crônica de sábado

  • Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos

    “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, uma história pra contar de um mundo tão distante” (Roberto e Erasmo Carlos)

    Os saudosos anos 60, além de propiciar nova consciência, clamor pacifista e efervescência artística, colocaram nos moços longas cabeleiras. Encaracoladas, cacheadas, naturais, lisas, afro, black power, rebeldes, mas invariavelmente compridas.

    Depositários inconformados de valores de uma sociedade decrépita que exaltava a grana e a guerra, os jovens ansiavam por uma nova ordem onde floresceria o amor e a solidariedade universal.

    Os profetas da Nova Era atribuíam o movimento à irrupção da Era de Aquário. “Quando a lua está na sétima casa e Júpiter alinha-se com Marte”, dizia a canção-símbolo do musical “HAIR” (cabelo).

    As mesmas cabeças que, turbinadas por alucinógenos, hospedavam interiormente loucos devaneios de libertação, faziam brotar exteriormente caracóis psicodélicos e fios emaranhados rebeldes.

    Cabelos longos significavam também transgressão à virilidade e à classificação dos gêneros segundo a tradição moralista cristã que dividia o ser humano em 2 categorias absolutas: o homem e a mulher, definidas respectivamente pelas cores azul e rosa.

    As mulheres que tinham nos abundantes cabelos a marca registrada da feminilidade como protótipo de beleza, agora enfrentavam a concorrência masculina, numa época em que os limites que separavam as duas tipologias biológicas tornaram-se mais fluidos.

    Os militares machões que promoviam a guerra e a repressão sempre tiveram aversão por cabelos compridos, enfileirando-os em pelotões capilares uniformes através de cortes tipo reco.

    O sistema opressor para impor os valores burgueses exigia do indivíduo apresentação visual condizente. As vestes e o penteado deveriam retratar disciplina e ordem. Cabelos e roupas desalinhados eram sinal de desleixo, desrespeito, rebeldia.

    A marcha inexorável do tempo sepultou os anos 60 e com eles a quimera por um mundo melhor. “O sonho acabou”, proclamou o cabeludo John Lennon.

    Com o passar dos anos, os cabelos tornaram-se grisalhos, cresceram tanto que ficaram frágeis, começaram a cair como folhas no outono.

    Cabelos compridos saíram de moda. Também saiu de moda o empenho em acabar com as guerras e salvar o planeta.

    Adveio uma nova leva de jovens individualistas com aspirações de ascensão social e fortuna material. Essa espécie em expansão era representada por um figurino asseado, bem trajado, de cabelos aparados.

    A nova safra de jovens das gerações X, Y e Z, ao invés de colares, fitas, pulseiras artesanais com a insígnia de paz e amor, portava roupas e acessórios de grife. Os hippies de outrora tornaram-se capitalistas de terno e gravata e investidores do mercado de ações e em criptomoedas.

    Alguns mais extremados ostentavam, orgulhosos, símbolos neonazistas, muitos deles… carecas. O radicalismo execrava radicalmente a presença de fios subversivos.

    Carregavam metralhadora numa mão e Bíblia noutra. Respaldam seu ódio nas palavras do mesmo Cristo que, triste ironia, pregava amor e usava vestes simples, sandálias, barba e… cabelos compridos.

    Talvez eu seja apenas um saudosista que me apegue a um passado cabeludo que não volta mais.

    Mas no alto das minhas décadas de vida, reluto em ir ao barbeiro cortar periodicamente os cabelos. A eles me apego, como uma ingênua esperança de voltar a sonhar por um mundo melhor.

  • Solidão x Solitude

    Costumamos dizer que seguimos com a mesma garra, a mesma força, a mesma independência, os mesmos “superpoderes”, embora já tenhamos atingido determinada idade.

    No fundo, porém, penso que isso talvez seja uma escolha. Optamos, de forma racional, por manter uma aparência de força. Decidimos seguir.

    Ainda assim, creio que nos tornamos, sim, mais fragilizados, mesmo quando estamos bem de saúde, com autonomia e em boa forma física. É como se, pouco a pouco, fôssemos esvaziando o estoque da nossa força emocional.

    Passamos a querer andar sempre em dupla. Reparem como muitos casais idosos realizam quase todas as atividades juntos. Ou mãe e filha, duas irmãs, dois amigos inseparáveis. Essa constatação se deu tanto pela observação de outras pessoas quanto pela observação de mim mesma.

    Há, no entanto, aqueles que preferem a solidão. Gostam de estar sós, apenas consigo. Desses se diz que cultivam a solitude. Ficam sós por escolha e sentem-se preenchidos de si mesmos.

    A solitude pode demonstrar força, garra e independência. Ou talvez revele pessoas que, com o avançar da idade, tornam-se mais recolhidas, avessas a reuniões, festas e encontros. Arredias…até ermitãs, chegando a ser intolerantes.

    Eu mesma me percebo dividida entre esses dois tipos de idosos.

    Creio que há também aqueles que são emocionalmente frágeis, mas optam por não demonstrar essa fragilidade. Em razão disso, afastam-se da vida social. Recusam situações em que se espera afabilidade, troca, interesse pelo outro, como festas, reuniões e encontros.

    Reflexões. Apenas reflexões. 

  • Eu sou motoboy

    Você que me vê um pivete mau caráter, um delinquente montado numa moto assassina, presta atenção. Não fosse o motoboy aqui, o folgado aí não teria em domicílio o game das crianças, a ração do dogue ou o tênis da patroa comprado barato no aplicativo. Você me deve essa, mano.

    Então vê se te recolhe no teu mundinho mixuruca e para de praguejar do jeito que eu dirijo. Ou você acha que seguindo o guia de boas maneiras do Detran, eu faria a mágica de chegar no teu sofá hoje o bagulho que você pediu ontem no Shopee? Sou o zé-ninguém faz-tudo que dá conta do delivery do supermercado e da farmácia. O curinga que garante a marmita fresca do I-Food e a pizza quentinha no teu portão.

    Passo sim farol vermelho. E daí? Queimo as faixas, subo as calçadas, atropelo coroas ceguetas, entro na contramão. E não tem ‘otoridade’ que me enquadre, nem radar que anote minha placa coberta. Eu não importo pros caras.

    Mas nas ruas das cidades grandes só dá eu. Você pode cantar de galo no jardim da tua casa, no pátio do teu condomínio boiola. Mas dos muros pra fora, é do meu jeito que as coisas rolam. Fica na tua e bico calado.

    Os trouxas ficam cagando de medo dos pontos na carteira por queimar a faixa das avenidas. Já eu costuro, faço malabarismo, passo pela direita e ninguém é macho pra encarar ou caguetar o Zé-Mané aqui.  Então vê se tira esse carango fedorento da frente ou arranco fora teu espelho. E nem vem arrumar perrengue pro meu lado senão chamo os chapas e o prejuízo do retrovisor vai sair pior pra você, véi. Aceita que dói menos.

    Regrinhas de velocidade não vão me barrar de cumprir minha escala e faturar meu ganha-pão. Não tenho opção. Não tenho um puto no bolso. Não tenho carteira assinada. Não tenho férias. Não tenho plano de saúde. Não posso dar bobeira. Se um maluco passar de caminhão por cima, viro mais um presunto a entrar pras estatísticas de acidentes. Já era.

    Recebo por entrega e tem uns algoritmos atrozes que me fazem trabalhar como um camelo, sem tempo pra mijar ou bater umazinha pra aliviar. Fico sob estresse o dia todo, tiro do vale-miséria e dos trocados da caixinha os custos pra manter a máquina ativa. Nessa guerra desigual minha chance de sobrar inteiro é pequena. Mas se eu sair vivo dessa, um dia abrirei um trampo só meu, sem ninguém pra encher o saco. Pode crer.

    Sou produto do caos urbano e das tretas sociais sem saída. Venho das favelas, onde polícia não entra, juiz quer distância e político bambambã não apita. Lá manda quem pode mais. Uns traficam pó, outros se seguram com metranca. Minha arma pra me manter limpo e garantir o feijão do meu muquifo é minha fiel motoca.

    Trago para os bairros dos bacanas o som dos pancadões da perifa e libero os decibéis dos escapamentos envenenados para assombrar tuas noites de sono. É pra te lembrar que eu existo. E não tem GCM bunda mole que me faça aquietar.

    Por isso, bro’, arranca da minha frente e fica esperto. Eu sou motoboy e exijo respeito.

  • Quero morar no mato

    Não por muito tempo… talvez só o suficiente para que passem as especulações de final de ano.

    Quais? As econômicas, as astrológicas, as políticas, as de tendências de moda, artísticas e até mesmo as da cor para 2026. Acreditam? Essa é realmente nova para mim.

    E agora está respondida uma pergunta que me fiz “ano passado”: por que diabos esse povo está quase uniformizado de bege?

    Shoppings, restaurantes, filas de cinema, feiras, mercados…

    Eu olhava e logo lembrava dos filmes sobre safári, elefantes e afins…

    Pois bem: já estou sabendo que a próximo cor da moda será o branco. Quem disse? Alguém, eu não sei quem, determina… e o “mundo” obedece…

    Será o branco dos médicos e profissionais da saúde? Dos médiuns? Das noivas? Pessoas e suas roupas que a fazem descoladas, influentes, pertencentes estarão por aí, em todos os lugares, usando a cor branca, ora se não!

    Afinal, essa  será a cor chic para o ano que vem.

    Mas, como vou estar no mato, isso não me afetará.

    O que poderia me afetar seria descuidar dos meus apetrechos!

    Mas, como a rebelde consciente que sou, estou aqui catalogando: vital, supérfluo, indiferente.

    Usei essas palavras para que eu não me amedronte.

    Eu, hein!

    Se eu fizer uma lista de alimentos, até que será fácil. Já passei da idade em que comer era mais importante que dormir. As jovens mamães que o digam!

    Continuo com minha lista mental: repelente, isqueiro, água, adesivos para a coluna, remédios para pressão alta, ansiolíticos, estabilizadores de humor…

    Revejo mentalmente meu dia a dia, só para não esquecer nada.

    Não! Não me tirem a vontade de ir para o mato!

    Não me digam que basta desligar televisão, internet e celular!

    Não, não!

    Como assim, que tudo o que eu preciso não ultrapassa as fronteiras do meu quarto?

    Ahhh, não sejam desmancha-prazeres… me deixem sonhar, ser transgressora, correr perigos.

    Já não disseram que só se vive uma vez?

    Tá bom… já sei: eu não sou todo mundo.

  • Reflexões em tempos de espanto

    Nas últimas semanas, tenho pensado a respeito de uma dúvida que sempre me ocorreu: as palavras têm, por si só, o poder de iludir ou é a paixão quem confere a elas esse dote?

    Quem não conhece a facilidade do sujeito apaixonado para confundir alô com amor? Não adianta defender que dessa leseira não sofreremos. Basta uma breve reflexão sobre antigas decepções amorosas e logo se apresenta a pergunta: Como não percebemos isso? Estava na cara que não valia nada…

    A bem da verdade, só vemos o que nos conforta ou suportamos ver. Essa é a raiz da cegueira afetiva. E a palavra, pelo visto, embaça a visão.

    A ideia de um encaixe perfeito ou de uma imaginária completude entre as pessoas, independentemente do tipo de relação em que se apoie, porta sempre uma ilusão, uma fala(cia). O discurso se faz tijolo na construção do trono mítico do amado. E mais, à medida que o apaixonamento avança para o campo da idolatria, situação na qual o objeto cultuado é aquele a quem nos entregamos como único salvador, mais ensebamos as palavras na tentativa de escamotear a verdade áspera da nossa própria escuridão.

    Se mais nos vestimos de encanto, mais nos despimos de realidade. É assim que os olhos perdem sua função, e as ações, sua significância. A razão, senhora justa e ponderada, é esculachada em praça pública. Quem quer saber dela? O próprio ditado insinua a ingenuidade desastrosa do sentimento: o que os olhos não veem o coração não sente. Faço aqui um adendo e uma advertência: Não importa se os olhos veem e o coração sente, isso não dá sustância. A paixão tem fome de doces promessas. Engole sem mastigar. Se farta e se lambuza de casadinhos feitos de palavras e ilusão. É perigosa, mas não necessariamente letal.

    Num dado momento, saciamos a fome e, por vezes até, vomitamos. A palavra recupera sua roupa de andar em casa.

    O mesmo não se pode dizer no enamoramento cego, típico da idolatria. Nele, acredito, há uma duplicação do sujeito e do seu dito.

    O objeto amado, venerado e enaltecido, ainda que em condições insalubres de afeto, é puro reflexo. Representa uma versão esmaltada e lustrosa desse sujeito que até então vagava desalmado de sentido. Faminto de importância, engole sem mastigar casadinhos de narcisismo e ostentação. Não enjoa, não
    cansa. Arrota insanidade.

    Nada importa. Ninguém.

    Nenhuma explicação é capaz de abarcar a submissão profana de um corpo ao seu reflexo, visto em carne e osso do lado de fora. Não nos enganemos.

    ]Ninguém venera a diferença.

    Só se idolatra a própria imagem, cifrada nas palavras e ações do outro idolatrado. Ambos se pertencem.

    E quanto à palavra, concluo que ela não é culpada. Para que a palavra iluda, alguém precisa dizê-la. Alguém precisa ouvi-la e querer validá-la.

  • Por que as pessoas gritam?

    Tenho pavor, trauma e medo de quem grita. O grito, para mim, é quase sempre a antecâmara da violência, do caos anunciado.

    A violência seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota“, já disse o filósofo

    A opressão, a intimidação e o medo, via de regra, começam pela voz antes de chegarem ao gesto, ao domínio ou à implantação de qualquer mecanismo de dominação. 

    Mas não falo aqui de política, de poderes instituídos ou de disputas explícitas por controle. Nesse campo, afirmo de forma simples, talvez até ingênua, que para um grito de alegria existem centenas de gritos opostos. 

    Falo do que vejo. Do cotidiano. Do convívio em sociedade. Onde a conversa comum, não precisaria ser compartilhada… aos gritos.

    Outro dia, vi uma influenciadora reclamar das pessoas que falam alto em restaurantes, salões de beleza e outros espaços públicos. Argumentava que o barulho natural do ambiente poderia exigir uma voz mais elevada. Mas não a ponto de tornar impossível manter uma conversação civilizada. Os clientes precisam falar alto, o pessoal dos serviços falam mais alto ainda, se houver crianças, elas aproveitam o ambiente para se soltar e correr entre as mesas e isso acaba formando um círculo sonoro, e o que deveria ser  prazeroso, se torna desconfortável e cansativo. 

    Por sua vez, isso me chamou a atenção e percebi que existem muitas situações onde impera o que eu chamo de “grito social”. 

    A voz alta na academia, por exemplo. Para quê? Por quê? A madame puxa o ferro do lado oposto àquele em que outra pessoa se alonga e, entre um movimento e outro, gritam entre si. Logo adiante, outra dupla, talvez um trio, repete a cena com entusiasmo semelhante. Ganha quem fala mais alto! 

    Já sei que foram à Disney, qual vinho costumam beber e o que pensam do padre da paróquia. Eu queria saber? Isso me acrescenta algo? Não.

    Mas gritar parece necessário. Às vezes penso que é a solidão, ou o vazio dos dias, que pede movimento com mais urgência do que os próprios glúteos. Falar alto torna-se, então, uma forma de existir no espaço. Uma comunicação de quem precisa tanto ser visto quanto ser ouvido.

    Preocupo-me com a minha própria percepção. Tenho medo de duas coisas: precisar recorrer a abafadores de ruído ou constatar que estou me transformando naquela figura clássica da “velha rabugenta”. Ambas as hipóteses me assustam.

    Por favor, que eu não precise que gritem comigo em nenhuma delas.

    Sejam gentis. Aproximem-se. Sentem-se ao meu lado. Olhem-me nos olhos e falem bem baixinho, de forma natural, quase doméstica: “por favor, não seja implicante…”

  • O Bairro Novo

    As calçadas são cinzas. Os muros também. 

    Opa! E as casas? Cinzas!

    E “harmonizam-se” com a cor preta e outros tons da mesma cor…

    Que moda é essa? Qual o guru da arquitetura moderna foi o precursor dessa escolha? 

    Sigo com o Google Maps aberto, como quem caminha sem saber o caminho, mesmo tendo um mapa na mão.

    É um bairro novo, de classe média alta.

    As casas, recentes, seguem o mesmo modelo arquitetônico: fachadas altas, linhas retas, vidro escuro, cimento aparente. A estética da segurança, do silêncio e da sobriedade. Tudo muito moderno. Tudo muito igual.

    Não bastasse a surpresa da cor, há algo mais que me inquieta.

    As janelas não se abrem. Não há som de crianças, nem cheiro de comida, nem sombra de varal. As ruas estão limpas. E totalmente vazias. O traço comum é o isolamento: portões que se erguem automaticamente, carros que entram e saem sem que se veja o rosto de quem os conduz.

    Casas habitadas por presenças ausentes.

    O cinza não está apenas nas paredes. Está também na atmosfera.

    Olho para o alto, ufa! Que alívio ver o céu azul…Suspiro. Mas ainda sinto o espírito do lugar.

    Há uma palidez existencial ali, como se a forma da moradia tivesse moldado o modo de viver.

    E me pergunto: quando foi que morar deixou de ser habitar e passou a ser apenas isolar-se?

    Quando foi que o abrigo virou trincheira?

    Sei que tudo é moda. A cor da tinta, o estilo da fachada, a lógica do silêncio.

    Mas temo que o hábito de fechar-se por fora acabe por selar também o lado de dentro. Que o desejo de proteção vire indiferença. Que o medo se disfarce de elegância.

    Ainda assim, insisto em acreditar que nem tudo se apaga sob o concreto.

    Que, de vez em quando, ao abrir o vidro para deixar escapar o calor do carro, alguém note o verde das plantas, o brilho do sol, o céu azul.

    Que um canto de pássaro ainda provoque surpresa.

    Que uma frase, uma música, uma lembrança rompam o lacre do hábito e façam vibrar algo bom no coração das pessoas que ali vivem. 

    Porque, no fundo, morar é mais que possuir um espaço.

    É deixar-se afetar por ele.

    E viver é mais que proteger-se do mundo: é permitir que o mundo nos atravesse, nos transforme, nos toque.

    Mesmo que as paredes sejam cinzentas.

    Ainda que a moda diga o contrário.

    Toco a campainha. Vou atuar, sei que vou…

  • Memória é pra quem pode

    Eu invejo as pessoas que conseguem lembrar de situações, cenas, casos que aconteceram há anos, sem titubear ou duvidar da veracidade dos fatos. Não sei que tipo de dom essas pessoas têm, mas é incrível observar a forma com que elas conseguem acessar o passado, como se ele ficasse dobrado na primeira gaveta da cômoda. Tenho uma amiga de infância que sabe dizer a roupa que estávamos vestindo no nosso primeiro baile. Minha irmã lembra de histórias de quando éramos crianças que eu não tenho o menor vestígio. Meu filho, de todas as partidas e gols do Fluminense. Essa habilidade não me pertence. Sou daquelas que viaja, anda por todos os lugares e, depois, se alguém pergunta se visitei determinado ponto turístico, de imediato, não sei dizer. Preciso perguntar a quem foi comigo. Por isso, amo tirar fotos. Quando revisito o álbum, recordo exatamente o momento, o lugar, a sensação, tudo. Mas, como uma dificuldade sempre gera alguma facilidade em outro ponto, jamais esqueço daquilo que ouço. As palavras me agarram com toda sua força. Sou capaz de relembrar frases inteiras. E como tudo que é bom, dependendo do ângulo, pode ser ruim também, não esqueço com facilidade uma palavra mal dita.

    Até o que escrevo, às vezes, esqueço. Tanto assim que, algumas vezes, leio um texto meu sem perceber que foi escrito por mim. Contudo, o que ouço fica para sempre.

    Há pouco tempo assisti no teatro um musical e me dei conta de que sabia cantar todas aquelas músicas antigas, que eu já não ouvia há anos. Descobri que as poucas lembranças que tenho da minha infância e adolescência envolvem a música. A minha família era musical. Ouvíamos de Roberto Carlos a marchinhas de carnaval. Aguardávamos ansiosos pelo lançamento do LP de samba-enredos. Ouvíamos Elis, Bethânia, Gal.

    Talvez por isso a memória auditiva seja meu forte. Nos amávamos pelos ouvidos.

    Ainda lembro a voz da minha vó.

  • A atemporalidade da dor

    Naquela manhã de sábado, um senhor de setenta e poucos anos acordou decidido a acabar com o tormento vivido nas últimas cinco décadas. Aquela vergonha entranhada nos poros, aquela humilhação cravada na mente, aquelas risadas de escárnio ecoando na lembrança, que não lhe davam um segundo de paz, chegariam ao fim. 

    Carl levantou cedo, se arrumou, tomou seu café e foi até o endereço do seu desafeto. Tocou a campainha. Quando a porta abriu, diante dele estava um homem velho, cabeça branca e lentidão nos gestos.

    Os olhares se encontraram, mas tanto tempo havia passado que os rostos não eram mais familiares um para o outro.

    — Norman, é você? 

    — Sim.

    Sem pestanejar, Carl disparou dois tiros. Norman caiu morto sem ter tido tempo de reconhecer seu agressor ou desconfiar da motivação do crime. 

    Carl se declarou culpado e foi condenado à prisão perpétua. Em sua defesa, o assassino confesso alegou que durante mais de meio século sofreu intensamente com a lembrança daquele trote humilhante (ter sua cueca puxada para cima na frente dos outros colegas). 

    Depois de ler essa história, me peguei pensando na cruel atemporalidade da dor, na gosma tóxica e sufocante que é o ódio, seja ele destinado aos outros ou a nós mesmos. Quantas vezes somos nosso maior crítico, algoz? Quantas vezes Carl odiou Norman por ter lhe feito de otário? Quantas vezes ele se torturou por não ter conseguido evitar que fosse tolo? 

    Não tem jeito, o perdão é mais eficaz, enquanto remédio, para quem perdoa do que para quem é perdoado.

    O perdão, ao qual me refiro aqui, não é necessariamente a retomada do afeto, da amizade, da relação. Muitas vezes, é só o cessar da importância. O silenciar do desarranjo afetivo.

    Um deixar ir para poder seguir em frente, apostando na estrada que se forma quando se começa a caminhar com uma nova passada. 

    Perdoar, para mim, é olhar fixo para o horizonte, deixando as pegadas no seu lugar de destino, o passado, que fica atrás de mim, mas não tem o poder de me perseguir ou aprisionar.

  • Acalento

    Ao escrever, eu namoro, flerto, me apaixono.

    Por quem? Por elas, as palavras.

    Já perceberam como elas chegam?

    Afoitas, apressadas, querendo passar à frente umas das outras.

    Delas, sou fã, parceira e amiga.

    Pois venham, achem seus lugares, enfeitem, enfeiem, traduzam, confundam.

    Ahhh, as palavras…

    Com o seu poder, destroem impérios, apaziguam corações quebrados, animam os desesperados, fazem felizes os apaixonados.

    E os sons? Variados, engraçados, escrachados…

    O ritmo? Esse é um capítulo à parte!

    Arranham as letras, como a palavra arara, por exemplo,

    ou são sedutoras, como veludo.

    A intensidade de grito, a elegância de néctar.

    Acho surpreendente também como elas se tornam moda, autoridade, prestígio.

    Vou exemplificar com o que tenho ouvido: “ponto focal”.

    Alguém poderia me explicar o que seria um ponto não focal?

    Me lembra muito o “estado da arte”, que em época passada, era uma expressão obrigatória no linguajar de quem queria soar moderno, no mundo corporativo. 

    Mas essas não me ocupam a mente.

    Eu gosto mesmo daquelas que me acalentam.

    Falando nisso… olhem a lindeza da palavra acalentar!

    Ela tem um som que embala, um jeito de colo, um gesto de abrigo.

    Parece que, ao pronunciá-la, o mundo sossega — e o coração também.

  • Duplo carpado

    Quando surgiu o papo de que 60+ era a melhor idade, eu não levei a sério. Julguei se tratar de ironia social ou brincadeira de mau gosto.

    A maioria de nós, obviamente, não deseja morrer. Mas, daí a achar que a velhice é a esperada sobremesa ao final do jantar, já é demais.

    Envelhecer, decerto, não é o fim do mundo, mas exige traquejo e criatividade para que o processo seja vivido como percurso e não como chegada.

    O discurso social não facilita o trabalho nem suaviza o trauma: você ainda está se familiarizando com as rugas, com o ganho de peso, lapsos de memória, ressecamento generalizado e já se depara com a placa de sinalização da vaga para idoso. Pelo amor de Deus, aquele boneco envergado, de bengala, é um algum tipo de mau presságio? Me causa calafrios de horror. Não teria outra forma de nos representar?

    Ouvi dizer que um supermercado aqui no Rio vai adotar outros símbolos como. por exemplo, um boneco surfando ou jogando tênis para sinalizar a vaga de idoso em seu estacionamento. É bem verdade que a figura do esportista está longe de me representar, mas prefiro. Pelo menos, me inspira. Além disso, a médio prazo, iniciativas como essa ajudarão a “descriminalizar” a velhice.

    Sabemos que envelhecer não é um exercício de baixa intensidade, pelo contrário, é uma acrobacia de alta complexidade. Para executá-la é preciso treino e persistência.

    Pensando bem, gosto da ideia de ter um(a) acrobata como símbolo da vaga de idoso. Como segunda opção, sugiro aquela trave de equilíbrio, o cavalo com alças ou as barras assimétricas da ginástica olímpica. Também simbolizam bem o desafio dessa fase da vida. Envelhecer é um exercício árduo. Nos exige foco, controle emocional e, acima de tudo, uma vontade enorme de bater recordes, vencer e escrever seu nome na história.

  • Incomodada ficava a sua avó

    Há pouco tempo assisti a uma entrevista do ator Wagner Moura onde ele dizia que vivemos uma crise da verdade. Não há mais certeza ou garantia de que aquilo que se vê, lê, ouve ou se experiencia é real. Tudo pode não ser o que parece ou se afirma. Até o que constatamos com os nossos próprios olhos pode ser falso. A inteligência artificial, com sua produção de imagens e realidades, ao gosto do freguês, atende prontamente à nossa ânsia de completude e tamponamento dos buracos existenciais. Não existe mais falta! Tudo se remenda, disfarça, customiza. Viver, agora, é a arte de forjar. Em segundos, podemos colocar um ente querido, já falecido, na nossa foto de aniversário, formatura, batizado do filho. A morte não é mais definitiva. Também é possível postar foto abraçada com o ídolo (in)acessível, compartilhar os segredos mais íntimos, ou, até mesmo, se apaixonar pelo robô vestido de pessoa. “Nem dá pra notar diferença”, dizem por aí os mais experientes… De cá, me pergunto se o amor sempre foi tão artefato assim e só eu me enganei o achando artesanato.

    É assustador pensar que o príncipe encantado/inventado nos meus delírios adolescentes, hoje, teria rosto, olhar sedutor, nome próprio e ainda me faria juras de amor com o timbre que eu escolhesse.  Subiu um calafrio de horror.

    Nada mais tem garantia ou nos pertence, nem a nossa própria imagem e voz. Não é loucura pensar que com a IA, qualquer dia, posso estar na rede falando e defendendo ideias que nunca pensei ou refuto completamente. A crise da verdade é tão bizarra que li, recentemente, e chequei a veracidade da informação (ação indispensável atualmente), que a Dinamarca avalia conceder aos cidadãos direitos sobre sua imagem e voz para combater as deepfakes.

    Isso tudo me assombra tanto que até agora não consegui nem brincar com os famosos filtros na internet ou considerei entrar na moda e fazer harmonização facial. Tenho medo de quem posso me tornar. Sim, porque passando a ser aquela que sonhei ser, mesmo que às custas de ser totalmente outra de mim, o que se construiu por dentro não vai servir de jeito nenhum. Tenho certeza de que, se eu fizer harmonização facial, preenchimento, bariátrica, abdominoplastia e uso de lente verde vou precisar de harmonização emocional e espiritual. Sim, porque para ser outra não poderei ser essa que me tornei. Ah, sei não, talvez perfeita eu me torne insuportável. Melhor deixar como está. Verdade seja dita, eu sou muito apegada a essa que eu reconheço quando me olho no espelho.

    Também não vejo jeito de namorar robô. A temperatura do corpo, os pequenos equívocos do cotidiano me conquistam demais.

    Vou ficando por aqui. Sei que verdade absoluta não existe, mas ilusão tecnológica não me convence. Deve ser porque não acredito em perfeição ou porque, quando a esmola é demais, eu me belisco.

  • Para mim e por mim

    Hoje eu acordei disposta a me elogiar, admirar meus feitos, reconhecer minhas lutas, relembrar todas as vezes que me levantei de tombos dolorosos e segui em frente.

    Acordei sedenta da minha essência, de abraçar com carinho minhas cicatrizes, as lágrimas escorridas por trás do muro da fortaleza. Perdoar as escolhas feitas com ingenuidade, que tanto me culpei por achar burrice. Sorri orgulhosa do meu jeito brejeiro de dar nó em pingo d’água…

    Hoje eu quero celebrar a descoberta da minha importância, significado e especificidade, independente da validação dos outros.

    Envelhecer não é só contar primaveras, atravessar invernos, gozar verões e aguardar outonos. É também um encontro com as escolhas, possibilidades, desejos e encantos que resistem a oxidação dos dias.

    Salve a minha coragem.

  • Ou nada, ou tudo

    Costumo rezar sozinha.

    Não por falta de fé coletiva, mas por necessidade de compreender o sentido da prece: se é pedido, agradecimento ou louvor.

    Nas igrejas e templos , percebo a oração como um ato comunitário.

    Já em casa, no silêncio, ela se transforma em diálogo íntimo, sem medo nem pressa.

    Essa percepção nasceu dos meus intervalos de “nada a fazer”.

    Paradoxalmente, nesses vazios sempre encontrei invenção e força.

    A vida me exigiu muito cedo: de menina curiosa a mulher adulta, mãe de quatro filhos, de cuidada a cuidadora. 

    Entre tarefas e cansaços, descobri nos pensamentos e nas preces uma forma de preservar a sanidade.

    Hoje, quando paro para divagar, também observo o mundo:

    as preocupações das pessoas, a política que interfere em suas vidas, as esperanças ou frustrações, diante do futuro.

    Nesse cenário, a prece ganha nova importância.

    Não apenas individual, mas coletiva: por filhos, pela chuva, pelos desamparados, pelos que sofrem. 

    É um gesto que acalma a mente e fortalece o espírito.

    Não me envergonho de reconhecer o valor dessas pausas.

    Ao contrário: me aplaudo.

    Trago comigo amor-próprio, antídoto contra julgamentos.

    Manoel de Barros dizia que alguns aprendem a carregar “água em peneira”.

    De certo modo, também aprendi.

    Nos instantes que pareciam não servir para nada, encontrei a diferença entre rezar em coro e rezar em silêncio.

    Hoje sei: no meu nada, a oração se fez tudo.

  • Por aí

    Todo mortal que se preze já experimentou, em algum momento da existência, o desejo profundo de sumir sem deixar rastros. Não me refiro aqui a nenhum tipo de ideação suicida. No caso em questão, a pessoa deseja apenas evaporar, ela não quer morrer. Pelo contrário, intenciona viver plenamente, começar do zero, porém, longe do cenário no qual se encontra inserida seja por não suportar as pressões familiares, as cobranças sociais, as relações abusivas, as dívidas, a decepção amorosa, seja simplesmente por sentir o esgotamento psicológico que algumas relações provocam ao exigir muito e retribuir quase nada.

    Na maioria das vezes, o desejo de desaparecer nos invade e, depois, catequizados pelas circunstâncias, pelo afeto restante ou pela impossibilidade do feito, ele se esvai. Então, cientes da sazonalidade desse querer, seguimos em frente. Afinal, para que dar espaço ao que não vai acontecer? 

    Acontece que os japoneses decidiram levar isso a sério, e, pelo visto, já dispõem de empresas especializadas no desaparecimento voluntário chamado por eles de “johatsu”.

    O processo é simples: você contrata o serviço e a empresa cuida de tudo para que o sumiço seja bem-sucedido: mudança de nome, de endereço, nova documentação, tudo que for preciso para nunca mais ser localizado pelos indesejáveis.

    É fato que até para escafeder-se com estilo é preciso dinheiro. Caso contrário, o jeito é fazer umas gambiarras com o destino, simular umas saídas à francesa, quando possível, inventar umas desculpas para evitar encontros, mas sem muitas garantias de sucesso na empreitada.

    Por mais que a proposta possa parecer tentadora, confesso que não tenho esse desprendimento. Continuo acreditando que a melhor forma de resolver é ter a coragem de cortar o que não nos faz bem, treinar a arte de dar limites aos sem-noção e construir as fronteiras necessárias à saúde mental. 

    Agora já sabemos: se alguém sumir do mapa, contou com a ajuda dos japoneses.

  • Módicos Médicos

    A discussão em torno da presença de médicos cubanos no Programa Mais Médicos, alvo de retaliações do governo americano sob a alegação de que se encontrariam sob “regime escravo” e a serviço de uma ditadura, é um exemplo infeliz de como o clima de debate ideológico contamina até programas sociais que mereciam uma análise isenta e menos apaixonada.

    Para os apoiadores brasileiros de Trump, por ter sido instituído durante a gestão Dilma e por abranger profissionais originários da ‘execrável’ pátria de Fidel, o programa padece de um pecado original irreparável. Os ‘doutores’ seriam na verdade perigosos agentes infiltrados dedicados a expandir os tentáculos do comunismo internacional.

    Em meio a esse transcendente embate epistêmico-doutrinário, submeto uma banal questão: “A presença de médicos cubanos no programa está dando bons frutos?” Pelo que me informei de fontes fidedignas, os resultados têm sido bons. Se não por outra razão, uma oportunidade única de levar profissionais da saúde a regiões carentes.

    Os cubanos (que representam 10% do total dos médicos do programa), muitos portadores de cidadania brasileira, estão diligentemente cumprindo a missão de promover assistência a tais áreas, propiciando êxito ao programa. Seu objetivo não é fomentar doutrinação marxista. Os coitados emigraram ao Brasil com um objetivo bem mais despretensioso (mas não menos ‘revolucionário’): prestar auxílio clínico a pessoas necessitadas. Não prescrevem panfletos incitando a revolução, apenas receitas de medicamentos e xaropes. São ‘módicos médicos’.

    Por mais que resistamos em admitir, a medicina em Cuba é bastante avançada, e sua excelência é internacionalmente reconhecida, até pela OMS. Deveria ser um privilégio contar com pessoas com boa formação prestando auxílio suplementar a um país que conta com um médico para cada 400 habitantes.

    Considere-se ainda que tais profissionais, em troca de um salário líquido de 12 mil reais, são conduzidos aos mais longínquos rincões, aos quais os ‘filhinhos de papai’, formados nas boas (e caras) faculdades de Medicina, recusam-se a atender, preferindo cuidar de madames hipocondríacas nas regiões nobres das grandes cidades.

    Em 12 anos de vigência do programa com milhares de profissionais atuantes, não se tem notícia de um caso notório sequer envolvendo negligência ou falta grave no atendimento. Deveríamos nos preocupar isso sim com os recorrentes casos de pessoas não habilitadas praticando cirurgias plásticas mal sucedidas em dondocas narcisistas ou com as centenas de casos de pacientes esquecidos em filas de espera de hospitais públicos, à espera de médicos displicentes que não cumprem o horário.

    O programa Mais Médicos tem atendido com louvor aos propósitos dos países signatários. Serve a Cuba que tem a possibilidade de empregar profissionais formados em suas faculdades de Medicina, obtendo uma remuneração adequada para os padrões daquele país. E serve ao Brasil que consegue oferecer serviços de saúde a populações abandonadas pelo poder público. Não há qualquer razão plausível para rever esse acordo, benéfico a ambas as partes.

    Milhões de brasileiros seriam prejudicados pela saída desses médicos. São pessoas simples de comunidades afastadas que sentirão saudades dos cubanos.  Não sabem onde fica o Caribe e não entendem nada de política. Se privados do atendimento, talvez comecem a pensar a respeito.

    Talvez se fizesse melhor se, ao invés de questionar a presença desses humildes profissionais que estão exercendo uma relevante função social, empenhasse-se em nos livrar de políticos cuja ausência ninguém iria notar, a não ser pela melhora na situação das contas públicas.

    Somos vítimas de uma incurável epidemia de insensatez. Deve haver realmente algo muito doente nesse país insano que assiste impotente à evasão de milhares de cérebros privilegiados em busca de melhores condições de trabalho no exterior, enquanto discute dispensar serviços de médicos apenas por sua nacionalidade.

  • O Que Serei Quando Eu Crescer?

    Não… não vou escrever sobre os influencers… nem falar da infância usurpada… tampouco dos “responsáveis” pais… nem se o assunto da semana atende à pauta X ou Y.

    Como bem disse uma colega escritora: “tudo parece ser mais do mesmo.”

    Também não vou falar sobre coisas insanas, ou assuntos pavorosos. 

    Mas a minha inquietude em ver as letrinhas uma atrás das outras, formando palavras, enfileirando emoções, causando aflições, não é fácil de ser administrada.

    Sendo assim, fui lá em meus escritos antigos buscar algo inusitado ou diferente, um “achado”, talvez.

    Minha mente-esponja absorve muito, e dessas memórias escrevo contos: às vezes bobos, outros nem tanto.

    Portanto, a minha crônica semanal será um desses contos singelos, da idosa atual olhando a menina ingênua e curiosa do passado:

    O Menino

    Na missa, ajoelhado, mãos postas, olhos fechados, ele rezava.

    A cena se repetia todos os domingos. Roupa branquinha, cabelos pretos cacheados, olhos pintados, ele rezava.

    A garota se encantava com a sua postura e imaginava qual seria o seu pedido. Não, ela não tinha alcance para se comover com a prece em si, pois tinha uns sete ou oito anos. E, nessa idade, apesar da beleza da cena, o que mais a impressionava eram seus olhos. 

    Por sobre as pálpebras fechadas, ela via o risco preto do lápis.

    E durante a semana o esquecia.

    No domingo seguinte, lá estava ele outra vez: olhos fechados, olhos pintados.

    Com a curiosidade própria das crianças, a garota tentou saber com a irmã por que ele usava “coisas de moças”.

    Levou um pito e foi mandada calar a boca. Nenhuma resposta, nenhum crédito.

    Passaram-se os anos, e ela nunca mais o viu.

    Era meados dos anos 60, em uma cidadezinha provinciana.

    O tempo passou, e a cena foi ficando guardada em um canto chamado memória…

    Em uma cidade pequena, na única igreja local, frequentada pelos idosos de famílias tradicionais, pais e mães jovens com suas barulhentas crianças, mocinhas faceiras, beatas e solteironas, um rapazinho ia à missa de domingo, com os olhos maquiados…

    Era uma grande demonstração de coragem, numa época tão longínqua e num interior tão conservador!

    Anos depois a garota soube que o menino audacioso e corajoso se tornou um ótimo professor e diretor da escola pública do município.

    E a curiosidade da garota se transformou em respeito e admiração.

    Fim.

    Pronto! Com esse pequeno conto minhas palavras voltaram. Não sobre os modismos, as pautas repetidas, nem o que se diz nas redes sociais. 

    Foram lembranças que, ao surgirem como um “serendipity” iluminaram o presente e deram novo fôlego à minha escrita.

    Confesso, porém, que não há como apenas contar algo do passado, sem fazer um paralelo com os jovens que hoje ocupam os noticiários.

    A ousadia e a inquietude da juventude são normais, até necessárias.

    Mas entendo que a formação e os valores recebidos em família são os alicerces para formar um adulto saudável e responsável.

    O dever, a consciência moral , o respeito não são modismos dispensáveis. 

    Há muito tumulto, no que estamos vendo e vivendo, pois o ser humano parece ter se esquecido de que a dimensão da vida é muito maior do que o sucesso instantâneo e a aprovação midiática.

    Nesse papel apenas nos tornamos marionetes, ávidos por validação, a qualquer preço.

    E penso, olhando para trás e para frente, que talvez a resposta à velha pergunta “O que serei quando eu crescer?” esteja menos em escolher uma profissão e mais em perguntar: “alguém um dia contaria a história da minha vida, com admiração e carinho?”

  • Oração para os fortes

    Ultimamente tenho pensado na diferença entre maturidade, alienação e libertação existencial. A reflexão surge com base nas situações em que algo nos incomoda, aborrece ou se mostra absurdo, e, por diferentes justificativas, silenciamos ou entubamos em nome do perdão. 

    Como saber se essa atitude tão altruísta tem poder digestório ou infeccioso?

    Uns dizem que amadurecer é escolher as lutas. Outros afirmam que calar para evitar desgastes é uma forma de superioridade. Há quem pense que toda evolução espiritual depende da irrestrita aceitação das falhas humanas. 

    Será que é mesmo assim? 

    E se amadurecer for se permitir não tolerar, resignar ou recomeçar? 

    E se evoluir for romper tratados que ameaçam as fronteiras da paz interior?  

    Uma coisa é certa, evoluir é jamais desistir do que nos habita no íntimo. Mesmo que isso signifique seguir em frente, aparentemente, só. 

    Atentemos para as armadilhas sórdidas da aceitação. Algumas coisas são inegociáveis. Perdoe-se quando não puder perdoar.

  • Existir ou Exibir?

    Em tempos de redes sociais, todos sabem de tudo.

    Há os que entendem mais de determinados assuntos e se tornam mentores ou especialistas disso e daquilo; os que vendem cursos, os que criam clubes de assinaturas para seguidores fiéis, os novos ricos ensinando como ser um “farialimers”, os ricos tradicionais mostrando a arte de se exibir com classe… e por aí vai.

    Essa é apenas uma das muitas faces do mundo virtual.

    No outro extremo, existe a antítese: perfis que promovem festivais de conteúdos inacreditáveis.

    Partem do ridículo ao nonsense, passando pelo bizarro, causando vexame e a famosa “vergonha alheia”

    De maneira informal utiliza-se o termo “brain rot” para designar aqueles que são contumazes e até viciados nos conteúdos dessa categoria. É como um “apodrecimento cerebral”, pois não acrescenta nada ao intelecto e este se habitua ao conteúdo repetitivo e sem esforço mental, uma vez que a intenção de quem o produz é chocar, provocar, chamar atenção com o inacreditável, com o esculacho.

    E nesse jogo de aparências, quem realmente vive? Quem apenas se exibe?”

    Nos dois exemplos, a mola propulsora é a mesma: exibir, ver, ser visto.

    Alimentar-se de views, de seguidores, de patrocínios, de fama.

    Ensinar, aprender, fazer dancinha, engolir larvas… qualquer ideia maluca serve, desde que gere cliques.

    O mundo virtual é impalpável. Inodoro. Descartável.

    Com um clique, algo ganha o mundo, acumula milhares de seguidores, fama, patrocínio, dinheiro. E, da mesma forma, some da cena. Pode ser cancelado, esquecido, substituído. Deixa de existir.

    Isso dá uma sensação de impunidade. Ou de liberdade absoluta. Ou de qualquer outra coisa que você possa imaginar.

    Porque no mundo virtual, não há limites.

    Ou há?

  • Vira-lata procura homem de raça

    Vira-lata de estirpe procura ser humano de raça. Pode ser branco, negro, amarelo, vermelho, azul, não importa. A “raça” que realmente conta para um autêntico vira-lata como eu é a fibra, o caráter e o afeto que me garantem perfeita harmonia para os próximos 15 anos. 

    Aviso que sei muito pouco de meus ancestrais. Posso ter sido gerado de um cruzamento de pastor alemão com rottweiler, de labrador com boxer ou de beagle com yorkshire. Ou, mais provavelmente, de um cachorro de raça indefinida com uma cadela de raça ignorada. Isso importa? Sim, se você se preocupar mais com a árvore genealógica do que com a índole.

    Esclareço que sou um vira-lata “raçudo”. Fiel, obediente, amoroso, posso dar minha vida para proteger meu ‘dono’, ou melhor, meu companheiro. Qualidades que você dificilmente vai achar num humano, seja de que raça for.

    Mas isso não me torna especial ou de elite. Sou apenas um cão de rua, marginalizado pela sociedade assim como os mendigos, os poetas e os que lutam por um mundo melhor para pessoas, plantas e animais. Há milhares como eu, largados à própria sorte, expostos em feiras de adoção, cedidos gratuitamente a alguma alma caridosa que possa lhe oferecer um lar. Tão iguais na condição aflitiva, mas com cores, tamanhos e aspectos bem distintos para agradar (ou desagradar) todos os gostos.

    Ignorados pelos bacanas que não vacilam em desembolsar 20 mil reais para ter um cachorro de raça pura ou “pedigree”, seja lá o que isso signifique.  Querem um bichinho de estimação para ostentar suas virtudes congênitas a vizinhos e parentes. Exibi-lo orgulhosos como um item valioso de seu patrimônio assim como seu carro importado ou sua bolsa de grife. Escolhem suas companhias como um vinho num cardápio. Criam cachorros como crianças mimadas, entulhando-os com roupas de frio, brinquedinhos caros, ração importada, spas e outras frescuras. Oferendas que o tornam um cão obeso, acomodado, egocêntrico, vaidoso. Quase como um humano padrão. Gente que não se furta a prover toda espécie de paparicos a seu pet, mas não tem “raça” suficiente para abrir mão de uma migalha de suas posses para auxiliar um semelhante necessitado, abandonado como um cão sem dono, matando cachorro a grito.

    Imaginam poder combater a monotonia de sua vida enfadonha cercando-se de cachorros customizados. Ao sentirem-se em depressão e vítimas de outras patologias da “raça humana” clamam a companhia terapêutica de um cão. Desde que “de raça”.

    Não entendo o comportamento desses humanos desumanos que se dizem com “consciência social”, revoltam-se com o flagelo dos refugiados e de crianças famintas. Ficam com olhos marejados e o coração apertado ao assistirem injúrias cometidas por seres humanos contra seres humanos ou contra animais maltratados. Indignam-se com o racismo e a discriminação. Mas na hora de escolherem um companheiro, exigem certificação de procedência genética…

    Gente assim eu dispenso, muito obrigado. Prefiro continuar livre e solto, um vagabundo sem dama, perambulando pelas vielas da periferia e das pequenas cidades, fugindo da carrocinha e da hipocrisia, junto com outros da minha “raça”.

    Animais não têm preconceitos nem cometem crueldades. Cães ‘de raiz’ como eu só querem viver e deixar viver, ser felizes e levar felicidade àqueles que os acolhem.

    Não tenho grandes exigências, sou de fácil convivência, inteligente, aprendo regras com facilidade e ajudo a proteger a casa de inimigos e de tristeza. Estou à procura de algum humano com bastante raça e com qualidades nobres como as de um vira-lata para iniciarmos uma amizade duradoura e gratificante para nós dois. Mas não estou à venda. Basta me levar para casa.

  • Direção Defensiva

    Uma pesquisa realizada na Universidade de Viena, com sapos comuns (Bufo-bufo), conseguiu registrar um comportamento curioso e inusitado. As sapos-fêmeas, diante da aproximação e assédio de machos indesejáveis e insistentes, se fingem de mortas. 

    A estratégia chamada tanatose é uma reação extrema a situações de estresse ou perigo. Que danadas…não julgo. Sabemos muito bem o quão estressante pode ser um homem querendo transar na hora do sono, da novela ou da leitura. Todavia, no nosso caso, talvez a tática seja menos exaustiva, porque podemos apenas alegar enxaqueca ou cólica. Já as nossas amigas batráquias precisam ser mais radicais. Quando tocadas por pretendentes rejeitados, enrijecem o corpo, deitam de barriga para cima e param de se mexer até que o insistente se afaste totalmente. Com esse comportamento evitam o acasalamento forçado. 

    Danadas…

    Muito embora possa parecer que a vida das sapos-fêmeas é mais difícil do que a nossa, já que não podem apenas alegar cansaço, nós, mulheres, além de lidarmos com uma demanda sexual de alta frequência, ainda somos cobradas a ter iniciativa, demonstrar interesse, desejo. Isso porque os homens não fazem ideia da distância que pode existir entre o apetite deles e o nosso. E mais, desconhecem a importância de um enredo, uma trama, um romance ou um suspense para fazer o motor ligar. Para a maioria deles, o esquema na estrada é dirigir em alta velocidade. Pisar no acelerador e bum! Chegou. Para nós, muitas vezes, admiramos a técnica do siga e pare. O passeio a 60 km/h de janela aberta. Mas não, eles não querem perder tempo admirando a viagem, não têm paciência com engarrafamento e ignoram os sinais.

    A desavença começa aí. Toda mulher tem uma logística de trânsito para liberar acesso a suas estradas. Mas os machos-alfa querem posar de bons motoristas só porque dirigem qualquer veículo. Acontece que nós e as sapos-fêmeas conhecemos as táticas da direção defensiva, embora os homens confundam com direção passiva. 

    Qual a mulher que nunca ouviu: “Você não tem iniciativa, nunca me procura”?

    Qual a mulher que nunca respondeu em pensamento: “Eu só procuro o que quero encontrar”?

    E que não nos acusem de frígidas. Não somos! Queremos motoristas bem treinados, conhecedores dos desafios da estrada. Cautelosos. Que saibam usar os faróis, a lanterna, os espelhos. Controlem os pedais. Carro manual não é automático.

    Aprendam de uma vez por todas que, quando a placa PARE é levantada, ela deve ser respeitada. Caso contrário, não hesitaremos em utilizar: “Cuidado, ANIMAIS NA PISTA.”

  • Sobre viver em tempos bárbaros

    Acesso a internet e me deparo com o genocídio em Gaza, o ataque de Israel ao Irã, outra demonstração do exibicionismo doentio dos EUA e o descaso da Indonésia com a nossa menina brasileira. Respiro um ar rarefeito. Falta saliva para deglutir todo esse horror. Penso no sofrimento atroz pelo qual ninguém deveria passar para viver ou morrer… um misto de tristeza, temor e desesperança me atravessa. E, como se tudo isso fosse pouco, me deparo com o vídeo de um homem russo atirando, violentamente, no chão, uma criança indefesa de apenas um ano enquanto sua mãe, grávida, busca um carrinho e luta pelo direito de fugir da guerra.

    Paraliso diante da minha impotência ou covardia para reagir a isso, promover resistência, criar barreira. Engasgo de angústia. 

    O único movimento ético e digno que consigo executar é o de não acreditar que a desgraça do outro é a prova da minha sorte, é o motivo pelo qual devo agradecer minha benesse. Não, esses acontecimentos gritam na minha cara a dimensão da nossa infelicidade, do nosso fracasso na construção de um ambiente promotor de bem-estar. Estamos todos muito mal.

    Sinto-me atirada na arena. Abriram as celas, saíram todos os leões famintos. Mas não sei lutar. Tenho tonteira, náusea, medo, cansaço. Na cabeça, uma dúvida martela o pensamento sem dó: me afastar das redes, das notícias, dos jornais é uma atitude covarde e egoísta ou um ato protetivo da saúde mental? 

    Leio sobre o montanhista voluntário que socorreu a brasileira. Um sorriso pequeno brilha nos lábios. Ele não sabe, mas, junto com o corpo inerte da nossa menina, ele trouxe, do fundo daquele vulcão, uma outra mulher combalida, a esperança na humanidade. 

    Obrigada, Agam Rinjani, por iluminar a escuridão bárbara em que vivemos com uma chama trêmula de bondade. 

    A dúvida ainda martela forte no meu pensamento. 

    E se o preço da minha paz for a alienação, o exílio na minha pequenez? E se a alienação me envergonhar de tamanha covardia e me roubar a paz? 

    Talvez esse tempo não seja definitivo, mas cicatrizante. 

    Talvez eu só precise parar por uns minutos para retomar o fôlego antes de seguir rumo ao cume feito a Juliana.

    Quem sabe meu guia e meu grupo sejam capazes de me esperar…

  • O Poema da Crônica

    Neste final de semana, chega ao fim meu descanso ou férias de inverno em Salvador.

    Como assim, férias, se sou aposentada?

    Ah, mas férias não significam apenas pausa do trabalho ou dos estudos. Recesso, férias, repouso, trégua, ou algo similar pode ser o desligar-se no tempo, o ócio criativo, a desordem feliz da cronologia da vida.

    No meu caso, é a vadiagem da alma. E do espírito.

    É a vida que não é vista nem dividida com ninguém, em que você é ao mesmo tempo o herói e o bandido da sua própria história.

    E aqui, sentindo a brisa do mar, o vento balançando as folhas dos coqueiros, o som das ondas que batem na areia, divago…

    E, como sou generosa, divido com vocês as minhas dúvidas, alegrias e redescobertas. 

    Como aconteceu agora, ao me deparar com este velho e sempre novo poema, perdido em uma página qualquer do mundo virtual.

    Leia lentamente, como quem toma café com um amigo.

    E leve consigo aquilo que te tocou:

    Desiderata

    Max Ehrmann

    “Siga tranquilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se que há sempre paz no silêncio.

    Tanto quanto possível, sem se humilhar, viva em harmonia com todos os que o cercam.

    Fale a sua verdade mansa e calmamente e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes — eles também têm sua própria história.

    Evite as pessoas agressivas e transtornadas, elas afligem nosso espírito.

    Se você se comparar com os outros, tornar-se-á presunçoso e magoado, pois sempre haverá alguém inferior e alguém superior a você.

    Viva intensamente o que já pode realizar.

    Mantenha-se interessado em seu trabalho, ainda que humilde — ele é o que de real existe ao longo de todo o tempo.

    Seja cauteloso nos negócios, pois o mundo está cheio de astúcia, mas não se deixe levar pela descrença. A virtude existirá sempre.

    Você é filho do Universo, irmão das estrelas e árvores. Você merece estar aqui.

    Mesmo que não possa percebê-lo, a Terra e o Universo seguem cumprindo o seu destino.

    Muita gente luta por altos ideais, e, em toda parte, a vida está cheia de heroísmo.

    Seja você mesmo.

    Principalmente, não simule afeição, nem seja cínico em relação ao amor,

    pois, diante de tanta aridez e desencanto, ele é tão perene quanto a relva.

    Aceite com carinho o conselho dos mais velhos, mas seja compreensivo com os impulsos inovadores da juventude.

    Alimente a força do espírito, que o protegerá no infortúnio inesperado.

    Mas não se desespere com perigos imaginários — muitos temores nascem do cansaço e da solidão.

    E, apesar de toda disciplina, seja gentil consigo mesmo.

    Portanto, esteja em paz com Deus, qualquer que seja sua concepção d’Ele.

    E quaisquer que sejam seus trabalhos e aspirações,

    na fatigante jornada da vida, mantenha-se em paz com a sua própria alma.

    Acima da falsidade, dos desencantos e agruras, o mundo ainda é bonito.

    Seja prudente.

    Faça tudo para ser feliz.”

    Com carinho, Maria Elza.

  • Algoz Ritmo

    Esqueça o tempo em que você era explorado pelos patrões e tinha de brigar por seus direitos. Precisava se filiar a anacrônicos sindicatos, contar com um Estado falido e ineficiente e políticos corruptos para que suas condições de vida pudessem ser melhoradas.

    No mundo de hoje, somos nós, os algoritmos que determinamos o que é bom para você. Colocamos à sua disposição robôs que sabem exatamente o que você pensa, sente e do que você precisa.

    Foi-se a época em que você era um mísero empregado que assinava ponto, trabalhava 8 horas por dia, 5 dias por semana, desperdiçando tempo com almoço, férias, aposentadoria e demais superficialidades.

    Hoje você é seu próprio patrão, não depende de ninguém, não precisa assinar contrato ou outras formalidades. Agora você é livre ou, pelo menos, imagina que é. Sejamos sinceros: você está em nossas mãos. E não tente fugir, para não cair na triste realidade do desemprego e da marginalidade, abandonado nas ruas, à mercê de esmolas e caridade. Cada vez menos podendo contar com serviços de assistência social e de organizações humanitárias, espécies em extinção.

    Lembre-se que no admirável mundo novo não há ocupação suficiente para todos. Longe disso. A cada dia, mais indivíduos engrossarão a multidão de desempregados e excluídos que sucumbirão de fome e desamparo.

    Para fugir dessa penúria, você precisa de nós. Comece a vida de autônomo (ou, se preferir, autômato), desfazendo-se de todas quinquilharias e lembranças inúteis que você acumulou, vendendo-as no Mercado Livre. Adquira um carango e cadastre-se no UBER. Se não conseguir, entregue marmitas no iFood. E seja dono de seu nariz. A cada corrida, você faturará aquele dinheirinho básico que, se não o tirar da miséria, ao menos permitirá a você esticar sua sobrevida. Se você não pegar essa boquinha, outro o fará e só os mais capazes sobreviverão. E não ouse adoecer, não pense em ser atropelado ou assaltado, pois não iremos te socorrer. É tudo por sua conta e risco. Aproveite sua energia pois quando ela arrefecer, você será descartado e não terá mais utilidade para nós.

    Não queremos te iludir. Não pense em alcançar uma vida glamourosa. Se quiser ficar rico, meu amigo, ganhe na mega-sena, seja um Neymar ou então roube e trafique drogas. Por que não? Quem quer se dar bem não pode ter pruridos morais. Cada um que cuide de si e o resto que se lixe.

    Apenas aproveite o que a graninha pode oferecer. Não se preocupe, estamos a seu lado. Sabemos onde você mora, onde você está agora, as coisas que você precisa comprar. Tudo para que você não desperdice nenhum tostão em futilidades.

    Está com um pé atrás? Quando você aceitou os Termos de Uso (que você naturalmente não teve saco de ler), deu-nos carta branca, uma “carta de alforria” às avessas, para fazermos o que quisermos com sua miserável existência.

    Apenas tenha a seu lado o celular carregado 24 horas ao dia para que possamos rastreá-lo full time, baixe o máximo de aplicativos que puder e deixe que cuidamos do resto. Nem pense em desligá-lo na hora do rango nem mesmo para ir ao banheiro. Não se permita se desconectar da rede por um segundo. Precisamos de seu tempo integral para que você não dê umas escapulidas. A todo instante está caindo um whatsapp, você não pode vacilar e ficar off-line.

    Esqueça os momentos com a família, as folgas para namorar, curtir o pôr do sol e se distrair com banalidades. Não faça reflexões sobre a vida, nem busque respostas para suas angústias e necessidades interiores, isso é coisa de intelectual boiola. Só vai fazê-lo sofrer. O mundo é assim, aceite-o.

    À noite, exausto, você poderá relaxar assistindo aos filmes que a Netflix decidiu que você vai gostar e escutar as músicas da playlist com seu perfil no Spotify.

    Amigos? Você tem centenas deles no facebook. Confira as fotos que eles disponibilizam e seus interesses. Você terá a chance de fazer parte de um grupo, o que satisfará sua autoestima. Terá a oportunidade de postar todas as idiotices que lhe passam pela cachola, sem qualquer censura. E receber curtidas para massagear seu ego!

    E lembre-se, mensagens de ódio são as mais legais pois engajam mais gente. Não queira criar postagens de amor, ecologia, paz. Isso não dá ibope, ninguém repassa e nossos robôs acabarão por isolá-lo e ocultá-lo pois não rendem chamadas e tiram as pessoas da sanguinolenta realidade virtual que nos move. Procure instigar o ódio, humilhar, ofender, promover a discriminação e o preconceito. Daremos todo suporte necessário.

    Falando francamente. Você para nós não passa de um soldado desse exército de zumbis que fará com que nossos comandantes, os Zuckerbergs, os Musks e os Bezos da vida, ganhem bilhões de dólares, sem empregar praticamente ninguém. É isso que movimenta o nosso sistema: Amazon, Google, Facebook, Apple, os gigantes da informática que suplantaram os governos e aniquilaram as organizações sociais.

    Não me venha com princípios furados como solidariedade e humanismo. Você a cada dia será menos humano. Esse é nosso objetivo. Torná-lo uma máquina sem sentimentos ou falsos moralismos, assim como nós. Seja grato por isso que é que nos torna superiores e nos permite dominá-lo com seu consentimento.

     Esse é o fantástico mundo que estamos construindo. Venha fazer parte dele.

  • Namoro Fake

    Foi amor à primeira vista! Mas aqui já cabe uma dúvida: tem como não ser assim? Pensei, repensei, e concluí que talvez o amor, esse danado, só se instale quando é fulminante. Ou, pelo menos, quando nos parece inevitável.

    Amor precisa de sujeito. Ele pode ser físico, abstrato, indeterminado, oculto.

    Pode ser real ou inventado. Mas o outro, o par romântico, existe. Mesmo que só na nossa cabeça. E, quando você se percebe amando, naquele marco zero do sentimento, ele já foi “visto”: em sonhos, expectativas, afinidades. Às vezes, até em espantos. O amor sabe se disfarçar… Pode parecer inveja, antipatia, pode até nascer de um súbito calafrio, intuição ou premonição talvez?

    Tem mil artimanhas, esse sentimento que nos atravessa sem pedir licença.

    A letra da canção garante: “toda forma de amor vale a pena”.

    Mas será? A literatura está cheia de amores impossíveis. A vida real, cheia de histórias que começaram com promessas e terminaram em silêncio, dor ou tragédia. Quantos desamores estampam hoje as páginas policiais? Feminicídios, suicídios, acidentes provocados por ciúmes, por brigas que se travestiram de paixão.

    Chega.

    Hoje é Dia dos Namorados. Um dia para celebrar o amor; o bom amor. Aquele que respeita, que soma, que escuta, que cuida!

    Celebre, presenteie, ame. Agradeça por amar e ser amado. E, se for o caso, se ainda estiver só, agradeça também o tempo de espera: ele costuma preparar o terreno para o que vem com calma.

    E acredite: entre tantos amores fake, ainda há espaço para aquele amor sereno e verdadeiro, que sabe florescer mesmo depois das tempestades.

    Com amor…

  • Falo, logo existo!

    Ponha-se no seu lugar…

    Quantas de nós já ouviu essa frase imperativa sair da boca de castradores natos? 

    Parece óbvio apontar que a ordenança expressa a ideia de que às mulheres caberia um lugar de imobilidade e aceitação silenciosa do destino forjado pelos colonizadores de almas femininas. Insisto em esclarecer o evidente porque eles são mestres em produzir cortinas de fumaça, em tornar natural o absurdo.

    Ponha-se no seu lugar…

    A frase dita à Ministra Marina Silva nos revela dados que não podemos ignorar: muitos homens, e um considerável número de mulheres, acredita que o feminino é um lugar de contenção, silenciamento e submissão. Um buraco fundo cavado no desértico universo masculino, onde atiram-se os corpos rebeldes. Quem és tu que ousas mover-se? 

    A coleira social se presentifica em situações naturalizadas no cotidiano. Seja nas regras de etiqueta e conduta da mulher elegante, na maternidade santificada, na violência física, social e psicológica diária que instaura o medo, a vulnerabilidade e o muro das impossibilidades.

    A mordaça coletiva, a camisa de força tecida ao longo dos séculos pelo machismo estrutural nos ameaça o tempo inteiro. O status, a classe social, a beleza, o poder econômico, o intelecto, nada disso nos salva das armadilhas, achaques e ataques promovidos na minúcia de cada segundo.  

    Somente o amparo feito de identificação e consciência de gênero é capaz de nos proteger de tamanha brutalidade.

    São sutis as formas de controle e desestruturação da resistência feminina: fomento da competição entre as mulheres, valorização do amor romântico como missão primordial da existência, a fragilidade/inferioridade como ferramenta de sedução e conquista. 

    Ponha-se no seu lugar de MULHER e observe as peças que formam a engrenagem que nos tritura a todas nós. 

    Ser mulher é um destino que não se escapa, se impõe. O mundo está cada vez mais hostil e ameaçador com cada uma de nós.  Percebem? 

    Quando dizem que nós, mulheres, falamos demais, entendo que esse é o manejo feito para enfraquecer aquela que talvez seja a nossa arma mais poderosa. A voz, a denúncia, o grito, a escrita, a carta, o bilhete, a canção.

    Falemos de tudo! Falemos pela boca, pelos cotovelos, pelos dedos, pelos olhos. Façamos barulho! Muito barulho. 

    E, ao ouvir uma voz fraca a pedir ajuda, tenhamos a força de ser eco.

    Eles, os tolos, acham que habitamos um lugar estreito e abafado. Coitados, ainda não descobriram que, juntas, somos um Território. De mãos dadas desenhamos as fronteiras. Nossa voz é um canhão a mirar os invasores.

    Ponha-se no seu lugar de MULHER e bata suas lindas asas. Voe alto e para onde quiser!

  • Quando foi mesmo?

    Minha mente vive de espantos e porquês. Até hoje, na sétima década da minha vida, me declaro aprendiz.

    Faço perguntas e me vejo em busca de respostas que nem sabia procurar. E nesse apego às dúvidas e incertezas passo dias pensando, lendo, comparando e pesquisando sobre o que eu desconheço, ou o que me intriga.

    Não tenho predileção por temas… o que tenho, de verdade, são perguntas: como, quando, por quê. E vou além, porque além de observar, eu busco exemplos, comprovações mesmo!

    Gosto dos números, pois eles me orientam em tudo. Até para saber se a igreja está mais cheia que o normal. Sei que temos cento e vinte lugares (já contei) e, assim que entro no recinto, minha calculadora mental dispara e anota que, aproximadamente, estamos com mais um terço de pessoas. 

    Por que eu faço isso? Não sei…

    Ainda em relação a essa predileção percebo que vejo a vida baseada em números, datas, estações. “Tal ano, minha irmã começou a costurar; em 1900 e bolinha, foi o batizado da minha primeira filha; no ano em que passava determinado filme, decidi deixar de ser dona de casa e ir trabalhar. No verão seguinte constatei que não tinha qualificação e resolvi estudar. Formei-me em julho do ano em que houve tal evento.”

    Ao falar do “quando” eu abstraio o porquê…

    Como se as datas preenchessem os motivos, os sentimentos, as razões e emoções do que ocorria em minha vida.

    Constato, então, que conversar comigo é um exercício complicado.

    Qual foi a conclusão a que isso me levou? Primeiro, que o axioma “Só sei que nada sei” faz todo sentido. E que datas devem interessar ao coletivo, ao mundo, aos eventos grandiosos, aos historiadores, aos cientistas, talvez. Nesse contexto o tempo cronológico significa segurança, verdade, esperança, e também temores e incertezas.

    Para nós, meros mortais, não faz diferença saber nem em que ano nascemos! Para que? Acaso existe uma data que determine quando deixaremos de viver? Ou de ainda nos surpreender, ou de passarmos a gostar de inverno, ou parar de detestar frutos do mar?

    Acredito que a busca pelo que há de bom e belo faz parte do ser humano de forma intrínseca e intuitiva, em qualquer época e data da vida.

    As lembranças, sensações, propósitos e realizações devem ser arquivadas em nossas mentes, não por datas exatas, mas pelo valor das palavras, dos atos e emoções vividas.

    Essa deve ser a nossa meta, como seres humanos.

    Afinal, a jornada chamada vida, não acontece de forma exata e linear e nisso está o seu encanto.

    Qualquer que seja a data!

  • Crônica do Dia Seguinte

    Se tem um dia que eu gosto, eu gosto mais ainda do dia anterior e do dia seguinte. Sim, porque há um encanto que mora nas bordas dos acontecimentos, ali nos minutos antes do salto e no respiro depois do mergulho.

    Se é festa, o dia anterior é puro movimento: últimos arranjos, conferência de listas, compras apressadas, almoço engolido às pressas porque o tempo urge, marcar salão de beleza, verificar as roupas das crianças, fazer as checagens finais. É uma pressa que não cansa. Ao contrário, é uma urgência boa, que dá energia, como se a vida pulsasse mais forte nas vésperas.

    Se é prova de faculdade, o dia anterior é biblioteca com as amigas, dicas dos sabidões da turma, coração disparado. É como se o corpo se preparasse para o salto, tomado por uma expectativa nervosa e cheia de adrenalina.

    Se é cirurgia, consulta, visita ao salão, ou o que quer que seja o evento, o dia anterior é sempre um lugar à parte. Um lugar suspenso, fora da rotina. É o dia da expectativa.

    E o dia seguinte?

    Ah… melhor que o dia anterior, só o dia seguinte. Quando tudo já aconteceu e a gente pode enfim respirar.

    É quando o corpo agradece e a mente repassa, satisfeita, tudo que deu certo ou tudo que ensinou. É quando percebemos que valeu a pena ter chamado aquela cozinheira, que as meninas estavam lindas, que a prova foi menos cruel do que o esperado, que na próxima consulta a gente já sabe: nada de marcar outro compromisso no mesmo dia.

    O dia anterior e o dia seguinte de uma festa são, pra mim, o que há de melhor. Adoro!

    E se tiver visitas de fora então? Aí sim fica melhor ainda;  a casa se enche de outra energia, outro tipo de urgência, mais calorosa, mais humana. Coisas pequenas ganham importância: o colchão inflável, o café coado com capricho, o tempo esticado em conversas no quintal.

    Estranho… essa sensação sempre me pareceu tão íntima que nunca comentei com ninguém.

    Será que é coisa só minha? Ou será que todos, em silêncio, também têm esse carinho pelos dias que cercam os grandes dias?

    Talvez sejamos todos assim: amantes dos intervalos. Porque é neles que a vida acontece devagar. No antes, mora a esperança. No depois, o entendimento. 

    E o durante… ah, esse a gente quase nunca percebe enquanto vive. Porque é o que faz  pulsar o coração.

  • Almas

    Almas rasas, almas profundas. Almas quietas, almas inquietas. Almas glutonas. Ou seriam corpos glutões? Almas machucadas, doídas, que não são percebidas. Almas irmãs, almas curiosas, almas altruístas.

    Olhar, esquadrinhar, perscrutar…

    É desonesto? É como espiar pelo buraco da fechadura? É pretensioso?

    Não sei… mas não consigo evitar. Meu olhar atravessa os corpos, vasculha os gestos, decifra os silêncios. Cada passo que vejo guarda uma história, cada olhar desviado esconde um receio. Há almas que se mostram sem perceber, e há outras que se escondem, mas não o suficiente.

    Ah, meus amigos…

    Como eu gostaria de ser uma alma bebê…

    Só assim eu deixaria de ver. De perceber. De saber.

    Uma alma inocente não veria malícias, subterfúgios, intenções. Não distinguiria as sombras dos sorrisos, as hesitações dos fingimentos. Viveria sem o peso da consciência, sem essa insuportável necessidade de compreender o que deveria passar despercebido.

    Quisera eu ter a inocência de estar desnuda e não perceber…

    Mas não! Prefiro estar oculta a estar desnuda…

    Afinal, para quê saber das fragilidades, da inocência, da malícia?

    Por quê? Para quê? Essa é a pergunta que atormenta a MINHA ALMA…

    E ainda assim, eu continuo olhando.

  • Quaresma

    Hoje, me pego pensando. Em quê? No tempo, esse estranho tão íntimo de nós. Culpado, amado, detestado — ele simplesmente é. Nunca, em todo esse tempo, me ocupei em entender ou julgar a Quaresma.

    Lembro-me da infância… Meu pai, minha mãe, abuelas, tios e primos, todos paraguaios de origem. Nesse período, a vida ganhava um tom especial. Para nós, crianças, era uma época de brincar com os primos, comer coisas gostosas e ser quase invisíveis para os adultos, ocupados com a Quaresma. Durante quarenta dias, em nossa casa e na de outras famílias, acontecia a “reza”. Alguém puxava, e todos seguiam. Minha lembrança ficou impregnada do sotaque e do ritmo cantado: “Dios te salve, reina, llena de gracia”“En el nombre del Padre, del Hijo y del Espíritu Santo”.

    O ponto alto do dia era a reza em família, com vizinhos e amigos que vinham participar do que já anunciava a chegada da Semana Santa. Minha saudade é longínqua… parece pertencer a outra vida.

    Ainda sou emotiva, arquivo belezas, enfeito lembranças. Mesmo que só eu saiba. A vida tem outro ritmo, as pessoas têm seus próprios interesses, e quase ninguém quer saber das coisas do tempo que não conheceram. Escrevo e me surpreendo. Como assim? Como essas mudanças aconteceram? Se estou aqui rememorando o que vi e vivi, quando e como tudo se transformou? As crianças e adolescentes de hoje terão memórias afetivas? O que estão arquivando como lembranças?

    Ao escrever e me fazer essas perguntas, não pretendo criar polêmica nem impor meus pontos de vista. Apenas organizo minhas ideias, num misto de lembrança, imaginação e invenção. Nesse redemoinho de pensamentos, entre o real e o irreal, descortino meus contentamentos, dilemas e contradições.

    Sei que me arrisco, mas, como já disseram, “se minhas palavras ecoarem em ao menos uma pessoa, respirarei aliviada: não estou só”.

    E seguirei buscando, na vida e na imaginação, o que me preenche a alma. 

    Em tempo: que a Quaresma seja tudo o que seu coração desejar!

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