Crônica de Lucas Arroxelas

  • Entre o que se escreve e o que se publica

    Até os melhores poetas já escreveram os piores versos, mas só os piores poetas os publicam. Isso já foi dito e redito, e aqui digo mais uma vez, porque parece extremamente certo e ainda necessário. A questão que se coloca é a da seleção dos poemas na formação de um livro e como a obra de um poeta se apresenta ao público.Aí o problema assume contornos matemáticos, de proporcionalidade. Porém, não se trata de porcentagem ou de qualquer expressão em valores numéricos propriamente (afinal, em termos de literatura, jamais poderia ser desse modo, bem como por falarmos em matemática mais em termos metafóricos), mas das impressões no leitor e no crítico.

    O tempo entre a publicação de um livro e outro precisa exceder o da escrita dos poemas que o leitor encontrará disponível para a leitura. Precisa ser maior não porque o poeta necessite observar esse ditame estabelecido e esperar para o lançamento, tendo o seu livro guardado. Mas porque se alcança uma quantidade de poemas suficiente para compor um livro antes, no entanto, se publicado prontamente, provavelmente, sua qualidade não será boa. Se selecionados criteriosamente, os poemas se reduzem em número, alarga-se o tempo necessário do livro.

    Alguns autores publicam livros quase que anualmente, com 100 poemas ou mais. A percepção que fica é a de que publicam absolutamente tudo que lhes sai da pena, sem qualquer crivo crítico e, como aparece em muitos casos, sem sequer revisão ou ajuste, o que é expelido da cabeça vai ao livro. Assim, em meio a bons versos que saem de todos os poetas de qualidade ou medíocres, estará uma enxurrada de ruins e médios poemas, suficientes para rebaixar a qualidade do livro na avaliação e na experiência que o leitor terá dele e com ele.

    Há poetas apressados, que procedem do referido modo pela freima de ver seu nome na capa de mais um impresso. Isso acontece principalmente com os iniciantes, que naturalmente possuem uma ânsia maior pela publicação e por serem lidos. Essa pressa pode conduzir facilmente à desilusão e ao fracasso. Se é isso que almejam, digo: publiquem tudo que escrevem, sem crítica e sem seleção, aqui está uma receita perfeita. Mas, se não for isso, esse cronista (que é também poeta) diz: é necessário ter, sobretudo, calma. Calma na escrita, na seleção e na publicação.

    Até os poetas mais experientes sabem disso, não deixam de escrever seus versos ruins, só não os publicam. Ou, alguns até fazem. Já se falou bastante como em meio à grandiosidade de Augusto Frederico Schmidt há certos desníveis, ou como existem poemas fora da curva na obra de Carlos Drummond de Andrade, marcada pela extrema qualidade.

    Mas, se não fosse suficiente, é necessário ter uma preocupação com a posteridade. Não para mim, poeta menor, que não serei objeto de estudo, mas para os grandes poetas ou os que pretendem ser um dia (e pretendam ser grande um dia). Imagine, você sempre realizou suas seleções muito bem, publicando os bons poemas e escondendo os ruins, porém guarda esses em casa. Após sua morte, um pós-graduando ou um crítico vai pesquisar em seu acervo pessoal e decide publicar seus inéditos. Pois é, estarão publicados os poemas ruins, eles contrabalançarão tendendo a prejudicar o juízo que se fazia sobre sua obra. É necessário estar de olhos abertos até após a morte. Lêdo Ivo talvez estive atento a isso, quando, em A queimada, deu-nos o seguinte conselho: “Destrua os poemas inacabados, os rascunhos, as variantes e os fragmentos Que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas. Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.”

  • O amor, sem querer, acaba

    “Sim, o amor acaba”, assim, Paulo Mendes Campos começou uma das suas mais célebres crônicas. Iniciou com uma assertiva que, no íntimo, sabemos ser verdade; não obstante algumas tentativas de mistificação, como na frase tantas vezes escutada “se acabou, é porque não era de verdade”, nada mais falso do que isso. Até o mais autêntico, puro e intenso amor alcança o instante postimeiro. Expira tendo sido amor.

    Há, evidentemente, os casais que findam a vida sem darem adeus ao relacionamento (todos nós conhecemos exemplos desse tipo). Acontece, porém, que o ocaso do amor não deixou de ser possibilidade ali, apenas se chocou com outro termo, de essência mais fugaz do que aquilo que une duas almas.

    O desenlace pode ter um encontro marcado, alguns eventos são capazes de sublimar até o mais sólido dos sentimentos. Por vezes, vem de surpresa; quando ainda fazia planos e passava a noite com pensamentos enamorados, chega-lhe a conversa que não ansiava e nem previa. Em outros casos, termina o relacionamento e não termina o amor, nada pior, nada mais doloroso. O que era um se faz dois, e tudo chega ao fim. “De repente, não mais que de repente.”

    Todavia, nem sempre é tão de repente assim. Depois de anos, você se dá conta de que a companheira que vive ao seu lado se tornou apenas uma pessoa com quem se compartilha o mesmo teto e a mesma cama. Eros não habita mais aquela casa, como não habita mais o seu peito. Sumiu-se a amada, sumiu-se o amante, sumiu-se o amor, não se sabe quando e nem onde. Foi-se, “para recomeçar em todos os lugares e a qualquer hora”.

    Sim, o amor acaba. Entretanto, afirmar isso não é dizer tudo.

    O sujeito que ama não pode aceitar simplesmente o caráter perecedouro da sua relação, muito menos o da afeição que sente pulsar nas mãos que lhe afagam. É inconcebível.

    Enquanto amar, lutará internamente contra a dita lei. O amor alcança um epílogo, mas com o seu será diferente. Sabe que o que bate a um só tempo em dois corações é tão efêmero quanto a existência, fenecendo durante ou com ela; contudo, sempre desejará ir além.

    Entre suas convicções, pode estar a de que a flama cessa; inclusive, até tendo com si que existe a possibilidade de a sua chegar ao cabo em algum momento futuro e jamais sabido de antemão. Convicto da dimensão finita do amor genérico, não pensa no fim concreto do que vivencia e sente, apenas no perpétuo prolongamento dele.

    Para quem ama, ele é eterno e se manifesta como tal no tempo específico que lhe pertence. Possui uma temporalidade própria, só compreensível no coração dos que se deixam afetar pelo fogo de que fala Camões. Ademais, a eternidade se faz em cada átimo da duração do amor, todos os segundos estão impregnados dela.

    O amor acaba, no entanto, o sentimento amoroso pretende ser infindável na sua duração transitória. Todo amor almeja ser eterno em sua finitude.

    Paulo Mendes Campos acertou ao afirmar que o amor acaba. Mas a melhor tradução do sentimento amoroso partiu de Vinícius de Moraes:

    “Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure.”

  • O tempo da praça

    Vários dos pedestres que percorrem aquela avenida, em meio ao tráfego acentuado e aos estabelecimentos comerciais, mal imaginam que, logo ali, há um espaço independente de toda essa atmosfera. Muito menos quem faz uso de automóveis; o vidro fechado isola o motorista, algo que ele próprio almeja, mas que obnubila sua relação com o mundo.

    Incrustrada nesse meio e em contraste com ele, tomando a forma de um enclave, encontra-se uma praça.

    Como uma ilha ou uma república autônoma, o funcionamento da praça é diferente do vivido no seu entorno. Neste, sobressai a azáfama, nenhum segundo pode ser perdido.

    Naquele, tranquilidade, remanso, reinando um sobretempo, no qual, as horas do relógio se prolongam desmedidamente ou nem sequer existem.

    A correria diária mingua as possibilidades de se dedicar um bom período a passear no recinto. Os horários, os compromissos, o ponto a bater, nada permite isso. Todavia, regular ou esporadicamente, diversas pessoas o visitam. Sujeitos que se fazem presentes no espaço e que fazem ele.

    Entre as personagens que compõem a paisagem diária do local – os que se exercitam no arco externo, mais sob efeito das buzinas do que dos cantos dos pássaros; os casais de jovens, a contrariar a opinião corrente de que não se namora mais em praça; os que recorrem à privacidade dos locais públicos, a fim de fugir da vigilância preconceituosa da sociedade e da casa –, a que mais me chama atenção é a do trabalhador que procura aquele lugar para aliviar o jugo do tempo que recai sobre seus ombros.

    Necessitando cortar caminho, alguns só atravessam o rossio. Porém, no seu interior, o tempo corre lento; assim, a marcha é desacelerada e a morosidade assume a direção. Por vezes, entre um trajeto e outro, até se deixam perder pelos caminhos e arvoredos, nem que seja por um átimo, até que a lembrança dos encargos ascenda subitamente.

    No horário do almoço ou após o expediente, aproveitam o curto período que possuem, sentam-se nos bancos da praça, permanecendo sem qualquer motivo ou ambição. Se há algum direito ao ócio na vida cotidiana daquelas pessoas, ele é exercido ali, durante o curto instante que possui ares de eternidade. Ficam apenas para estar, porque estando, são.

    O transcurso célere dos dias se encontra interditado naquela área. No trabalho e em casa, os ponteiros do relógio comandam a rotina. Naquela praça, não. Não existe hora, minuto ou segundo, somente um tempo suspenso, incapaz de ser medido. Desse modo, os “escravos martirizados do tempo” sentem afrouxar suas grilhetas por um instante, talvez, até sonhem em não mais as ter.

    Ao contrário do que afirmou o grande escritor Marques Rebelo, os pobres não ignoram as árvores e o “consolo que há no seu aconchego e na sua sombra.” Sabem estimar elas muito bem. Se não vão a sítios e a hotéis, onde os ricos passam os finais de semana, valem-se das praças nos breves ínterins disponíveis.

    As plantas, os pássaros, o silêncio, a sensação de quietude presente no local e internalizada em quem está nele, tudo parece contrastar com o ambiente externo e com a própria vida. Possivelmente, a atração por esse tipo de lugar se origine justamente disso, residindo na possibilidade de se embriagar por um momento e “não sentir o fardo terrível do tempo.”

  • Receita para se aburguesar

    Como perspicaz observador do seu tempo, Gregório de Matos soube compreender bem o papel da aparência naquela sociedade, o que o levou a compor um soneto intitulado “Remédios para enfidalgar”. Os tempos são outros, a sociedade é outra e os estratos sociais são outros. É verdade. Porém, embora com lugar diferente e mais distante do “ser”, o “aparecer” continua presente. Tem, inclusive, efeito curioso em determinados sujeitos inconscientes de sua classe.

    Assim, gostaria, agora, de propor uma receita para se aburguesar (na aparência).

    Ostente algum sobrenome. Se soar minimamente gringo, melhor. Caso tenha nascido no período de decadência da família e aquele penduricalho em seu nome nada mais possa significar, não há problema, continue a se gabar dele.

    Há parentesco com certa personalidade conhecida? É forçoso falar: “sou parente de fulano de tal”, mesmo que o tal fulano nem saiba quem é você. Os familiares defuntos são mais úteis para isso, pois já não podem dizer “Meu parente? Conheço não”. Lembremos, aqui, do nosso boca do inferno: “saiba a todo o cavalo a parentela, o criador, o dono e o defeito.”

    É necessário se endividar, não sendo a dívida a da necessidade. Quando não tem, mas precisa mostrar, o caminho é um só, o encalacramento. Apesar de seu salário não comportar os costumes frívolos dos sujeitos de pompas nobres, é inescusável não procurar os reproduzir. Acima de tudo, nunca aperte os cintos, você tem uma imagem a zelar. O bom remediado que se acredita burguês sempre tem um débito a saldar e a esconder.

    Nos tipos que observei, é muito comum o tal “ser chique”. Admito ao leitor, não consegui compreender bem o que seria isso. Todavia, alcançar esse ideal não parece difícil, tirar foto com uma taça de vinho é o suficiente.

    Despreze tudo que seja nacional, principalmente se for popular, e glorifique o que é de fora. Dizer que vai à roda de samba não pega bem. “Madame não gosta que ninguém sambe”, como o objetivo é se assemelhar a madame, adote a mesma opinião.

    Além de tudo, finja intimidade com outros países. Sem esquecer de os enaltecer, fale da Itália ou dos Estados Unidos no almoço como se lá ocorresse o seu passeio dos finais de semana. Comparações são sempre bem-vindas, até quando não possuem qualquer sentido de existir e a valorização do estrangeiro menos ainda.

    Esses são só alguns exemplos, vejamos o fundamento: a mimese. Pelo menos, a sua tentativa. É imprescindível a pose, saber fingir ser. “Faça mesuras de A. com pé direito.” Claro, faltará o essencial, o que faz o burguês ser burguês. Tudo bem, macaqueie; no fundo, é disso que se trata.

    Não se importe com os verdadeiros lordaços, que lhe olham com o ar de desdém que lançam a todos os trabalhadores (como você), mas com o acréscimo do ridículo imputado às suas práticas. Não ligue para isso. Afinal, tu crês que é um deles, então, seja firme, siga seu devaneio.

    Acreditando corresponder ao que não é, repugne os seus, como o burguês autêntico lhe repugna. Procure se aproximar desses e se distanciar daqueles; quando, na verdade, está colado com os que trata como outros e apartado dos que você vê como seus irmãos. Nisso, pode até tentar criar (na sua mente) uma nova classe, uma suposta média.

    Não dê atenção ao que os outros irão pensar; ademais, haverá sempre “quatro asnotes de bom ouvir e crer”, que irão se juntar a você, a fim de completar a manada. Porém, se sonha com os ricos, vive entre os pobres e compartilha com eles os mesmos pesadelos.

  • Notícia primeira da morte

    Eu tinha quatro, talvez cinco anos. Lembro perfeitamente da situação, das pessoas, dos gestos, das reações, menos dos diálogos. Quanto a estes, o tempo fez questão de enterrar; minhas inúmeras tentativas de rememoração nunca lograram os exumar. Mas o que jamais se encaminhou para o esquecimento foi o efeito e o significado daquela conversa que tive com meu avô.

    Ninguém nasce sabendo, vai-se aprendendo. Do mesmo modo que, ao aparecermos para o mundo, somos incapazes de andar; não compreendemos uma série de fenômenos da vida, como o mais importante deles, a morte. Na verdade, nem sequer sabemos que ela existe.

    Foi no sítio de vovô Chico, em Bananeiras, que lhe fui apresentado; não ao seu inevitável efeito concreto, mas à ideia da sua existência. Até então, faltava-me qualquer noção do que seria isso, nem sei se já havia ouvido diretamente palavras referentes a ela. Porém, ali, tive sua primeira notícia.

    Minha mãe lavava os pratos e papeava com a cunhada. Enquanto parolavam, por algum motivo que desconheço ou apenas pela inexistência de um que fosse contrário à nossa estada, eu e meu avô também nos fazíamos presentes na cozinha. Surgindo a temática funesta e com a completa ignorância que eu detinha sobre o assunto, fiz o que parecia natural, perguntei.

    O que me foi respondido não ficou gravado; mas, evidentemente, desagradou-me, já que engatei um choro e, em seguida, corri. É difícil asseverar se foi uma fala muito crua para uma criança, sem que se realizasse um sopesamento na explicação para o filho ainda muito pequeno. Todavia, tenho certeza do que senti. Ao contrário do que as lágrimas poderiam levar a pensar, não foi tristeza. O sentimento era de indignação.

    No momento em que tomei conhecimento da finitude da vida, portanto, ao começar a entender ela própria, senti uma inconformidade enorme diante da percepção que tudo aquilo acabaria. Como, de repente, eu deixaria de existir e nada mais haveria? Como era possível aceitar que meus pais e avós, que eu acreditava serem eternos (como tudo parecia ser), iriam desaparecer? Era implausível admitir isso, não fazia sentido. Impotente, chorei um pranto de revolta.

    Encerrando a chispada no alpendre da casa, sentei-me. Ainda soluçava, tentando digerir a ideia que tinha acabado de me penetrar. Sem tardar, vô veio atrás de mim, sentando-se também no batente, onde me deu a primeira lição do que seria a morte e, o que é mais importante, o que é a vida perante ela.

    Certamente, a conversa possuiu os traços característicos dele, como o “pois bem” sempre a interligar as frases. Entretanto, não me recordo das palavras que ele utilizou, nem o conteúdo em si. O que sei é que foi o suficiente para estancar as lágrimas e aplacar a dor da consciência súbita.

    Ao iniciar o berreiro, mãe riu, deve ter achado ridícula a reação. Provavelmente, já havia passado pela mesma interlocução com seu pai, o que fazia com que o assunto não lhe fosse novidade e pudesse parecer mais banal. Para mim, era diferente, a morte só começava a existir naquele momento.

    Porém, seriam somente alguns anos depois que o decesso e o luto viriam a se mostrar para mim na prática, com o falecimento da minha avó. De certo modo, ao ir me ver na frente da casa, Chico também preparava o neto para a futura perda, que nenhum dos dois imaginava que iria ocorrer tão cedo.

    Minha memória guardou a lembrança do momento e a imagem de vovô ao meu lado. Mas não pôde preservar as falas. Sou incapaz de reproduzir um termo sequer que meu avô tenha utilizado. Mas foi na dita prosa (como ele gostava de chamar os diálogos), que eu pude começar a entender o que seria a morte e, portanto, o que é a vida.

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