasião mesma do encontro, confusão de afagos e venenosas ironias. E sempre o mau jeito, ou o pejo, de revelar ao menos por indícios o amor.

    Talvez a prévia decepção é que se converta em hostilidade, de que ele no fundo queria desarmar-se para se abrir à necessária ternura. Necessária, possível. Por que era sempre mais fácil com os estranhos?

    É domingo e o menino vai. Entufado, mais menino do que nunca, engolfado em mágoas que não consegue explicar (nem direito sentir!), vai ao dever social como para um sacrifício. Vai compor as aparências mas, por que negar?, vai também pela curiosidade de se ver pelos olhos e gestos e tiques dos que lhe são carne e sangue. Acaso ele era melhor? Vai como quem tenta, mais uma vez, descobrir o caminho que leva à aceitação, para umidificar o deserto interior em que há muito vinha se crestando.

    E vai até como quem se arrepende de ter criado o drama – ele, o imaginoso e difícil –, os fios e nós cegos que acabaram enredando-o numa teia de incompreensão e espanto. Queria desatar-se, respirar.

    No caminho se conversa risonhamente sobre tudo, a euforia dominical tornando os parentes camaradas. Faz sol, venta um pouco, e todos (o menino também) parecem transfigurados pela força dessa manhã. Agora não é ocasião de mágoa ou medo; agora é para esquecer o ranço dos anos, a indelével inscrição na carne, na alma. Agora é como um entreato que faz parte da encenação mas desobriga as pessoas do papel – isso que foi se convencionando devagar, e com força, ao longo do tempo. Agora parece um instante gratuito, autônomo, do qual emerge um estranho desejo de absolvição.

    Quando chegam à casa do tio, ainda estão inebriados. Vem o parente que se tornou distante e manda todos entrarem. Nem precisava. Respondendo e perguntando, era mui cordato o dono da casa; ficava-se bem à vontade. Ele estava entre os humildes da família e vivia essa condição com uma alegria que poupava aos outros o remorso. Sua casa devia ser lugar de concórdia. O menino se penitencia por não ter lembrado isso, confundindo um manso, uma ovelha boa, com alguns os parentes maus.

    Sentam-se todos e se põem a conversar. Lembranças vêm à tona, e o domingo retrocede a outros cenários; a família curte uma espécie de saudade jovial. Tudo leve, sem sombras. Mas não por muito tempo. De repente salta o comentário suspicaz e malévolo de alguém vigilante:

    — A mulher dele, cadê? (A mulher desse tio, realmente, ainda não dera as caras.) Será que não quer ver a gente?

    A insinuação fica no ar como um pássaro tentador que logo os parentes, vorazes, se apressam em segurar.

  • História arcaica

    Essa história aconteceu no tempo do ronca, quando o recato das moçoilas era-lhes o maior trunfo para os casórios. Quanto mais pudibundas, mais candidatas à celebração nupcial. Daí que se esmeravam em ostentar um ilibado comportamento em sociedade; quando iam às tertúlias, era na companhia das genitoras ou de alguém a quem incumbia vigiá-las.      

    Conta-se que um mancebo sem eira nem beira intentava namorar uma dessas donzelas de truz. Para isso usava toda a sua léria, mas o pai da moça se opunha por achar que ele era um mandrião. Não se ocupava em nada que lhe trouxesse algum tipo de estipêndio.  O moço pretendia convolar de estado civil – mas como, se mais parecia um mequetrefe?

    O pai então lançou-lhe um repto: ele casaria com a sua filha se jungisse a tal desiderato a demonstração de que não era um soez.

    – E o que devo fazer? – quis saber o rapaz. 

    – Deves dar-me a prova de que tens futuro. 

    Em meio a tão escorchante desafio, o moço foi aos poucos sentindo gorarem-se-lhe as pretensões. Não era nenhum abilolado e percebeu que o queriam apartar da contenda.  Caminhou a esmo na noite até que, esfalfado, resolveu tomar um pifão. Quando a ebriedade lhe turvou o bestunto, dirigiu-se à casa da moça.   

    Postado em frente à alcova onde ela dormia, encetou uma elocução:

    – Não tenho prebenda, mas não sou nenhum sorrelfa. Juntos viveríamos com parcimônia, mas não à míngua. Juro-to.

    A moça, já adormecida, despertou num sobressalto. Colocou furibunda o corselete, que preferia ao califom, e foi até a janela:

    – Arreda-te, doidivanas. Não vês que nada ganhas com tais ululações? Além disso, tiraste-me dos braços de Morfeu.

    – Morfeu?! Então tens outro… Por que não me falaste? – gorgolejou o rapaz, já pensando em cascar a marreta. Mas logo tirou da cabeça essa ideia, pois no fundo era um poltrão.   

    – Se não sabes quem é Morfeu, com isso apenas provas a tua estultice. E dás razão a meu pai… – continuou a moça. Dito isso, fechou com estrépito a janela.

    O rapaz foi embora achando-se um alarve. Ainda pensou em ir até uma botica comprar um sanativo que lhe diminuísse a coita. Ao mesmo tempo, contudo, sentia-se ditoso por haver descoberto a traição. Melhor saber-se guampudo agora do que depois.

  • “Influencers” e que tais

    O ser humano tem dificuldade de pensar ou agir por conta própria. Necessita de quem o oriente, sugira um roteiro seguro nos descaminhos da vida. Essa característica da nossa espécie é que propicia o aparecimento de orientadores espirituais ou guias de comportamento.

    Não falta quem se aproveite do nosso natural desemparo para nos vender fórmulas ou manuais de conduta, nos quais estaria a chave para a conquista da felicidade. Só que esse caminho não existe fora de nós; deve ser construído por cada um. Nenhum guru conhece das pessoas o que elas intimamente são, por isso não pode apontar a ninguém o caminho que as faça felizes.

    Geralmente os que se dispõem a isso cobram bem pelos conselhos — o que é compreensível; ninguém, afinal, valoriza o que lhe é dado de graça. O problema é que eles ganham por vender aos outros ilusões. Pode-se alegar que muitos preferem mesmo se iludir a enfrentar a dura crueza da vida. Querem que lhes ditem os caminhos, livrando-os da difícil tarefa de fazer escolhas. Há nisso, porém, um grande risco; o medo de se perder pode acabar deixando-os na dependência de algum perdido.

    O mundo digital fez aparecer uma nova modalidade de guru — o “influencer” (grafado em inglês para dar mais prestígio). Que vem a ser ele (ou ela)? Como o nome diz, é uma pessoa que se propõe a nos influenciar em algum domínio do saber ou do comportamento. Também (ou sobretudo) pretende nos orientar quanto às escolhas de consumo — o que comprar, de que marca, quando enjoar de um produto e partir para outro. O “influencer” se aparelha para nos ditar o que devemos fazer (e como) a fim de adquirir habilidade em determinado setor e conquistar o almejado sucesso.

    “Sucesso” é uma palavra-chave no vocabulário deles. Não bem-estar, ou felicidade, mas esse termo que bem resume os anseios de quem vive numa sociedade competitiva e marcada por signos de ostentação como a nossa. O sucesso é um emblema exterior; dimensiona-se mais pelo que o indivíduo aparenta do que pelo que ele é.

    A internet, se não criou, multiplicou o número de indivíduos com essa função. Há “influencers” para todos os gostos (e desgostos). Eles querem sentir por nós, mostrar que a insatisfação com a qual levamos a vida
    decorre de não termos despertado para as atitudes corretas a tomar — atitudes essas que só eles conhecem.

    Não descarto a possibilidade de que haja entre pessoas dessa estirpe as bem-intencionados. As que se comprometem com uma causa, mesmo sendo ela a do enfadonho politicamente correto. Mas fico com o pé atrás. Não suporto a ideia de que tirem do homem a maior riqueza que ele tem — a de pensar por si mesmo.

  • A idade do bobo

    A idade do lobo é a expressão com que se costuma designar a andropausa. Não sei por que foram escolher o lobo como referência para esse delicado período, que se traduziria melhor por meio de um bicho menos feroz. Geralmente nessa época o indivíduo tem pouca coisa de lupino; está mais para cágado, coruja, caramujo ou qualquer desses animais estáticos e meditabundos.

    Talvez a analogia com lobo venha da tristeza uivante com que ele vê o desejo indo embora. Não propriamente o desejo, que esse não se extingue nunca, mas a plena possibilidade de satisfazê-lo. Os uivos seriam uma demonstração de desespero impotente, um ganir melancólico de quem sente a aproximação da morte.

    Há quem diga que a designação de “lobo” deve-se a que o crepúsculo da libido se reveste de uma aparência oposta. Por uma espécie de compensação, o indivíduo se tornaria agressivo e conquistador. Perseguiria com insaciável ousadia as mulheres mais novas, lembrando nisso um lobo faminto à cata de ovelhas.  E quanto mais tenras, mais apetecíveis.

    Acredito que tanto a melancolia quanto a afetada hipersexualidade justificam a denominação. E que por esse último aspecto a Idade do Lobo comumente se transforma em idade do bobo. Nada haveria de grave se o indivíduo sofresse o seu banzo de forma recolhida, aceitando com superioridade e compostura o arrefecer do desejo e (o que mais dói!) a indiferença das mulheres.

    Mas o comum é ele descambar de lobo para bobo, o que só tende a piorar o quadro. É típico do processo, por exemplo, interpretar como sinal de correspondência ao seu olhar faminto um simples sorriso ou um gesto despretensioso de carinho. Isso o faz deveras sofrer, pois é próprio das mulheres novas sorrir muito e ser naturalmente carinhosas (as maduras são mais sérias).

    Cada sorriso, cada aceno de voz gentil deflagra nele uma paixão. Só muito depois, diante do espelho, ele compreende que aquela meiguice tinha alguma coisa de filial. Fora tratado, por deferência à idade, como uma espécie de pai. Ou pior: de tio. Quando se dá conta disso, seus uivos se tornam mais tristes.

    O limite da idade do bobo pode ser o extremo ridículo ou um recuo tático rumo às atividades do intelecto e do espírito. Uns fazem poemas, outros se voltam para a filosofia (filosofar, como alguém já disse, é aprender a morrer) ou se tornam adeptos de alguma religião. Se nada mais esperam do corpo, que pelo menos se salve a alma.

    Mas há os que se recusam a cair na real. E podem, nesse cultivo de paixões impossíveis, até chegar à tragédia. São bobos tristes, terminais, que tingem os cabelos – e a careca – para disfarçar os efeitos do tempo. Em vão.

  • Do cochilo

    Admiro quem tem o hábito de tirar um cochilo durante o dia. Comigo isso é difícil, e presumo que o motivo seja a falta de hábito. Segundo os médicos, tirar a soneca diária faz bem e — o mais curioso — não atrapalha o sono noturno. Entre as suas vantagens, pelo que li numa rápida consulta à internet, estão a melhora da atividade intelectual, a redução do estresse, a maior eficiência dos batimentos cardíacos e o aumento do bom humor.

    Esse último efeito é o que mais aprecio, tendo em vista o mau humor que atualmente impera, sobretudo, entre os habitantes das grandes cidades. A violência, as dificuldades econômicas e o atropelo urbano vêm espicaçando os nervos das pessoas, que tendem a se tornar intolerantes e agressivas. Não lhes faria mal parar por alguns instantes e se deixar embalar por Morfeu, cujas virtudes hipnóticas são ressaltadas desde a mitologia.

    A hora ideal para isso é depois do almoço, pois nesse momento o processo da digestão ajuda. Sabe-se que, após as refeições, aumenta o nível de potássio no organismo. Esse mineral, segundo li, “pode influenciar o sono de forma indireta ao contribuir para o relaxamento muscular e a regulação da pressão arterial”. Segundo ainda a matéria, isso “é parte de um mecanismo homeostático que busca manter o equilíbrio eletrolítico do organismo”. Coisa séria e necessária, como veem. Do aumento desse mineral não se escapa, bem como do efeito sedativo que ele provoca.  

    O governo deveria então estimular o hábito da sesta, instituindo algo como o Auxílio-Cochilo ou oferecendo dedução no Imposto de Renda a quem provasse que tira uma soneca de pelo menos meia hora depois de almoçar. Não era preciso que o País parasse, como ocorre em certas partes da Europa, mas a medida concorreria para uma melhor convivência entre seus habitantes — vários deles com o inevitável déficit de sono decorrente das inúmeros exigências da vida moderna.

    Mas é preciso ponderar que, para fazer bem, o cochilo tem que ter hora e, sobretudo, ser voluntário. Cochilar na hora errada, e quando não se quer, pode ser prejudicial à pessoa. O povo, que sabe das coisas, traduz essa verdade no conhecido ditado de que “cochilou, cachimbo cai”. O sentido é um tanto metafórico, eu sei, mas não deixa de se aplicar aos que literalmente adormecem e se subtraem aos deveres impostos pela realidade.   

    Nas estradas, por exemplo, o cochilo pode ter consequências letais. São muitos os acidentes provocados por quem dirige tresnoitado ou depois de uma gorda refeição.  Em nível de menor gravidade, não são poucos os indivíduos que dormitam no cinema e perdem as melhores partes do filme. O fato de suas mulheres beliscá-los quando começam a roncar não resolve em definitivo o problema; algum tempo depois, o potássio os leva a embarcar no sono de novo.

    O cochilo pode ser também um sinal de enfado diante de algo que aborrece ou amofina. Na impossibilidade de rechaçar de maneira explícita a experiência maçante, a pessoa fecha os olhos e, digamos, escapa para dentro de si. Espero que não seja essa a reação do leitor diante deste texto, mas, antes que boceje, acho que chegou a hora de colocar um ponto final.

  • CASO SÉRIO

    – Pai, urge que o senhor aumente a minha mesada.

    – “Urge”?!  O que é isso?

    – A professora de redação ensinou que a gente deve dizer “urge”. Tem mais força do que “é preciso”, “é necessário”. Parece, tipo assim, o rugido de uma fera. URRRGEEE!

    – Calma, tudo bem. Não precisa me morder. E pra que é que você quer mais dinheiro?

    – Vou fazer o Enem, não vou? Preciso ler, me informar. Destarte…

    “Destarte”?

    – Sim. Destarte, dessarte… A professora falou que é melhor do que “então”, “logo”, “diante disso”. Ela quer que a gente arrase na prova. E quer, outrossim, um pouco de fama para ela também, claro.

    – “Outrossim”?

    – O senhor não conhecia?

    – Não. Conhecia “outro não”. Era o que eu ouvia de sua mãe toda vez que lhe pedia um beijo. Ela dizia: “Outro não, Valfredo. Por hoje basta.”.

    – Ah, pai, o senhor é mesmo ignorante. Não é “outro sim”; é “outrossim”, entendeu?

    – Não estou vendo diferença, mas entendi. O contrário, então, deve ser “o mesmo sim”. E não outro!

    – Caramba! Achei massa essa história do beijo. Então ela lhe dava um fora… Que sádica! E o senhor, entrementes, o que fazia?

    – “Entrementes”? Deixe eu ver… Primeiro preciso saber o que é “entrementes”. É alguma coisa como “escorraçado”?

    – Nada a ver. Significa “nesse espaço de tempo”.

    – E por que você não falou isso?

    – Porque a professora disse que “entrementes” impressiona mais. 

    – Nesse caso, pode entrementar à vontade. O importante é que você arrase na redação.

    – Esse é meu desiderato.

    – Como?

    – “Desiderato”, “vontade”, pô! Também o senhor não saca nada da língua portuguesa!

    – Desculpe, ando meio desatualizado. Embora, aqui pra nós, esses termos que você está usando sejam um tanto serôdios.

    – “Ser” o quê?

    – Serôdios! Sua professora não mandou você usar essa palavra no lugar de “antigos”? Se ela ainda não fez isso, vai fazer. Com certeza.

    – Epa! Nada de “com certeza”! É “indubitavelmente”. E sabe de uma coisa? É mister que eu não converse mais com o senhor.

    – “Mister”?!

    – Isso mesmo. E não fale mais da minha professora, viu? Não quero ouvir. Se fizer isso, que seja à sorrelfa.

    – “Sorrelfa”!? Essa também veio da professora?

    – Negativo. É contribuição minha mesmo. Pesquei no dicionário para fazer uma surpresa a ela.  

    – “Sorrelfa…” Socorro, Alaíde! Vem cá ouvir teu filho. Alguma coisa muito séria está acontecendo com ele!

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