Não… não vou escrever sobre os influencers… nem falar da infância usurpada… tampouco dos “responsáveis” pais… nem se o assunto da semana atende à pauta X ou Y.
Como bem disse uma colega escritora: “tudo parece ser mais do mesmo.”
Também não vou falar sobre coisas insanas, ou assuntos pavorosos.
Mas a minha inquietude em ver as letrinhas uma atrás das outras, formando palavras, enfileirando emoções, causando aflições, não é fácil de ser administrada.
Sendo assim, fui lá em meus escritos antigos buscar algo inusitado ou diferente, um “achado”, talvez.
Minha mente-esponja absorve muito, e dessas memórias escrevo contos: às vezes bobos, outros nem tanto.
Portanto, a minha crônica semanal será um desses contos singelos, da idosa atual olhando a menina ingênua e curiosa do passado:
“O Menino“
Na missa, ajoelhado, mãos postas, olhos fechados, ele rezava.
A cena se repetia todos os domingos. Roupa branquinha, cabelos pretos cacheados, olhos pintados, ele rezava.
A garota se encantava com a sua postura e imaginava qual seria o seu pedido. Não, ela não tinha alcance para se comover com a prece em si, pois tinha uns sete ou oito anos. E, nessa idade, apesar da beleza da cena, o que mais a impressionava eram seus olhos.
Por sobre as pálpebras fechadas, ela via o risco preto do lápis.
E durante a semana o esquecia.
No domingo seguinte, lá estava ele outra vez: olhos fechados, olhos pintados.
Com a curiosidade própria das crianças, a garota tentou saber com a irmã por que ele usava “coisas de moças”.
Levou um pito e foi mandada calar a boca. Nenhuma resposta, nenhum crédito.
Passaram-se os anos, e ela nunca mais o viu.
Era meados dos anos 60, em uma cidadezinha provinciana.
O tempo passou, e a cena foi ficando guardada em um canto chamado memória…
Em uma cidade pequena, na única igreja local, frequentada pelos idosos de famílias tradicionais, pais e mães jovens com suas barulhentas crianças, mocinhas faceiras, beatas e solteironas, um rapazinho ia à missa de domingo, com os olhos maquiados…
Era uma grande demonstração de coragem, numa época tão longínqua e num interior tão conservador!
Anos depois a garota soube que o menino audacioso e corajoso se tornou um ótimo professor e diretor da escola pública do município.
E a curiosidade da garota se transformou em respeito e admiração.
Fim.
Pronto! Com esse pequeno conto minhas palavras voltaram. Não sobre os modismos, as pautas repetidas, nem o que se diz nas redes sociais.
Foram lembranças que, ao surgirem como um “serendipity” iluminaram o presente e deram novo fôlego à minha escrita.
Confesso, porém, que não há como apenas contar algo do passado, sem fazer um paralelo com os jovens que hoje ocupam os noticiários.
A ousadia e a inquietude da juventude são normais, até necessárias.
Mas entendo que a formação e os valores recebidos em família são os alicerces para formar um adulto saudável e responsável.
O dever, a consciência moral , o respeito não são modismos dispensáveis.
Há muito tumulto, no que estamos vendo e vivendo, pois o ser humano parece ter se esquecido de que a dimensão da vida é muito maior do que o sucesso instantâneo e a aprovação midiática.
Nesse papel apenas nos tornamos marionetes, ávidos por validação, a qualquer preço.
E penso, olhando para trás e para frente, que talvez a resposta à velha pergunta “O que serei quando eu crescer?” esteja menos em escolher uma profissão e mais em perguntar: “alguém um dia contaria a história da minha vida, com admiração e carinho?”