Conto de Luciano Fortunato

  • Moça em janela de hotel

    Olho pela janela: é o Rio de Janeiro nublado e muito frio. Oculto. Imenso. Quase irreal. Ouço em meu headphopne um dos CDs que ele me deixou. Agora, uma grupo sinfônico que toca música do Metallica. Músicas de vários estilos e artistas estão misturadas num CD que ele me deu, pois ele é viciado em montar coletâneas, mais ou menos como faz aquele personagem do livro Alta Fidelidade, do Nick Hornby. Antigamente ele fazia com fitas, agora são CDs. Agorinha mesmo entrou nos meus ouvidos Jefferson Airplane – nada a ver. Legal e nada a ver. Mas ele é assim mesmo. Daqui a pouco pode pintar um samba com Los Hermanos que só fãs da banda de rock podem conhecer. Vá saber. Suas coletâneas são incoerentes. Como o seu vestuário tosco com alguns esporádicos e inesperados toques de requinte que só no corpo magro, leve e lindamente desengonçado dele podem parecer requintados. Ele só é coerente com uma coisa: suas incoerências.

    Sei que lá fora é frio. Mas o quarto é quente e sou bela. Hoje sou a mais bela mulher do mundo, com minha camiseta branca e calcinha também branca, a me espreguiçar. A TV sem som é um pequeno papel de parede, um quadro vivo, uma caixa preta cheia de gente pequenininha se mexendo e sendo feliz. Volto pra cama e sinto mais uma vez os cheiros de deixamos no lençol e penso em como é bom ser mulher. Vontade de passar o dia nessa cama lembrando da noite que foi. Eu faria isso fácil, fácil. Mas, melhor não. Como o hotel não tem serviço de quarto é melhor eu subir logo para o restaurante e tomar o meu café, enquanto ainda é servido. Engraçado como os dois homens no elevador, que sobem também para o café, me parecem feios. Um barrigudo e com jeito de pseudo-intelectual e o outro, negro, com alguma elegância, porém sem graça. Mas não dá pra ver outros homens agora como machos. Não num dia como hoje. Só os consigo ver como seres humanos assexuados. Não os vejo com antipatia ou desagrado – até gosto de vê-los –, mas o fato é que depois da noite que passou – eu junto ao meu pequeno deus – todos os homens são pra mim seres sem sexo, com exceção dele, obviamente, que é – penso brincando com minha fantasia – o inventor do sexo.

    O café do hotel é muito bom. Muitas frutas e muitas coisas pra escolher. Estou faminta e devo comer como nunca. Na noite que passou, parte do meu corpo se perdeu em suor e demais líquidos. O alimento que ele, o re-inventor do meu sexo, me deu na cama não alimenta o corpo. Muito embora aquilo, de calibre e sustância, seja puro corpo, não sustenta o meu corpo, apenas consumindo-o. É uma pequena morte que me torna viva e com mais fome. Sinto-me leve, não posso negar. Mas é um estado meio vampiresco. O corpo dele junto ao meu e dentro do meu não me satisfaz como um alimento. Aquilo é como um sangue a meio copo. Um vinho a meio copo. Um copo d’água pela metade, que alivia um pouco a sede, mas não a sacia completamente – e isso parece deixar a água mais saborosa que qualquer outra coisa. E ele em mim é melhor que água, melhor que vinho, talvez melhor que tudo. E tudo o que ele faz comigo… Ele só não é melhor que a completude por que a completude não existe. Hoje esses meus olhos que agora olham pelas grandes janelas do restaurante para uma Guanabara cinza são capazes de transformar tudo em beleza. E é disso que eu preciso, de instrumentos que transformem coisas simples em coisas belas. Sempre as janelas. Janelas são fábricas de vida. Graças a estes olhos outrora tão habituados a ver o feio do dia-a-dia da roda semi-viva, e que agora só parecem saber ver o bom das coisas, o meu dia começou assim, agraciado com belezas, onde até um lavatório com a torneira enferrujada é belo. E quanto a ele? Ele, o mais belo dos esquisitões. Como ele estará agora? O que estará passando pela cabeça daquele que tanto me faz sorrir? Sorrir com risadas, sorrir por dentro, e até sorrir chorando…

    Desço. Ruas molhadas. Cachorro na calçada sorri pra mim. Uma velhinha que anda com muita dificuldade sorri pra mim. Policial sorri pra mim. Um lindo bebê no colo de sua mãe faz o mesmo. Bem. Vejo que o mundo sorri pra mim. Só voltarei a vê-lo à noite. Que tipo de dia terei nesta cidade tão bela e tão enigmática? Sou mais estranha no Rio do que seria em Nova York. E o Rio me é por demais estranho. Eu não entendo o Rio. No Rio eu não sei quem eu sou – e isso me aproxima de mim. É o tipo de lugar onde me sinto a todo instante pronta para uma gafe. Só que hoje não. Hoje eu sou da gema. Marisa Monte e Chico Buarque já muito me ensinaram sobre carioquices. E tenho aprendido até que ser carioca é não ser carioca. Não há, por exemplo, coisa mais boba que um carioca sair falando que é carioca. Seria como gente ter que falar que é gente. Não se diz “sou carioca”. Triste do carioca que precisa dessa afirmação. E cariocas não deveriam ser tristes.

    Well. Depois de ter andado um bocado pelas ruas, praças, museus, Metrô, acho que vou beber algo. Chope? Vinho? Chope? Vinho? Não está tão frio assim: chope. Espuma gostosa. Lembra o beijo de ontem com gosto de cerveja. Penso em como eu demorei na vida a gostar de cerveja. Nossa… Demorei a gostar de tanta coisa. Acho que demorei a gostar de homem. E veja hoje como estou… Apaixonada por um. Paixão: esse negócio que o Freud parece ter tratado como desvio comportamental. Não sou especialista em Freud, mas assim li algo a respeito. Eu, finalmente uma mulher apaixonada. Mas quem sou eu? O que posso falar de mim? Meu nome é Michele. Sou filha de mãe brasileira com pai francês. Não conheço meu pai, a não ser pelas lembranças de minha mãe, além de uma fotografia dos dois tirada com uma antiga câmera Canon automática equipada com timer, vejam só, num quarto de hotel. Seus olhos sorriam na foto. Eles se conheceram num carnaval, de onde eu fui concebida. Então ele partiu pra não mais. Não gosto de carnaval. Não que eu não goste de bagunça e de climas orgíacos. Gosto de farra. Pode ser um traumazinho básico, relacionado a meu pai, a quem um dia pretendo conhecer. Eu preciso rever esse negócio com o carnaval. Se eu nasci de um carnaval, e se eu gosto de existir, logo eu deveria gostar de carnaval. É. Mas não gosto por enquanto. Gosto de passar a noite na balada, mas não muito. Prefiro o dia. E não gosto de natal também porque acho que todos ficam hipnotizados – e outros acordados demais, o que os faz mergulhar em tristeza. Também não gosto de ano novo. No entanto, gosto sim de certas celebrações. Difícil entender, eu sei. Sou de Touro, mas isso não faz a menor diferença, pois não acredito em astrologia. Minha cor preferida é o vermelho. No entanto, não uso roupa vermelha. Se eu botar vermelho eu não fico meia hora sem ir a um espelho. Sei lá. Acho que o vermelho é sagrado. Só é bom pra vestir modelo de revista e pra propagandas de Coca-cola. Até batom vermelho na minha boca me acanha. Não acredito em Deus. Tenho muito medo da morte e da velhice. Às vezes quase me pego rezando – rezando não sei em nome de que ou de quem. É a falta que um deus faz. Mas é foda. Deus se foi como o Papai Noel. Mas eu continuo acreditando em um monte de coisas que seriam absurdas para um físico ou astrônomo. Parece uma piada até pra mim: eu costumo acreditar em metade da laranja. E pelo que tenho vivido com esse cara… Puta que pariu… somos as metades de uma laranja. Ah. Que nada. Ele é apenas alguém a quem adoro porque me faz gostar de mim como eu nunca havia gostado. Obviamente isso não é pouco. E, saiba-se, pra eu adorar algo, é porque o objeto é digno de adoração.

    “Posso me sentar aqui?”, ela pergunta. Tenho certeza: é a senhora idosa que arrastando os pés sorriu pra mim quando eu saía do hotel. “Sim, fique à vontade”, respondo. “Mas… a senhora, quem é? Nos conhecemos?” Ao que ela me responde com uma pergunta, no mínimo, estranha: “Você gosta muito de cinema, não é, querida? Gosta da ‘trilogia das cores’ do Krzysztof Kieslowski, não é mesmo?” Essa foi mesmo surpreendente: uma senhora tão velhinha falando de um assunto tão específico. Ainda que ela seja uma cinéfila, a pergunta é desconcertante. Se ela gosta de cinema, esperava-se que fosse falar sobre algum filme antigo, tipo Casablanca, sei lá. Mas Krzysztok Kieslowski foi demais. “Você já me viu antes de hoje”, ela continua. “Sou aquela que aparece nos três filmes, ‘A Liberdade é Azul’, ‘A Igualdade é Branca’, e ‘A Fraternidade é Vermelha’, tentando colocar uma garrafa numa grande lixeira, mais alta que minha estatura, somente conseguido no terceiro filme”. Então trata-se de uma atriz, que coisa legal. “Sim, é claro que me lembro das cenas. Aquelas cenas fizeram muita gente pensar em muita coisa, a senhora deve saber disso. A senhora é atriz profissional?”.

    Sei que todo tipo de estória já foi contada, e que meu caso é só mais um. Já li coisas muito estranhas, como, por exemplo, um livro em que uma menina conversava com sua vagina. Acontece que se acharmos que não falta mais nada pra se mostrar, a literatura pára, a música pára, a arte pára, a imaginação pára, o sonho pára, a vida pára. E sei também que o aconteceu comigo foi real, não é ficção, eu juro. Aconteceu comigo num momento em que eu estava inundada de sentimento. Porém sóbria – não duvidem –, como poucas vezes estive em toda a minha vida. Que coisa chata essa de pensarem que os apaixonados estão dentro de um surto psicótico. Todos tentam viver uma vida emocionante. Gostam de se emocionar com os filmes, de se excitar com as viagens, de ficarem exultantes com a apresentação teatral do filho na escola… Mas quando alguém se apaixona – é isso é a grande emoção do ser – é tratado hoje como um insensato. Apaixonar-se por dinheiro pode. Apaixonar-se por gente é tolice, como parece dizer o novo senso-comum. O dinheiro é o verdadeiro deus deste mundo. Ele passou a ser a premissa para qualquer coisa que chamem de amor ou paixão. Por ele as pessoas vivem e morrem. “Deixe-me esclarecer uma coisa, minha bela menina”, continuou a falar. “Eu jamais tive o privilégio da juventude. Sempre fui velha. Sabe por que? Porque eu não sou uma mulher como você e como as que conhece. Sou uma personagem sem nome dos filmes do Kieslowski. A pobre mulher idosa que mal consegue andar. O que não quer dizer que eu não exista, pois personagens de filmes são mais reais que o que aprendemos a chamar de gente de verdade. O que tive em minha vida? Uma rápida aparição em três filmes. Pode parecer pouco. No entanto, isso me eterniza e me faz existir, compreende? Não se preocupe, você não está ficando maluca. Você está apaixonada, é verdade, mas não louca. Eu estou aqui, pode me tocar”. Levei minhas mãos até as dela e soube que era ela real. Suas mãos enrugadas e manchadas pela idade eram quentes. Subitamente chorei. Sem barulho, chorei com minhas mãos envolvendo as dela. Ela também estava emocionada, porém sem lágrimas – o que é típico de pessoas daquela idade. “O que a senhora faz aqui? Porque me procurou?” Com a voz cansada e mais doce do mundo: “Minha querida… Nós, personagens de filmes somos, imortais e onipresentes, mas não somos oniscientes. Portanto eu não sei o que me trouxe aqui. Talvez o Grande Diretor saiba.” “Grande Diretor? A senhora está me dizendo que Deus existe?” “Todos dizem que sim, não é mesmo? Muito embora eu tenha estado em toda parte e nunca o tenha visto. Eu sou criação da mente de um cineasta. Isso me faz preferir achar que as coisas são criadas por alguém. Já pensou que neste momento você pode estar sendo dirigida, fazendo parte de um filme? Consegue se lembrar, por exemplo, como foi parar naquele quarto de hotel? Você pode me dar um cigarro?” “Sim, claro”. Acendi o cigarro para ela, que tremia. Nesse instante fumávamos juntas, e isso é puro cinema. Pensei em voz alta, com os olhos parados: “Na verdade eu não consigo me lembrar de como cheguei ao hotel. Lembro-me da minha infância até. Mas não de como cheguei ao hotel”. Ela tossiu. “Não interessa ao roteirista, meu amor, explicar como você chegou ao hotel. Eu preciso ir embora” “Não! Por favor, fique mais!” “Adeus, linda moça!”. Ela levantou-se com bastante dificuldade e foi embora vagarosamente. Não sei porque motivo eu não tive forças para me levantar da cadeira e acompanhá-la. Fade out. De repente, como aconteceu com Juliette Binoche em “A Liberdade é Azul”, o sol veio bater suavemente em meu rosto ali na mesa daquele bar. Como é lindo um raio de sol no meio de uma nublada tarde de inverno no Rio. O sol veio como música. Podia ouvir o seu calor em meu rosto. Foi numa situação mais ou menos assim que a personagem de Juliette vislumbrou a velhinha a andar na rua com enorme dificuldade, possivelmente a pensar “e quando eu ficar velha?”.

    Já no hotel, sentada no chão do box, com a água super quente batendo na minha cabeça, com os dedos indicadores tapando os ouvidos pra poder ouvir melhor o barulho da água chocando-se contra meu couro cabeludo sem a interferência do barulho da resistência elétrica do chuveiro, fiquei a pensar em tudo o que havia acontecido. Já não pensava mais no meu homem, mas apenas no que havia representado meu encontro com a velha senhora que me sorriu e me disse aquelas coisas. Engraçado: nos filmes ela não parecia ser o tipo de pessoa capaz de sorrir fácil. A personagem, sorrindo, se modificou pra mim – e como eu gostaria que alguns personagens que margeiam minha vida se modificassem pra mim. Egoísmo, eu sei. Porém seria aquela sempre a velhinha corcunda, ainda que pudesse sorrir, como não tivera a oportunidade de fazer nos filmes onde aparecera tão brevemente. E quanto a mim? Poderia eu voltar a sorrir depois de tudo o que houvera passado naquele dia. Alguém pode sorrir em meio a um turbilhão de dúvida? Alguém pode sorrir ao pensar nas desgraças do mundo, e se existe Deus, etc? Alguém pode sorrir enquanto pensa se sua vida é real ou se está dentro de um filme?

    Seco os cabelos, ainda nua, frente à janela que dá para a Baia de Guanabara. As luzes do anoitecer carioca nesta janela de hotel podem trazer tantos pensamentos que acabamos por misturá-los de tal forma que chegamos a um estado de quase-não-pensar. Tento também não fazer esforço para ter pensamentos recorrentes sobre tudo o que aconteceu. Distraio-me olhando para o meu corpo, meus pequenos seios, meus pêlos pubianos muito negros, minhas pernas finas… Meu magro e belo corpo. Mais magra do que eu gostaria, é verdade. Mas tudo bem. Afinal, quem está cem por cento em paz com seu corpo? Acho que ninguém. Tenho força. Tenho poesia. Tenho pensamentos. Tenho um apaixonado – parece que ele está apaixonado por mim. Já ia me esquecendo, ele vai chegar daqui a pouco. Neste instante gostei de pensar nele, de quem já havia me esquecido. Campainha toca. Visto-me antes de atender. Ao abrir a porta, sorrio. Sorrio finalmente. Ele entra. Pergunto se ele está bem. Nos abraçamos com calor. Sentamos na cama sem muitas palavras. Nos damos as mãos. Venha o filme.

    *

  • Sobre Ester

    Tarde de sexta-feira. Dia dos namorados. Leve frio de começo de junho, nesse clima nunca radical do Estado do Rio, sudeste do Brasil, sul da América, entre os trópicos. Ponho roupa preta, acabada com meu paletó, preto, alemão, de fino corte. É meu único paletó, usado em ocasiões especiais apenas – e, na maioria das vezes, nem nestas. Saio então pelas ruas. Chuva fina. Abro meu guarda-chuva e vou, fugindo das rodas dos carros nas poças. É uma tarde triste. Mas não estou triste, embora meu estado seja, digamos, solene. Meu último encontro com Ester foi na quarta-feira, na casa dela. Naquela tarde, por horas eu a ouvi em seu lindo quartinho branco, com flores e listras verde claro.

    Não estávamos sós, eu e Ester. Éramos quatro naquele pequeno cômodo que mais parece um pequeno templo: eu, dois amigos e ela. Um dos amigos fazia as perguntas. Outro apontava sua câmera de filmar fixada em tripé. Eu apontava também uma outra câmera, também num tripé, mas com movimentos de ida e volta nos detalhes do corpo de Ester, que estava sentada numa confortável cadeira. Imagens em ida e volta, zoom e não-zoom. Detalhes das mãos que não paravam de gesticular, com braços que moviam-se pela emoção daquilo que ela nos falava, terminando em um dedo em riste. Detalhes de sua boca com honrosos dentes amarelados. Detalhes de seus olhos expressivos por trás das lentes que refletiam, às vezes, e de forma mal calculada por nós, a luz difusa de um refletor. Seus cabelos brancos, suas rugas impregnadas de história e poesia, dor e cultura. Cultura poderia ser o nome dessa mulher. Uma mulher, espantosamente, não-triste. Na quarta-feira eu não estava com meu paletó preto.

    Só que hoje meu novo aguardado encontro com Ester seria apenas virtual. Marcamos às quatro na casa do amigo, a fim de dar uma primeira olhada nas imagens captadas na quarta-feira. Ester na tela. Ela ficou bem na tela. E o que ela faz na tela do televisor não pode ser feito por qualquer mulher. Ela nos conta sobre sua infância no Egito, sobre sua vida. Ela nos fala sobre morte. Sobre a morte de parentes ante a foice do nazismo na Alemanha. Sobre a morte do pai – a qual presenciou. Sobre sua passagem na Inglaterra, por Oxford, se não me engano. Reclama que na escola primária, ainda no Egito, as crianças aprendiam “apenas” três idiomas, e que o resto ela teve que aprender sozinha. Ela tem muita história pra contar. Muita. O muito que nos conta, vira e mexe é arrematado com um sorriso maravilhoso – não que ela seja de rir à toa.

    Em nossa frente fotos que ela deixou em nosso poder, para serem digitalizadas. Muitas fotos em preto e branco, evidentemente, de pessoas em sua maioria mortas. Algumas delas mortas em circunstância que não é difícil imaginar. Acho que não me convém – nem a mim e nem a ela – entrar em detalhes agora.

    O que conto é parte da pré-produção do documentário que começa a ser realizado numa parceria entre eu e meu amigo Elano Ribeiro, e com a valiosíssima colaboração de um novo amigo, Janér Baptista. Esther (sim, com “h” no meio) é o verdadeiro nome de uma incrível senhora que conhecemos, a qual nos oferecerá, para um novo projeto, a matéria prima: ou seja, o “livro aberto” de sua vida. De família Judia, nascida no Cairo, formada na Inglaterra, Esther é uma mulher brasileira com oitenta e seis anos. Uma cidadã do mundo. As nuances do mundo de Esther, só poderão saber aqueles que assistirem ao trabalho pronto, que pretendemos entregar ao público ainda este ano.

  • Laranjas azedas com sal

    É pegar uma laranja azeda, cortar exatamente ao meio, e ir colocando sal, aos poucos, em micro-pitadas, à medida em que se vai chupando. Umas três pequenas adições de sal dão conta. O que se sente? Bem. Um pouco do azedume da laranja, um pouco do salgado, obviamente, e, surpreendentemente, um leve sabor adocicado que não deveria estar ali — pois a laranja não é do tipo doce — mas está. Ele transava, desde sempre, experimentações gastronômicas. Contudo, a laranja azeda com sal aprendera com a mãe e com as tias quando ainda menino. Hoje ele é um homem velho a relembrar o seu passado com as cores fortes de um presente que fosse. Cores e sabores, como o da única laranja que neste dia estava em cima da mesa. Para sua alegria, era uma laranja azeda. E ele a chupou com sal. O gosto era de passado.

    No sol da sua longínqua juventude ele se aquecia. Certo dia, muitos anos atrás, perguntaram-no sobre qual era a coisa de que ele mais gostava, no que ele respondeu, depois de pensar um pouco: “ —Maconha e sexo”. Ele não levou mais de trinta segundos para eleger essas duas coisas como as suas preferidas. E pensou em como estava tanto tempo sem fumar um. E pensou também que já não fazia sexo com a freqüência de meses antes — não que n’algum dia estivesse satisfeito com a freqüência de suas relações sexuais. E o fumo… O fato de o fumo ser ilegal o perturbava, pois isso o restringia na impossível liberdade de fumar onde quisesse. Maconha ilegal, sexo restrito. Ah, o sexo… Este requeria um mínimo de paixão, e, ainda, requeria uma outra pessoa, e essa outra pessoa nem sempre estava apaixonada ou presente. Ele buscava na vida o prazer das coisas do corpo – que é o mesmo que alma. Buscava satisfação. Satisfação, para ele, era uma palavra como Comunismo, ou como Extraterrestre: essas coisas que são lindas, mas que não se sabe se um dia poder-se-á ver.

    Numa tarde, ele pegou seu velho carro, que era uma extensão da velha bicicleta — sempre coisas velhas — e foi em direção ao incerto. Uma estradinha de asfalto centenário — datada de quando quase não existia asfalto. O incerto dele nunca era algo muito distante, em termos automobilísticos e viários, dada a situação do tanque com pouco combustível, sempre com pouco combustível. A velha estradinha sempre o esperava. Em silêncio e acolhedora. Ela o recebia, ele, o eterno menino velho — que sempre seria menino e sempre fora um velho –, com seu carro velho e com seu baseadinho, mas sem companhia para sexo. Numa das curvas ele acelerou mais que o considerado seguro, até que colidiu com um animal de grande porte. Era um burro. Na testa agora um pouco de sangue. No burro, caído no chão, não se via sangue, mas se via um animal tentando levantar sem sucesso — provavelmente uma fratura na bacia, ou na perna. Olhou para os olhos tristes, por fim, do burro, que parecia ter, após muitas tentativas, desistido de levantar. Sentou-se na grama, à beira da estrada, a quatro metros do burro e permaneceu, fitando-o. Sentiu vontade de chorar, mas não chegava a chorar em situações trágicas pessoais – os filmes o faziam chorar com muito mais facilidade. A morte de artistas queridos o faziam chorar, fossem contemporâneos seus ou não. Ali não chorou. Aquela situação, no entanto, era muito triste: um rapaz pobre com seu carro velho com o pára-lama direito amassado, sangue descendo na face, um pobre burro deitado na lateral da estrada, a incerteza sobre o que fazer naquele momento. E um burro, por si só, já é uma coisa triste.

    Fugir e abandonar o animal: pensou. Mas que merda… dois burros, sem ação, à beira do caminho: pensou novamente. E pensou um milhão de coisas. E multiplique-se isso pelo efeito da Canabis-sativa em sua mente. Pensamentos de todas as cores, sabores, cheiros, medos e conclusões diversas. Não seria honroso um burro abandonar o outro. Ele pensava em sua honra, ainda que não houvesse expectadores. O sol, o vento frio, o céu que avermelharia com o ir das horas.

    Milagres acontecem. Ela parou seu carro, bem mais novo, vermelho, e o ofereceu solidariedade, perguntando, primeiramente o que havia ocorrido, e como, e o que fazer, e em que posso ajudar, e como posso ajudar, e como isso foi acontecer, e como você pode mesmo ficar aí parado pensando no burro ferido quando podia dar o fora antes que o dono do burro apareça, e achou como ele era bonito, e ele também achou isso dela, e ela pegou na mão dele, e comoveram-se juntos com a situação, e saíram de perto do burro pra pensar na situação sem a imagem triste dos olhos tristes do triste animal, e ultrapassaram uma cerca, e fumaram juntos, e roubaram umas laranjas, e eram azedas, e aquilo era bom, e ela limpou seu rosto com a blusa molhada no riacho, e fizeram amor, e foram felizes, felizes, felizes… Voltando à estrada ela disse: “— Há uma hospedaria de cavalos perto daqui onde podemos avisar que há um pobre burro com a pata quebrada. Tem veterinário lá. Eles poderão dar um jeito. Não precisamos falar que você o atropelou”. E assim foi feito. E assim eles disseram: “— Até qualquer dia!” E eles nunca mais se viram. E o burro viveria feliz até o fim dos seus dias.

    Voltando pra casa com o velho automóvel, de sua pequena viagem, ele trazia na mochila algumas laranjas azedas. Já na cozinha, as chupou com sal.

    *Publicado originalmente no Crônicas Cariocas em seg., 15 de jun. de 2009, 10:21

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