Crônica

  • Prazo de validade

    Desde criança me intrigavam as relações que sobrevivem ao lodo do tempo. Talvez por ter avós e pais separados, a união indissolúvel de duas histórias me comovia profundamente. 

    Na infância, gostava de assistir aos avós de uma amiguinha caminharem pela rua. O andar lento, inseguro de cada um, se amparando na união das mãos enrugadas, nos braços pintados de manchas vermelhas, que depois descobri se chamarem fragilidade capilar, causavam, simultaneamente, uma paz e uma apreensão só ofertadas pela noção de eternidade.  

    Lembro de ressoar no pensamento, em momentos aleatórios, sem nenhuma explicação plausível, o termo “fragilidade capilar”. Por causa disso, toda pessoa que chegava em minha casa, jovem ou não, despertava o meu olhar investigativo na busca daquelas manchas que ficavam por baixo da pele fina. Lá pelas tantas do crescer, minhas pesquisas infantis revelaram a correlação entre aquelas marcas e o envelhecimento. Agora, sim, havia entendido tudo. O corpo dava os sinais do seu desgaste. A corrosão era de dentro pra fora. Mas, ainda assim, eu continuava a achar lindo que o caminho para a finitude fosse em parceria com o ser amado de uma vida inteira.

    Durante anos cultivei esse ideal romântico, mas a recepção dos consultórios médicos e até, mais efetivamente, do Pilates, ultimamente, têm destruído a marretadas minha ilusão. 

    Existem casais, que estão juntos há trinta, cinquenta anos, que não se suportam mais nem por um segundo. É curioso perceber a falta de paciência, as intolerâncias de todo tipo, os safanões, gritos e até xingamentos de canto de boca. As implicâncias, críticas ferozes edesvalorização do parceiro(a) também aparecem de forma acintosa.

    Hoje mesmo presenciei uma cena dessas e me indaguei: há quanto tempo passou a hora deles se separarem? Por que escolheram seguir juntos quando só a desavença os une? Quando foi que deixaram de acreditar na existência de outros caminhos? Como se estabelece o prazo limite para ser feliz? 

    Primeiro, senti uma tristeza rascante. Deve ser horrível viver com alguém pelo medo de morrer só. Em seguida, senti um alívio: quem sabe as brigas e as alfinetadas funcionem como a diversão possível ou, pelo menos, o espaço lícito para depuração das amarguras? É provável que, no exercício da convivência, eles tenham aprendido a se ignorar ou se odiar com amor. Quem sabe se sentem completos, felizes e realizados?

    Agradeci aos meus avós e a meus pais a coragem de lutar por novos rumos. Me orgulhei de mim por não ter me conformado com dias mornos.

    Suspirei fundo e lembrei daquele casal da minha infância. Eles são a prova de que é possível não deixar o amor azedar como feijão fora da geladeira.

    É isso que quero pra mim. Menos que isso não aceito nem com oitenta anos.

  • Sem grilhões

    Li agora a pouco, cinco minutos dentro do dia 1º de outubro, que ninguém pode ser preso no Brasil. Calma, não foi instituído nenhum perdão antecipado para crimes e criminosos e muito menos entramos no estado do “vale-tudo”. É só efeito da legislação eleitoral, cujos detalhes não sei nem conferi e se você que me lê estiver muito curioso vai lá e pesquisa, combinado?

    Porque o assunto aqui é outro.

    Bom seria se pudéssemos nos livrar dos grilhões antecipadamente.

    As amarras da vergonha e do medo.

    Não sentir culpa por nada.

    Não evitar o ato pela mania besta de antecipar que pode dar errado.

    Correr riscos, sim, porque o desconhecido nem sempre é ruim.

    Andar de cabeça erguida sem temer o dedo acusador, a censura.

    Expressar quem você é e o que deseja ser.

    Não se envergonhar porque abriu a porta errada e ter coragem de dar um passinho para trás.

    Suspirar profundamente ao invés de responder o que não merece resposta.

    Afirmar que beber café em pé é melhor porque a bebida desce mais fácil.

    Defender por menos de um minuto uma tese sem sentido, como essa aí de antes do café.

    Mas não abrir mão da cerveja sem pressa, essa sim, sentada e em boa companhia.

    Lembrar que nem sempre a solenidade combina com o vinho.

    E que para quem gosta de cerimônia até copo da água deve ser tomado com mesura.

    Que as coisas simples são boas porque são simples, mas um tantinho de sofisticação faz um bem danado também.

    Por fim, tem sempre o ponto. Simples, de exclamação, interrogação ou de ônibus. Que marca um fim, como na ortografia, ou um novo começo, como no transporte.


Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar