Conto de José Carlos Brandão

  • Somos filhos da rua e da noite

    O Zé Preto se acomodou, ajeitando o cobertor. O Espanhol deu um puxão:

    — Esse cobertor é meu.

    O Zé Preto empurrou o outro com a bunda. Riram.

    — Vai tomar no “cu” — um disse para o outro. E riram.

    Passou um carro numa poça e jogou água nos dois.

    — Vai se foder — o Espanhol gritou, se levantou e ficou esbracejando contra o carro, que já tinha virado a esquina da rua Brás Cubas. O Zé Preto correu pegar uma pedra. O Espanhol avançou contra ele com uma barra de concreto na mão.

    — Esse carro —, explicou o Zé Preto.

    — Ia me dar uma pedrada? — disse o Espanhol.

    Saiu uma leva de gente da boate Estrela do Oriente para ver os dois amigos se estranhando.

    — Nós somos filhos da rua e da noite — disse o Espanhol, que era preto como o Zé Preto. Por isso os dois se voltaram para os homens e as mulheres do cais, e sorriram.

    Mas, quando o Espanhol se virou para deitar, o Zé Preto viu aquele porrete na mão dele e pegou outro para se defender.

    — Calma, cara, nós somos irmãos — disse o Espanhol.

    Nisso, a Cida Vermelha saiu da boate correndo atrás de um cliente, que entrou no carro e acendeu a luz.

    O Zé Preto, cego, brandiu o porrete. Acertou o ombro do Espanhol, que correu de encontro ao Zé Preto, abraçando-o. Os dois caíram no chão abraçados.

    — Apaga a porra dessa luz, gritou o Zé Preto. A Cida Vermelha ainda viu o Espanhol erguer o porrete com as mãos ensanguentadas.

    — Meu sangue — disse o Zé Preto.

    — Meu sangue — disse o Espanhol, e deu uma porretada.

    As barras de cimento se ergueram e abaixaram sete vezes. A Cida vermelha viu a cabeça do Espanhol aberta ao meio. Sangue e pus na calçada. O Zé Preto geme ao lado: ainda não está morto.

    — Meus amores — disse a Cida Vermelha, olhando o Zé Preto agonizando abraçado ao amigo morto.

  • Parada em ventania

    Aqui venta sempre desse jeito, sim senhor. Acho que é por isso que chamaram aqui de Ventania. Em Dois Córregos também venta muito. Foi a minha irmã, a Cida, que me contou. Não, eu não conheço lá. O senhor não está vendo as minhas pernas? Eu não conheço lugar nenhum, eu só conheço aqui. A Cida é quem me conta as coisas. Ela diz que Dois Córregos não é muito grande, mas que é muito maior do que aqui. E deve ser bem maior mesmo, pelas coisas que ela conta que tem lá. É, sim senhor, eu só conheço as coisas de ouvir contar. Ah, também já vi as figuras de umas revistas que a Cida emprestou uma vez.

    O senhor está cansado de esperar? Sente um pouco, fique à vontade. Logo passa um trem. Eu não sei se esse pára aqui, tem algum que pára. Mas o senhor viu o horário na estação, não é? Aqui a gente tem todo o tempo do mundo, não é preciso pressa. Pode olhar as coisas, não se acanhe. Tem sempre muita coisa para se ver. Eu não tenho muleta, não senhor. A Cida vem na hora do almoço, depois da escola, não sei a hora certa. Ela faz a comida, faz o meu prato, depois leva para o meu pai e a minha mãe lá na roça. Depois ela fica ajudando lá até de noite.

    Mas o senhor parece que está impaciente. A gente precisa não se aborrecer com as coisas. Eu gosto muito de conversar. Se eu não estou chateando o senhor, eu continuo. É a Cida quem conversa comigo, quando ela está em casa e tem tempo e paciência. O meu pai às vezes tem tempo, mas não tem paciência nunca. Ele só fala “essa desgraça, essa desgraça”, e olha minhas pernas moles, e bebe pinga. A minha mãe só fica chorando. Mas a Cida não, ela dorme na mesma cama que eu e fica ouvindo enquanto eu falo tudo que eu penso. Eu durmo um pouco de dia e não tenho sono logo de noite e então eu falo, eu falo muito e ela me escuta. Às vezes parece que ela está dormindo, mas ela fala que está prestando atenção. O senhor também parece que sabe prestar um pouco de atenção.

    Eu aprendi muito bem como prestar atenção. É assim que eu passo o dia. Mas eu presto atenção só no que me interessa. É esse o segredo. O senhor fica olhando esse relógio bonito toda hora. O senhor não viu aquele sabiá poca ali no mamoeiro, não é? Olhe como ele faz com a cabeça, como ele ergue o pescoço e gira para um lado e para o outro. Olhe como ele fareja o ar, como ele vigia tudo.

    O senhor fica olhando feito bobo as minhas pernas. Eu já aprendi a viver com elas. Eu não sei o que deu em mim, não. Foi uma doença que ninguém sabe o que é. Um dia elas começaram a bambear, logo ficaram assim molengatas até hoje. Eu até já pensei em me matar. Não era melhor acabar com a vida do que só dar trabalho, não prestar para nada? Foi o que eu falei para o meu pai. Ele ficou louco da vida, disse que ninguém pode mudar as coisas.

    Ainda lembro daquela hora. A minha mãe olhou para mim e começou a chorar. Então eu ri para ela, eu queria mostrar que tudo estava bem, afinal eu até estava rindo. Mas ela chorou mais ainda.

    Foi naquele dia que o padre veio aqui em casa e começou a rezar e a falar que era a vontade de Deus. Foi então que meu pai explodiu. Ele disse que só a vida tem remédio para a vida. Mandou o padre embora e pegou o garrafão de pinga. Eu admiro muito o meu pai, ele gosta muito de mim.

    E é assim que é a minha vida. Eu não sou muito triste, não. Só de vez em quando. A gente se acostuma com as coisas. Eu comecei a gostar de ficar aqui parado na porta de casa. Eu tenho muito tempo. Fico ruminando as coisas, imaginando. Gostando de imaginar coisas boas. E também eu tenho tanta coisa para olhar. Aqui nunca acontece nada, mas eu fico olhando o mato e cada vez gosto mais das coisas que eu estou vendo.

    Tem gente que acha que eu fiquei meio bobo, mas eu não me importo. Acho até bom, assim ninguém fica com dó de mim.

    O senhor não está com dó de mim, não é? O senhor parece que já se cansou de me ouvir, não é? Desculpe não ter nada para lhe oferecer. Tem água no pote, se o senhor está com sede. Se o senhor gosta de pinga, também tem, está atrás da porta. Tinha um pedaço de bolo, a Cida levou na escola. Ela nunca leva lanche, hoje ela levou. É até ruim, é capaz dos outros ficarem com lombriga.

    O senhor já vai? Daqui a pouco tem um trem, sim senhor, mas eu não sei se esse para aqui. Também pode ser de carga. Um tempo eu prestava atenção nos trens. Eu conhecia todos, só de ouvir. Eu só queria pegar um e ir para bem longe, numa cidade grande, bobagem minha.

    Mas o senhor já vai mesmo? Não quer ficar mais um pouco? Eu estava gostando de falar com o senhor. Prefere esperar o trem na estação? O senhor não disse nada. Bom. Se quer ir, o senhor que sabe. Então até logo, senhor.

    (Conto premiado no Mapa Cultural Paulista – 2014)

  • Nono marido

    A coisa mais triste do mundo era a vó Ana me fazer as tranças. Eu ficava com a cabeça cheia de caroços de tanto croque que tomava para ficar quieta. Mas todo mal tem o seu bem: a compensação era ouvir a vó Ana falar dos seus maridos.

    Estavam pendurados na parede da sala, todos com a mesma idade, parecia, uns trinta anos, e todos um a cara do outro: ruivos, com a bochecha meio pipocada, um bigodinho aparado bem fininho, o beiço caído, de choro, e os olhos mais tristes que já se viu.

    São a minha galeria de heróis, dizia a vó Ana, e ia apontando: o vô Joaquim, o vô Afonso, o vô Alfredo, o vô Macico, o vô Juca, o vô Pacheco, o vô Vicente, o vô Inácio.

    O vô Alfredo aguentou seis meses; o vô Afonso, só dois; o vô Joaquim, cinco meses; o vô Juca, nove – ia enumerando, orgulhosa, a vó Ana. O que durou mais foi o vô Macico: dezoito meses! Puxa, vó!, eu dizia. A vó Ana falava de-zoi-to, pausadamente, enchendo a boca.

    Só um que não aguentou nada, contava a vó Ana, com o ar de desprezo que Deus lhe deu. Só um que era um frouxo! Nem deu tempo de tirar um retrato. Ou a vó Ana nem quis saber de retrato. Esse nem nome não tem: é o nono marido.

    Saiu do quarto na primeira noite, ia buscar fogo para o pito, e nunca mais voltou. Esse negou fogo, dizia a vó Ana. No lugar do retrato, um quadro representando uns cachos de uva, murchas, desconsoladas.

  • A vó do menino

    A mãe precisa dormir no emprego, mas não pode deixar o menino sozinho em casa.

    – Sabe – ela diz – a minha casa foi da minha mãe, e antes foi da mãe dela. É da família, de geração em geração.

    Serve-nos uma xícara de café, e continua:

    – O menino sente a presença da vó. Tem medo. Ela era brava.

    – Mas ele conheceu a vó?

    – Ela morreu há vinte anos; ele tem onze.

    – Então, é porque fica sozinho naquele casarão?

    – A vó fica com ele. Ela nunca iria sair da sua casa. E ele sabe que ela está lá.

  • Memórias entre Ruínas

    Ainda há fumaça saindo da cinza. Ainda há um inexplicável cheiro de rosas, entre as ruínas da casa, sob a cinza. Como se o cheiro das rosas saísse de debaixo das cinzas.

    Nenhuma parede em pé, móveis queimados, objetos vagos: ruínas. Ergo um busto de gesso, uma Vênus com a cabeça decepada, ao lado, que sorri ainda o seu sorriso sensual. Olho-a bem: o sorriso se crispa de dor.

    Levanto um martelo do chão. Para que serve um martelo, agora? Quebro o tampo de mármore que restou de uma mesa. Ninguém mais irá escrever nesta mesa. Ninguém irá mais comer. Nem a família se sentará reunida. Lembro-me do papagaio: queria falar mais do que as crianças. Onde estão as crianças? Já são adultos, alguns já morreram. Muito frágil a vida humana.

    Um espelho sob os meus pés, queimado, já não reflete nenhuma imagem. Olho-o com atenção: sou uma sombra. Somos todos sombras do que fôramos. Alguns, nem isso. Cinzas entre as ruínas. E a fumaça se espiralando devagar. Ando de um lugar para o outro: de onde vem essa fumaça? Há algum fogo sob as cinzas? Chego à cozinha, o fogo está no quarto da frente. Chego ao quarto da frente, está na sala. Depois, no quarto dos arreios. No quarto dos meninos. Enfim, só há cinzas.

    Sinto que escorre um filete de lágrimas pelo meu rosto, sujo de fuligem, grosso. Não; não devo chorar. O que morreu, morreu. A casa são ruínas, todos que a habitaram são ruínas, mesmo quem não morreu. A morte chegou de soslaio, cobriu com seu manto amarelo as coisas e os seres. As minhas mãos estão calejadas, duras, de tanto manejar o ancinho da morte. Abri muitas covas, cansei de contar os meus mortos. Que a cinza os cubra, sob as estrelas e o olhar de Deus.

    Bem ao lado do meu quarto, havia uma árvore. Ainda está lá, o quarto é que não existe mais. Tijolos queimados rodeiam a árvore, restos de tijolos, negros, como pedaços de carvão.

    A árvore está queimada, mas resiste: está em pé. O tronco seco, os galhos secos, apontando o alto. Entre os galhos dessa árvore eu imaginava o mundo. Acaricio o tronco frio e duro como pedra. Seria a minha árvore? Seria este o meu quarto? Esta a minha casa? Eu? Serei eu o mesmo que está aqui e o que cresceu entre estas paredes? Escorre zinabre amarelado do que restou das paredes. Escorre zinabre do tempo. Esfarela-se o tempo entre os meus dedos.

    Alheio, farelo estragado, inútil.

    Ana morta no meio da sala. Era como se pairasse no ar. Em êxtase. Percebo: o perfume de rosas vinha da alma de Ana em êxtase no meio da sala. Foi há séculos e ainda sinto o perfume. Falta ver o corpo de Ana e a alma levitando, dançando no ar, não querendo ir embora. E não foi. A casa foi-se embora, ela não: o seu perfume impregna ainda o ar. As coisas que amamos nunca se vão embora. São eternas como o ar que respiramos. As pessoas que amamos são eternas como Deus.

    A casa está tão vazia, desgastada, roída até o caroço, dói, angustia. Quero sentir a presença da casa, do meu pai, minha mãe, meus irmãos, os cachorros. Todos morreram, com a casa. Eu mesmo já morri, com a casa. Onde era a sala, a copa, a varanda que dava para o pomar, vê-se o porão. Medonho. Um poço escuro. Não era à toa que nós, crianças, tínhamos medo do porão. Um território misterioso, um labirinto de galerias, com os seus fantasmas, as suas almas penadas, girando desconsoladas, atordoadas. Nós é que ficávamos atordoados, só de imaginar.

    *

    A casa nem era tão grande. A imaginação, sim. Nem haveria mortos enterrados sob o seu bojo. Nós os criávamos, apavorantes. Brincávamos de medo. Era maravilhoso brincar de medo. Nós que não sabíamos o que era o medo. Depois, muito depois, o universo cairia sobre nós. Sem nos apercebermos do que acontecia, morremos. Morremos aos poucos, profundamente. Mas nunca se morre absolutamente: estou procurando quem fui, quem sou, entre as ruínas da minha casa.

    Há só cinzas e resquícios de fumaça, que engana. Não somos nada. Aninha em êxtase na sala, antigamente, tem mais realidade do que eu.

  • Olho Mágico

    A menininha se aproximou com um objeto na mão. Mostrou para o menininho sentado no banco, num canto isolado.

    – Me dá um pedaço do seu lanche. Eu te mostro o meu olho – disse.

    O menininho ficou olhando com olhos tímidos. Depois passou o pão com mortadela para ela, que lhe passou o olho.

    Era bonito, como um olho de gente. Ele nunca tinha reparado que ela tinha um olho de vidro. Era tão alegrinha. Ele até diria: “Tem uns olhos lindos.”

    Os dois comeram juntos. No intervalo, enquanto mastigavam, erguiam o olho contra o sol. Era azul, da cor do céu, combinava com a carinha alegre da menina.

    – Um dia você me dá o seu olho? – o menino disse.

    – Dou – ela disse, rindo com os dois olhos azuis.

    – De verdade? Eu vou poder levar para mim? – ele disse.

    Ela riu encantada, ele riu encantado. O olho azul outra vez nas mãos sorria como se fosse mágico. O menino pulava de contente:

    – É meu! É meu! Vai ser meu! Vai ser meu!

    Quando a menininha se mudou daquele lugar, não foi embora para sempre; o menininho já tinha ganhado o olho mágico e ficava vendo nele o sorriso da menininha. Nas horas mais tristes da vida, ele tirava o olho do bolsinho da calça, apertava contra o coração e sabia que nem tudo estava perdido:

    – É meu! Ela é minha! Ninguém morre para sempre, ela deixou o olho para mim.

    Beija o olho com carinho, ergue contra o sol e suspira:

    – Amorzinho!

  • Maria Quitéria

    Boca aberta, torta para um lado, os olhos para o outro, parados na morte.

    “Não faça isso comigo. Volte, Paizinho.”

    Olha para a esquerda, vesgo na eternidade.

    “Paizinho, eu prometo ser boazinha. Eu faço tudo.”

    A ponta da língua no canto da boca, quer sair. O safado.

    “Eu prometo, Paizinho. Nem na igreja, nunca mais.”

    – Na igreja, eu sei. Dava para o padre.

    – Olha, parece que vai rir. Morto mais sacana.

    – Perseguia a filha em tudo quanto era canto.

    – É. No bar, eu vi erguendo o vestido. A mão na bunda.

    – Boazuda, a Quitéria.

    – Boa moça. Trabalhadeira. Vivia na igreja.

    – Verdade que andava com o padre?

    – Bobagem. Andava é fugindo do pai.

    De mãos postas no centro do tapete, se faz de santo. O revólver do lado. As mãos rezando, debaixo o buraco da bala.

    “Eu não queria, juro que eu não queria. Você disse: Atira.”

    – O revólver não tinha bala. Decerto pensou que o revólver não tinha bala.

    – O diabo atenta, minha mãe dizia.

    – Um tiro só, bastou um, na barriga, e puf! O diabo murchou, se apagou.

    – Até soltava fumaça, tanto que bufava.

    – Está virando os olhos, está virando os olhos.

    – Que nada. Esse está longe, com os anjos e os santos.

    – Ou com os diabos amigos dele.

    “Paizinho, que eu faço da minha vida? Se o revólver tivesse mais bala, eu me matava.”

    – Não é uma lágrima que cai do olho?

    “Aguinha azul, vontade de beijar, beber essa aguinha da morte.”

    – Deve ser azul, a morte.

    – É negra. Preta que nem um urubu, um morcego.

    – Que frio! Um gelo o coração.

    – Um morcego te chupando o sangue. Só fica essa aguinha azul, morcego não gosta.

    “Pai, e se eu me enforcar? Tem uma corda na cozinha.”

    – O vestido rasgado, que vergonha! Não é um seio de fora? E esses dois lambendo carniça? Os dois, o contista bisbilhoteiro.

    “Feito louca pela casa. Tenho as mãos manchadas de sangue. Quero morrer, quero morrer.”

    “Você foi-se embora, Paizinho, por quê? Não dá para entender. Queria me violentar? O revólver estava tão pesado!”

    “Atira, sua cadela.”

    “Eu atirei, o revólver pesado.”

    Não tinha bala? Umazinha só, esquecida no tambor. A bala que o diabo pôs lá.

  • O Ouriço

    Estou grudado no alto da porteira da mangueira das vacas. Lá embaixo o Duque late feito doido. Avança, negaceia, avança de novo – uma bruta valentia. É um ouriço acuado junto ao mourão da porteira. Ele rodopia, se eriça todo – coisinha indefesa, só tentando fugir do ataque. Mas de cada ataque o Duque é que foge, ganindo – um choro longo e fino de doer na gente.

    Estou tremendo inteirinho aqui escanchado na tábua de cima da porteira.

    O Duque não pode morder o ouriço; mas não desiste. Que dó que isso dá! Bicho besta, por que não vai embora? Aí, teimando e se machucando. Também, que mal que fez o coitado do ouriço, esse bichinho inocente. O quê? Inocente? Um monstro que caiu em cima do Duque, todo escalavrado.

    Um tiro de repente. E a voz do meu pai:

    – Menino, desce daí!

    E eu desço, fazer o quê?

    – Por aí não, pelo outro lado.

    – Por quê?

    – Desce logo.

    Eu sei que não tem espinhos no chão. Ele deve estar cismado; eu obedeço.

    – Vai lá dentro buscar um alicate. Corre.

    – Alicate?

    – Tem que ficar perguntando as coisas? Vai, vai duma vez.

    Eu obedeço. O Duque está lá encolhido num canto da cerca. Geme, geme baixinho.

    Meu pai sabe fazer as coisas direito, por que então não trata do Duque, fica pedindo alicate?

    – O que você quer?

    – O alicate, mãe.

    – Por que você quer alicate?

    – O pai que quer, mãe.

    – Põe no lugar depois, hein?

    – Sei.

    – E não revira esse baú.

    Pego o alicate, levo correndo. Na porta da cozinha escorrego, me esparramo no chão.

    – Cuidado! Sempre estabanado. Não precisa correr tanto.

    Levanto, saio mancando. Tinha que ir apressado. É que me lembrei do Duque.

    Meu pai está agachado. Está fazendo um carinho, consolando, passando a mão na barriga do Duque; com a outra mão segura firme no pescoço, agarrando a pele.

    Não fala nada.. Pega o alicate, segura mais forte, põe o joelho prendendo bem o Duque. Pacientemente, devagar, com mão sábia, depois num arrancão tira espinho por espinho.

    O Duque deixa, nem se mexe. Só chora, um chorinho desconsolado, lá do fundo. O focinho pingando sangue.

    Depois, some um tempo. Não muito; na hora da janta esta lá num canto da cozinha.

    Minha mãe põe a sopa de mandioca na mesa. Oba. Comemos com uma senhora satisfação. Mas logo meu pai se irrita, está olhando o Duque:

    – Bicho imprestável!

    – Ele não tem culpa, pai.

    – Por que é que não tem?

    Lá no seu cantinho, aqueles olhos de dor. A gente percebe, uma aflição bem de dentro.

    – E o ouriço, pai?

    – Que é que tem?

    – Que é que o senhor fez com ele?

    – Ara! Nada.

    Terminamos de comer sem vontade, a sopona fumegando numa gosto-sura.

    Não paro de olhar para o Duque:

    – Como que o ouriço faz isso?

    – Ara! Faz.

    – O espinho vai que nem flecha?

    – É.

    – E fura a carne?

    – Vai furando. Se não tira vai indo para dentro.

    – E agora?

    – Agora vamos fazer o quilo. Logo é hora de dormir.

    – E o Duque, pai?

    – Ele sara.

    – Ele não comeu nada.

    – Quando a fome apertar, ele come. Sossegue, isso passa.

    Meu pai acaba de enrolar um cigarro, vamos para a varanda. Ainda olho o Duque; ele abre os olhos, se bate de leve – uma tremura.

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