crônica de sábado

  • Quaresma

    Hoje, me pego pensando. Em quê? No tempo, esse estranho tão íntimo de nós. Culpado, amado, detestado — ele simplesmente é. Nunca, em todo esse tempo, me ocupei em entender ou julgar a Quaresma.

    Lembro-me da infância… Meu pai, minha mãe, abuelas, tios e primos, todos paraguaios de origem. Nesse período, a vida ganhava um tom especial. Para nós, crianças, era uma época de brincar com os primos, comer coisas gostosas e ser quase invisíveis para os adultos, ocupados com a Quaresma. Durante quarenta dias, em nossa casa e na de outras famílias, acontecia a “reza”. Alguém puxava, e todos seguiam. Minha lembrança ficou impregnada do sotaque e do ritmo cantado: “Dios te salve, reina, llena de gracia”“En el nombre del Padre, del Hijo y del Espíritu Santo”.

    O ponto alto do dia era a reza em família, com vizinhos e amigos que vinham participar do que já anunciava a chegada da Semana Santa. Minha saudade é longínqua… parece pertencer a outra vida.

    Ainda sou emotiva, arquivo belezas, enfeito lembranças. Mesmo que só eu saiba. A vida tem outro ritmo, as pessoas têm seus próprios interesses, e quase ninguém quer saber das coisas do tempo que não conheceram. Escrevo e me surpreendo. Como assim? Como essas mudanças aconteceram? Se estou aqui rememorando o que vi e vivi, quando e como tudo se transformou? As crianças e adolescentes de hoje terão memórias afetivas? O que estão arquivando como lembranças?

    Ao escrever e me fazer essas perguntas, não pretendo criar polêmica nem impor meus pontos de vista. Apenas organizo minhas ideias, num misto de lembrança, imaginação e invenção. Nesse redemoinho de pensamentos, entre o real e o irreal, descortino meus contentamentos, dilemas e contradições.

    Sei que me arrisco, mas, como já disseram, “se minhas palavras ecoarem em ao menos uma pessoa, respirarei aliviada: não estou só”.

    E seguirei buscando, na vida e na imaginação, o que me preenche a alma. 

    Em tempo: que a Quaresma seja tudo o que seu coração desejar!

  • Prazo de validade

    Desde criança me intrigavam as relações que sobrevivem ao lodo do tempo. Talvez por ter avós e pais separados, a união indissolúvel de duas histórias me comovia profundamente. 

    Na infância, gostava de assistir aos avós de uma amiguinha caminharem pela rua. O andar lento, inseguro de cada um, se amparando na união das mãos enrugadas, nos braços pintados de manchas vermelhas, que depois descobri se chamarem fragilidade capilar, causavam, simultaneamente, uma paz e uma apreensão só ofertadas pela noção de eternidade.  

    Lembro de ressoar no pensamento, em momentos aleatórios, sem nenhuma explicação plausível, o termo “fragilidade capilar”. Por causa disso, toda pessoa que chegava em minha casa, jovem ou não, despertava o meu olhar investigativo na busca daquelas manchas que ficavam por baixo da pele fina. Lá pelas tantas do crescer, minhas pesquisas infantis revelaram a correlação entre aquelas marcas e o envelhecimento. Agora, sim, havia entendido tudo. O corpo dava os sinais do seu desgaste. A corrosão era de dentro pra fora. Mas, ainda assim, eu continuava a achar lindo que o caminho para a finitude fosse em parceria com o ser amado de uma vida inteira.

    Durante anos cultivei esse ideal romântico, mas a recepção dos consultórios médicos e até, mais efetivamente, do Pilates, ultimamente, têm destruído a marretadas minha ilusão. 

    Existem casais, que estão juntos há trinta, cinquenta anos, que não se suportam mais nem por um segundo. É curioso perceber a falta de paciência, as intolerâncias de todo tipo, os safanões, gritos e até xingamentos de canto de boca. As implicâncias, críticas ferozes edesvalorização do parceiro(a) também aparecem de forma acintosa.

    Hoje mesmo presenciei uma cena dessas e me indaguei: há quanto tempo passou a hora deles se separarem? Por que escolheram seguir juntos quando só a desavença os une? Quando foi que deixaram de acreditar na existência de outros caminhos? Como se estabelece o prazo limite para ser feliz? 

    Primeiro, senti uma tristeza rascante. Deve ser horrível viver com alguém pelo medo de morrer só. Em seguida, senti um alívio: quem sabe as brigas e as alfinetadas funcionem como a diversão possível ou, pelo menos, o espaço lícito para depuração das amarguras? É provável que, no exercício da convivência, eles tenham aprendido a se ignorar ou se odiar com amor. Quem sabe se sentem completos, felizes e realizados?

    Agradeci aos meus avós e a meus pais a coragem de lutar por novos rumos. Me orgulhei de mim por não ter me conformado com dias mornos.

    Suspirei fundo e lembrei daquele casal da minha infância. Eles são a prova de que é possível não deixar o amor azedar como feijão fora da geladeira.

    É isso que quero pra mim. Menos que isso não aceito nem com oitenta anos.

  • Viagem no Tempo

    13 de fevereiro é o Dia do Rádio. Aquele que já foi essencial nas casas das famílias, por mais simples que fossem.

    O pai ouvia as notícias através da Voz do Brasil.

    A mãe encantava-se com as vozes dos heróis e heroínas das novelas de rádio.

    Ah, Albertinho Limonta, como você pôde renegar seu filho em O Direito de Nascer?

    E as mocinhas sonhadoras?

    Encantavam-se com as músicas apaixonadas dos cantores que se tornavam ídolos da juventude:

    “Quero beijar-te as mãos, minha querida
    És o maior enlevo da minha vida.”

    O rádio era um passaporte para outros mundos e, ao mesmo tempo, reunia a família ao redor de suas ondas sonoras. Juntos, apreciavam a música, vibravam com partidas esportivas e acompanhavam programas de entretenimento. Ah, e não se perdia o horóscopo! Na sala de casa, ocupava um lugar de destaque, e os locutores de rádio tornavam-se quase membros da família, de tão conhecidos que eram.

    O próprio aparelho era um símbolo de status. Famílias mais abastadas das décadas de 70 e 80 passaram a ter o rádio vitrola em suas salas e, posteriormente, o famoso três em um, o auge da ostentação.

    Com o tempo, o rádio perdeu seu trono na sala de estar. Pequeno e portátil, deixou de ser um evento coletivo para se tornar uma companhia individual. Depois, a televisão assumiu o protagonismo, e aquele brilho dourado das ondas sonoras foi se apagando no cotidiano das famílias.

    O Dia do Rádio. Não sei exatamente o significado dessa data, mas sei o que ela me traz: uma enxurrada de lembranças.

    Lembrei-me da caixa com brilho de verniz, com os alto-falantes escondidos pela tela entremeada de linhas douradas e, em cujas ondas, eu sonhava com o futuro.

    Lembrei-me do meu pai, no final da tarde, com seu rádio portátil preto, onde talvez ele rememorasse o passado.

    Hoje é o Dia do Rádio. E, entre tantas transformações, ele permanece. Talvez não mais no centro da casa, mas sempre no coração e na memória.

  • Sobre não saber

    Chegou a hora de escolher o esmalte a ser usado amanhã para o ensaio técnico da minha escola de samba, a verde e branco, Imperatriz Leopoldinense. Parece uma questão tosca, sem relevância social, mas para mim não é. Imagino, inclusive, que para vocês, leitores, seja uma situação desprezível, o que não diminui o poder de impacto da maldita dúvida no meu dia: verde-claro com glitter ou verde-bandeira? Postei a questão no grupo de amigas do zapp. “Escolha qualquer um”, disse uma amiga. “Quem vai ver sua unha no meio da multidão?”, argumentou outra querida. “Não perca tempo com isso. O importante é estar lá”, falou a mais objetiva. 

    Enquanto isso, na minha cabeça, batucava a dúvida: o claro divertido ou o escuro classudo?

    As manifestações no grupo não pararam por aí. Mais amigos queriam resolver o meu problema, cessar a minha angústia: “No casamento do meu filho, fiquei na dúvida entre branco e nude e acabei usando o rosa.” “Pior sou eu, não posso usar nenhum esmalte porque estou com unheiro.” “Eu nem esmalto mais a unha, tenho alergia. Larguei pra lá.”

    De fato, não posso elevar a minha dúvida à categoria de catástrofe ou considerá-la um problema real diante de tantas coisas sérias no mundo: fome, guerras, violência. Acontece que, para uma coisa nos atormentar, ela não precisa de aval ou relevância social. Porém, somos mestres em julgar a dimensão e profundidade dos problemas dos outros, usando a régua das dores existenciais para medir e validar a angústia de cada um.

    À parte as boas intenções, quem me ajudou mesmo foi a única que não apresentou soluções nem exemplos pessoais sobre o tema. Apenas lançou: 

    — Posso ajudar de alguma forma?

    Tanta empatia implícita nessa pergunta…

    Escolhi o verde-claro. Acho que já o queria desde o início. Mas a conclusão mais importante foi perceber que a dor da escolha mora na dificuldade de perder. Se escolhemos A, perdemos B e vice-versa.

    Resolvi o impasse quando mudei o enfoque. Não era qual eu deixaria de usar, mas qual eu não abriria mão de ter.

  • Boa pergunta

    As galinhas (raízes, autênticas) botavam o ovo e cacarejavam. Umas mais que as outras.

    Saíam pelo quintal em alto e bom som espalhando o feito.

    Passavam em meio às colegas solteiras, aos galos jovens e imponentes e ao preferido — aquele com quem, há poucos dias, haviam ciscado lado a lado, enquanto ele a cortejava disfarçadamente.

    Quanto à galinha choca e seus pintinhos, ela era evitada ou ignorada.

    Enfim. Cacarejava e desfilava, indo de um lado a outro.

    Comunicar era o objetivo.

    Essas eram as que tinham casa, comida, vida mansa.

    Alguém sabe porquê? Eu não!

    E lembro-me também das galinhas que escondiam-se em pequenas moitas de plantas, matos, folhas secas de canaviais ou qualquer canto que pudesse servir de esconderijo, para fazer os ninhos e botar seus ovos.

    Ahhh! E a alegria do menino ou menina ao achar esse ninho e correr para contar a todos? Por uns momentos eles se tornavam importantes, iam à frente mostrar o achado, aí o pai, a mãe ou o adulto se abaixava e “solenemente” analisava os ovos. Que poderiam ser comidos ou deixados para chocar e dali a alguns dias aumentar o numero de galináceos em nosso quintal.

    A poedeira oculta, que em silencio se afastava, botava seu ovo e voltava discretamente, sem um cacarejo, não era conhecida, nem exibida, nao tinha melhor ração e nem cuidado extra. Na mesa, a cesta de ovos sempre cheia…

    Pois então, “do nada” me veio essa lembrança, e não busquem o seu significado.

    Ela existe apenas na memória dos recordadores e a ela se dá o nome de memória afetiva.

    B’ora comer uns ovos?


  • Dica de milhões

    Algumas coisas que acontecem no meu dia a dia são tão estapafúrdias que me levam a patinar na velha dúvida: falo ou calo? 

    Minha primeira opção, nessas ocasiões, é calar, sobretudo quando aquilo que pretendo dizer é óbvio e deveria dispensar apresentações. Por outro lado, se, mesmo sendo óbvio, a outra parte insiste em ignorar os limites da razoável convivência, entendo que o irmão de raça carece de uma interpelação. 

    Refiro-me aqui, mais exatamente, ao inferno que se tornou a espera em qualquer recepção, consultório, fila, transporte público, restaurante ou praia com o advento do celular sem o uso e fone.

    Não bastasse ter que disputar o espelho dos banheiros públicos e academias pelo desesperado self da humanidade, agora o coleguinha da cadeira ao lado oferece, independente de hora, local e ocasião, um vasto repertório de vídeos (entrevistas, orações, piadas, podcast) no mais alto volume.

    A primeira coisa que me pergunto, nessas situações, é se a pessoa tem ciência de que não está meditando sozinha nas montanhas do Nepal.

    Não sei se por carma ou azar, na última quinta-feira, o espaço, equivocadamente, chamado de coletivo, foi cenário de mais um desastroso encontro meu com um exemplar dos tempos modernos. 

    Eu estava numa recepção de consultório aguardando minha consulta quando, sem aviso prévio, uma criatura saca seu celular do bolso e decide ouvir, em fartos decibéis, vídeos do TikTok. Diante da falta de noção do querido, optei por usar a linguagem simbólica dos gestos. Olhei para a apostila que estava em minhas mãos (sim, eu estava estudando), depois para ele, para o celular dele e novamente voltei a atenção para a apostila. Vi que ele notou minha desaprovação, mas seguiu incólume. Foi nessa hora que decidi utilizar uma estratégia aprendida com uma amiga umbandista. Segundo ela, nessas horas, o melhor é usar a maldita intolerância religiosa das pessoas a nosso favor. Colocar um ponto de Exu para tocar e ver as pessoas se afastarem feito cupim na presença da luz. Assim fiz: “Auê Exu, ninguém pode comigo. Eu posso com tudo. Lá na encruzilhada, ele é seu Exu.”

    Como num passe de mágica, o respeitável senhor foi catar seu destino e a recepção voltou a ser um espaço habitável.

    O que essa situação corriqueira denuncia é o crescente sucateamento do espaço público em prol da soberania dos mimados e narcisistas e o envenenamento do coletivo pela necessidade de uniformização das escolhas, preferências e crenças.

    Ainda bem que existem pontos de Exu para nos proteger.


Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar