Crônica

  • Ultimo café

    Contemplou em silêncio o burburinho alegre à sua frente. Da mesa de canto no terraço onde estava sentado espiava as demais espalhadas.

    A maioria com casais, fora uma grande com seis pessoas. Na sua, permanecia só.

    O sol da tarde era ameno e com luz leve. Escondido atrás do telhado da cafeteria, fazia sombra em sua mesa. Enquanto todos tricotavam alegremente sob o sol gentil, ele permanecia silencioso na penumbra.

    Uma variedade de sucos, doces, chás e cafés ocupavam os tampos espalhados pelos terraços e eram consumidos distraidamente pelas pessoas. Na sua mesa, seu café duplo demorou a chegar. Veio acompanhado de um biscoitinho de sabor neutro e sem entusiasmo. Melhor se estivesse só, como ele.

    Não esperava ninguém, para ser honesto. Estava sozinho, bebendo devagar o café para não queimar a língua.

    Estava ali porque se convencera a conhecer o lugarzinho charmoso que abrira há pouco numa rua transversal à sua, ou melhor, aonde ele mora porque não era dono de rua alguma.

    Usou a desculpa de conhecer a cafeteria para sair de casa porque decidira que precisava ver a vida em movimento.

    E estava vendo. Espectador da alegria alheia, ouvinte de pedaços de conversas que nada lhe diziam. Flashes da vida mundana. Nada além.

    Por um momento imaginou que poderia ter alguma companhia para esse café à tarde.

    Mas a mínima hipótese de pensar em chamar alguém o fazia mudar de ideia. Suas amizades eram poucas, a despeito de conhecer bastante gente. Conhecimentos que não iam além do mais profundo “alô”.

    Suspirou, a tarde terminou de escoar, as mesas próximas ficaram vazias.

    A sua, em breve, seria a próxima porque iria embora. Não estava frustrado porque ninguém lhe fizera companhia. Não tinha de se queixar porque ela se atrasou ou não apareceu. Simplesmente, porque não chamara ninguém.

    Pensou, mas desistiu. Não queria ninguém para um alô. Nem para um último café.

  • Estou pobre de heroínas…

    Neste site, onde publicamos crônicas, poemas, contos e reflexões, existe uma aba chamada Autores. Lá está a nossa descrição: quem somos, o que nos qualifica como escritores, nossa formação. Enfim, um retrato resumido de cada um.

    Tenho filhos, netos, família e amigos. Estudo. Publiquei livros de contos e crônicas, além da minha autobiografia. Tenho três graduações, fiz pós-graduação e posso afirmar: estudar foi e, ainda é parte importante de quem sou.

    No entanto, minhas referências como autora em “nosso site” são as pautas que me inquietavam quando decidi me dedicar exclusivamente à escrita: envelhecer e parar de trabalhar.

    Dois dilemas que me ocupavam a mente, provocavam reflexões e despertavam temores.

    Águas passadas…

    Aposentei-me entre os cinquenta e oito e os sessenta e seis anos.

    Nesse intervalo, flertei com a leveza de não ter horários, com a liberdade de escapar da rigidez hierárquica, da dureza das opiniões e de tudo aquilo em que me transformara como funcionária pública.

    Passei a ser uma estagiária sênior.

    Gostei! E, quando cansei, deixei de vez a vida pública e me tornei aposentada.

    Quanto ao envelhecer, só me dei conta quando troquei o batom vermelho pelo “cor de boca”; quando substituí os saltos pelos tênis, seja por conforto, seja por questões físicas.

    Aos sessenta e nove anos, saudei a minha velhice com um poema. Fiz isso com galhardia, consciência e verdade.

    Resolvidos, portanto, os dilemas da idade e do tempo ocioso, restava-me outra inquietação: quem seriam, agora, as minhas heroínas?

    As heroínas!

    Aquelas que, das páginas dos romances, nos forjaram, inspiraram, despertaram inveja ou compaixão.

    Mulheres que nos fizeram pensar não só em nós mesmas, mas no mundo, nas relações, em nossos direitos…

    Ou aquelas de quem apenas copiamos modelos de roupas ou frases de efeito.

    As mocinhas destemidas, submissas ou valentes, lindas e amadas.

    E também as que sofriam, ou faziam sofrer, a quem condenávamos ou aplaudíamos.

    Também conhecemos personagens que, mesmo em sua feiúra ou pequenez, nos fascinaram a ponto de não conseguirmos abandonar a leitura antes do fim.

    Mulheres descritas de forma nua e crua, com falhas humanas, como aquela que, ao perder a beleza e os prazeres da carne, passou a comer sem parar até se tornar obesa em Shangri-la, o Horizonte Perdido?

    Ou a governanta cruel de Primo Basílio?

    O que dizer de Madame Bovary, no misto de idealização romântica, insatisfação crônica e busca por relações insustentáveis?

    Tudo mesmo já foi dito, escrito, lido?

    Não haverá mais heroínas que possam me inspirar?

    Ou será que elas continuam escondidas nas entrelinhas, aguardando que eu as descubra, como quem abre uma janela e deixa entrar um sopro de vento novo?

    Quero ainda me surpreender, enternecer, admirar…

    No meio da multidão, no silêncio dos asilos, nos cabelos brancos exaltados pelo modismo, eu busco, eu quero, eu preciso.

    Onde estão minhas heroínas?

  • Síndrome do bebê fantasma!

    Na pracinha do bairro, clara caminha com seu carrinho de bebê. O sol da tarde ilumina o rosto rosado da “criança” que ela exibe com orgulho. Os vizinhos sorriem, mas, ao se aproximarem, congelam. Nos braços dela, há um boneco reborn: olhos de vidro, veias desenhadas à mão, corpo de silicone morno. A cena é perturbadora, não pelo realismo do objeto, mas pelo desvio de atenção que ele provoca. Clara troca as fraldas da “criança, canta ninarias, conversa com o inanimado. “Ele acordou com cólica hoje”, diz, balançando o manequim.

    A psicologia nomeia isso como “Síndrome do bebê fantasma” — uma resposta à perda, à solidão, à carência.

    Mulheres que sofreram abortos, idosas abandonadas, mulheres cujos úteros ou afetos nunca foram preenchidos.

    O reborn é uma prótese emocional, um atalho para driblar a ausência.

    Até quando um objeto substitui o calor de um ser? Há quem critique: “É patológico”, murmuraram na fila do mercado, enquanto Clara pagava por mamadeiras vazias. Tem o caso da “Mãe” que publicou um vídeo em seu perfil no TikTok levando Bento, seu bebê reborn, ao hospital após “notar que ele não se sentia bem”. O conteúdo viralizou e obteve mais de 8 milhões de visualizações até o momento. Ela decidiu levar Bento ao hospital às pressas ao perceber que ele estava mal. Chegando ao local, ela relata que a médica o examinou, medindo sua temperatura e aplicando remédios. Em determinado momento, ela relata que “tirou o leite” em casa para dar a ele no hospital.

    A verdade é que todos carregamos bonecos reborn invisíveis. Projetamos nossas vidas em relacionamentos mortos, em empregos que nos sugam, em likes que validam nossa existência. Clara apenas materializou sua neurose em algo tangível.

    Seu erro, talvez seja não escondê-la. Enquanto a sociedade tolera vícios em álcool, workaholismo e compulsões silenciosas, seu crime é expor demais a ferida.

    O problema não está no silicone, mas na linha tênue entre o que cura e o que aprisiona. Quando a fantasia vira cela, o abraço ao boneco é uma confissão: preferimos a mentira que acalma à verdade que machuca. 

    Assim, seguimos colecionando substitutos — para a maternidade, para o amor, para o sentido.

    Porém, cuidado com os reborns da alma: um dia, eles podem nos responder. E aí, seremos obrigados a encarar o silêncio que sempre esteve lá.

  • Prazo de validade

    Desde criança me intrigavam as relações que sobrevivem ao lodo do tempo. Talvez por ter avós e pais separados, a união indissolúvel de duas histórias me comovia profundamente. 

    Na infância, gostava de assistir aos avós de uma amiguinha caminharem pela rua. O andar lento, inseguro de cada um, se amparando na união das mãos enrugadas, nos braços pintados de manchas vermelhas, que depois descobri se chamarem fragilidade capilar, causavam, simultaneamente, uma paz e uma apreensão só ofertadas pela noção de eternidade.  

    Lembro de ressoar no pensamento, em momentos aleatórios, sem nenhuma explicação plausível, o termo “fragilidade capilar”. Por causa disso, toda pessoa que chegava em minha casa, jovem ou não, despertava o meu olhar investigativo na busca daquelas manchas que ficavam por baixo da pele fina. Lá pelas tantas do crescer, minhas pesquisas infantis revelaram a correlação entre aquelas marcas e o envelhecimento. Agora, sim, havia entendido tudo. O corpo dava os sinais do seu desgaste. A corrosão era de dentro pra fora. Mas, ainda assim, eu continuava a achar lindo que o caminho para a finitude fosse em parceria com o ser amado de uma vida inteira.

    Durante anos cultivei esse ideal romântico, mas a recepção dos consultórios médicos e até, mais efetivamente, do Pilates, ultimamente, têm destruído a marretadas minha ilusão. 

    Existem casais, que estão juntos há trinta, cinquenta anos, que não se suportam mais nem por um segundo. É curioso perceber a falta de paciência, as intolerâncias de todo tipo, os safanões, gritos e até xingamentos de canto de boca. As implicâncias, críticas ferozes edesvalorização do parceiro(a) também aparecem de forma acintosa.

    Hoje mesmo presenciei uma cena dessas e me indaguei: há quanto tempo passou a hora deles se separarem? Por que escolheram seguir juntos quando só a desavença os une? Quando foi que deixaram de acreditar na existência de outros caminhos? Como se estabelece o prazo limite para ser feliz? 

    Primeiro, senti uma tristeza rascante. Deve ser horrível viver com alguém pelo medo de morrer só. Em seguida, senti um alívio: quem sabe as brigas e as alfinetadas funcionem como a diversão possível ou, pelo menos, o espaço lícito para depuração das amarguras? É provável que, no exercício da convivência, eles tenham aprendido a se ignorar ou se odiar com amor. Quem sabe se sentem completos, felizes e realizados?

    Agradeci aos meus avós e a meus pais a coragem de lutar por novos rumos. Me orgulhei de mim por não ter me conformado com dias mornos.

    Suspirei fundo e lembrei daquele casal da minha infância. Eles são a prova de que é possível não deixar o amor azedar como feijão fora da geladeira.

    É isso que quero pra mim. Menos que isso não aceito nem com oitenta anos.

  • Sem grilhões

    Li agora a pouco, cinco minutos dentro do dia 1º de outubro, que ninguém pode ser preso no Brasil. Calma, não foi instituído nenhum perdão antecipado para crimes e criminosos e muito menos entramos no estado do “vale-tudo”. É só efeito da legislação eleitoral, cujos detalhes não sei nem conferi e se você que me lê estiver muito curioso vai lá e pesquisa, combinado?

    Porque o assunto aqui é outro.

    Bom seria se pudéssemos nos livrar dos grilhões antecipadamente.

    As amarras da vergonha e do medo.

    Não sentir culpa por nada.

    Não evitar o ato pela mania besta de antecipar que pode dar errado.

    Correr riscos, sim, porque o desconhecido nem sempre é ruim.

    Andar de cabeça erguida sem temer o dedo acusador, a censura.

    Expressar quem você é e o que deseja ser.

    Não se envergonhar porque abriu a porta errada e ter coragem de dar um passinho para trás.

    Suspirar profundamente ao invés de responder o que não merece resposta.

    Afirmar que beber café em pé é melhor porque a bebida desce mais fácil.

    Defender por menos de um minuto uma tese sem sentido, como essa aí de antes do café.

    Mas não abrir mão da cerveja sem pressa, essa sim, sentada e em boa companhia.

    Lembrar que nem sempre a solenidade combina com o vinho.

    E que para quem gosta de cerimônia até copo da água deve ser tomado com mesura.

    Que as coisas simples são boas porque são simples, mas um tantinho de sofisticação faz um bem danado também.

    Por fim, tem sempre o ponto. Simples, de exclamação, interrogação ou de ônibus. Que marca um fim, como na ortografia, ou um novo começo, como no transporte.


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