Crônica de Maria Elza Gonçalves

  • Solidão x Solitude

    Costumamos dizer que seguimos com a mesma garra, a mesma força, a mesma independência, os mesmos “superpoderes”, embora já tenhamos atingido determinada idade.

    No fundo, porém, penso que isso talvez seja uma escolha. Optamos, de forma racional, por manter uma aparência de força. Decidimos seguir.

    Ainda assim, creio que nos tornamos, sim, mais fragilizados, mesmo quando estamos bem de saúde, com autonomia e em boa forma física. É como se, pouco a pouco, fôssemos esvaziando o estoque da nossa força emocional.

    Passamos a querer andar sempre em dupla. Reparem como muitos casais idosos realizam quase todas as atividades juntos. Ou mãe e filha, duas irmãs, dois amigos inseparáveis. Essa constatação se deu tanto pela observação de outras pessoas quanto pela observação de mim mesma.

    Há, no entanto, aqueles que preferem a solidão. Gostam de estar sós, apenas consigo. Desses se diz que cultivam a solitude. Ficam sós por escolha e sentem-se preenchidos de si mesmos.

    A solitude pode demonstrar força, garra e independência. Ou talvez revele pessoas que, com o avançar da idade, tornam-se mais recolhidas, avessas a reuniões, festas e encontros. Arredias…até ermitãs, chegando a ser intolerantes.

    Eu mesma me percebo dividida entre esses dois tipos de idosos.

    Creio que há também aqueles que são emocionalmente frágeis, mas optam por não demonstrar essa fragilidade. Em razão disso, afastam-se da vida social. Recusam situações em que se espera afabilidade, troca, interesse pelo outro, como festas, reuniões e encontros.

    Reflexões. Apenas reflexões. 

  • O Encontro

    O encontro durou dias, e mesmo assim teve gosto de quero mais…

    Não teve atrasos, cada um chegou no seu tempo…

    Tinha tema, mas não script. O comando era a vontade e a alegria em participar.

    O sorriso feliz de cada participante ao chegar ao local do encontro e mais ainda ao sair, dá a certeza de que as memórias dos dias felizes vividos vai ser um oásis guardado no fundo da alma e, durará para sempre, pois será contado entre pais, filhos, primos, parceiros e amigos desta e até os das próximas gerações!

    Tivemos:

    Sonhos, quimeras, desejos.

    Preguiças, perguntas, sabores.

    Alegrias, sonecas, caretas, sorrisos.

    Canecas, risadas, maletas, moquecas.

    Vontades, pinheiros, passagens, passeios.

    Saudades, verdades, bananas, pudins.

    Lasanhas, picanhas, pizzas, quindins.

    Estudos, esperanças, futuros, glórias.

    Sorrisos, banhos, vestidos e afins.

    Missas, orações, esteiras e gansos.

    Lambretas, corvetas, ovos e cuscuz

    Piadas, desafios, piscina, cafés.

    Brindes, conversas, sorvetes, mergulhos e sóis…

    Futebol, charadas, séries, piadas, engraçadas, repetidas, criadas…

    Namoros, promessas, chamegos — enfim.

    Ar, mar, brilhos, texturas, areia.

    Sabores, odores, valores.

    Graça, beleza, amor.

    Idosos, peixes, pessoas.

    Areia, azul, queijos, crustáceos.

    Jovens, pets, jogos e luzes.

    Macacos, gatos, guirlandas, enfeites.

    Imagens, saudades, lembranças, afetos.

    Amigos, irmãos, caminhos, jornadas.

    Plenitude.

    Bênçãos.

    Afeto.

    Amor.

  • Quero morar no mato

    Não por muito tempo… talvez só o suficiente para que passem as especulações de final de ano.

    Quais? As econômicas, as astrológicas, as políticas, as de tendências de moda, artísticas e até mesmo as da cor para 2026. Acreditam? Essa é realmente nova para mim.

    E agora está respondida uma pergunta que me fiz “ano passado”: por que diabos esse povo está quase uniformizado de bege?

    Shoppings, restaurantes, filas de cinema, feiras, mercados…

    Eu olhava e logo lembrava dos filmes sobre safári, elefantes e afins…

    Pois bem: já estou sabendo que a próximo cor da moda será o branco. Quem disse? Alguém, eu não sei quem, determina… e o “mundo” obedece…

    Será o branco dos médicos e profissionais da saúde? Dos médiuns? Das noivas? Pessoas e suas roupas que a fazem descoladas, influentes, pertencentes estarão por aí, em todos os lugares, usando a cor branca, ora se não!

    Afinal, essa  será a cor chic para o ano que vem.

    Mas, como vou estar no mato, isso não me afetará.

    O que poderia me afetar seria descuidar dos meus apetrechos!

    Mas, como a rebelde consciente que sou, estou aqui catalogando: vital, supérfluo, indiferente.

    Usei essas palavras para que eu não me amedronte.

    Eu, hein!

    Se eu fizer uma lista de alimentos, até que será fácil. Já passei da idade em que comer era mais importante que dormir. As jovens mamães que o digam!

    Continuo com minha lista mental: repelente, isqueiro, água, adesivos para a coluna, remédios para pressão alta, ansiolíticos, estabilizadores de humor…

    Revejo mentalmente meu dia a dia, só para não esquecer nada.

    Não! Não me tirem a vontade de ir para o mato!

    Não me digam que basta desligar televisão, internet e celular!

    Não, não!

    Como assim, que tudo o que eu preciso não ultrapassa as fronteiras do meu quarto?

    Ahhh, não sejam desmancha-prazeres… me deixem sonhar, ser transgressora, correr perigos.

    Já não disseram que só se vive uma vez?

    Tá bom… já sei: eu não sou todo mundo.

  • Um ouvido novo, para uma história velha…

    Que atire a primeira pedra quem não passou por isso!

    Todos nós conhecemos alguém que adora quando perguntam: e aí, tudo bem?

    Pronto, lá vem a amiga ou amigo traída(o) contar detalhes: como passou a desconfiar, quais sinais ela não percebeu, o quanto acreditou no traste, como foi a certeza, a decisão, o que sofreu, a separação, o pós, o agora. Dependendo do ambiente, terá lágrimas, e você perdeu a sua ida despretensiosa à cafeteria, ou ao salão, ou a tarde que pretendia ser apenas um encontro bacana. 

    Você acabou de passar por uma das experiências muito comuns em determinadas pessoas: o prazer em contar as mazelas porque passaram ou estão passando!

    Ah, tem também a que adora contar as minúcias da receita fantástica do bolo, que você nunca pretendeu fazer! 

    E pode ser pior! Sem combinar encontro, nada, eis que você acabou de ver a sua amiga ou colega hipocondríaca e pensa: Ah não, justo hoje, que tirei o dia para espairecer! 

    Dessa não há expectativa. É certeza que a pessoa está à beira da morte! 

    Sao tantos males, indisposições, exames de laboratório, nomes de médicos e remédios, que é como se você estivesse com um prontuário em mãos!

    E nem queira sugerir ou aconselhar nada: terapia, outro médico, mudança de perspectiva, positividade então, nem pensar! Pois se é a doença verdadeira ou cultivada que a coloca em foco! 

    Fique ali, presente, gentil, apenas ouvindo, pois naquele momento, o palco não é seu.

    Mas uma coisa é certa: Vocês acabaram de ganhar o selo de serem: “um ouvido novo para uma história velha!

    Agora é a sua vez: vai contar essa saga pra quem? Rsrs…

  • Me dê um lyke?

    As redes sociais dominaram, não há como negar. Se aconteceu, está na rede. Se não estiver, deve ser irrelevante, e nem interessará a ninguém.

    Em tempos não tão longínquos, eram as redes de televisão e, antes ainda, os jornais e revistas.

    Os expoentes da comunicação tornavam-se celebridades, a quem conhecíamos pelos nomes.

    Redatores, colunistas, apresentadores e repórteres passavam a ser nossos “amigos”.

    Ah, e o que dizer dos publicitários?

    Esses eram mais do que celebridades, praticamente encarnavam o sucesso! Eram os responsáveis, tanto pelo nível de audiência das redes de comunicação, quanto pela aprovação dos mandatários da nação.

    E estas eram  expressas nas famosas pesquisas de opinião dos grandes institutos, cujos resultados fariam o “cliente” cair em desgraça, ou ganhar ascensão!

    Eles se tornavam os gurus, seus nomes e credibilidades eram amplamente reconhecidos, pois cuidavam da imagem que chegaria ao povo. 

    Os tempos mudaram. E como!

    Hoje, nossa vida precisa ser vista, comentada, invejada, copiada, seguida.

    E, quanto mais seguidores tivermos, mais e mais conteúdo devemos produzir.

    Falando nisso, adivinhem onde vi a notícia de que foi sancionada a isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil e o aumento da taxação para altas rendas?

    Por surpreendente que pareça: em um Reels da rede social do governo federal!

    Ah, jovens, vejam o quanto vocês mudam o que quiserem! “Reels, storys, flopar” e expressões do tipo, já fazem parte da linguagem institucional! 

    Estamos na era do: “Me exibo, logo existo!”

    Ah, mas o correto não é: “Penso, logo existo”?

    Tudo depende de qual influencer você segue.

    E viva o poder!

    Não, não estou me referindo ao poder constituído.

    Mas ao poder das redes sociais.

  • Retalhos

    Sobre o que o tempo leva, e o que ele nunca tira.

    Graças a Deus, sou forte. Sou guerreira. Sou abençoada.

    E por isso, os retalhos das minhas memórias não pesam. Não me ferem. Não me entristecem. Sou apenas espectadora deles.

    É bom quando se olha para uma casa velha, caindo aos pedaços, e o que vem à mente não é a ruína, mas o gramado verde na frente, as cadeiras onde eu me sentava para observar as meninas brincando, os cachorros correndo soltos, o picolezeiro passando com sua buzina, e as tardes que se esvaíam lentamente…

    Revejo meu cotidiano simples e humilde com muitas cores.

    Os olhos azuis, cor do céu, do meu bebê.

    O vestido vermelho de bolinhas brancas da mais velha.

    Os cabelos cacheados e dourados da filha do meio.

    O verde da grama.

    O bege do pelo do cachorro.

    Quantas lembranças!

    Em quarenta e oito horas, revive-se meia vida.

    Foi assim o meu passeio neste feriado de Finados.

    Mas não foi só isso.

    Vi também a pequenez dos grandes túmulos de mármore. A vaidade inútil das letras douradas. A ostentação póstuma com que os vivos tentam driblar o esquecimento. E pensei: debaixo de sete palmos de terra, todos somos iguais: não importa a lápide que se erga sobre a cova.

    E, por fim, uma última constatação: como o tempo transforma nossas medidas!

    O coreto da praça de Jardim é lindo… mas tão menor do que me recordava!

  • O Bairro Novo

    As calçadas são cinzas. Os muros também. 

    Opa! E as casas? Cinzas!

    E “harmonizam-se” com a cor preta e outros tons da mesma cor…

    Que moda é essa? Qual o guru da arquitetura moderna foi o precursor dessa escolha? 

    Sigo com o Google Maps aberto, como quem caminha sem saber o caminho, mesmo tendo um mapa na mão.

    É um bairro novo, de classe média alta.

    As casas, recentes, seguem o mesmo modelo arquitetônico: fachadas altas, linhas retas, vidro escuro, cimento aparente. A estética da segurança, do silêncio e da sobriedade. Tudo muito moderno. Tudo muito igual.

    Não bastasse a surpresa da cor, há algo mais que me inquieta.

    As janelas não se abrem. Não há som de crianças, nem cheiro de comida, nem sombra de varal. As ruas estão limpas. E totalmente vazias. O traço comum é o isolamento: portões que se erguem automaticamente, carros que entram e saem sem que se veja o rosto de quem os conduz.

    Casas habitadas por presenças ausentes.

    O cinza não está apenas nas paredes. Está também na atmosfera.

    Olho para o alto, ufa! Que alívio ver o céu azul…Suspiro. Mas ainda sinto o espírito do lugar.

    Há uma palidez existencial ali, como se a forma da moradia tivesse moldado o modo de viver.

    E me pergunto: quando foi que morar deixou de ser habitar e passou a ser apenas isolar-se?

    Quando foi que o abrigo virou trincheira?

    Sei que tudo é moda. A cor da tinta, o estilo da fachada, a lógica do silêncio.

    Mas temo que o hábito de fechar-se por fora acabe por selar também o lado de dentro. Que o desejo de proteção vire indiferença. Que o medo se disfarce de elegância.

    Ainda assim, insisto em acreditar que nem tudo se apaga sob o concreto.

    Que, de vez em quando, ao abrir o vidro para deixar escapar o calor do carro, alguém note o verde das plantas, o brilho do sol, o céu azul.

    Que um canto de pássaro ainda provoque surpresa.

    Que uma frase, uma música, uma lembrança rompam o lacre do hábito e façam vibrar algo bom no coração das pessoas que ali vivem. 

    Porque, no fundo, morar é mais que possuir um espaço.

    É deixar-se afetar por ele.

    E viver é mais que proteger-se do mundo: é permitir que o mundo nos atravesse, nos transforme, nos toque.

    Mesmo que as paredes sejam cinzentas.

    Ainda que a moda diga o contrário.

    Toco a campainha. Vou atuar, sei que vou…

  • Dia de Algodão-Doce

    Sobre o mistério de viver com os olhos encantados e o coração desperto.

    Se o homem, esse ser racional, se apegar apenas ao pensamento e desacreditar dos mistérios e belezas que há no mundo, estará morto, embora vivo.

    Sonhar, comover-se, sentir-se maravilhado com pequenos ou grandes mistérios, sorrir das delicadezas inesperadas, espantar-se, sentir gratidão ou culpa são manifestações que nos conectam uns aos outros e dão sentido à nossa vida.

    É aquele instante que, de repente, nos olhamos surpresos e sorrimos ao mesmo tempo.

    Vamos de histórias:

    Há quem conte os degraus antes de subir uma escada. Há quem só se sinta tranquilo se alinhar os talheres na mesa. Uns somam os números das casas; outros evitam pisar nas linhas do chão.

    São rituais pequenos, manias inofensivas. Dá a impressão de que a pessoa se organiza por dentro, como se o mundo só fizesse sentido a partir de certas repetições.

    Cada pessoa tem sua forma de lidar com o caos. Alguns o enfrentam com listas; outros, com orações.

    Eu, confesso, traduzo o mundo em comparações.

    Vejo bichos nas expressões humanas, metáforas nas situações, poesia nas coincidências.

    Hoje, por exemplo, vivi um dia de algodão-doce.

    Estava na missa. Era dia do meu aniversário.

    Ajoelhada, olhos baixos eu  agradecia a Deus por mais um ano de vida. Ao levantar a cabeça vi um menino que vinha sorrindo em minha direção.

    Pareceu-me vagamente familiar…

    Meu neto?

    Surpresa, olhei para o corredor por onde ele entrou e vi outro neto… e mais outro… depois o pai, a mãe, minhas filhas e seus filhos, nora, genros.

    Levantei do banco da igreja e percebi: estava cercada!

    Filhos, filhas, netos! Todos ali reunidos, como que guiados por um mesmo chamado silencioso.

    Uma onda de amor me envolveu.

    A riqueza da vida interior proporciona experiências lindas até na simplicidade.

    Dia de algodão-doce, com certeza! 

  • Enxurrada

    Quem morou em cidades do interior, em tempos idos, vai se lembrar da enxurrada. Do barulho, da intensidade, da cor, do tempo que durava.

    Hoje, talvez, poucas crianças tenham visto, ou até mesmo ouvido falar dela. Esse fenômeno da natureza não era o evento em si, mas a consequência. Ainda assim, tinha tanta força que me deixava suspensa na janela, olhando. A causa era a chuva torrencial.

    Quando amainava, virava pingos esparsos, ou garoa fininha. Só então poderíamos sair de casa. Quando a enxurrada já tivesse diminuído, até se tornar uma fina lâmina de água que seguia em busca de seu destino final.

    Do qual eu não fazia ideia. Mas sabia que levava tudo em seu roldão: gravetos, brinquedos esquecidos na porta das casas, pintinhos distraídos, caso a galinha não tivesse tempo de protegê-los.

    E toda sorte de tralhas e sujeiras que encontrava pelo caminho.

    Por que me veio essa memória?

    Pelo cuidado.

    O cuidado e a responsabilidade que devo ter ao escrever as crônicas do meu cotidiano.

    Escrever é ato solitário.

    Mas, ao soltar o texto, ele deixa de ser meu e toma vários caminhos, pode circular pelo mundo virtual, ficar estagnado em uma gaveta, virar papel de embrulhar…

    Essa é a razão que me fez pensar no cuidado… ao escrever não devo me comportar como a enxurrada: bela, intensa, mas misturada ao lixo que recolheu pelo trajeto.

    Quero ser o fio de água que desce pela rua depois da tormenta.

    Manso.

    Sob a leveza da garoa fina.

  • Ou nada, ou tudo

    Costumo rezar sozinha.

    Não por falta de fé coletiva, mas por necessidade de compreender o sentido da prece: se é pedido, agradecimento ou louvor.

    Nas igrejas e templos , percebo a oração como um ato comunitário.

    Já em casa, no silêncio, ela se transforma em diálogo íntimo, sem medo nem pressa.

    Essa percepção nasceu dos meus intervalos de “nada a fazer”.

    Paradoxalmente, nesses vazios sempre encontrei invenção e força.

    A vida me exigiu muito cedo: de menina curiosa a mulher adulta, mãe de quatro filhos, de cuidada a cuidadora. 

    Entre tarefas e cansaços, descobri nos pensamentos e nas preces uma forma de preservar a sanidade.

    Hoje, quando paro para divagar, também observo o mundo:

    as preocupações das pessoas, a política que interfere em suas vidas, as esperanças ou frustrações, diante do futuro.

    Nesse cenário, a prece ganha nova importância.

    Não apenas individual, mas coletiva: por filhos, pela chuva, pelos desamparados, pelos que sofrem. 

    É um gesto que acalma a mente e fortalece o espírito.

    Não me envergonho de reconhecer o valor dessas pausas.

    Ao contrário: me aplaudo.

    Trago comigo amor-próprio, antídoto contra julgamentos.

    Manoel de Barros dizia que alguns aprendem a carregar “água em peneira”.

    De certo modo, também aprendi.

    Nos instantes que pareciam não servir para nada, encontrei a diferença entre rezar em coro e rezar em silêncio.

    Hoje sei: no meu nada, a oração se fez tudo.

  • O Que Serei Quando Eu Crescer?

    Não… não vou escrever sobre os influencers… nem falar da infância usurpada… tampouco dos “responsáveis” pais… nem se o assunto da semana atende à pauta X ou Y.

    Como bem disse uma colega escritora: “tudo parece ser mais do mesmo.”

    Também não vou falar sobre coisas insanas, ou assuntos pavorosos. 

    Mas a minha inquietude em ver as letrinhas uma atrás das outras, formando palavras, enfileirando emoções, causando aflições, não é fácil de ser administrada.

    Sendo assim, fui lá em meus escritos antigos buscar algo inusitado ou diferente, um “achado”, talvez.

    Minha mente-esponja absorve muito, e dessas memórias escrevo contos: às vezes bobos, outros nem tanto.

    Portanto, a minha crônica semanal será um desses contos singelos, da idosa atual olhando a menina ingênua e curiosa do passado:

    O Menino

    Na missa, ajoelhado, mãos postas, olhos fechados, ele rezava.

    A cena se repetia todos os domingos. Roupa branquinha, cabelos pretos cacheados, olhos pintados, ele rezava.

    A garota se encantava com a sua postura e imaginava qual seria o seu pedido. Não, ela não tinha alcance para se comover com a prece em si, pois tinha uns sete ou oito anos. E, nessa idade, apesar da beleza da cena, o que mais a impressionava eram seus olhos. 

    Por sobre as pálpebras fechadas, ela via o risco preto do lápis.

    E durante a semana o esquecia.

    No domingo seguinte, lá estava ele outra vez: olhos fechados, olhos pintados.

    Com a curiosidade própria das crianças, a garota tentou saber com a irmã por que ele usava “coisas de moças”.

    Levou um pito e foi mandada calar a boca. Nenhuma resposta, nenhum crédito.

    Passaram-se os anos, e ela nunca mais o viu.

    Era meados dos anos 60, em uma cidadezinha provinciana.

    O tempo passou, e a cena foi ficando guardada em um canto chamado memória…

    Em uma cidade pequena, na única igreja local, frequentada pelos idosos de famílias tradicionais, pais e mães jovens com suas barulhentas crianças, mocinhas faceiras, beatas e solteironas, um rapazinho ia à missa de domingo, com os olhos maquiados…

    Era uma grande demonstração de coragem, numa época tão longínqua e num interior tão conservador!

    Anos depois a garota soube que o menino audacioso e corajoso se tornou um ótimo professor e diretor da escola pública do município.

    E a curiosidade da garota se transformou em respeito e admiração.

    Fim.

    Pronto! Com esse pequeno conto minhas palavras voltaram. Não sobre os modismos, as pautas repetidas, nem o que se diz nas redes sociais. 

    Foram lembranças que, ao surgirem como um “serendipity” iluminaram o presente e deram novo fôlego à minha escrita.

    Confesso, porém, que não há como apenas contar algo do passado, sem fazer um paralelo com os jovens que hoje ocupam os noticiários.

    A ousadia e a inquietude da juventude são normais, até necessárias.

    Mas entendo que a formação e os valores recebidos em família são os alicerces para formar um adulto saudável e responsável.

    O dever, a consciência moral , o respeito não são modismos dispensáveis. 

    Há muito tumulto, no que estamos vendo e vivendo, pois o ser humano parece ter se esquecido de que a dimensão da vida é muito maior do que o sucesso instantâneo e a aprovação midiática.

    Nesse papel apenas nos tornamos marionetes, ávidos por validação, a qualquer preço.

    E penso, olhando para trás e para frente, que talvez a resposta à velha pergunta “O que serei quando eu crescer?” esteja menos em escolher uma profissão e mais em perguntar: “alguém um dia contaria a história da minha vida, com admiração e carinho?”

  • Sonhos Juvenis

    Eu queria amar! Quem manda ficar lendo livros românticos? Não devo culpar os escritores. Não eram heroínas épicas, grandiosas, orgulhosas, princesas.

    Nem moças descendentes de famílias tradicionais, preparadas para encontrar namorado entre os filhos dos frequentadores das altas rodas, da elite, ou filhos de amigos poderosos como os próprios pais, também. Casamentos entre iguais, diriam as interessadas mães.

    Se minhas heroínas fossem essas, eu não teria criado falsas ilusões. Embora eu deva confessar: lia tudo que me caía às mãos!

    Tanto é que sei distinguir as grandes heroínas das moças comuns. As do meu universo, eu via, conhecia, mesmo que fosse só de passagem, e, de certa forma, eu me assemelhava a elas.

    Colegas de escola, filhas de senhoras conhecidas, de donos de lojas, de pessoas a quem se dava bom dia ou boa tarde, e diriam: passou aqui a filha de fulano, ela já é uma mocinha.

    Esse era o mundo ao qual eu pertencia. Fisicamente.

    Porque, em pensamentos, eu vivia grandes amores, conhecia novas cidades, era razão de disputa entre rapazes. E o herói sempre se apaixona pela mocinha. No caso, eu.

    Sonhava com o amor selvagem, sensual, e a imagem de quem seria o homem amado mexia com meus sentidos.

    — Onde você está com a cabeça, Anita?

    — Oi, professor, em nenhum lugar. Estou aqui.

    — Não respondeu à chamada. Podia te dar falta.

    — Desculpe, professor. Presente!

    Não respondia por estar viajando… em suas mãos, em seus braços, nos músculos da perna que se adivinhavam debaixo do linho branco de sua calça.

    “Que homem bonito”, pensava.

    Sorte tem a prof. Marta em ser casada com um homem desses.

    De onde saíam esses pensamentos? Ah, com certeza, dos hormônios em rebuliço em meu corpo de adolescente.

    Mas a principal fonte era dos livros de amor que passavam de mão em mão entre os colegas da escola.

    — Trouxe?

    — Calma, vou terminar no recreio e te dou. Não consegui ler ontem. Minha mãe estava na costura, como sempre, mas meu pai ficou em casa.

    — E eu tenho só dois dias para ler. Sábado meu pai chega da fazenda.

    — Tá bom, tá bom.

    Na verdade, a forma como despertamos para o amor, a paixão ou o que chamamos de fraquezas humanas não faz a menor diferença.

    A natureza e o homem, esses têm suas próprias ordens e leis. Quem poderá definir onde começa um ou outro?

    Bom mesmo é lembrar-me da época. Dos devaneios. Da imaginação. Oh, juventude! Como o viver era leve!

  • Existir ou Exibir?

    Em tempos de redes sociais, todos sabem de tudo.

    Há os que entendem mais de determinados assuntos e se tornam mentores ou especialistas disso e daquilo; os que vendem cursos, os que criam clubes de assinaturas para seguidores fiéis, os novos ricos ensinando como ser um “farialimers”, os ricos tradicionais mostrando a arte de se exibir com classe… e por aí vai.

    Essa é apenas uma das muitas faces do mundo virtual.

    No outro extremo, existe a antítese: perfis que promovem festivais de conteúdos inacreditáveis.

    Partem do ridículo ao nonsense, passando pelo bizarro, causando vexame e a famosa “vergonha alheia”

    De maneira informal utiliza-se o termo “brain rot” para designar aqueles que são contumazes e até viciados nos conteúdos dessa categoria. É como um “apodrecimento cerebral”, pois não acrescenta nada ao intelecto e este se habitua ao conteúdo repetitivo e sem esforço mental, uma vez que a intenção de quem o produz é chocar, provocar, chamar atenção com o inacreditável, com o esculacho.

    E nesse jogo de aparências, quem realmente vive? Quem apenas se exibe?”

    Nos dois exemplos, a mola propulsora é a mesma: exibir, ver, ser visto.

    Alimentar-se de views, de seguidores, de patrocínios, de fama.

    Ensinar, aprender, fazer dancinha, engolir larvas… qualquer ideia maluca serve, desde que gere cliques.

    O mundo virtual é impalpável. Inodoro. Descartável.

    Com um clique, algo ganha o mundo, acumula milhares de seguidores, fama, patrocínio, dinheiro. E, da mesma forma, some da cena. Pode ser cancelado, esquecido, substituído. Deixa de existir.

    Isso dá uma sensação de impunidade. Ou de liberdade absoluta. Ou de qualquer outra coisa que você possa imaginar.

    Porque no mundo virtual, não há limites.

    Ou há?

  • Calendário

    E lá vamos nós para mais um dos dias “disso” ou “daquilo”, que não conhecíamos, mas que brotam do calendário com a maior certeza.

    É dia do beijo, dia do abraço, dia do irmão, dia nacional do homem (15 de julho).

    Há dias que eu aplaudo.  Sem trocadilhos. Entendo que são mesmos necessários, que devem estar marcados nos calendários, como uma forma de lembrar a importância do que se comemora. 

    Dou como exemplo o dia 13 de novembro. Adivinhem de que é? Dia Mundial da Gentileza!

    Sim, e gentileza precisa ser comemorada, lembrada e, sobretudo, praticada.

    O bordão “gentileza gera gentileza” precisa ser real, devia mesmo circular entre as pessoas. Podia “pegar”, como se pega resfriado, bastava passar perto, estar no mesmo ambiente.

    Exagerei? Pode ser…

    Retrocedo. Serei gentil, com minhas ideias…

    De todo modo, penso que a gente devia contabilizar, anotar, conferir as demonstrações gentis. E copiar sim, imitar, fazer igual, introjetar, tornar um hábito. 

    O mundo ficaria bem mais ameno, a hostilidade seria a exceção, e quem sabe o “dane-se” entraria em extinção.

    Então, senhores, vamos proclamar mais o que é ameno ao espírito, o que nos dignifica como seres humanos e nos coloca na dimensão de pessoas afáveis e cordiais.

    Eu tenho certeza de que essa prática tem o poder de desarmar muitos gatilhos…

    Ahhh, em tempo: hoje, 26 de julho, é o Dia dos Avós.

    Sendo assim, caro leitor… receba o meu cordial bom dia!

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