Crônica de Sábado por Maria Elza Gonçalves

  • A madrinha

    Um estranho. Para as pessoas distraídas, apressadas, pensativas, envolvidas em seus pensamentos ou problemas, em que mudar a marcha do carro vem a ser um ato automático, o rapaz parado ali naquele cruzamento praticamente não existia ou era apenas isso: a figura de um estranho.

    Em vez de empatia despertava irritação, talvez.

    Não era transparente, mas era como se fosse. Como se ali não houvesse ninguém.

    Gabriela passava todos os dias naquela esquina e por acaso o viu. Bastaram poucos segundos para sentir-se curiosa em saber quem era aquele rapaz, qual a situação que o levou a mendigar uma moeda, um trocado.

    Não que ela não soubesse. Sabia sim, sua cidade já há algum tempo tornara-se o destino de pessoas e até famílias sem teto.

    Havia muitos pedintes que ficavam nas esquinas das ruas olhando a vida passar. A vida da qual não faziam parte.

    — Como é o seu nome? perguntou

    — Ramón

    — Toma Ramon, disse e lhe passou um sanduíche enrolado em papel alumínio.

    Minha mãe ainda acha que sou criança! Ela ri e arranca com o carro. Não eram mais estranhos, embora não fossem amigos. Criou-se um vínculo sem nome, entre eles.

    Gabriela criou um enredo onde faltavam todos os porquês, e não se conformava por não completar a história sobre o estranho.

    Como ele era? Um rapaz banal. Nem alto nem baixo, moreno, jovem, cabelos pretos, roupas bem usadas, de dias de uso. No cartaz em suas mãos estava escrito a sua nacionalidade e um pedido de ajuda.

    Gabriela elucubrava, não por interesse pessoal nele, mas por um início de consciência que estava adquirindo em sua recém iniciada vida acadêmica. Dia após dia, ao fechar o sinal, ela parava justamente no local onde ele fazia “o seu trabalho.” Trocavam um “bom dia”, “hoje está quente”, e seguiam em seus mundos.

    Como em um flashback, ela o imaginava em seu país de origem conversando com seus colegas, fumando um cigarro, falando do governo, questionando o presente e talvez o futuro.

    O sinal abria e Gabriela seguia seu caminho e o esquecia. Até o outro dia.

    O trajeto para a faculdade, o sinal de trânsito, o estrangeiro e seu cartaz e a imaginação da garota.

    Gabriela passou a pensar em si mesma e em como a vida era estranha. Lembrou-se do seu sonho de adolescente e de como ela não foi capaz de o sustentar quando se viu frente a frente com a real possibilidade de estudar fora. Sua família, seus amigos, seu país. Não! Ela não se sentiu preparada e desistiu.

    Ao ver o estrangeiro, intimamente ela se justificava.

    “Como ele pode deixar o seu país? O país é mais do que só uma palavra. O país são os bosques, os rios, as planícies, as rochas. É o trajeto para a cidade onde mora a minha avó e a minha tia. É o amanhecer e o escurecer. É o cheiro do mato molhado pela chuva. São os barulhos dos bichos ao amanhecer, são tantas coisas…”

    Passaram-se os meses, o semestre do curso quase acabando, Gabriela acalmou seu coração e seguiu sua vida.

    No início do semestre seguinte, ao passar pela avenida onde Gabriela faria um estágio, eis que ela vê Ramon.

    Mudou de esquina. Foi para uma avenida arborizada. Continuava lá, com sua roupa surrada, seu cartaz nas mãos, passando por entre os carros, catando as moedas que lhe davam, até que o sinal abrisse e ele voltasse para o canteiro.

    Ele vem rápido para perto de uma árvore do canteiro central e entre um sinal fechar e abrir, abaixa-se para tomar um gole de água oferecida por uma jovem grávida a quem ele sorri e dá um beijo.

    Gabriela olhou pelo retrovisor e viu que eles se olharam e sorriram um para o outro.

    Gabriela também sorriu.

    Que país, que nada, pensou ela.

    Amanhã mesmo vou falar com quem for preciso. Eles não vão ter meu afilhado na rua, não mesmo!

  • Fantasia de Carnaval

    “Resort com all inclusive, garçons bronzeados, bíceps à mostra, tapa-olho de pirata, buffet internacional e drinks tropicais… Música dos carnavais antigos, marchinhas singelas ou picantes ressoando, sem atrapalhar a conversação… Praia de areia branca, som do vai e vem das ondas… chuveirões e piscinas de borda infinita a poucos passos… Espreguiçadeiras, guarda-sóis, serviços de massagem, banhos de imersão e tratamentos corporais… Um livro, um chapéu, óculos de sol e minhas quatro amigas da vida toda! Detalhe: tudo pago. Amo vocês.”

    Esse foi o aviso que apareceu no “záp-zap” da família. Afinal, o Carnaval é feito para brincar, sonhar, ser Cleópatra, a Rainha de Sabá, a loira da escola de samba, se é que me entendem…

    Além disso, o ano precisa começar. Já chega de réveillon. E logo vêm as contas para pagar, viver, ter, ser, morar. Ufa.

    Quero um pouco de ousadia, fantasia, alegria e folia.

    Sendo assim, vou me divertir.

    — Ah, mas isso pode ser em qualquer época do ano — dirá a desmancha-prazeres.

    — Não vai inventar moda, mamãe! — a apavorada.

    — Não vá gastar à toa! — esse é o “gestor de finanças”. Das minhas finanças…

    — Já falou com seu médico? — a hipocondríaca.

    — Mamãe, à tardinha nós vamos aí, está bem? Precisamos conversar com a senhora.

    Hã? O quê?

    Ah, crianças, do que vocês estão falando?

    Aviso? Não mandei nada hoje. 

    Onde estou? Em casa, escrevendo minha crônica semanal.

    Para a revista, ora! Qual? a revista online.

    Ah, sim, o tema?

    Escolhi este: Fantasia de Carnaval.

    Beijos, também amo vocês…

  • Por que as pessoas gritam?

    Tenho pavor, trauma e medo de quem grita. O grito, para mim, é quase sempre a antecâmara da violência, do caos anunciado.

    A violência seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota“, já disse o filósofo

    A opressão, a intimidação e o medo, via de regra, começam pela voz antes de chegarem ao gesto, ao domínio ou à implantação de qualquer mecanismo de dominação. 

    Mas não falo aqui de política, de poderes instituídos ou de disputas explícitas por controle. Nesse campo, afirmo de forma simples, talvez até ingênua, que para um grito de alegria existem centenas de gritos opostos. 

    Falo do que vejo. Do cotidiano. Do convívio em sociedade. Onde a conversa comum, não precisaria ser compartilhada… aos gritos.

    Outro dia, vi uma influenciadora reclamar das pessoas que falam alto em restaurantes, salões de beleza e outros espaços públicos. Argumentava que o barulho natural do ambiente poderia exigir uma voz mais elevada. Mas não a ponto de tornar impossível manter uma conversação civilizada. Os clientes precisam falar alto, o pessoal dos serviços falam mais alto ainda, se houver crianças, elas aproveitam o ambiente para se soltar e correr entre as mesas e isso acaba formando um círculo sonoro, e o que deveria ser  prazeroso, se torna desconfortável e cansativo. 

    Por sua vez, isso me chamou a atenção e percebi que existem muitas situações onde impera o que eu chamo de “grito social”. 

    A voz alta na academia, por exemplo. Para quê? Por quê? A madame puxa o ferro do lado oposto àquele em que outra pessoa se alonga e, entre um movimento e outro, gritam entre si. Logo adiante, outra dupla, talvez um trio, repete a cena com entusiasmo semelhante. Ganha quem fala mais alto! 

    Já sei que foram à Disney, qual vinho costumam beber e o que pensam do padre da paróquia. Eu queria saber? Isso me acrescenta algo? Não.

    Mas gritar parece necessário. Às vezes penso que é a solidão, ou o vazio dos dias, que pede movimento com mais urgência do que os próprios glúteos. Falar alto torna-se, então, uma forma de existir no espaço. Uma comunicação de quem precisa tanto ser visto quanto ser ouvido.

    Preocupo-me com a minha própria percepção. Tenho medo de duas coisas: precisar recorrer a abafadores de ruído ou constatar que estou me transformando naquela figura clássica da “velha rabugenta”. Ambas as hipóteses me assustam.

    Por favor, que eu não precise que gritem comigo em nenhuma delas.

    Sejam gentis. Aproximem-se. Sentem-se ao meu lado. Olhem-me nos olhos e falem bem baixinho, de forma natural, quase doméstica: “por favor, não seja implicante…”

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