Coluna ‘Falou e Disse’ por Chico Viana

  • Lição

    Antes de sair, ouviu as recomendações da mulher: “Não beba muito, não se afaste dos amigos, não entre em bloco de mal-encarados… E sobretudo não se meta com nenhuma periguete” — arrematou ela com um sorriso entre malicioso e repreensivo.

    — Tudo bem… Não vou fazer nada disso.

    Lá fora, a turma o esperava para cair na folia. Etiquetou um beijo nos lábios da mulher e, saltitante, deixou a casa. Com os amigos, sentia-se mais animado. Iriam não se sabia para onde, pois no Carnaval ninguém tem rumo certo. Seguiriam os blocos, parando vez por outra para entrar nos bares. Sempre se encontravam por essa época e aproveitavam para matar as saudades. A turma era de velho conhecidos e havia muito o que lembrar.

    Passou o tempo em que eles se permitiam loucuras numa ocasião como essa, mas ainda assim era bom estar juntos. Divertiam-se falando das estripulias de anos atrás: “O dia em que Pedrinho vestiu calcinha em vez de cueca e mostrou pra rodo o mundo…”; “E quando Lopes, de tão bêbado, entrou no banheiro das mulheres… Lembra?”.

    Ao embalo da conversa, ele começou a esquecer o que a mulher lhe pedira. Bebia além da conta. Também, ela era meio exagerada! Mantinha-o na regra o ano todo. Que custava no Carnaval dar uma relaxada? Pediu outra caipirinha, ao mesmo tempo que recitava para os outros a sua máxima preferida: “A noite é criança”. Nunca entendeu bem a lógica dessa frase, que lhe soava como uma justificativa para os excessos. Era o “carpe diem” dos boêmios, alguma coisa como: “é preciso aproveitar a vida, e a vida está na noite”.

    Vinha um bloco. Ele começou a tamborilar na mesa, depois ficou em pé e se pôs a pular. Não resistia ao apelo da música e dos corpos que se comprimiam dentro do cordão. Tanto é assim que aproveitou o pretexto de ir ao banheiro e se deixou levar pela turba. Aderia à festa com uma inexplicável ânsia de fugir, perder-se, romper as amarras.

    Quando os amigos deram pela sua falta, ele já havia enlaçado uma morena de bustiê e saia curta que pareceu lhe dar bola. Pelo menos foi isso que o atordoamento do álcool o fez supor. Só percebeu que se enganara quando, ao tentar dar um abraço na garota, sentiu nas costas uma pancada aguda. Ao se virar, levou no rosto um soco que o faria cambalear se houvesse espaço para isso. Nunca soube como conseguiu se desvencilhar da massa e voltar à mesa, onde os amigos o esperavam com ar preocupado.  

    — Onde você estava, cara? E o que foi isso no seu rosto? 

    — Nada — respondeu, estranhamente sóbrio. — Um sujeito, em vez de acertar a baqueta no tambor, acertou na minha cara.

    — A gente já estava pensando como ia dizer a Leonor que você sumiu.

    Leonor era a sua mulher. Se ele demorasse mais, certamente teriam tido a ideia de ligar para ela. A mulher ia então querer saber por que ele não seguira suas recomendações. E o diabo é que ela estava com a razão! Passou a mão no rosto, que ainda doía, e pediu mais uma dose. Queria se embriagar de novo, e dessa vez não haveria bloco que o levasse dali.

  • CRISES

    As crises são produtivas e mesmo desejáveis. Precisa-se delas para crescer. Isso é verdade tanto para a História quanto para os indivíduos. Historicamente, a períodos de crise sucedem outros de euforia e progresso (os pós-guerras atestam essa verdade). No que diz respeito às pessoas, há relatos de crises que ensejaram profundas mudanças existenciais.

    O problema é quando elas se tornam frequentes e mesmo viciosas. Há quem se acostume a viver em conflito consigo mesmo e cultive com certa morbidez o mal-estar que isso traz. Para gente assim, os momentos críticos não são estágios para o amadurecimento pessoal; persistem como uma espécie de segunda natureza. 

    Tenho um amigo assim. Sempre que conversamos, ele diz que está insatisfeito com a vida e se preparando para mudanças radicais. Ora pretende largar o emprego, ora se dispõe a deixar a mulher (que nunca deixa, por medo de ficar sozinho). Quando lhe pergunto quais seriam os novos planos, ele não sabe responder. Quer dar uma guinada na vida, mas ignora em que direção.

    As conversas com ele me lembram o adolescente que fui – cheio de dúvidas e temeroso do futuro. Com quem namorar? Que carreira seguir? Que amigos cultivar? Questões como essas não raro me tiravam o sono, mas na adolescência isso é natural. Está-se numa encruzilhada quanto a escolhas que vão repercutir no restante da vida – e sabendo muito pouco do que a vida é. Vivenciar tal paradoxo, convenhamos, precipita qualquer um no torvelinho da crise.     

    Às vezes esse emaranhado de indecisões persiste em estágios posteriores, chegando à idade adulta e se projetando na velhice. Geralmente quem passa por isso diz que ainda não se encontrou (é tão longo esse “ainda”, que faz pensar em “nunca”). Quando enfim se dará esse encontro, para o qual a pessoa parece não estar (ou não ser) preparada?

    Meu amigo fez análise, mas depois de algum tempo desistiu. Espirituoso, me disse que seu problema não é o inconsciente, mas excesso de consciência. Esse diagnóstico pode ser interessante como jogo de palavras, mas encobre um ceticismo que beira a desesperança. Se ele rejeita a análise mas não consegue se livrar do pessimismo renitente, que procure outra alternativa. No limite, mesmo autojuda pode servir – desde que seja com fé.

    Faz dias que não nos vemos, mas sei que ao reencontrá-lo vou me deparar com o mesmo semblante sombrio e as velhas queixas. Ele me falará de suas novas deliberações e me pedirá que opine sobre elas. De que adiantaria opinar? Quem não consegue ouvir a si mesmo não vai querer ouvir os outros. Mas serei complacente quando ele começar, como das outras vezes: “Rapaz, agora é sério! Nunca estive tão mal…”.  

  • Carnaval e Solidão

    “Festa do pecado” – foi com esse tipo de rótulo que o Carnaval, desde cedo, apresentou-se à minha imaginação. Falava-se nele como “festa da carne”, alegria dos baixos instintos, frenesi do demo. Por isso eu sempre o recebi com uma ponta de remorso. Brincar o carnaval era transgredir não sei que piedosas regras, era se comprometer com o inferno. O corpo gozava, mas esse prazer de poucos e efêmeros dias acabava tendo um preço.

    No entanto o Carnaval não é apenas gozo do corpo, prazer dos instintos. Comporta uma outra dimensão, cheia de fantasia e sonho, alimentada pelo dramatismo de paixões que entristecem e dilaceram. Em cada folião ou foliã anônimos, sonhando nas esquinas sombrias com o próximo parceiro, reflete-se a paixão transfigurada de Pierrô, Colombina e Arlequim. Ninguém admite que saia à rua apenas para brincar – pelo contrário: a brincadeira é também esperança de algo maior, transcendente. É o sonho de uma grande paixão, o desespero fantasiado em riso.

    Dos autores que escreveram sobre essa festa, um dos que mais me impressionaram foi João do Rio. Há em suas crônicas e nos seus contos o sentimento do homem dividido entre a alegria e o remorso, e para quem o prazer físico é uma emoção torpe. João do Rio retrata a belle époque, tempo de crise e subversão de valores no qual as contradições, por mínimas que fossem, ganhavam um acento patético. Mesmo descontando-se os exageros da época, ressalta de seus textos, colorida e potencializada pelo impressionismo do estilo, a velha oposição entre carne e espírito, que comumente vem à tona numa época como a de agora. 

    E lá estão, nos textos do carioca, personagens ansiosos por mergulhar na noite, perder-se na devassidão e no abismo de outros corpos. Vão arrependidos, exalando em palavras de autocomiseração e tédio o odor de seus baixos instintos. Até que são punidos por uma espécie de logro que lhes é dado pelo objeto de desejo, que se apresenta horroroso e hediondo.

    Assim, por exemplo, a mulher mascarada e aparentemente linda revela-se, quando lhe arrancam a máscara, doente e disforme. Não é uma Vênus, como parecia; é um aleijão, de cujo nariz jorra pus. Por essa deformação estética, que frustra qualquer possibilidade de satisfação física, corrige-se um desvio ético e revela-se, ao mesmo tempo, o moralismo do autor. O esnobe e homossexual João do Rio, tão criticado pela sociedade da época, não passava de um moralista severo.

    Mas o nosso tempo é outro, bem mais prático e comercial. Longe estamos dos excessos da belle époque. Hoje é o governo que alardeia preocupação com a nossa saúde venérea, incitando-nos ao uso da camisinha. O pecado é não se prevenir, ficar doente, mas não é errado transgredir os limites do corpo. Este parece aberto a todo tipo de prazer. E a virgindade vale muito pouco.  

    Mesmo assim o Carnaval ainda preserva o romantismo de outros tempos. É falsa, mesmo na permissividade da folia, a alegação de que ninguém é de ninguém. Para além do corpo que se oferece, em riso lúbrico e escancarado, sonhamos com alguém que venha e não vá embora. Alguém que fique e nos socorra depois – quando a lembrança do gozo desfeito não for mais que uma evidência de solidão.

  • A nota

    O maior risco da interpretação está em o intérprete ver no texto o que ele não tem. A essa prática, dá-se o nome de superinterpretação. Superinterpretar é ir muito além do que está dito. É propor intenções,  sugestões, duplos sentidos onde o que se evidencia não passa muitas vezes de mediocridade semântica. Isso pode ser feito de boa ou de má-fé.

    Um bom exemplo da segunda forma é a correção que certo professor fez ao texto de um estudante que “precisava passar”. O tema da redação era “a amizade”, e o aluno escreveu apenas o seguinte: “Num tô afim de falá disso agora, pô. Tô sem ninguém.”

    O mestre lhe deu 9,5. Convocado à diretoria para se explicar, redigiu o seguinte comentário:

    “O texto é sintético, ou seja, não revela o pecado da verborragia. A economia de meios expressivos se constitui num importante fator de coerência, pois o excesso de palavras não combinaria com a resolução do aluno em não escrever. Essa atitude de recusa, em que se percebe um misto de tédio e rebeldia, determina o minimalismo que orienta toda a redação.

    “Vejamos algumas provas disso. O advérbio ‘não’ é trocado por ‘num’, bem mais incisivo devido à ausência do ditongo. Com um ‘não’ é possível negociar; com um ‘num’ — abusado e peremptório — jamais. Merece também realce a troca de ‘estou’ por ‘tô’, em que a aférese (supressão de fonemas iniciais) reforça a propensão ao tartamudo, ao pontual, ao monossilábico, própria de quem não quer muita conversa.  

    “A seguir vêm duas infrações à norma culta que, no entanto, se tornam funcionais no contexto de rejeição instaurado desde as primeiras linhas. A troca de ‘a fim’ por ‘afim’ (um erro de morfologia) justifica-se pela intenção de condensar o sentido dos homônimos. É como se o valor de finalidade, contido na locução adverbial, se enlaçasse à ideia de afinidade presente no adjetivo, numa espécie de fusão fonossemântica que procura destacar a indisposição afetiva. O aluno parece dizer, com ceticismo: ‘Não estou a fim de um afim’, ou seja, de alguém com quem tenha amizade.

    “A indisposição também explica a forma verbal “falá”, pois a presença do ‘r’ sugeriria uma vibração em nada condizente com o ânimo do autor (de uma exasperada contundência). Tal ânimo se confirma no uso do monossílabo de teor exclamativo que aparece no fim do período: ‘pô’. Esse pô, de natureza coloquial, destaca a função conativa da linguagem e acentua a dramaticidade da negativa.

    “No segundo período repete-se a aférese (Tô), mas agora seguida por uma expressão em português correto (sem ninguém). Nessa parte do texto, de um confessionalismo despojado, o aluno explica suas razões. Percebemos que suas omissões e deslizes se devem a ele estar sozinho e, nesse estado, não ver sentido em escrever sobre a amizade. Compreendemos então que a rebeldia que perpassa o texto foi determinada por razões existenciais, as quais encontraram um correlato perfeito nas escolhas linguísticas. Essa é a explicação para a nota alta que lhe dei.”

    O aluno passou. O professor, claro, perdeu o emprego. Algum tempo depois, foi contratado pelo jornal da situação. Dizem que sua principal função lá é fazer a crítica dos poemas do governador.

  • A palavra mais bonita

    Li há algum tempo uma pesquisa sobre a palavra mais bonita da língua portuguesa. Muitos levaram em conta apenas o conteúdo e responderam “amor”, “ética”, “democracia”, “credibilidade” e semelhantes.

    Essas são palavras nobres, não há dúvida, pois veiculam elevados conceitos ou sentimentos. Mas os responsáveis pela pesquisa estavam mais interessados na forma. Queriam saber das palavras como organismos sonoros ou mesmo visuais. Palavras que tinham uma beleza em si.

    É claro que não se pode abstrair a forma do conteúdo, significante e significado tendem a constituir uma unidade. São como cara e coroa.

    Quando ouvimos uma palavra, automaticamente a vinculamos ao que ela significa. Mas com um pouco de imaginação é possível dissociar esses níveis; fazendo isso, captamos a beleza que elas têm. “Amor”, “ética”, “democracia”, “credibilidade”, convenhamos, são palavras pouco expressivas. Tanto é assim que não as “percebemos”; vamos direto ao que elas significam e nos damos por satisfeitos.

    Mas duvido que você vá direto ao sentido de “crisálida”, “magnólia”, “puerpério”, “sobrancelha” (a preferida de Veríssimo) e outras que retêm a nossa atenção pela densidade sonora. Isso independe do significado.

    “Palustre”, por exemplo, quer dizer “pantanoso”, mas perde o que pode respingar nela de pútrido neste verso de Jorge de Lima: “A garupa da vaca era palustre e bela” (um verso cuja harmonia fônica encantava o meu amigo Antonio Carlos Villaça, de quem o ouvi pela primeira vez).

    A pesquisa de que falei queria palavras bonitas e, com isso, testava a sensibilidade poética dos leitores. A poesia é por excelência o terreno onde impera o significante, a forma. Isso não quer dizer que se pode escrever qualquer coisa desde que soe bem. “Qualquer coisa” nunca soa bem, pois um mínimo de nexo é desejável. No entanto, mesmo desse nexo estamos dispostos a abdicar desde que a mensagem se sustente como forma. “Rosa, sublime contradição. Volúpia de não ser o sono de ninguém debaixo de tantas pálpebras” – esses versos de Rimbaud, que cito de cor, não querem “dizer nada”. Mas como são bonitos, como impressionam poeticamente! E por quê? Porque visualizamos as pálpebras como pétalas (metáfora) e, com isso, aceitamos o sublime paradoxo apontado no início.

    Augusto dos Anjos é um bom exemplo de que, na poesia, a forma conta mais do que o sentido. Muitos dos que o admiram não compreendem seus poemas, mas se impressionam com a melodia áspera de versos como estes: “Produndissimamente hipocondríaco/ Este ambiente me causa repugnância…/ Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia/ que se escapa da boca de um cardíaco.” Parece que quanto menos o “entendem”, mais o amam.

    Considerar as palavras por si (vendo-as ou escutando-as) e procurar atribuir-lhes os sentidos que parecem adequados é um bom exercício para as aulas de criação literária. Os alunos a princípio acham estranho esse processo de desautomatização, mas acabam gostando da brincadeira.

    Afinal, não deixa de ser engraçado descobrir que “jiló” deveria significar “um tipo de lagarta”; “boiola”, um molusco encontrado em água doce; e “erisipela”, uma exótica flor do Oriente.

    E agora, que tal aderir à pesquisa sobre a palavra mais bonita da nossa língua? Pensei em “sussurro”, “beneplácito”, “obnubilado”, mas vou ficar com “escafandro”. Não gostaram? Gosto não se diz, curte-se.

  • Meio sorriso

    Foi num domingo. Andando pela calçadinha da praia, vi duas moças conversando num banco lateral. Ao passar por elas, ouvi uma dizer: “O que não suportei foi aquele meio sorriso.”

    Fiquei intrigado com a expressão. “Meio sorriso”. Não um sorriso inteiro, mas a metade, se é que se pode dividir esse enigmático desenho fisionômico em dois; ele não se confunde com o riso, que é explícito e escancarado. Fiquei me perguntando se hão haveria um pleonasmo em se falar em “meio sorriso”. O sorriso por si já não é algo menor?

    Algo menor porém mais intenso, é verdade, pelo que há nele de introspectivo e superior. Quem sorri fica a meio caminho entre o riso e a seriedade, o que significa dizer que não se abandona de todo à emoção. “Mantém o controle”, por assim dizer, e desse modo pode se posicionar criticamente sobre o objeto de que (ou para o qual) está sorrindo. Talvez tenha sido isso que o tornou insuportável para a moça.  

    Não há como duvidar do que se ri, porém muito se pode especular sobre a causa de um sorriso. Sobretudo quando ele não se completa ou, sob a aparência da incompletude, esconde uma intenção que deixa quem o percebe intrigado.  

    A moça parecia mais ressentida do que raivosa. Não tive tempo de ouvir que atitude ela tomou ao se deparar com o semblante (maldoso, irônico, escarninho?) de quem tanto a aborrecera. Talvez não tenha tomado atitude nenhuma e por isso mesmo esteja agora desabafando com a amiga.

    Pensei em voltar e passar diante delas para ver se captava o resto da conversa. Não haveria nada de feio nisso. Seria, digamos, uma bisbilhotice superior, determinada pelo que eu considerava um enigma linguístico e existencial (tudo que é linguístico toca a existência). Por motivo bem mais comezinho, muitos se intrometem na vida alheia. E não ganham nada com isso, a não ser o prazer de satisfazer uma curiosidade.

    A ideia de voltar não passou de um impulso. Olhei para ver se elas ainda estavam lá; vi que estavam. A que falara no “meio sorriso” explicava (ou tentava explicar) alguma coisa à outra, que se mantinha receptiva e cordial como deve ser uma boa amiga num momento como esse.

    Segui meu caminho pensando nas contradições da vida. “Meio” faz pensar em algo que é e não é. Para os latinos, caracterizava uma postura de equilíbrio e conciliação – a chamada “aurea mediocritas”, ou mediocridade de ouro, que se constituía num ideal de felicidade. Na expressão da garota, contudo, esse termo acrescentava a “sorriso” um valor negativo. Perdia o tom pacífico e conciliador, sugerindo uma pontinha de ressentimento ou menosprezo… Coisas da vida – ou da língua.

    Por via das dúvidas, vou a partir de agora prestar mais atenção a quem sorri para mim. Desse modo vou saber se o gesto é sincero ou se é a metade falsamente radiosa de um lado escuro, que o outro não ousa mostrar.

  • De bichos exuviáveis

    O verão e as mulheres. Mestre Rubem Braga tratou longa e exaustivamente do assunto, mas quem seria capaz de esgotá-lo? Renova-se o verão e renovam-se as mulheres, sendo preciso que haja cronistas de fôlego novo para dar conta dessas explosões cíclicas. O que o Braga escreveu é definitivo, como definitivo era o que Camões registrava das navegações portuguesas – mas a época dos descobrimentos passou. Vivemos agora outro verão e nos cumpre assinalar, por dever de um ofício docemente autoimposto, o quadro que se nos depara. Com menos talento, certamente, mas não com menor empenho. E com o Braga em surdina.

    O verão e as mulheres. Para senti-los bem, é preciso imergir numa espécie de quarentena cívica e moral. Ficar de férias da vida ou, mais exatamente, de certa feição dela: a que envolve os ritos de sobriedade e rotina. Remeter-se a uma adolescência que se imaginava enterrada na vala dos compromissos roazes, voltando a existir antes de tudo em corpo. Pois o verão, sendo a mais poética das estações, vive primeiro da forma. É todo um aceno ao prazer. Daí, nele, a prevalência da cor e do tato, medidas de uma apreensão de vida basicamente sensual. O espírito se esvai, langue, e se funde com a carne. Reinstaura-se então a unidade. Na praia somos edênicos, sem pecado e sem culpa, agindo sob o império quase absoluto do sol.

    As mulheres no verão. Ei-las que saem de casa, sós ou aos bandos, como se atendessem a um chamado misterioso. O que as faz procurar a praia? Talvez a simples vaidade de esplender ao sol, afirmar com exuberância os atributos do sexo. Talvez o gosto íntimo, animal, de ativar humores, compensando a estase a que ficam submetidas no inverno e em nossa incipiente, parca primavera. Talvez a necessidade de se ensolarar e mudar de pele, como certos pássaros que precisam renovar periodicamente a plumagem.

    O verão é sensual mas não é pecaminoso; não se confunda viço com vício. Na praia as mulheres se desnudam com adequação. Pois tudo ali é explícito, não havendo o que o sol não ilumine, o mar não lave e o vento não leve. A nudez não tem a explicitude alardeada pelos filmes pornográficos, que embutem na mensagem uma intenção cafajeste. A musa da praia é a antiatriz dos filmes pornôs. Ali a nudez se amplia noutras nudezes, e a ênfase se desloca do indivíduo para o grupo. Fala-se em mulheres, no plural, e não numa certa mulher. Em desejo, abstratamente, não num objeto específico do desejo.

    O verão e as mulheres. Bichos exuviáveis, elas cambiam de pele num processo que percorre todas as gradações do dourado. Uma delas conheço que está na terceira muda e, falando francamente, penso que não deve prosseguir. Deve se recolher, moderar a febricitação interior. Sob pena de arruinar a tez, dando-lhe o aspecto fosco e dessecado que se encontra nas que perderam a medida do sol. Pois esse é o perigo no verão. O ideal seria colocá-la numa redoma térmica ou retirá-la da praia impreterivelmente às dez e quarenta e cinco da manhã – enquanto há tempo.

  • Falsa semelhança

    Eu estava numa loja de departamentos de um dos nossos shoppings, quando uma mulher se dirigiu a mim e fez a pergunta:

    — O senhor é de Jatobá?

    — Como?

    — De Jatobá?…

    — Não senhora.

    Ela riu sem graça:  

    — Pensei que fosse, pois se parece muito com Seu Edmundo da capotaria. Desculpe.

    Deu um suspiro e repetiu para si, perplexa:   

    — Se parece mesmo!

    Ainda pensei em lhe perguntar: “Em que sentido?” — pois há semelhanças e semelhanças. Umas são da fisionomia, outras da compleição, outras dizem respeito ao comportamento.

    Notei que ficou me olhando, desconfiada. Parecia não acreditar que eu não era quem ela queria que eu fosse. Antes de se afastar, ainda exclamou:

    — Puxa! 

    Vendo o seu desapontamento, tive um pouco de pena e até pensei em confirmar suas suspeitas. Não custava mentir para que ela se desse por satisfeita e me deixasse em paz. Há pessoas que não aceitam ser contrariadas nem nos seus enganos. 

    Enquanto eu esperava ser atendido pelo caixa preferencial (triste rótulo), notei que ela se detivera em frente a uma vitrine e furtivamente me observava. Imaginei com preocupação que poderia me abordar de novo.

    Chegada a minha vez, dirigi-me ao atendente sem olhar de lado. Ele me reteve mais tempo do que o necessário, propondo me passar o cartão da loja, que me daria cashback e outras pequenas vantagens. Até estimei essa conversa, que em outro momento me chatearia, pois enquanto me concentrava em recusar o assédio comercial eu me alheava dos olhares da mulher.

    Paguei e me preparei para deixar a loja. Vi que para chegar à porta passaria bem perto dela, que continuava me olhando. Tive receio de que mais uma vez me abordasse e, caso eu continuasse a negar o que me atribuía, me chamasse de mentiroso. Eu não estava com a Certidão de Nascimento nem com outro papel que revelasse o local onde nasci. Quanto à Identidade, ela poderia dizer que era falsa. 

    Antes de deixar a loja, dirigi-lhe um breve cumprimento; afinal, eu involuntariamente tinha frustrado duas de suas expectativas. Mal saí, ouvi atrás de mim uma voz chamar, num tom grave:

    — Edmundo!

    Virei-me, assustado, e o sujeito que falara isso pediu desculpas; confundira-me com alguém.  

    — Tudo bem — eu disse.

    Curiosamente, isso reforçou em mim a desagradável sensação de que um sujeito chamado Edmundo, e residente em Jatobá, se parecia muito comigo. Torço para que seja um homem correto e confeccione bem as suas capotas; que não dê calote nos clientes, não bata na mulher, não agrida os motoristas no trânsito, enfim, não faça nada que o leve a ser procurado pela polícia. A semelhança entre nós representaria para mim um risco.  

    Antes de seguir em frente, olhei meio sem querer para a mulher. Parece que ela não ouvira o pedido de desculpas, pois me fitava com um ar entre aliviado e triunfante. O ser humano procura em tudo um parceiro, um cúmplice, e ela parecia satisfeita por demonstrar que não fora a única a me confundir com outra pessoa.

  • Para além do clichê

    Muito já foi dito sobre a atitude de Gerson de Melo Machado, morto recentemente por uma leoa na capital paraibana. O inusitado do seu gesto, no entanto, faz com que sempre haja algo mais a dizer. Gerson comentava com uma conselheira tutelar que queria ser um domador de feras. Disse-lhe que “ia pegar um avião pra ir pra um safári na África para cuidar dos leões…”. No afã de realizar esse intento, chegou a cortar uma cerca e entrar no trem de pouso de um avião da Gol; as câmeras do aeroporto impediram que o pior acontecesse.

    Filho de mãe esquizofrênica e neto de uma avó com problemas mentais, ele tinha na genética um inimigo. Presa de mais um delírio, encenou o último ato do seu drama (ou tragédia) aqui em João Pessoa. Imaginou que a Bica fosse um circo e se propôs a domar um dos felinos lá existentes. Queria pôr em prática o que durante anos acalentou como um desejo infantil. Numa espécie de transposição entre fantasia e realidade, o domínio sobre os animais seria uma metáfora para a vitória sobre as “feras” que interiormente o consumiam.

    Acabou, sem querer, transformando o Parque Arruda Câmara em local de um espetáculo tenebroso. Os turistas e demais visitantes depararam-se com o que não imaginavam encontrar num lugar dedicado à recreação e à momentânea fuga ao estresse da cidade (mais de uma vez levei lá meus netos, que se encantavam com a fauna e a flora diversificadas).

    Há algum tempo um leão circense arrastou uma criança que se aproximara da jaula e a matou. Falou-se então em negligência dos responsáveis pelo circo, também dos pais, e houve até processo. O dono do empreendimento chegou a sofrer um ataque cardíaco. Agora a situação é outra, pois a vítima se ofereceu à sanha do felino. Leona, como toda fêmea, era ciosa do espaço que lhe cabia guardar – e mal esperou que o invasor tocasse o solo.

    Sabe-se que Gerson adoeceu devido a genética e desamparo. Destituído do poder familiar da mãe, fora impedido de ser adotado – diferentemente do que ocorreu com os quatro irmãos. Passou diante disso a ter um comportamento erradio e marginal, o que mais ainda dificultava a sua adoção; família alguma queria receber alguém como ele. A sociedade não lhe deixou então saída. Seu gesto foi produto de negligência, não da administração da Bica, mas de todo um aparato social que o condenou ao abandono.

    “Atirar-se na boca do leão” é uma expressão figurada com que se designa a atitude suicida de alguém. Ninguém espera que esse clichê tenha um sentido literal, mas por vezes a sociedade se encarrega de tornar realidade o que, por absurdo ou inverossimilhante, a linguagem reserva ao domínio das figuras. Isso pode ocorrer no plano do horrendo e também do sublime. Pode nos conceder enlevo ou estupor. Num e noutro caso, encoraja-nos a repensar sentimentos e valores, e nos conduz a uma mais ampla percepção de nós mesmos.

    Gerson deu consistência real a uma imagem horripilante, que nos remete à selva de onde presumivelmente evoluímos. Com essa atitude, fruto de insensibilidade e rejeição social, ele mostrou o quanto ainda há de primitivo em nós. Depois do que fez, é impossível mencionar aquele clichê linguístico sem evocar o seu tresloucado gesto.

  • O colecionador de palavras

    O hábito começou muito cedo. Dizia “papá” e “mamã” com um prazer especial em jogar com as sílabas. “Pa… pá”, “mã… mã” –  os sons iam e voltavam até que ele os guardava para depois, quando quisesse, brincar de novo. Com o tempo foi juntando outros fonemas (“bu… bu”, “pi… pi”, “tó…tó”). Um dia teve febre e ouviu “dodói”; enamorou-se da palavra e ficou repetindo-a em seu delírio.   

    Cresceu e foi refinando as escolhas. Agora prestava atenção não apenas aos sons, mas também ao casamento que havia entre eles e o sentido. Às vezes a união lhe parecia perfeita, como em “croque” (sentia o atrito de um fonema no outro), “bafo” (a palavra terminava num sopro) ou “empecilho” (pronunciar essa foi um obstáculo que venceu a duras penas).

    Noutras vezes, achava que palavra e som eram como estranhos. “Erisipela”, por exemplo. Ficaria bem para designar um metal precioso (“Usava um colar de erisipela legítima”), mas não para indicar uma doença. O mesmo se diga de “faniquito”, que mais parecia nome de passarinho (“Na manhã clara e ensolarada, faniquitos em bando cortavam o azul do céu”). Teve pena da tia por ela sofrer de uma doença cujo nome não combinava em nada com as ulcerações que havia em suas pernas.

    Descompassos como esse lhe deram uma vaga ideia das incoerências do mundo. Havia palavras bonitas para coisas feias e palavras feias para coisas bonitas, assim como havia pessoas lindas com uma alma escura, e outras, de rosto nada atraente, com um espírito luminoso. O mais das vezes – foi aprendendo – o nome era uma falsa aparência das coisas. Isso não o levou a desistir da coleção, só que agora ele tinha um critério; passou a dividir as palavras conforme a semelhança que tinham com os objetos ou seres que designavam.

    Agrupou de um lado, por exemplo, “sanfona”, “crocodilo”, “miosótis”, “turmalina” (se bem que essa mais parecesse nome de mulher) – e do outro “presidente”, “cadeira”, “promotor”, “recurso” (palavras que não excitavam a língua e que a gente, quando as ouvia, não tinha a curiosidade de saber o que significavam).

    À medida que envelhecia, tornava-se mais exigente com a sua coleção. Algumas palavras lhe pareciam insípidas, por isso ele resolveu esvaziar parte do baú. Uma das primeiras que jogou fora foi “jucundo”, cuja hipocrisia não mais suportava (parecia designar algo triste, mas significava “alegre”). Trocou “jucundo” por “meditabundo”, palavra mais honesta e de acordo com seu atual estado de espírito. Jogou fora também “vagar”, “flanar”, “leviano”, e por pouco não se livrava de “paciente” (“prudência”, que ia substituir a outra, aconselhou-o a esperar mais um pouco).

    A coleção agora tinha pouquíssimos vocábulos, mas cada um pesava tanto que o homem não conseguia transportar o baú. Deixou-o embaixo da cama e nele foi inserindo, sem muito entusiasmo, as palavras que ainda o impressionavam (sabia que, se parasse de colecionar, morria). Um dos novos termos foi “achaque”, que vagamente lhe soou como uma dança fúnebre de tribo africana (riu ao perceber que ainda tinha imaginação poética).  Outro foi “próstata”, que lhe pareceu o som de uma chicotada (ta-ta). E um dos últimos foi “tumor”, que ele sem graça botou no lugar de “humor”.

     Depois que morreu, os amigos e parentes ficaram intrigados com aquele baú embaixo da cama. Abriram-no e nada encontraram em seu interior. “Ele era meio tantã”, comentou a mulher. “Passava horas diante desse baú vazio.” Resolveu guardá-lo, como lembrança, e aos poucos foi metendo nele os objetos inúteis da casa.

  • Oito anos

    Minha amiga está soturna, posto que falante. Vive a crise dos oito anos – oito anos de casada. Parece que seu rancor, antes de conjugal, é numérico.

    Deve ter lido em alguma revista especializada que existe “a crise dos oito anos” e, apercebendo-se de que está nessa faixa de tempo, convoca os agentes recônditos do cansaço e do tédio, o exército roaz produzido pelos infindáveis minutos, horas e dias de todos esses anos.

    “Oito anos”, ela pondera, como se os instantes tivessem de repente se transformado num bloco que a puxa para trás, um condensado handicap de história e de vida orientado em sentido negativo. Um tempo dado unicamente a outrem, a alguma coisa que não a ela. Tempo que terá sido “ausência” pela exclusão das alternativas e das vias paralelas – as muitas vias que espreitam tentadoramente a trilha das nossas opções.

    Realmente, por que se fixar nos oito anos? Conheço pessoas que referem como insuperável a crise dos cinco. Outros quase não passam pela barreira dos dois. E se a gente pesquisa, encontra quem mal tenha resistido ao limite dos seis meses e até ao do dia seguinte – aquele momento em que o sujeito olha para um lado e para outro e, epa!, depara-se nesse outro com alguém que, a partir dali, vai se constituir numa referência fixa, espécie de fronteira irremovível de sua pessoa. E como isso dá medo.

    Minha amiga vem fazendo análise. O objetivo, segundo ela, é “questionar profundamente os meus sentimentos e as minhas relações”. Devo dizer que está se frustrando um pouco, pois esperava através do processo analítico ganhar forças para revolucionar a vida pelo conhecimento de si mesma. Esperava talvez deter, na casa dos seis anos, o processo que redundaria nessa crise dos oito. Ela me diz, no entanto, que tudo está sendo em vão. A “ideia revolucionária” parece mais uma fantasia que, no decorrer das sessões, desvenda-se ante seus olhos. De fato, ninguém se transforma no que não é. Eu podia mesmo lhe citar Sartre: “On change souvent pour rester soi-même.”

    Agora faz essa catarse extra-analítica diante de mim, terapeuta sem divã. Além de falante, sombria. Fala dos oito anos como se ele fosse um recorde, parecendo não compreender que esse tempo é complicado porque condensa o bom e o ruim. Pesa porque é âncora. Generosamente, deixo minha amiga falar. É o melhor que se pode fazer por alguém nessas ocasiões.

    Ela fala, fala, e me ocorre, maldosamente, que esse é um tipo de sofrimento que comove e também diverte. Deve-se ficar atento, respeitar a dor da amiga – mas não se impressionar demais com o seu tom indignado, com o ar meio apoplético e cheio de ansiedade, com a postura o seu tanto esforçada
    e ridícula. Essa é uma dor minúscula, mais aborrecida do que pungente.

    Conversando com ela, ou melhor, ouvindo-a falar, a gente sabe que pode encontrá-la no dia seguinte saindo do cartório, aonde terá ido providenciar os papéis da separação – mas essa possibilidade é remota. O mais provável será surpreendê-la saindo do restaurante com o marido, depois de brindarem a mais um ano (o difícil oitavo, ufa!) de casamento. Tudo pode acontecer.

  • A arte de malhar

    Em mais uma dessas reportagens sobre hábitos de vida, leio que a maioria dos brasileiros é de sedentários. São raros os que fazem exercícios físicos e pouquíssimos aqueles que, pelo menos, gostam de andar a pé.

    Acho isso curioso, pois o que não falta hoje são advertências sobre os riscos da inação (um sinônimo pomposo para sedentariedade). Sabe-se que ela provoca de câncer a doenças cardíacas; quando não chega a esses extremos, compromete a tão propalada “qualidade de vida”.

    Ainda assim, poucos se comovem. A se levantar cedo para andar, correr ou fazer ginástica, preferem ficar na cama, num letargo fatalista segundo o qual só se morre no dia. Ou acham que é mais provável morrer esbofando-se no asfalto, ou em cima de uma esteira rolante, do que no recesso seguro do lar.

    A verdade é que ninguém se torna adepto de atividade física por ler artigos ou reportagens sobre os benefícios que ela pode trazer. Existem almas naturalmente preguiçosas, espíritos langorosos que consideram uma violência submeter o organismo a movimentos puxados e aparentemente gratuitos.

    Vinicius de Moraes conta, numa crônica, que ele e Antônio Maria voltavam de uma farra e se depararam com um grupo de pessoas fazendo ginástica. O sol mal começava a nascer no mar de Copacabana.

    Os dois boêmios, tresnoitados e ainda sob o efeito do uísque, olharam desdenhosos os corpos que repetiam com esforçado sincronismo os mesmos movimentos. Então fizeram ali, para a vida e para a morte, o pacto solene de jamais praticar gestos repetitivos e inúteis…

    Entende-se a ironia dos dois. Para que nos devotemos a uma coisa, é preciso primeiro ver nela sentido. Ora, esse é um requisito subjetivo por excelência. O que faz sentido para uns pode parecer a outros um aborrecido disparate. Conheço gente que acha inútil caminhar cinco ou 10 quilômetros para ir a lugar nenhum. Só andam por necessidade, e com um objetivo bem definido.

    Uma coisa é flexionar os braços e as pernas carregando tijolos nas construções, manuseando máquinas nas fábricas, transportando papéis nos escritórios. Outra é realizar esses movimentos para nada. Muitos não veem sentido em tal gratuidade; outros acham que essa agitação “inútil” restabelece o corpo e gratifica o espírito.

    A ginástica, a caminhada, os exercícios de modo geral inscrevem-se naquela “finalidade sem fim” de que nos fala Kant. Por essa ótica, aproximam-se da arte. A arte é gratuita, não visa a nenhum objetivo prático; solicita-nos a contemplação, e em troca nos dá Beleza.

  • CROQUIS

    1

    O maior favor que o escritor pode fazer ao leitor é ser sincero. Geralmente os que fogem à sinceridade o fazem por medo do ridículo, como se as íntimas verdades que expõem não fossem também as de quem o lê. O terreno comum aos homens é o das fraquezas disfarçadas, vilanias escondidas, aspirações muitas vezes inconfessáveis; o leitor agradece a quem o leva a se deparar com tudo isso, que também compõe o seu cenário interior.

    2

    Há quem diga que não vale a pena se casar, pois o amor acaba. Para mim é justamente o contrário: a efemeridade do amor é a maior justificativa para o casamento, que de alguma forma pode realimentá-lo.

    3

    De onde vem a culpa, esse império escuro que nos rouba a alma? Não devemos corresponder senão a nós mesmos, no entanto não conseguimos ter isso como uma verdade. Será sempre um problema de cada um conquistar a liberdade interior.

    A culpa, como todos os freios, precisa ser graduada. O excesso de freio impede que o carro se locomova; a falta dele o faz desembestar, com as terríveis possibilidades que isso implica.

    4

    O que é o tempo! As garotas bonitas que me ignoravam nas paqueras da Lagoa, ou na calçadinha da praia, hoje são senhoras simpáticas que me cumprimentam e até sorriem para mim. Agora não vale! Eu queria isso antes!!

    5

    A linguagem é o nosso confessionário. Falar é confortar-se; liberta e consola. Tudo que se subtrai ao desejo se compensa na linguagem. Por isso as pessoas falam, rezam, escrevem tanto. 

    6

    A razão é um demônio que vez por outra precisa dar uma sacudida no anjo da fantasia. Esse anjo, com suas róseas maquinações, pode entorpecer ou cegar. Nessas horas é necessário clarividência para não derrapar no fosso das ilusões.

    7

    A depressão caracteriza-se por uma defecção (abandono) do ser.  Depois que o indivíduo sai da crise, imagina não ser mais o que era. Sente a identidade como um fio tênue, que a custo lhe assegura a autopercepção. Ressente-se de plenitude. Um dos apelos patéticos que o depressivo faz a si mesmo ou a quem tenta ajudá-lo é: quero ser eu de novo.

    8

    A velhice é por natureza amiga da virtude. O homem só renuncia a certos pecados quando já não está em idade de cometê-los. Por outro lado, um dos maiores pecados da velhice é o ressentimento.

    9

    Costuma-se dizer que quem não ama a si é incapaz de amar os outros. Penso que é o contrário; quem não ama os outros é incapaz de amar a si. O amor, que é um sentimento basicamente altruísta, não pode ter como referência o ego de cada um. A percepção da incapacidade de amar o outro é que leva ao desamor por si mesmo.

    10

    Para o artista, a eternidade está no próprio ato de criar. É por esse ato que ele vive a transcendência da sua arte. Caso ela “fique”, ficará para os outros. O artista, enquanto homem, não sentirá o benefício da glória. Já o momento de fazer é tão-somente dele.

  • A visita

    É domingo e ele vai à casa de um tio. Não gosta de visitas familiares, mas nem sempre é possível evitar. Para aumentar o desconforto, o fato de desprezar tais encontros já é motivo de culposos sentimentos – e o menino sofre duas vezes. Primeiro consigo mesmo, devido a essa intolerância aparentemente inexplicável e injusta – sobretudo injusta; depois pela ocasião mesma do encontro, confusão de afagos e venenosas ironias. E sempre o mau jeito, ou o pejo, de revelar ao menos por indícios o amor.

    Talvez a prévia decepção é que se converta em hostilidade, de que ele no fundo queria desarmar-se para se abrir à necessária ternura. Necessária, possível. Por que era sempre mais fácil com os estranhos?

    É domingo e o menino vai. Entufado, mais menino do que nunca, engolfado em mágoas que não consegue explicar (nem direito sentir!), vai ao dever social como para um sacrifício. Vai compor as aparências mas, por que negar?, vai também pela curiosidade de se ver pelos olhos e gestos e tiques dos que lhe são carne e sangue. Acaso ele era melhor? Vai como quem tenta, mais uma vez, descobrir o caminho que leva à aceitação, para umidificar o deserto interior em que há muito vinha se crestando.

    E vai até como quem se arrepende de ter criado o drama – ele, o imaginoso e difícil –, os fios e nós cegos que acabaram enredando-o numa teia de incompreensão e espanto. Queria desatar-se, respirar.

    No caminho se conversa risonhamente sobre tudo, a euforia dominical tornando os parentes camaradas. Faz sol, venta um pouco, e todos (o menino também) parecem transfigurados pela força dessa manhã. Agora não é ocasião de mágoa ou medo; agora é para esquecer o ranço dos anos, a indelével inscrição na carne, na alma. Agora é como um entreato que faz parte da encenação mas desobriga as pessoas do papel – isso que foi se convencionando devagar, e com força, ao longo do tempo. Agora parece um instante gratuito, autônomo, do qual emerge um estranho desejo de absolvição.

    Quando chegam à casa do tio, ainda estão inebriados. Vem o parente que se tornou distante e manda todos entrarem. Nem precisava. Respondendo e perguntando, era mui cordato o dono da casa; ficava-se bem à vontade. Ele estava entre os humildes da família e vivia essa condição com uma alegria que poupava aos outros o remorso. Sua casa devia ser lugar de concórdia. O menino se penitencia por não ter lembrado isso, confundindo um manso, uma ovelha boa, com alguns os parentes maus.

    Sentam-se todos e se põem a conversar. Lembranças vêm à tona, e o domingo retrocede a outros cenários; a família curte uma espécie de saudade jovial. Tudo leve, sem sombras. Mas não por muito tempo. De repente salta o comentário suspicaz e malévolo de alguém vigilante:

    — A mulher dele, cadê? (A mulher desse tio, realmente, ainda não dera as caras.) Será que não quer ver a gente?

    A insinuação fica no ar como um pássaro tentador que logo os parentes, vorazes, se apressam em segurar.

  • Terapias

    Ele andava triste, sem ânimo, às vezes com vontade de morrer. Os amigos notaram o seu estado e o aconselharam a procurar um médico. Recusou com veemência, pois não acreditava em medicina para a alma. 

    Mas uma noite teve um sonho esquisito. Sonhou que era um macaco pequeno, o único macaco entre seus irmãos. A mãe o olhava com indisfarçável repugnância e hesitava entre alimentá-lo ou deixá-lo morrer de fome. Ele então chorava, gritando e agitando uma campainha. Isso provocava a raiva do pai, que abraçava a mulher e o ameaçava com um facão. Enciumado, ele procurava um canivete para matar o pai mas era impedido pelos irmãos, que resolviam levá-lo para um zoológico. Lá o enfiaram numa cela, onde ficou se debatendo até que um funcionário chegou junto dele e perguntou: “O que é que está havendo? Fale! Fale!”. Não conseguia dizer nada.  

    Ficou tão intrigado com o sonho, que decidiu vencer o preconceito e consultar um psicólogo. Mas quem? E, sobretudo, de que linha? Resolveu divulgar o sonho na internet e aguardar sugestões. Eis alguns e-mails que recebeu:

    1) Seu sonho reflete um complexo de Édipo mal resolvido. Você e o seu pai disputam o amor da sua mãe, daí o ódio que sente por ele e o desejo de matá-lo. A oposição entre o facão e o canivete é uma representação metafórica da inveja do pênis associada ao temor da castração. Sua terapia deve ser psicanalítica, e de base freudiana.

    2) Impressionou-me, no seu sonho, a repugnância da mãe ao constatar o aspecto simiesco do filho. A dúvida entre alimentá-lo ou não é uma clara metonímia do conflito entre o seio bom e o seio mau. Você ainda hoje não sabe se ela o ama ou o odeia, e precisa resolver esse conflito. Do contrário, a sensação de desmamado o acompanhará pelo resto da vida. Sugiro-lhe uma psicoterapia kleiniana.

    3) Seu sonho é carregado de significantes — a referência ao som da campainha, por exemplo. Uma das onomatopeias para esse objeto é “ding”, que remete à Coisa (Das Ding), ou seja, ao Objeto Perdido. Sintomaticamente, você não fala. Se não fala, não tem o falo, o que não é nenhuma falácia (talvez uma faloácia). A ausência da fala/falo o deixa fulo e mostra que você se encontra numa posição infantil diante do Nome do Pai. É preciso trabalhar isso. Procure já um terapeuta lacaniano.

    4) O sonho é claríssimo, ora. O macaco representa a porção animal que você se recusa a inibir diante do pai opressor. É preciso dar vazão a essa torrente de instinto por meio de uma terapia regressiva, que o reconduza à liberdade da horda primeva. É preciso soltar o grito primal.

    5) Esqueça qualquer tipo de simbolismo para esse sonho. O motivo do seu sofrimento são pensamentos errados. Posso acompanhá-lo a um zoológico, em cinco sessões, para mostrar que você não é macaco coisa nenhuma. Compararemos seu comportamento com o dos símios, e você se convencerá de que gosta de mais coisas além de banana e não consegue andar com tanta destreza sobre o tronco das árvores. Recomendo-lhe (e me apresento) um terapeuta cognitivo-comportamental.

  • Pontuar

    Em uma de suas crônicas, Luis Fernando Veríssimo afirma que nunca usou o ponto e vírgula. A observação do escritor gaúcho, que é antes uma blague contra os gramáticos e puristas, sugere-nos algumas reflexões sobre a arte de pontuar. Ela tem a ver com um dos atributos fundamentais da poesia ou da prosa, que é o ritmo. Literatura é linguagem ritmada, e para se imprimir ao texto o seu ritmo é fundamental o uso desses sinais, que, se a alguns aborrece e inibe, a outros empolga e mesmo encanta.

    O ritmo é uma espécie de virtude metafísica da literatura. Um erro de grafia tem conserto, basta que se consulte um formulário ortográfico. Uma falha na concordância, na regência ou na colocação pode ser sanada com uma consulta gramatical. A falta de ritmo, traduzida entre outros indícios pelo mau emprego dos sinais de pontuação, sugere que o sujeito não dá mesmo para o ofício. É um míope verbal e certamente usará de modo inadequado as palavras. Pois não há semântica adequada sem um adequado suporte rítmico. A palavra errada é sobretudo a palavra fora de tempo.

    Pontua-se como se respira, respira-se como se pontua. E quase sempre ocorrem os exageros. Há os que decompõem o enunciado, abusando do chamado fragmento de frase. E picotam o período. Às vezes sem necessidade. Apenas pelo gosto de fracionar. De separar. De isolar os componentes da oração. Sujeitos. Predicados. Complementos.

    Há, pelo contrário, os que constroem períodos densos, longos, torrenciais, desses que tendem a abusar da paciência do leitor, coitado, que parece estar atravessando um rio interminável e caudaloso, e fica na expectativa de que aquilo termine, pois, com o tempo, ele até já esqueceu o que foi dito no início da frase e tudo o que deseja, a partir de certo momento, é que o escritor se compadeça da sua paciência e mesmo do seu fôlego, que dentro em pouco lhe faltará como já lhe falta a boa vontade para prosseguir na leitura, e ponha enfim nessa teia aparentemente infindável um ponto final. Ufa!

    Há os que se exaltam à toa e abusam do ponto de exclamação. Sempre! Até sem motivo! Como se vivessem numa perpétua euforia! Ou num perpétuo susto! Há os que abusam das reticências. Esses não dizem logo tudo, fazem …suspense. Preferem deixar sempre alguma coisa no vento, no ar… Imaginam que nesse deliberado laconismo é que mora a sutileza… O gosto de sugerir, explorar as entrelinhas, sabe como é… Pois o texto fala mais, quando… Eu sei que vocês me entendem… 

    Há os que (e esses geralmente são perfeccionistas) gostam de intercalar vários parênteses em seus períodos. Como se fosse necessário (às vezes é, mas eles exageram essa preocupação) fazer contínuas ressalvas às próprias ideias (mesmo as que já se tornaram claras para o leitor). Eles têm receio de que seu discurso (que eles supõem, geralmente, traduzir uma mensagem valiosa e útil) não seja suficientemente vigoroso (e sobretudo claro, inteligível).

    Há os que não resistem ao excessivo emprego dos: dois pontos. Esses parecem estar sempre preparando: uma surpresa, um desenlace inesperado para o leitor. Que acaba deixando de se surpreender, pois os dois pontos terminam previsíveis, constituindo uma espécie de alerta falso. E já deixam o leitor: de orelha em pé.

    Há, enfim, os obreiros da vírgula, que, numa espécie de afã asmático, virgulam, com disciplina espartana, sempre que a norma determina. A esses, pouco importa que o sentido se torne claro, no próprio fluir da corrente verbal. Se a regra manda, mesmo, contra o ritmo natural da fala, eles, prestos e soldados, vão largando, a intervalos breves, curtíssimos, as suas vírgulas, que, para o leitor, equivalem a pedregulhos, ou valas, ou, enfim, a obstáculos, que dificultam o, já difícil, ato de ler.

    E tu, leitor, qual o teu ritmo? Como é que, lendo ou escrevendo, tu respiras?

  • “Influencers” e que tais

    O ser humano tem dificuldade de pensar ou agir por conta própria. Necessita de quem o oriente, sugira um roteiro seguro nos descaminhos da vida. Essa característica da nossa espécie é que propicia o aparecimento de orientadores espirituais ou guias de comportamento.

    Não falta quem se aproveite do nosso natural desemparo para nos vender fórmulas ou manuais de conduta, nos quais estaria a chave para a conquista da felicidade. Só que esse caminho não existe fora de nós; deve ser construído por cada um. Nenhum guru conhece das pessoas o que elas intimamente são, por isso não pode apontar a ninguém o caminho que as faça felizes.

    Geralmente os que se dispõem a isso cobram bem pelos conselhos — o que é compreensível; ninguém, afinal, valoriza o que lhe é dado de graça. O problema é que eles ganham por vender aos outros ilusões. Pode-se alegar que muitos preferem mesmo se iludir a enfrentar a dura crueza da vida. Querem que lhes ditem os caminhos, livrando-os da difícil tarefa de fazer escolhas. Há nisso, porém, um grande risco; o medo de se perder pode acabar deixando-os na dependência de algum perdido.

    O mundo digital fez aparecer uma nova modalidade de guru — o “influencer” (grafado em inglês para dar mais prestígio). Que vem a ser ele (ou ela)? Como o nome diz, é uma pessoa que se propõe a nos influenciar em algum domínio do saber ou do comportamento. Também (ou sobretudo) pretende nos orientar quanto às escolhas de consumo — o que comprar, de que marca, quando enjoar de um produto e partir para outro. O “influencer” se aparelha para nos ditar o que devemos fazer (e como) a fim de adquirir habilidade em determinado setor e conquistar o almejado sucesso.

    “Sucesso” é uma palavra-chave no vocabulário deles. Não bem-estar, ou felicidade, mas esse termo que bem resume os anseios de quem vive numa sociedade competitiva e marcada por signos de ostentação como a nossa. O sucesso é um emblema exterior; dimensiona-se mais pelo que o indivíduo aparenta do que pelo que ele é.

    A internet, se não criou, multiplicou o número de indivíduos com essa função. Há “influencers” para todos os gostos (e desgostos). Eles querem sentir por nós, mostrar que a insatisfação com a qual levamos a vida
    decorre de não termos despertado para as atitudes corretas a tomar — atitudes essas que só eles conhecem.

    Não descarto a possibilidade de que haja entre pessoas dessa estirpe as bem-intencionados. As que se comprometem com uma causa, mesmo sendo ela a do enfadonho politicamente correto. Mas fico com o pé atrás. Não suporto a ideia de que tirem do homem a maior riqueza que ele tem — a de pensar por si mesmo.

  • Solecismo amoroso

    – Eu lhe gosto.

    – Eu gosto de você. 

    – Hem?!

    – Eu também gosto de você, ora.

    – Está me corrigindo?

    – Corrigindo como?

    – Você usou o verbo diferente. Era para ter dito “Eu também lhe gosto”, ou coisa parecida. Mas me corrigiu: “Eu gosto de você!”. Disse tudo certinho.

    – Nem pensei nisso.

    – Lhe incomoda eu falar errado? Você é capaz de amar uma mulher que não sabe português?

    – Que é que isso tem a ver?

    – Tudo. Eu fui sincera, disse o que naturalmente sentia. Não pensei na forma. Quem é que pensa na forma numa hora dessas? Falei que gostava de você, ou melhor, que lhe gostava. E você nem reparou no que eu disse. Reparou no meu verbo errado.

    – Pelo amor de Deus, não dramatize. Eu repeti o que você tinha me dito, só que de um jeito um pouco diferente.

    – Mais correto. Sem erro – como é que se diz? – de regência. Ou de concordância, sei lá.

    – Regência.

    – Está vendo? Me corrigiu de novo. 

    – Você não perguntou? Respondi à sua pergunta. Sei que é de regência por acaso. Foi uma das poucas coisas que aprendi no colégio. Tinha regência em Português e em História. Em Português a regência era do verbo e de certos nomes, em História era de Feijó. Você não lembra? Diogo Feijó.

    – Pare, por favor. Você parece que não percebe a gravidade do que aconteceu. A partir de hoje, a partir desta conversa, alguma coisa se partiu entre nós. Definitivamente. Perdi a espontaneidade, jamais serei a mesma. Vou ter que vigiar minhas palavras, senão elas não chegam até você.   

    – Fale como achar melhor, ora. O importante é o que se diz, e não…

    – Mentira… E ainda por cima mentiroso! Como pude gostar de alguém que está mais interessado na qualidade do meu português do que na sinceridade do meu afeto? Pra você não importa o que eu sinto, e sim a forma como devo expressar minhas emoções.  

    – Você está exagerando, está sendo ridícula.

    – Ridícula? Ah! Primeiro ignorante, agora ridícula. O que mais? Posso ser tudo isso, mas não sou insensível. E sabe de uma coisa? Nosso namoro não daria mesmo certo.

    – Mas íamos tão bem…

    – Até você me corrigir em hora tão imprópria. Que marido você ia dar! Agora corrige minha linguagem, depois certamente vai querer interferir nas minhas roupas, nos meus hábitos, nos meus amigos. O casamento com você seria uma eterna sabatina, um interminável exame de seleção. Eu ia ter que me policiar dia após dia para não ser reprovada. 

    – Mas que loucura!

    – Ignorante, ridícula, e agora louca… Basta! Não quero ouvir mais. Adeus.

  • O principal

    Antes de viajar, ela chamou o marido e recomendou:

    — Não se esqueça de aguar a minhas orquídeas. Basta uma vez por semana. Uma, não mais. Se você esquecer, elas morrem.

    Ele ouviu com ar compenetrado e prometeu que aguaria as orquídeas. Uma vez por semana. Feita a promessa, ajudou-a a botar as malas no carro e a levou para o aeroporto. Na despedida, beijaram-se. Ele lhe desejou boa sorte no estágio e fez a carinhosa recomendação:

    — Cuide-se!

    — Você também!!

    Para ele, foi um teste cuidar da casa. Não tinha jeito nem paciência. Precisava levar o cachorro para fazer as necessidades, lavar a roupa que se acumulava, ir ao supermercado e à feira, pois só comia fora no almoço. Não tinham filhos, o que simplificava muito as coisas, mas ainda assim as tarefas lhe pesavam.

    Além do mais, havia os contratempos da rotina. O cão, por exemplo, às vezes fazia pipi antes da hora. Lá ia ele buscar estopa e água sanitária para limpar a poça na sala ou em um dos quartos. Noutra ocasião, a válvula da descarga quebrou. Teve que procurar um encanador bem cedo, quando deveria estar no trabalho. Nesse dia chegou atrasado e não pôde assinar o ponto.

    O tempo foi passando. Os dois conversavam raramente pelo celular, pois ela tinha uma série de obrigações ligadas ao estágio. Falavam da nova experiência de cada um – ela se aventurando no exterior, ele como dono de casa. Era uma espécie de inversão que os fazia rir.  Até então ocorrera o oposto, mas agora o mundo era outro. Falavam disso e da saudade, que começava a apertar. Para se assegurar de que tudo transcorria normalmente, ela lhe fazia perguntas: “Tem cuidado de Sultão?” “Agendou todos os pagamentos?” “Está passado o pano nos quartos?” Ele respondia “sim” a todas.   

    Pouco antes de ela chegar, ele fez uma vigorosa faxina na casa. Bateu tapetes, lavou e desinfetou os banheiros, limpou o filtro do ar-condicionado. De noite estava exausto e com tosse, pois tinha alergia a poeira. No dia seguinte foi ao supermercado levando uma lista com o nome das comidas de que ela mais gostava. Trouxe iogurte, compota de pêssego, pão de milho.  

    Chegado o grande dia, postou-se bem cedo na sala de espera do aeroporto. Felizmente o avião não atrasou. Na volta para casa, ela quis saber se tudo correra bem; ele respondeu que tinha trabalhado muito, mas valera a pena. Achava-se, agora, um marido completo. 

    Mal entrou em casa, ela se encaminhou para a varanda. Foi quando viu uma pequena orquídea no chão. Aproximou-se do vaso e percebeu que estava seco. As outras flores se desprendiam do caule e estavam prestes a tombar. Olhou transtornada para o marido, que entrava chamando-a para ver as gostosuras que havia na mesa… Ele então se deu conta do que havia esquecido.   

    Nessa noite os dois brigaram. Ele tentou se defender mostrando como cuidara de tudo com esmero, tanto que a casa estava cheirosa e não tinha um grão de pó. Fora tanto o esforço, que ele chegou a ficar doente.

    — Você não fez o principal! — interrompeu-o a mulher. E foi dormir cheia de mágoa.

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