Crônica de Milton Rezende

  • Poema #40: Interstícios da Vida

    Deixar de ser cúmplice da vida
    de outros que em mim personificam
    a parcela da culpa que subtraio
    do erro coletivo e meu, individualizado.

    Obscurecer o reflexo do sofrimento
    de homens que não vejo em presença,
    mas que em espécie me julgam digno
    de vê-los (como testemunha da morte
    sem remissão de si) em que se abrigam.

    A desvisão do homem como forma de se
    desviar do mundo, numa covardia anônima
    de se cegar para o que há de recíproco
    no duplo ato de existir e ser responsável
    por esta morte latente, usada como escudo.

    Mantendo a essência que não explico
    mas sei que existe onde deixo
    de existir para ser parceiro da vida,
    criação simbólica do gesto de um deus
    não conclusivo, que se deu por satisfeito
    em seu cansaço.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • FERIADO

    Estou sentado, sozinho, na mesa de um bar, numa dessas noites perdidas. Lá fora a chuva impede-me de sair e eu fico observando este meu impedimento que na verdade é fuga a uma determinação que não tenho tido. Olho para a chuva e vejo a sua cortina de indiferença. A chuva escorre e a água correndo parece trazer-me uma espécie de nostalgia semelhante à náusea. A chuva forma com suas goteiras algo parecido com uma delimitação de espaços, de vivências, de ansiedade pura. Aqui dentro a vida que tenho tido como espaço permitido ao corpo. Lá fora a vida que eu poderia (talvez) ter se imperasse o sonho de estar além do espaço físico, como uma antevisão de um espaço neutro concernente à paz. Acrescento ainda que esta noite é de finados e a questão é transpor ou não o limite da porta.

     Inventário de Sombras

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