Conto de Quinta-feira

  • O peregrino

    Levanta-te e anda!, disse aquele visionário de barba crespa e suja e olhos que anunciavam divindade. Lázaro, farto de mentiras sobre a vida e a morte, levantou-se e começou a caminhar. No meio da tarde estava já longe de tudo, do povoado coalhado de casebres, das hortas envelhecidas, de suas duas irmãs confusas e atônitas. Estava longe de si mesmo, e isso lhe deu algum alívio.

    No meio do caminho, parou e olhou para trás. De boa vontade teria dado graças e até beijado os pés daquele visionário maltrapilho, mas não tinha retrovisor em sua memória poeirenta. Além disso, o barbudo, àquela altura, estava ocupado em suster nos ombros um pesadíssimo pedaço de madeira e não poderia lhe dar atenção.

    Bebeu um gole d’água do cantil amarrado à cintura e contemplou o horizonte estendido como um tapete diante de seus pés. Chegou a novas terras, conheceu novas gentes. Ninguém o conhecia, porém. O tempo de quando estava morto e usava sudário já havia passado e não havia naquelas paragens ser vivente que tivesse ouvido falar dele. Para os outros, ele era só um viajante que tinha aparecido por lá. Percebeu que nunca se sentira tão leve como agora. Atravessou a nova terra e continuou a andar, seguindo seu destino e a ordem do visionário barbudo: Levanta-te e anda!

  • Lurdinha

    No exato instante em que Lurdinha nasceu, exclamaram Coitada!

    Com o passar dos meses, acrescentaram ao Coitada! a frase Olhe a cabecinha dela, que pequenininha! Lurdinha cresceu com sua pequena cabeça e foi feliz, mesmo que não entendesse tudo o que a mãe lhe dizia e ensinava. Chegou à avançada idade de oito anos sem assimilar muita coisa, embora compreendesse o necessário.

    Se tivesse que perguntar algo na rua — por exemplo, onde ficava a casa de chocolate em que morava sua amiga Filó — Lurdinha, coitada! não conseguia prestar atenção ao que lhe diziam. Fixava os olhos nos gestos do interlocutor, escutava sua voz e divagava. As palavras que ouvia passavam como brisa fresca por seu cérebro e iam embora. Filó certamente se cansará de esperar pela amiguinha.

    Lurdinha saboreava com os olhos apertados os gestos, os silêncios, o jeito e o olhar daqueles que falavam com ela. Descobria os segredos, os desejos, as tristezas, as esperanças, as mágoas, as alegrias. Seu corpo às vezes doía com tanta informação. Outras vezes sentia o coração pulsar mais rápido com a poesia que, sem esforço nenhum, conseguia criar na brevidade de uma pergunta.

    Em sua meninice, e com a cabeça tão pequenininha, Lurdinha, coitada! usava a lógica natural: Acho que não vou encontrar a casa da Filó assim, de primeira, mas com poesia o caminho até lá vai ficar bem mais bonito.

    E lá ia Lurdinha, coitada! procurar a casa de chocolate da amiga Filó lambendo com gosto um picolé Chicabon.

  • Maria Mercedes se olha no espelho

    Nunca tinha ido à escola e se envergonhava quando perguntavam se sabia ler e escrever. Respondia Não e mudava de assunto. Agora, aos sessenta anos, começou a aprender as letras nas aulas noturnas da escola municipal. Saía da casa de dona Elza deixando tudo pronto: as panelas e o chão brilhando, a comida do jeito que a patroa gostava e a roupa passada. À noite, na escola, escrevia bem devagar o que a professora ditava, passando a língua nos lábios enquanto a mão desenhava as letras maiúsculas e minúsculas de seu nome: Maria Mercedes. Afastava os olhos do papel, entortava a cabeça para olhar por outro ângulo e dizia, satisfeita: Esta sou eu.

    Aprendeu também a escrever o que costumava ver todos os dias: mesa, panela, chão, comida, gato, copo, água, vassoura, feijão, menino. E já não sabia que outra palavra escrever, até que lhe ocorreu uma: espelho. Aprendeu a escrever espelho e olhou a curva de cada letra. Leu uma e outra vez em voz alta e ficou olhando a palavra, olhando e olhando. Admirou-se de não se ver refletida nela. E por que não se via naquele espelho escrito, se tudo o que escrevia antes certamente via? Quando rabiscou barriga, viu a dita cuja no filho lombriguento, e disso não tinha dúvida. Encafifou. Pensou que era porque ainda não sabia escrever muito bem e que, quando soubesse à perfeição, veria tudo o que quisesse, bastaria escrever. Se não fosse assim, que vantagem teria aprender a ler e a escrever?, perguntou. Ninguém na classe respondeu. Fizeram silêncio, como se Maria Mercedes tivesse dito algo estranho. Como se ela olhasse para um espelho e, feito um milagre, de repente se visse.

  • Pessoa

    E porque viver não é necessário — necessário é criar —, ele dizia para si mesmo nas horas longas em que, de sua janela, à noite, olhava o mar: Ah, Pessoa, tu tens uma espécie de dever de sonhar sempre, pois, não sendo mais, nem querendo ser mais que um espectador de ti mesmo, tens que assistir ao melhor espetáculo que puderes. Acaso não tens em ti todos os sonhos do mundo? Então sonha, homem, sonha…

    Quando se sentia só, nas noites em que apenas os passos miúdos e rápidos de Maria Jesuína, a empregada, indo e vindo pela casa, eram ouvidos, Pessoa convocava seus amigos mais chegados, aqueles imprescindíveis, para uma festa despretensiosa na sua biblioteca: celebrar a literatura com doses generosas do melhor vinho português.

    Álvaro, Alberto, Bernardo e Ricardo se revezavam na criação da poesia mais sublime. Pessoa os olhava, recostado no sofá, sorvendo lentamente sua taça de Porto. Estava embevecido ouvindo-os falar, contabilizando mentalmente quantos e quão belos versos iria roubar deles naquela noite.

    A festa avançava madrugada adentro e só foi interrompida quando Maria Jesuína, mãos na cintura e bigodes em riste, decretou:

    — Pessoa, ainda acordado? Já pra cama!

    Despediu-se dos amigos e deu boa noite a Maria Jesuína. No quarto, pijama de flanela, ouviu o vento que passava além. Olhou seus botões e pensou: Só de ouvir o vento, vale a pena ter nascido. Sentou-se por um momento nos pés da cama, os olhos nos chinelos: Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

    Pensou nos amigos com carinho e sorriu: São todos fingidores; fingem tão completamente, que chegam a fingir que é dor a dor que deveras sentem. Gostava de tê-los sempre por perto, ainda que fugazmente, porque o valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.

    Deitou ainda uma vez os olhos no mar, além de sua janela. A vista daquela imensidão líquida e salgada apertou-lhe o coração e turvou-lhe a alma: Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal?

    Dormiu, finalmente.

    *(Citações em itálico: Fernando Pessoa)

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