O Zé Preto se acomodou, ajeitando o cobertor. O Espanhol deu um puxão:
— Esse cobertor é meu.
O Zé Preto empurrou o outro com a bunda. Riram.
— Vai tomar no “cu” — um disse para o outro. E riram.
Passou um carro numa poça e jogou água nos dois.
— Vai se foder — o Espanhol gritou, se levantou e ficou esbracejando contra o carro, que já tinha virado a esquina da rua Brás Cubas. O Zé Preto correu pegar uma pedra. O Espanhol avançou contra ele com uma barra de concreto na mão.
— Esse carro —, explicou o Zé Preto.
— Ia me dar uma pedrada? — disse o Espanhol.
Saiu uma leva de gente da boate Estrela do Oriente para ver os dois amigos se estranhando.
— Nós somos filhos da rua e da noite — disse o Espanhol, que era preto como o Zé Preto. Por isso os dois se voltaram para os homens e as mulheres do cais, e sorriram.
Mas, quando o Espanhol se virou para deitar, o Zé Preto viu aquele porrete na mão dele e pegou outro para se defender.
— Calma, cara, nós somos irmãos — disse o Espanhol.
Nisso, a Cida Vermelha saiu da boate correndo atrás de um cliente, que entrou no carro e acendeu a luz.
O Zé Preto, cego, brandiu o porrete. Acertou o ombro do Espanhol, que correu de encontro ao Zé Preto, abraçando-o. Os dois caíram no chão abraçados.
— Apaga a porra dessa luz, gritou o Zé Preto. A Cida Vermelha ainda viu o Espanhol erguer o porrete com as mãos ensanguentadas.
— Meu sangue — disse o Zé Preto.
— Meu sangue — disse o Espanhol, e deu uma porretada.
As barras de cimento se ergueram e abaixaram sete vezes. A Cida vermelha viu a cabeça do Espanhol aberta ao meio. Sangue e pus na calçada. O Zé Preto geme ao lado: ainda não está morto.
— Meus amores — disse a Cida Vermelha, olhando o Zé Preto agonizando abraçado ao amigo morto.