Conto de Leandro Alves

  • Com quantos anos ainda se pode dançar?

    Depende.

    Depende das juntas, da artrite, da saúde em geral, depende de tanta coisa.

    Naquele sábado, na pista da Pink Flamingo, os garotos com preguiça do flerte – dançavam, riam, bebiam. Ninguém se olhava. Ninguém se deixava gostar.

    Foi quando ele – camisa branca, jeans comum e tênis – foi para a pista com jeito de quem ainda sabe como se faz certas coisas.

    Primeiro ele olhou. Depois sorriu. Depois gostou.

    O outro olhou de volta. Depois sorriu de volta. Depois gostou de volta.

    Tudo começou com “meu nome é”, “Pô, fazer o meu é”, “Vamos sair daqui e tomar um drink”.

    Os jovens ficaram. O som também.

  • Feliz Dia dos Namorados

    Ele entrou no carro — com sono atrasado e a alma desabada.

    — Bom dia — disse para a motorista.
    — Bom dia — respondeu ela.

    Ele vinha cansado. Noite inteira no hospital: gente gripada, filas enormes, enfermeiras com três noites sem dormir, indo de um plantão para o outro.

    Com anos como enfermeiro, aprendeu a não exigir sorriso nem bom humor dos outros. Dava o sorriso dele, a ajuda dele — ou, às vezes, só um atendimento decente. E isso já bastava.

    O perfume da motorista era bom, mas nada invasivo. Aliás, como ela estava bonita. Se maquiara para o trabalho naquela manhã, se agasalhara, se perfumara.

    Na esquina da Amazonas com Araguari, ela disse:
    — Feliz Dia dos Namorados, viu?

    Às vezes o amor está só perdido no trânsito.

    Os dois riram.
    — Ah, já sei. Você é casado, né? Acertei?
    — Não, não sou casado. Sou solteiro.
    — Então seu amor deve estar preso no trânsito.
    — Batucando no volante?

    Ela riu. No rádio, Alcione cantava “A Loba”, e ela acompanhava — com a cabeça, com a voz, com vontade.
    Ele comentou que, duas semanas atrás, tinha ido a um show da Alcione, numa praça de Contagem.
    Ela cantou “A Loba”, “Faz uma Loucura por Mim”, “Garoto Maroto”.

    Um vozeirão — mas debilitada. Fez o show todo sentada.

    Falaram do trânsito, da vida, dos ex, do trabalho.
    Ela contou que queria deixar de ser Uber, tirar carteira de caminhão, rodar pelas estradas.
    Ser caminhoneira — como foi o avô.

    Mas ele não esqueceu aquela frase: “Feliz Dia dos Namorados.”
    Vinda de quem ele menos esperava, lembrando que a vida — ao contrário do que a gente pensa — não vive no piloto automático.

    E se a moda pega?
    O motorista do ônibus para a passageira. O farmacêutico para a freguesa. A atendente da Casa Rio Verde para o cliente bonitão. A gari para o garçom.
    Quem não tivesse namoro, que desejasse um Feliz Dia dos Namorados a um desconhecido atraente. Simples assim.

    Mas não.
    Somos todos engolidos pela pressa, pela urgência de ganhar mais e mais dinheiro, comprar mais e mais do que não precisamos.
    Mas, de vez em quando, algumas pessoas saem do automático. Como aquela motorista.

    Chegaram na casa dele.
    O dia começava — algazarra de crianças indo pra escola, o bom dia dos vizinhos.

    — Débito ou crédito?
    — Débito.
    — Aproximação.
    — Obrigada. Até a próxima.

    Antes de ir embora, ele não resistiu:
    — Feliz Dia dos Namorados pra você também.
    Deu o cartão dele.
    Ela também ofereceu o dela.

    A próxima, quem sabe, podia ser numa cafeteria charmosa. Ou num bar.

    E você, leitor?
    Ficou com vontade de desejar um Feliz Dia dos Namorados a um desconhecido?
    Quem seria?
    Tenta. Vai que.

  • Pink Flamingo, o devasso e o certinho

    Peguei o táxi na Visconde de Pirajá como quem vai saltar de paraquedas — eu, sedento pela farra, e o poeta carioca ao meu lado, trajando cachecol marrom e sorriso aberto, pronto para qualquer desvio de conduta. No rádio, Caetano entoava seu inconformismo poético:

    “Vaca das divinas tetas
    derrama o leite bom na minha cara
    o leite mau na cara dos caretas”

    E eu, espremido entre banco e sede de noite, absorvia cada verso como promessa de libertinagem, enquanto o carioca soltava um riso baixo, fingindo anotar tudo num diário imaginário.

    O mineiro acomodado ficou no hostel, reclamando que só queria pizza, redes sociais e cama cedo. “Vai lá e depois me conta”, disse ele pelo whatsApp, sem imaginar que a noite carioca nos devoraria vivos.

    Quando o táxi estancou em frente à Pink Flamingo, cumprimentamos a hostess com um aceno torto — convite formal para o desenrolar da loucura. Em seguida, descemos a calçada e fomos comer uma pizza ali perto, vapor subindo em redemoinhos dourados:

    — Tira foto da minha bunda pra mim?

    — O quê?

    — Uma foto da minha bunda. O jeans tá muito justo.

    O casal chileno da mesa ao lado, estupefato, se entreolhou em silêncio, incapaz de decifrar a pepita de humor brazuca — um homem fotografando a bunda do outro numa pizzaria, só em Copa mesmo.

    O carioca, metódico que nem relógio suíço, tirou do bolso uma folha de papel e começou a riscar cada centavo: táxi, ingresso, pizza, deslocamento do Méier a Ipanema. Tudo anotadinho para a planilha do Excel no fim do mês — certinho com o botão de camisa engomado; eu, já com o cartão pronto pra estourar e a alma pronta pra esgotar quaisquer limites.

    Recarregados pela fome saciada, fomos a pé de volta à Pink Flamingo. A chuva miúda fazia do asfalto um espelho trêmulo, realçando o letreiro cor‑de‑rosa no fim da rua. E foi ali, sob aquele brilho artificial, que vimos a drag Cútis Negra descendo de um Uber, batom borrado e aura de quem invade um palácio. Outras drags se amontoavam, homens de mãos dadas cochichavam segredos e mulheres de saias curtíssimas sacudiam o quadril como lei. Ali, percebi que o escárnio e o êxtase formavam uma única batida — e era nela que eu buscava redenção.

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