Conto de Carlos Collet

  • Era uma vez Dona Namoradeira

    Dona Maria era uma mulher metódica. Todos os dias cumpria seu ritual sem faltar. Acordava pelas manhãs logo que o dia raiava, preparava um café bem preto, forte e aguardava por Zequinha, o menino que vinha trazer seu pão, sempre quentinho e fresquinho. Quando chegava, ela despejava o líquido, ainda quente, em sua xicara e ia bater ponto em sua janela. Maria jamais atrasava nesse compromisso matinal.

    Gostava sempre de chegar em seu “serviço” bem cedo, pois o tempo perdido poderia ser o causo não presenciado.

    Geralmente, logo pela manhã era difícil que algo acontecesse. Todo mundo da vila passava em disparada para que não atrasasse no seu dever sagrado diário. Cada pessoa que passava pela janela daquela casa falava “Bom dia Dona Namoradeira” e ela retrucava “Meu nome é Maria, fio(a) de satanás”. A verdade é que todos sabiam que já havia adotado aquele apelido carinhoso, mas ela fazia questão de demonstrar que não gostava nada daquilo.

    Certa vez, um garoto que costumava passar o dia brincando naquela rua e era bem do atrevido decidiu lhe perguntar de onde vinha aquele apelido. Brava, ela respondeu:

    — Foi um sujeitinho saidinho que andava por essas bandas faz muito tempo e era doidinho pra se engraçar pro meu lado. Como eu nunca dei bola, ele tentou criar essa história de namoradeira, vê se pode meu fio?

    Nada que acontecia por naquela vila passava despercebido aos olhos da senhorinha. Por esse motivo, o povo da vila criou o hábito de logo de noitinha, um pouco depois da noite tomar conta da cidade, se reunir na casa de Maria. Nessa hora, ela se dedicava a contar os causos do dia. As histórias eram diversas, como no dia em que o marido da vizinha voltou mais cedo pra casa e encontrou sua mulher na cama com o carteiro. Ela contou, a quem estava naquela sala a seguinte história:

    — Meus fios, hoje aconteceu por aqui a tragédia que estava se anunciando faz é tempo. Todo dia eu percebia que o carteiro trazia uma carta pra Celinha e ficava lá dentro da casa dela de proza. O ritual era sagrado. Até que hoje, o Gumercindo, coitado desse homi trabalhado que só ele, decidiu voltar pra casa mais cedo, Trouxe até flores! Só que quando chegou viu a danada da Celinha no rala e rola com o carteiro. Que confusão meus fios. Vuou foi roupa e mala pra todo lado. Tadinho do seu Gumercindo, tão trabalhadô.

    Geralmente, ela procurava contar as histórias e acontecimentos do dia, mas nem sempre seu radar conseguia apurar notícias fresquinhas. Nesse caso, era comum que ela contasse histórias do passado, de uma época em que nenhum dos que se faziam presentes naquela sala viveu. Foi assim que descobriram que certa vez morou naquela vila um homem bem estranho que, como muitos falavam na época, todo dia de lua cheia saia de sua casa uivando atordoado igual a um animal descontrolado.

    Certo dia, o povo daquela vila passou pela janela da namoradeira e viu que ela não estava cumprindo seu dever diário. Todo mundo estranhou, mas, na correria do dia, ninguém teve tempo de ir perguntar a senhora o que havia acontecido.

    De noite, ao perceberem que ela não apareceu em sua janela durante nem uma hora daquele dia, os moradores decidiram bater em sua casa. Batidas sem nenhuma resposta… Alfredo, o fortão da vila, decidiu arrombar a porta e, quando todos entraram, se depararam com Dona Maria totalmente em paz em sua cama dormindo um sono eterno. Ao lado, na cabeceira, havia um bilhete que dizia “meus fios, o homem e a muié morrem, a carne vira comida pra bicho, mas as histórias nunca podem morrer. Eu estou indo, mas nunca deixem que morram as histórias que contei e as histórias que ainda acontecerão nesse lugar.”

  • BORNOUT

    Nasci um nada. Fui criado para ser um nada. Desde pequeno, nunca soube que o dinheiro pode ser usado para o lazer. Aliás, qual o significado disso? Meus pais só trabalhavam e tudo era minimamente economizado para podermos pagar as parcelas de nossa casa em um condomínio classe média e do carro do ano, a grande paixão do meu genitor. Objetos nos quais ele empregava seu tempo livre e sua matéria.

    Enfim, fui criado para ser insignificante e decidi vencer esse destino.

    Logo aos dez anos de idade comecei a trabalhar vendendo doce na porta da escola. Era onde eu estudava? Não. Para sustentar seus desejos de aparência, meus pais sempre me matricularam em escolas públicas. Longe da minha casa, é claro. Ninguém tinha grana para comprar doce de criança. Então, eu não podia vender lá. Por isso, ia para um colégio de bacanas onde a playboyzada sempre comprava tudo. Nunca soube se era por pena ou só para se livrar rápido de mim. Foda-se, isso não importava, estava fazendo o meu dinheiro.

    Minha relação com a grana sempre foi de respeito. Ao mesmo tempo em que eu queria juntar cada vez mais, tinha medo de ficar deslumbrado e gastar tudo. Por isso, deixava ela lá, guardada, bem no cantinho dela. O único motivo justificável para mexer nas economias era para investir. Sempre buscava novas formas de aumentar minhas economias.

    Trabalhei durante toda a minha infância e adolescência, nunca tive tempo para brincadeira ou para perder tempo com inutilidades. O trabalho era meu único foco. Quando fiz dezoito anos, peguei o que tinha, comprei uma moto, aluguei uma quitinete e sai da casa dos sonhos. Nunca mais voltei a falar com meus pais, apesar de eles terem tentado muito. Eu não tinha raiva deles. O que não tinha era tempo.

    Passava os dias fazendo entregas em meu “amigo” de duas rodas, quase nunca ia para a casa. Quando raramente estava livre, ficava pensando em qual era a utilidade de pagar aquele lugar. Entretanto, logo caia na real. Ali, ao menos, poderia jogar meu corpo cansado quando precisasse. Não dá para morar em uma moto.

    Por esse motivo, meus anos como motoboy foram sempre objetivando comprar um carro. Não queria um modelo pra aparecer para ninguém. Queria um econômico que não quebrasse muito. Trabalhei como boy por cinco anos até tingir esse objetivo.

    Agora, eu precisava de mais, eu sempre quis mais. Meu objetivo era conseguir juntar o meu primeiro milhão. Dá para juntar isso sendo motorista de aplicativo? Impossível? Eu não conhecia essa palavra. Se alguma hora ela viesse em minha cabeça, eu ligava o celular, colocava um vídeo de motivação e assistia focado. Meu pouco tempo livre era unicamente dedicado a assistir um canal de um cara que saiu do nada e ficou rico. Ele ensinava os outros a fazerem o mesmo. Eu ouvia aquilo até cansar para ver se acontecia
    comigo.

    Comecei trabalhando dez horas, muito pouco. Passei para doze, dá pra aumentar. Quatorze, posso fazer um esforço. Dezesseis, foca no seu objetivo. Dezoito? Tá puxado, quase não pareço um ser humano, mas preciso aguentar.

    Certo dia, eu já estava completando umas dezesseis horas de trabalho, meu corpo pedia arrego, mas minha mente me chicoteava pedindo pra aguentar mais. Faltavam “só” duas horinhas. No meio dessa briga, eu apaguei. Quando fui acordar, estava em cima de uma cama de um hospital. Quando acordei, meus pais logo se aproximaram. Olhavam com uma puta cara de tristeza de merda. Eu fiquei puto, falei “o que ta acontecendo“. Minha mãe apenas falou “Filho, sinto muito, você perdeu todos os movimentos da cabeça para baixo“.

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