conto de terror

  • Dois homens bons e generosos

    João Alfredo colhe a cada final de semana as verduras e legumes que semeia. Sua horta é cuidada com esmero, o solo é fértil e o produto de seu trabalho é considerado o melhor do povoado. A barraca que tem na feira é concorrida, todos apreciam sua colheita. Como não tem mulher nem filhos, ele costuma distribuir entre os vizinhos e amigos os vegetais que não vendeu. Todos diziam dele:

    — João Alfredo é um homem bom e generoso e as verduras e legumes que saem de sua horta têm muito boa qualidade.

    Assim, quando vai à padaria comprar pão para o café da tarde, quando passeia pelas ruas do povoado ou quando decide descansar e tomar um copo de vinho no Bar do Massa, João Alfredo é sempre saudado com simpatia por quem o encontra:

    — João, suas verduras e legumes são deliciosos. Sempre frescos e tenros. A cada semana se tornam melhores.

    ***

    Eu também planto e colho verduras e legumes na horta que tenho no quintal de minha casa, mas o meu solo não é tão fértil quanto o de João Alfredo, e por isso a colheita não é tão viçosa. Mesmo assim, é boa para consumo. Na feira, pouca gente frequenta a minha barraca. Também não tenho mulher ou filhos, de maneira que me sinto bem distribuindo entre meus vizinhos e amigos os produtos que sobram. Por causa disso sempre me considerei um homem bom e generoso. Mas quando vou à padaria comprar pão para o café da tarde, quando passeio pelas ruas do povoado ou quando decido descansar e tomar um copo de vinho no Bar do Massa, as pessoas não se mostram simpáticas:

    — Paulo Clemêncio, suas verduras e seus legumes são uma porcaria. Ninguém em casa gosta delas. Acho que nem os porcos gostam.

    Sempre que ouço reações assim fico com um nó na garganta. Mordo meu lábio para disfarçar o desgosto e a vontade de chorar.

    ***

    O tempo passou e todos ficamos mais velhos, inclusive João Alfredo e eu. As verduras e os legumes dele continuaram sendo um sucesso entre as gentes do povoado. As minhas, como sempre, um fracasso. Então, um dia, quando João Alfredo lavrava seu solo fértil e distribuía as sementes e mudas de verduras nos buracos que fazia na terra, eu me aproximei dele por trás e abri sua cabeça com a ponta de uma pedra. João Alfredo caiu e nunca mais se levantou. Com as provas coletadas pela Polícia Civil, um juiz e dois peritos forenses concluíram que João Alfredo tinha tropeçado e batido a cabeça numa pedra. Pobre João Alfredo, estava tão velhinho!

    ***

    Neste fim de semana colhi as verduras e os legumes de minha horta, vendi uma parte na feira e a outra parte distribuí entre os vizinhos e amigos. Depois fui comprar pão para o café da tarde, passeei um pouco pelas ruas e resolvi tomar um copo de vinho no Bar do Massa. Algumas pessoas se aproximaram:

    — Paulo Clemêncio, suas verduras e seus legumes são horríveis, intragáveis. Que saudade do João Alfredo, Deus o tenha!

    ***

    Na semana seguinte joguei veneno para ratos nas verduras e nos legumes que vendi na feira e nas que distribuí entre os vizinhos e amigos. Em poucos dias, grande parte da população morreu. A Polícia Civil investigou e, diante das provas coletadas, um juiz e dois peritos forenses me acusaram de assassinato. Fui condenado a trinta anos e levado à prisão, onde passaria os anos que me restavam de vida. Pensei que não fosse suportar, que morreria de tristeza, mas estava enganado.

    ***

    Estava muito enganado. O diretor do presídio me concedeu um pedacinho de terra ao lado do pátio, para que eu fizesse uma horta e plantasse e colhesse verduras e legumes, atividade que eu sabia executar com esmero. A vida na prisão não tem sido ruim: alimento-me bem, durmo com tranquilidade e ainda cuido da minha horta. Como não tenho a feira para vender nem vizinhos e amigos a quem distribuir meus produtos, compartilho tudo com meus colegas de penitenciária e com os carcereiros.

    Aqui me consideram um preso bom e generoso. Assim, quando passeio pelo pátio, quando descanso num banco para ver cair a tarde ou quando fumo calmamente um cigarro depois do almoço, os companheiros se aproximam:

    — Paulo Clemêncio, suas verduras e legumes são uma verdadeira delícia. Estão melhores a cada semana.

    É quando fecho os olhos e sorrio para mim mesmo, satisfeito e certo de ser um homem bom e generoso.

  • Carmen, a faxineira prática

    Os familiares da morta explicam que querem a casa limpa o mais breve possível, já há um comprador interessado. O imóvel precisa virar dinheiro logo e ser dividido entre eles. Perguntam a Carmen se não tem medo de entrar sozinha na residência de uma defunta. Ela responde que deixou o medo lá na terra dela, depois da chacina que matou seu pai e seus irmãos. Que necessita trabalhar, que trabalha desde criança e que não escolhe serviço. Que gente morta não faz mal a ninguém, só gente viva. Que faxina é faxina, não tem segredo nenhum, é só deixar limpo o que está sujo e pronto. Que pede a Deus para nunca lhe faltar trabalho, seja em casa de vivo ou de morto, tanto faz. Que, brinca ela, um leproso nunca reclama de uma ou duas feridas a mais num corpo todo cheio de chagas. Carmen não se mostra disposta a alongar a conversa fiada e trata logo de combinar dia, horário e pagamento para fazer o trabalho. Informa que levará o próprio material de limpeza. Dizem para voltar no dia seguinte, às dez horas.

    Carmen gira na fechadura a chave que lhe deram, empurra a porta de madeira escura e olha o ambiente por alguns segundos. Casa pequena, em dois palitos eu limpo isso aqui e recebo o pagamento, ela calcula. O silêncio lhe agrada. Morte recente, parece que ninguém da família mexeu em nada ainda. Devem ter medo de entrar aqui, pensa a faxineira. É a primeira vez que limpa casa de defunto. Isso é bom, avalia Carmen, não vai ter patroa enxerida e de mau humor vigiando o serviço nem espreitando se a gente rouba alguma coisa. Fecha a porta com o calcanhar. Veste o avental, prende os cabelos, coloca as luvas de borracha e começa a faxina pelo banheiro.

    A falecida deixou meio rolo de papel higiênico no suporte e um tubo de pasta de dente quase cheio em cima da pia. Carmen pega os dois e os guarda no bolso do avental. Os tempos não estão para se ter nojo de nada e ninguém vai notar a falta. Esfrega o vaso sanitário e a banheira com limpa-manchas abrasivo e depois aplica desinfetante perfumado. Passa pano no chão, que brilha. Fecha a porta e vai para outro cômodo.

    Na cozinha, encontra um saca-rolhas e uma garrafa de vinho pela metade sobre a mesa. Põe o saca-rolhas no bolso. Essas coisas custam barato no mercadinho, Carmen avalia, mas se não precisar pagar por elas, tanto melhor. Cheira a boca da garrafa e faz careta: O vinho azedou, que merda! Joga a bebida fora e lava a garrafa. Esfrega tudo com detergente antigordura. Enxuga a pia, recolhe o lixo, limpa o piso e sai.

    Na sala quase sem móveis, Carmen olha para a cortina listrada de tecido grosso. Decide levá-la, deve servir para alguma coisa. Sobe num banquinho para tirá-la do varão, sacode a poeira e a dobra. Pode virar uma toalha de mesa ou uma colcha de cama. Se alguém perguntar, ela dirá que não havia nenhuma cortina na janela. Na pressa de vender a casa ninguém vai reparar nesse detalhe.

    Por último, o quarto da falecida. Carmen encontra uma bonequinha de pano jogada no chão. Guarda-a no bolso do avental, porcarias assim sempre têm alguma utilidade. Decepciona-se ao ver a cama sem lençol e sem colcha. Avalia o colchão: pesado e grande demais, não teria como levar, a família daria pela falta. Suspira e se conforma. Vasculha as gavetas da cômoda à procura do que mais interessa: as pílulas. Essas mulheres remediadas são loucas por remedinhos tarja preta pra dormir, pra acordar, pra ficar alegre, pra ter energia, pra relaxar. Tomam remédio pra tudo, onde será que estão escondidos? Não tem nada aqui, vai ver algum parente já pegou, que azar! Passa o aspirador no piso e um pano com lustra-móveis nas portas do guarda-roupa. Ouve um ruído parecido com um gato arranhando a madeira, vindo de dentro do armário. Abre a porta. Uma menina de presumíveis três anos está encolhida e parece assustada. Carmen olha a criança e tem vontade de pegá-la no colo. Antes, porém, faz cálculos: é bonitinha e parece saudável, mas cuidar dela vai custar um bocado de dinheiro, além do tempo necessário até crescer, criar corpo e conseguir trabalhar. Não valia a pena. Empurra a menina de volta para o fundo do armário e fecha a porta. Termina de tirar o pó e limpar o chão do quarto. Dá a faxina por encerrada e sai para devolver a chave e receber o pagamento.

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