Coluna Falou e Disse por Chico Viana

  • Papai Noel de Shopping

    Teoricamente o Natal é uma festa do espírito e deve ser comemorado em tranquilizadora contemplação. As músicas alusivas à data falam de paz e congraçamento familiar. O que se vê na prática, porém, é um frisson aquisitivo que perturba os corações mais desprendidos. O Natal é a apoteose do consumo, a celebração eufórica com que o capitalismo ratifica o seu triunfo. Hoje os sinos de Belém não bimbalham – tilintam, numa espécie de eco ao movimento das caixas registradoras.

              Os defensores do mercado consideram positiva toda essa agitação, alegando que nesta época se geram mais empregos e se injeta mais dinheiro na economia. É um momento em que muitos desempregados arrumam um trabalho temporário em lojas e shoppings, o que lhes diminui a angústia e traz algum alento quanto ao futuro. Muitos dos que se empregam nessas ocasiões terminam contratados, outros recebem a promessa – às vezes ilusória – de uma posterior contratação.

              Enfim, não sou eu que vou brigar com o mercado e sua lógica. Limito-me a acompanhar – preferencialmente pela televisão – todo esse agitado movimento de compra e venda, e a apreciar alguns dos tipos que proliferam nesta época. São tipos curiosos, que se paramentam segundo o figurino adequado à ocasião e fazem o que podem para nos incutir a chamada magia natalina, tão escassa nos dias que correm.

              O mais interessante deles é o Papai Noel de Shopping. Ilude-se quem pensa que para encarnar esse personagem basta vestir uma roupa vermelha e emitir um riso cavo, gorgolejante. É preciso sobretudo ter o que os franceses chamam  “o físico do papel”, que inclui um corpo rotundo  e uma alma forrada de paciência e simpatia. De bonomia, para dizer melhor.   

              Outro dia observei um deles num de nossos shoppings e me decepcionei com a canastrice. Era um sujeito magro, quase esguio, que amplificara o ventre com um disfarce mal feito de algodão. Além disso, demonstrava certa impaciência com as crianças que insistiam em passear com ele pelos corredores atulhados. Queria ser um Papai Noel, mas não tinha saco – não o dos presentes, mas o da alma, que devia ser ampla o bastante para albergar todos aqueles apelos infantis. Estava ali à força, para faturar um dinheirinho e se livrar logo que pudesse. Não funcionou.

              O verdadeiro Papai Noel se esfalfa, sua e não deixa de rir. E continua rindo mesmo quando tem que botar dezenas de pirralhos no colo e posar para outras tantas fotografias.   Seu papel é confirmar o sonho dos meninos e desmentir a evidência de que está ali como um simples garoto-propaganda.

    Sua função é comprovar uma fantasia anacrônica e palerma, demonstrando que de fato existe.

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