COntos

  • ENQUANTO ISSO

    O tempo está sujeito a chuvas e trovoadas, o horizonte parece mais distante e inatingível como o daquelas tardes à beira do mar, quando se faz planos inúteis para o futuro. Uma garota brinca com seu cachorro na rua onde poucos carros passam. Corre uma ambulância com a sirene ligada, e eu jogo fora, mais uma vez, outro poema que escrevi sem pensar.

    A história é escrita diariamente por um robô, tantos fatos iguais se repetem até que fiquemos fartos. Caem os heróis de ontem, e hoje não conseguimos fabricar um novo — não tiramos ninguém de real valor do meio dessa gente de pele mole, olhos opacos e nervos flácidos. Minha memória tenta resistir, mas já conhece seu tempo de validade, e eu luto à exaustão para permanecer. Sei que só ela sobrará quando eu não estiver mais aqui.

    Vejo presidentes passando na rua, vejo também os opositores, e a proximidade entre todos eles me espanta. Vejo um bloco de Carnaval vestido de falsa alegria, os foliões tocam bumbo e corneta e gritam frases estridentes, mas as vozes não têm vibrato nem metal e não alcançam além dos próprios ouvidos.

    Ouço sobre o suicídio coletivo das baleias no Mar do Norte, a televisão se esforça para mostrar só o seu ponto de vista, as galinhas põem ovos coloridos, eu tomo um sorvete de chocolate e observo com preguiça o deputado corrupto que vocifera no plenário contra a corrupção.

    Enquanto isso, tua cintura cresce e se arredonda feito lua cheia, beijo teu umbigo e juntos aguardamos a chegada da nossa cria.

  • Vertigem

    Se olham, se pressentem, se desejam,
    se acariciam, se beijam, se desnudam,
    se respiram, deitam juntos, se cheiram,
    se penetram, se chupam, se demudam,
    adormecem, despertam, se iluminam,
    se apalpam, se mastigam, se babam,
    se confundem, se encaixam, se machucam,
    se apertam, se beliscam, estremecem,
    se tateiam, se grudam, desfalecem,
    se repelem, se chutam, se provocam,
    se irritam, se cospem, se esbofeteiam,
    se enlaçam, se apartam, se procuram,
    se lambem, se mordem, se ferem,
    se apressam, se perfuram, se injetam,
    desmaiam, revivem, resplandecem,
    gritam, se querem, se perseguem,
    se inflamam, enlouquecem, se abrem,
    se derretem, se soldam, se incendeiam,
    se maldizem, se xingam, mentem,
    sentem cãibra, torcicolo, tendinite,
    estrebucham, arregaçam, empinam,
    praguejam, se odeiam, se matam,
    ressuscitam, se buscam, se esfregam,
    choram, se acalmam, respiram
    e se amam.


  • Ulisses

    Silas e Douglas eram escritores iniciantes. Assistindo a uma conferência num evento literário, ouviram do palestrante que dois importantes autores portugueses haviam decidido escrever um livro juntos: o primeiro redigia um trecho, o outro continuava a história. Silas e Douglas resolveram reproduzir essa ideia. O resultado da experiência pode ser conferido a seguir:

    “Ulisses jamais foi visto na companhia de outras pessoas. Nunca cumprimentava os vizinhos, não tinha amigos, parentes nem animais de estimação. Também não tinha emprego. As pessoas comentavam que vivia de herança. Morava na última casa da vila fazia pelo menos quarenta anos. Dona Mirtes, atualmente com 90 anos de idade, era a única moradora do lugar mais antiga do que ele. Quando uma loja de roupas femininas foi inaugurada nas redondezas, Ulisses passou a postar-se diante das vitrines por horas, queria examinar cada detalhe das roupas expostas. Se alguma vendedora vinha ao seu encontro oferecendo ajuda, ele a repelia com um gesto rude”.

    O pessoal da loja até chegou a chamar a polícia. Só que Ulisses não estava cometendo crime algum, e nada pôde ser feito contra ele. Esse doido espanta os fregueses, alegou a gerente. Em vão. Um dia, Ulisses passou a fotografar os modelos. Um mês depois, na véspera do dia de finados, rendeu as vendedoras com uma faca e exigiu que elas o deixassem entrar na vitrine. Lá dentro, começou a estrangular um manequim de cabelos ruivos vestido com um longo vermelho. Jogou o manequim no chão e pisou em cima dele com decisão ao mesmo tempo que gritava: ‘Não aceito pessoas falsas! Pessoas falsas não merecem viver! Abaixo os simulacros!’ Nesse dia, Ulisses finalmente acabou preso.”


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