Crônica de Fernando Neves

  • Voz de IA

    Vou te falar, adotar essa postura tem evitado que eu me aborrecesse com mais frequência. Você tira a emoção das palavras e responde praticamente ao pé da letra tudo que te perguntam. Em alguns casos repete a mesma resposta se a pergunta for igual ou bem parecida.

    E como é que isso dá certo?

    As pessoas ficam sem muita alternativa para conversar porque você tira o espaço para estabelecer qualquer conexão que gere um diálogo mais extenso. Sem agressividade você cria uma barreira de desconforto diante dos demais seres humanos.

    Mas ninguém estranha, não acha você meio maluco por causa desse jeito assim…

    Assim como? Antissocial.

    Ah, bom, é isso pode acontecer. Um efeito colateral dessa postura é, as pessoas ao seu redor, criarem uma imagem pública a seu respeito que varia entre a maluquice e a grosseria. Pode resultar também em um certo isolamento social, sabe as pessoas param de te mandar memes, de te convidar para sair, entre outras atividades da vida em sociedade. Mas tem suas vantagens sim.

    E onde isso pode ser vantajoso?

    Você se livra do convívio de uma pensa de gente desagradável. Faça as contas, dos corpos humanos que orbitam ao seu redor, o número dos que merecem a sua atenção não cabem nos dedos das suas duas mãos juntas.

    Bom, pensando dessa forma eu acho que você tem razoa em parte.

    Viu? Essa seleção social é mais fácil se você se portar como uma IA, neutro, sem emoção e irritantemente funcional.

    Mas isso não parece com IA.

    Isso é o que menos importa porque na percepção das pessoas, por falta de repertório para conseguir definir o que você está fazendo, te classificam como IA. Admito que esse jeito de falar também me remete aquele personagem maravilhoso do cinema.

    Qual deles, o robô de Perdidos no Espaço?

    O robô não era do cinema, mas da televisão e a voz dele era carregada de emoção.

    Então quem?

    Hannibal Lecter.

    Você não pode estar falando sério.

    Estou sim.

    O Lecter é o psicopata dos psicopatas.

    Ah mas é um grande personagem, concorda?

    Claro, totalmente, mas deixa te perguntar uma coisa.

    Sim, claro, o que é?

    Seu plano de saúde cobre tratamento mental também?

  • Para entender aquarela – ou não

    É assim, quando você pinta aquarela você se põe diante de uma situação que beira a ficção. No momento em que você coloca as tintas sobre o papel tem início uma relação estranha, quase surreal, entre artista e cores.

    Veja bem, você sabe o que você quer pintar mas depende da colaboração da tinta.

    Você não comanda as cores, elas são surdas aos seus apelos desesperados quando se espalham à vontade e aleatoriamente pelo papel.

    Se a superfície estiver seca, elas vão reagir de uma forma. Se o papel estiver úmido, a estória é outra e, claro, vai sempre depender do grau de umidade da superfície. E, por falar nela, a umidade, há outra muito importante, a do ar, que interfere decisivamente na consistência das tintas à medida que deixam os tubos onde jaziam no escuro, compactas e imóveis. Pintar aquarela no deserto do Thar não deve ser a mesma coisa que pintar em Belém do Pará, pode estar certo.

    Assim, quando o artista aperta o tubo tem início uma reação que dificilmente ele terá controle completo. Não há diálogo possível com substâncias que se movem ao seu bel prazer. As tintas são manhosas, caprichosas, donas de suas efêmeras vidas. Se espalham da forma que querem e na direção que decidem, independente da vontade da pintora ou do pintor. Ao artista cabe somente tentar corrigir o curso que as cores tomam à sua frente.

    Alguns conseguem, outros não. Na fúria de não ver seu talento expresso pelas tintas, muitos rasgam o papel e o atiram a lixeira, encerrando o que as tintas decidiram fazer, se obra de arte ou esboço colorido. Como saber? Não há, e por vezes é um teste supremo de paciência. Mas uma coisa eu tenho certeza é que as melhores aquarelistas do mundo, como a Gemma Capdevila ou a Anna Mason, com certeza sabem conversar com as cores. Elas, assim como os demais expoentes dessa bela arte, seguramente falam a língua das cores, elas falam tintês.

    E, você, minha amiga, já aprendeu esse idioma misterioso?

    Ainda não, mas me disseram que tem um aplicativo de tradução universal que é uma coisa!

    Tá bom, vou querer mais desse seu chá, por favor.

  • Deixe-se levar

    No ano que começou agora há pouco desejo menos organização e mais espontaneidade. Mais espaço para contemplação e menos para observação.

    Compromisso só nas obrigações, porque são implacáveis. No mais, vamos levando em espirais diáfanas.

    Planejar é preciso, certo, mas não pode ser um ato imperativo em nossas vidas. Umas boas doses de imprevisto, reunidas a golpes de vista felizes, não farão mal algum.

    Caminhar por caminhar. Espiar e deixar o olhar seguir até onde a vista alcança para só aí decidir se vamos por essa estrada ou por aquela ou, até, por nenhuma.

    Que nossas escolhas de onde ir possam seguir o que Robert Frost soprou suavemente em seu poema O caminho não percorrido:

    “Duas estradas divergiam em uma floresta, e eu…
    Peguei o menos percorrido,
    E isso tem feito toda a diferença.”

    Sim, fazer a diferença por nossas escolhas ainda é uma sábia opção.

    Que no próximo ano uma parte dos nossos movimentos sejam em direção ao estático. Parar por parar. Parar porque é bom.

    Olhar para um lado ao invés do outro e vice-versa.

    Escutar, falar, sorrir, chorar.

    Conter-se, expandir-se, rir-se.

    Deitar, dormir, sonhar.

    Sonhar acordado, sonhar enlevado por uma doce lembrança.

    E, para encerrar, desejo que tenhamos mais confiança e que olhemos mais para dentro de nós mesmos. Atitudes que só podem nos trazer coisas boas.

    Nem que nos conduzam somente à citação de Walt Whitman, na “Canção da estrada aberta”:

    “eu sou maior e melhor do que eu pensava”.

  • Pavê da vovó

    A receita era antiga e sua avó quando era viva nem lembrava mais sua origem. Talvez fosse portuguesa, talvez holandesa ou uma mistureba de influências. Mas assegurava que tinha aprendido ainda mocinha quando morava em Vassouras, no interior do estado do Rio. Seu avô nunca foi muito fã desse pavê, dizia ela rindo, nem seu pai. Mas você meu neto, faz a minha alegria. Era verdade. Ele comia tudo que ela fizesse e tinha uma predileção toda especial pelo pavê da vovó.

    Os ingredientes não tinham nada de especial. O pavê leva leite, creme de leite, baunilha, leite condensado, uma gema de ovo e biscoito de maisena claro, dizia sua avó. Biscoito champagne não se usava porque era caro e nem tinha lá na roça.

    Mas ele sabia que não era só isso. Não podia ser só isso. Outras pessoas tinham feito pavê com rigorosamente os mesmos ingredientes mas o sabor nunca era o mesmo. Tinha algo que sua avó fazia que dava aquele gosto especial. O que seria? A qualidade dos ingredientes? As marcas escolhidas? A forma de misturar? Não tinha a mínima idéia mas era insuperável.

    Uma vez quando era menino pediu de presente um pavê para comer sozinho, sem ter de dividir com as primas e os primos. Era uma das lembranças mais doces de sua infância.

    Sua avó morrera há uns 10 anos e não passou a receita para ninguém simplesmente porque ela tinha tudo de cabeça. Anotar para quê se eu faço pavê desde o século passado, ria.

    Com o passar dos anos, o assunto pavê da vovó acabava entrando até nas conversas entre amigos. Sabe quando alguém tem aquelas idéias pretensamente saudosistas de recordar o que tinha de bom na infância? Em verdade é só para alguém se mostrar contando aos outros como ele foi feliz quando era criança, blá, blá, blá. Mas para ele, felicidade era doce e gelada e atendia pelo nome de pavê da vovó. E todo mundo já sabia disso e dava risada porque ele nunca falava outra recordação da infância.

    Na última vez em que esse assunto veio à tona foi na festa de noivado dele. Ah sim, não contei mas o rapaz encontrou o amor de sua vida e, à moda antiga, noivou com a moça. Por sinal foi uma bela festa em um sitiozinho lá em Vargem Grande, na zona Oeste do Rio, mas isso eu conto outra hora.

    Ao ouvir pela enésima vez que bom mesmo era o “pavê da vovó” a moça se encheu de coragem e disse: vou fazer um igual ao dela. Todos olharam na direção dela e aplaudiram sua atitude. Afinal, já era hora do rapaz voltar a sentir aquele prazer de sua infância e quem melhor do que ela para fazer esse mimo com ele?

    Qualificações ela tinha de sobra. A moça era craque na cozinha, neta de mineira com baiana e com curso de pâtisserie na França. Na semana seguinte quando ele foi visita-la em casa, surpresa: pavê! Ela fizera sua sobremesa favorita. Das brumas do seu passado para o nosso doce presente, meu amor, cantarolou ela contente.

    O noivo se sentou na mesa da cozinha mesmo, pegou uma fatia generosa de pavê e comeu de lamber o prato. A noiva sorriu vitoriosa aguardando ele falar que era igual ao da avó. O noivo rasgou elogios sinceros, disse que estava maravilhoso, mas não era o da vovó!

    Ela não se abalou. Nas semanas seguintes ela arregaçou as mangas com decisão e entregou-se ao desafio: o pavê da vovó. Fez de novo, de novo, de novo e de novo. Passou semanas em pesquisas pela internet, em livros de receita e trocando informações com seus professores franceses. Buscava pessoalmente os ingredientes de melhor qualidade, a despeito do isolamento social provocado pela pandemia do Covid-19. Trocava as marcas, buscava alguma mais regional que não se encontrava no Rio de Janeiro, enfim fez piruetas. Ela dizia que valia o esforço para agradar o amor da sua vida.

    E em todas as vezes ela entregava um pavê diferente de tudo que seu noivo já havia provado na vida. Ela se superava a cada receita, a família acompanhava entre orgulhosa e tensa. O rapaz como era de se esperar dava cambalhota de prazer mas ao final tinha sempre aquele “mas” terrível.

    A moça não se abalava mas diante da situação que se repetia – “meu amorzinho está uma delícia mas…” – decidiu apelar: convocou sua avó, mais duas tias-avós de Barbacena e foram as quatro para a cozinha. Agora não tem mais jeito: esse pavê vai ter de sair nem que seja na marra, decretou a indignada noiva.

    Foram dois dias de trabalho, experiências e tentativas. Até que finalmente chegaram a uma conclusão e fizeram o pavê. O noivo foi chamado e apresentado ao doce. Ela estranhou que dessa vez ele não parecia tão animado como das outras ocasiões mas relevou. Deve ser receio de me desapontar ou cansaço de tanto comer, tadinho.

    O pavê foi posto na sua frente, uma fatia foi cortada. As quatro mulheres estavam à mesa com os olhos pregados nele. Com tanta pressão em cima, o noivo sorriu sem graça e disse que antes de provar precisava dizer uma coisa. A noiva se aproximou e olhou séria. Pode falar, disse.

    Sabe meu amor eu aprecio muito mas muito mesmo toda essa dedicação que você tem em fazer aquele pavê da minha avó. Mas tem um porém.

    Já sei, vai dizer que o pavê não existe, era delírio de criança, disse uma das tias-avós.

    Ou o ingrediente secreto era maconha, rebateu a outra tia-avó às gargalhadas.

    Tias, por favor, deixa ele falar, reclamou a noiva. Vai meu amor, me conta se abre comigo qual é o porém.

    Então como eu ia dizendo, lembra que eu tive Covid-19?, falou devagar o noivo.

    Sim, meu amor, foi um susto danado. Ainda bem que você teve a forma mais branda, recordou a noiva.

    Sim, foi mesmo mas tive sequelas, avançou o noivo.

    Quais?, espantou-se a noiva.

    Eu estou com anesmia, disse o rapaz.

    Você vai contar para a gente que diabo é isso ou vou ter de pesquisar no google?, disse a avó da noiva.

    Anosmia é perda de olfato, explicou ele.

    A noiva arregalou os olhos e ficou muda.

    O rapaz olhou para ela triste e segurou suas mãos: não sinto cheiro de nada e não tem qualquer perspectiva de que volte a sentir. E sem olfato não consigo sentir o gosto de nadinha…

    Xii, então fodeu de verde e amarelo, resmungou a avó.

  • Ruptura

    Toda vez que olhava pela janela era em busca de distração. A vista não era de frente para o mar mas também não era para alguma parede. Do alto de sua janela avistava a cidade com sua arquitetura confusa e mista. Prédios clássicos que evocavam o passado de glória do bairro resistiam em meio a edifícios decadentes e lançamentos imobiliários de residências claustrofóbicas.

    Durava pouco a tentativa de desviar a atenção. Invariavelmente algo a puxava pelo pé e seus olhos voltavam para as obrigações. Agora, chamadas de obrigações mas que um dia foram recebidas com entusiasmo porque faziam parte de sua escolha.

    A opção por essa vida tinha sido sua há 20 anos. Era mais jovem do que hoje, naturalmente, mas ainda estava em boa forma. Toda manhã se olhava no espelho e sorria constatando: ainda sou um mulherão.
    Mesmo com sua rotina pesada e complexa, não abria mão dos cuidados essenciais. Unhas toda semana, para citar somente um aspecto, em nome do que ela chamava ser seu pacote básico feminino.

    Por dentro, mantinha alguns hábitos de higiene intelectual, como cinema e encontros com as amigas. Ver um filme, como ela sempre falava, era a forma de enxaguar seu cérebro. E encontrar as amigas era para deixar a gargalhada em forma. Mulherão por dentro e por fora, era assim que se definia.

    Por conta do seu cotidiano hiper atarefado era chamada de guerreira. Houve uma época em que sorria envaidecida quando escutava isso. Nos últimos anos, no entanto, esse suposto elogio a tirava do sério. Não era mal criada, longe disso, mas não deixava passar em branco.

    Toda vez que escutava que era “guerreira” respondia: guerreira não, sou sobrecarregada. Intimamente sempre soube que um dia teria que dar um fim a isso tudo. Aquela vida que um dia fora boa hoje se tornara um tormento. O problema estava em pegar a faca e cortar as cordas. Romper é um processo doloroso e necessário. Para ela, se desvincular e seguir adiante se tornaram situações que um dia ela teria que vivenciar.

    Só não imaginava que romperiam por ela. Doeu fundo quando escutou as palavras duras. Por fora manteve a postura corajosa, afinal é uma mulher adulta e independente. Mas por dentro escorreram lágrimas por sua alma que por pouco não transbordaram.

    Dedicara mais de 20 anos de sua vida para ser dispensada sem mais nem menos. Mas honestamente, ela esperava o que? Um número musical? Mãozinhas dadas e palavras doces?

    Sem chance. A vida era dura e isso fazia parte dela.

    Ergueu-se, ajeitou o vestido e olhou em volta para ver se faltava algo a ser levado. Parecia que estava tudo encaixotado, mas talvez ainda precisasse dar mais uma olhada. No coração, as mágoas que sentia pela ruptura ainda pulsavam. Arqueou as sobrancelhas e disse para si mesma: pode doer agora mas nada disso vai me abalar.

    Nesse instante lembrou-se das sábias palavras de uma amiga do tempo de escola. Sorriu para si e concluiu que naquele instante aquele conselho se tornara um imperativo em sua vida.

    A amiga disse certa vez: Para estar sempre preparada tenha à mão um bom advogado…trabalhista!

    Suspirou fundo e pensou: sem emprego mas isso não vai me abalar porque ainda sou um mulherão. E foi em busca de mais uma caixa de papelão.

  • Montanha

    A inspiração é forte. A concentração, igual.

    Olha-se adiante, para cima, em busca de cada reentrância na pedra que permita firmar as mãos ou só os dedos. Meio pé em um calço é o suficiente para subir mais um pouco no paredão.

    Visto por baixo, a parede parece lisa e impossível de ser conquistada. De perto, a visão é outra.

    Apoios para as mãos e pés se multiplicam, mas não estão expostos. É preciso atenção e muita observação para achá-los.

    A cada momento da jornada, entre um trecho de parede íngreme e outro, surge um platô mais amigável. Está ali para lembrar que ainda há mais a ser escalado.

    A sensação de estar lá, subindo devagar e firme, é única. Nada melhor que sentir a pedra quente nas mãos. A montanha firme, imóvel, e você subindo por ela.

    Silêncio profundo. Há vida à sua volta. Mas nenhum som chega até você. Impera a quietude.

    Um vulto passa longe. Você vira o rosto um pouco e vê um urubu voando. Sorri, e a ideia de a presença dele ser um presságio brinca na sua mente. Mas, qual nada. É só um urubu aproveitando uma térmica, a corrente quente ascendente. Ou, como diria Tom Jobim, dormindo na perna do vento.

    Admirar o voo do urubu serve para descansar um pouco. Mas agora, adiante. Aspirar o ar puro do alto da montanha. E seguir. Sem pressa, domando a ansiedade que cresce à medida que o cume se avizinha.

    O topo é o final da jornada. Cume ou chapadão, é para lá que você vai. O prazer da conquista é só seu. Egoísta? Nem de perto.

    Ninguém pode sentir o que você realmente sente nesse momento. Ou em outro qualquer da sua vida. Nenhuma narrativa, nenhuma imagem captada, nada na tecnologia humana é capaz de passar a outra pessoa o que você sente. A sensação, seja ela qual for, sempre será unicamente sua.

    No topo, você olhará para os lados. Para baixo. Vai suspirar satisfeito com sua conquista, para depois tomar o caminho de volta. Por onde subiu, vai descer. No mesmo ritmo, com o mesmo cuidado.

    E, a cada movimento para baixo na descida pelo paredão, a cada parada nos platôs, vai se lembrar de que cada conquista é única, mas não definitiva.

  • Conversas aos pedaços

    Nada mais moderno e urbano do que escutar parte de uma conversa. Na rua, no elevador, em uma loja, no metrô, no cinema, enfim em qualquer lugar onde seres humanos circulem falando. Você passa e capta um pedaço da frase.

    Algo como “leva o cachorro para passear antes” e não conseguia escutar mais nada. Tinha que imaginar o restante do que seria dito. Na maior parte dos casos não valia à pena o exercício mental porque era sempre algum papo trivial demais. Ao menos para você, o ouvinte, porque para quem falava devia ser algo essencial. Ou não, vai saber.

    Antes para por em prática a arte de pescar conversas aos pedaços você precisava de ao menos dois indivíduos de nossa espécie. Um falava com o outro e a gente, de passagem, tropeçava nas partes das frases. Agora ficou fácil. Basta uma única criatura munida de seu telefone celular para fazer a festa dos caçadores de pedaços de conversa.

    E a coisa se ampliou bastante nos últimos tempos. A popularização do uso dos fones de ouvido, conectados aos telefones celulares, criou um festival de gente andando e falando pelas ruas que chega a ser assustador. Circulam no maior desembaraço tagarelando em alto e bom som. É uma falta de cuidado com o que falam misturado com uma necessidade de se mostrarem ocupados que nem sei onde vão parar.

    Quando os ladrões passarem a roubar fones de ouvido essa gente vai se inibir. Já o conteúdo das conversas mudou pouco. Pode fazer o teste. A maior parte da tagarelice continua sendo bobagem.

    Minha última experiência como pescador de conversa alheia, no entanto, me surpreendeu.

    Estava caminhando no parque da Aclimação, em São Paulo. Domingo de sol que me chamou para dar umas voltas e queimar calorias. Estava na terceira volta pelo lago, não, mentira, era o fim da segunda volta. De todo modo, ia animado quando passei por uma mulher que, no exato momento em que eu a ultrapassei, disse a seguinte frase: não se arruma alguém para matar esse cara.

    Parei na hora. Me virei espantado encarando-a. Ela percebeu, deu um sorrisinho e disse que não era comigo. Olhei em volta e não vi mais ninguém espantado com a frase. Será que ela tinha o hábito de acertar essas, digamos, pendências, dando voltas no lago e falando em alto e bom som?

    A mulher, ainda parada perto de mim, insistiu que não era nada demais. Concordei, deu um sorrisinho débil, me virei e fui embora.

    Por via das dúvidas acelerei o passo e fiz o caminho em zigue-zague para dificultar a mira do atirador. Vai quê…

  • Cinco gravatas

    Cinco gravatas estavam sobre a cama. Ele as escolhera para aquela semana de trabalho. Fazia muito tempo que não vestia nada tão formal e curiosamente sentia saudade. Escolhera aquele quinteto cada uma por uma razão.

    A primeira era justamente como sua re-estréia no mundo formal. De cor sóbria, lembrou os momentos em que interagiu com pessoas sisudas e pouco afeitas aos sorrisos. Perfeita.

    Já a segunda evocou memórias mais doces. De alguém que um dia sorriu quando o viu com ela ao pescoço e disse que ele estava muito elegante. Só de lembrar seu rosto se alegrava ao ponto de sentir a doce fragrância de seu aroma de mulher recém saída do banho.

    A partir daí as portas de suas lembranças amorosas se escancararam.

    A terceira tinha sido presente de uma moça que gostava de dizer que tinha altura certa para ajustar sua gravata. E beijar seu queixo o que o fazia revirar os olhos.

    A seguinte ele comprara de impulso em um shopping. A maior parte das pessoas, em especial as mulheres, não aprovara sua compra. Os comentários iam de “é bonitinha mas..” até simplesmente detestarem a gravata. Mas nunca se desfizera dela porque um dia um alguém, antes de partir seu coração, dissera que a tal gravata caía muito bem nele.

    A quinta e última era o arremate para sua semana formal. Estilo sóbrio como a primeira mas atraente o suficiente para naquela ocasião a moça sair de onde estava e se postar à meia distância dele. O curioso é que ele demorou a perceber que ela estava ali diante dele. Ela olhava atenta mais para a gravata e menos para ele, verdade seja dita. Na conversa que se seguiu a moça disse que a gravata era linda e era igual a que ela vira em um filme clássico sobre aristocracia inglesa. Não lembrava mais do filme mas os momentos a dois nunca mais deixaram sua memória.

    Assim, gravatas postas lado a lado de suas memórias evocadas suspirou uma última vez. As lembranças de amores passados sempre o comoviam e, conforme o dia, o faziam pensar em hipóteses e histórias alternativas.

    Afastou os pensamentos. Eram só lembranças, mereciam seu lugar em sua memória afetiva e nada além disso. E ponto final. Pegou a primeira, olhou-se no espelho, preparou-se para dar o nó de Windsor, o único que ele sabia fazer na gravata e disse para si mesmo: hora do show.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar