‘Conto de Sexta-feira’ 01/05/26

  • Os dois chapéus

    Os dois chapéus vinham boiando nas águas revoltas do rio; quase soçobravam nas ondas encapeladas, entre tábuas, troncos, montes de lixo e um ou outro cadáver, sob o voo indiferente dos urubus; mas vinham resolutos, altaneiros, ostentando orgulhosos as suas insígnias de classe superior; ainda pude ouvi-los, de longe, conversando:

    – Esse aí, só olhando – disse o mais velho, que eu chamei de Sílvio.

    – Tem gente que é assim, não presta para mais nada – disse o mais novo, o Joãzinho.

    Eu cocei a cabeça; que é que eles queriam que eu fizesse? Peguei algumas pedras, tentei acertá-los.

    – Idiota – disse o Sílvio.

    – Estúpido – disse o Joãozinho.

    Lancei-me ao rio, logo alegre, em lépidas braçadas; alcancei os dois, que caíam na gargalhada.

    – É idiota mesmo – disse o Sílvio.

    – Um arrematado estúpido – disse o Joãzinho.

    Peguei os dois chapéus, e afundei com eles; nadamos horas e horas, depois dias e dias, sob as águas do desconhecido, levados pelas torrentes impetuosas do universo; aportamos numa praia deserta, onde o barqueiro e seu enorme cajado nos aguardava.

    – A sua decisão, infeliz – disse.

    Espantei-me. Que decisão teria para tomar? Onde estava? Para onde iria? O céu avermelhado declinava no horizonte, onde um vulcão fumava pacientemente, tossindo de tempos em tempos. Por fim consegui perguntar:

    – Que decisão devo tomar?

    – Com qual dos chapéus vai embarcar para o outro lado, oras – disse o barqueiro sorrindo com escárnio por entre seus dentes podres, deixando claro que, não importa o chapéu que escolhesse, eu seria o mesmo idiota ou estúpido de sempre.

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