CRÔNICA DE SÉRGIO SAYEG

  • Agora eu era herói

    Quando eu era criança, deixava-me levar pela fantasia de ser um super herói que tudo podia. Mas, ao contrário do Batman, não agia apenas no combate aos folclóricos criminosos de Gotham City. Minha área de atuação era mais abrangente. Ocupava o cargo de presidente, ou talvez imperador, do Brasil. Não, do mundo! Pois as fronteiras nacionais não seriam suficientes para barrar meu desejo infinito de servir a cada um dos habitantes, até os das regiões mais remotas e inóspitas do planeta. E não havia nada nem ninguém que pudesse limitar meu poder absoluto nem minha disposição de cumprir esse desígnio.

    Mas, isso não me fazia um ditador autocrático. Governava em sintonia com o que pensava a maioria das pessoas ou, pelo menos, aquelas ‘de bem’, as que, como eu, ansiavam por um mundo melhor para se viver.

    Um compromisso firmado entre mim, minha imaginação e o resto da humanidade estabelecera que jamais faria uso de minha condição de liderança para punir quem discordasse de minhas iniciativas nem cogitaria em calar meus criticos, sobretudo os bem intencionados, merecedores de todo o respeito.

    Capitanearia eu uma legião de subordinados (ou melhor, colaboradores) que cuidariam de manter a paz e a harmonia social, sem precisar ferir ninguém, nem usar armas letais. Sua função seria apenas a de colocar em prática determinações cujo propósito era tornar todos mais felizes.

    Eu firmara um contrato juramentado em que constava uma declaração de que eu jamais valeria de minha posição de liderança para me locupletar ou obter benesses, já que não seria movido por ambições pessoais. Meu objetivo era apenas o de consertar o que estava errado para bem da coletividade. 

    A compensação que me bastava para esse árduo trabalho voluntário era a de ser amado pelo povo por tornar nosso mundinho comum um lugar mais agradável de se habitar, para mim e todos os demais seres humanos, a quem, indistintamente considerava entes queridos. Não esquecendo dos demais seres viventes, animais e plantas.

     No meu mundo, o sofrimento, ao menos aquele causado por outros seres humanos, seria banido da face da Terra e todos levariam uma vida digna sem privações.

    Os super ricos, movidos por inaceitáveis impulsos de ambição, seriam contidos em seu furor cumulativo por regras que impedissem abusos,  para que os demais tivessem direito a seu quinhão.

    Os policiais deveriam ser corretos e prestativos, sem deixar de combater o crime com rigor. Os homens maus iriam para a cadeia e cumpririam a sentença integralmente. Os reincidentes teriam  severas sanções. Nada de condescendência com os mal intencionados.

    Os delegados e juízes corruptos ou que saíssem da linha, seriam sumariamente afastados, sem quaisquer honorários. Tais cargos seriam ocupados por homens e mulheres íntegros com salários dignos mas modestos, sem penduricalhos. A justiça seria rápida e eficaz, regida por um enxuto conjunto de leis que todos entendessem.

    Cessariam também os benefícios concedidos a políticos, cujos vencimentos seriam compatíveis com os da população em geral, sem mordomias e auxílios indiretos. Quem escolhesse a vida pública, o faria por vocação sem possibilidade de usufruir materialmente de sua posição. 

    A melhor remuneração seria a do professor, a função mais nobre da comunidade, a de formar através da educação de qualidade, cidadãos éticos, responsáveis social e ambientalmente. 

    No plano internacional,  um simples decreto mundial poria fim em todas guerras e conflitos. As divergências seriam resolvidas civilizadamente, em torno de uma mesa de negociação. As demandas e divergências seriam apreciadas por equipes competentes e imparciais com poder decisório. 

    A miséria e a fome, como num passe de mágica, seriam extintas. Alcançar isso é muito mais fácil do que parece.  Bastaria redirecionar os recursos orçamentários antes desperdiçados em inúteis armamentos, destinando-os a melhorar a saúde, a educação e promover a melhoria na qualidade de vida.

    Enfim, tudo o que o senso comum reconhece como desejável, seria implementado com a força de minha varinha de condão  aliás, minha caneta justiceira. 

    Essa carta de intenções, submetida às pessoas de todas as nacionalidades, raças e religiões, certamente seria aprovada com louvor pois atenderia ao clamor universal.

    No fundo, o que eu propunha era o que todo mundo queria. “É tudo tão simples. Por que os adultos complicam tanto?” pensava eu. Se me colocassem lá em cima e me dessem condições, eu me comprometeria a realizar  tudo isso… e muito mais.

    Na minha inocente onipotência, não  compreendia por que ações tão óbvias, aparentemente consensuais, enfrentam tanta resistência.

    À  medida que fui galgando na idade e no conhecimento de como as coisas funcionam, tomei um choque de realidade, passei a devanear cada vez menos e tomei consciência de minha insignificância ante a tarefa hercúlea a que me propusera e da incapacidade de mudar mesmo as coisas mais banais e próximas.

    Hoje,  quando vejo tantas inexplicáveis brutalidades sendo cometidas ao meu redor, invoco com saudade o super herói aposentado que, empoderado pelos sonhos de uma criança, acreditou que podia transformar um mundo dominado por um bando de adultos sem graça.  

  • Super pobres

    Muito se fala dos super ricos, grupinho reduzido de privilegiados que amealham fortunas tão descomunais que fazem o Tio Patinhas parecer um pobretão.

    Erguem mansões em localidades diversas com dezenas de cômodos em mármore maciço e um séquito enorme de serviçais, bunkers antinucleares, coleções de carros blindados, iates, jatinhos, joias e objetos de luxo. Possuem zoológicos particulares com animais exóticos (em extinção). Constroem banheiras de ouro e privadas cravejada de brilhantes para dar um tratamento vip até à saída de seu cocô.

    Investem em terras, fazendas, gado, ilhas paradisíacas, fundos exclusivos, startups, e outros ativos cujos rendimentos e valorização lhes permitem fazer o seu patrimônio crescer indefinidamente. Tal qual seu ego. E sua ambição. Sonegando impostos para perpetuar a riqueza em sua integralidade.

    Não sabendo o que fazer com tanta grana acumulada, promovem festanças nababescas em hotéis 6 estrelas com shows de artistas super stars (super ricos também) e organizam turismo espacial de lazer para outros super ricos gastarem seu tempo em frivolidades inacessíveis aos demais mortais.

    Não bastasse, fazem lobby sobre os governantes para direcionar os rumos das políticas para atender a seus propósitos particulares de maneira que os destinos da humanidade a eles se subjuguem.

    Não se importam também em rapinar os recursos da Terra em benefício próprio, ameaçando a existência de todos os seres vivos, inclusive deles próprios. Colocam os bens materiais acima de tudo inclusive da vida.

    Na outra ponta, na base da pirâmide social, uma imensa maioria de indivíduos padece de fome e sede e luta pelas migalhas que os permitam sobreviver: são os super pobres.

    Para um visitante do espaço que descesse à Terra, tamanha desigualdade seria inconcebível. Qual a lógica em os terráqueos aceitar passivamente uma sociedade em que muito poucos têm bilhões enquanto bilhões têm muito pouco?

    A chave para a compreensão desse quadro bizarro é que os super ricos contam paradoxalmente com a condescendência dos super pobres para manter o status quo.

    Os super pobres não se revoltam, nem se organizam para pressionar por mudanças que melhorem sua situação relativa. Aceitam humildemente a superexploração a que são submetidos. São também super pobres de espírito.

    Opostamente ao que imaginara Marx em sua ‘luta de classes’, esses falsos ‘coitadinhos’ enxergam como seus reais inimigos não os abastados donos do capital, mas os demais pobres a que consideram fracassados e os imaginam como concorrentes na batalha para a ascensão social. Se não obtiveram sucesso nessa empreitada utópica para ‘subir na vida’ é por não terem se esforçado suficientemente. E passam a trabalhar dobrado, tornando-se além de super pobres, super esgotados.

    Acatam a ideia de que aqueles que se encontram em situação aflitiva foi por desígnios de um Deus que premia materialmente apenas quem é bem sucedido como empreendedor.

    Admiram os bem aquinhoados que, graças a seus esforços, teriam alcançado a bem aventurança traduzida por uma vida de luxúria, ao gosto do Cristo corporativo que dirige a humanidade não de um trono celestial, mas acomodado numa cadeira ergonômica de couro num smart office com ar condicionado. Que está mais para CEO do que para o céu.

    São os super pobres que abastecem com seu dízimo os pastores charlatões. São eles que elegem com seu voto os políticos corruptos e que enriquecem com sua atenção influencers picaretas. São eles que seguem os mandamentos dos impostores midiáticos que os convencem sem questionamento de lorotas persuasivas.

    Os super pobres menosprezam a educação que poderia fazê-los compreender a exploração e ignoram a palavra daqueles que os exortam a entender a dura realidade. Preferem viver na ilusão e se apegar à religião que lhes ensina o conformismo e a submissão.

    Sim, os super ricos podem continuar a se esbaldar à vontade. Contarão sempre com a benevolência dos super pobres.

  • BBB

    Aconchegue-se no sofá e prepare a pipoca. Esqueça preocupações do trabalho, problemas domésticos, aluguel, guerras, corrupção, mudanças climáticas, contas atrasadas, taxa de colesterol e todas as coisas chatas sobre as quais, quando questionado a respeito, você responde “e eu com isso?”, empenhado que está em direcionar sua atenção para assuntos mais aprazíveis como futricar na vida alheia.

    Vai ter início o BBB. A partir de agora, você será transportado para um maravilhoso mundo de fantasia, tão arrebatador quanto um papo casual com o vizinho no elevador, ou sobre o comportamento do poodle da moça da fila do supermercado. Nesse contexto, não há relatos edificantes, dramas épicos ou sátiras de costumes. Nem mesmo um enredo ou um roteiro. Apenas uma sequência de vai-e-vens dos personagens da sala para a cozinha e da cama para a privada, entremeada por diálogos niilistas sobre as virtudes da apatia e do ócio.

    Embora voltado para indivíduos com reduzida capacidade cognitiva e mentalidade psicossocial infanto-juvenil, não se confunde com contos de fada ou de aventuras. Nele não há príncipes, donzelas, castelos, dragões, criaturas mágicas e super-heróis. Apenas adultos ‘comuns’ e insossos tipo os que habitam diuturnamente o Facebook e o Tik Tok. Tão estúpidos quanto seus espectadores.

    São barrados pelos experts em audiência da Globo intelectuais, pessoas reflexivas, questionadoras e artistas (exceto os ‘popularescos’). Os participantes são selecionados pelo grau de babaquice, em sintonia com o sentimento de identificação dos telespectadores.

    São priorizados aqueles que gostam de fazer intrigas, injunções fúteis e tenham capacidade de partilhar sua estreita visão de mundo com gente de sabedoria construída em grupos de whatsapps. Assuntos que, não servindo para qualquer matéria jornalística de relevo (afora revistas Caras e Contigo), são suficientes para provocar acaloradas discussões dos ‘especialistas’ em coisa nenhuma que frequentam os programas diurnos de Ana Maria Braga, Sonia Abrão e Nelson Rubens.  Que conseguem a proeza de superar em chatice as bizantinas mesas redondas de futebol que debatem o duvidoso pênalti do zagueiro flamenguista com a eloquência retórica de Cícero defendendo a República Romana.

    Gente que, se não estivesse 24 horas na Globoplay exibindo sua frivolidade, estaria junto a você, do outro lado da tela, tornando o reality show campeão de audiência e corroborando as palavras de Nelson Rodrigues: “os idiotas vão tomar conta do mundo, não pela sua capacidade, mas pela quantidade; eles são muitos”.

    Tais pessoas, invisíveis na turba ante sua insignificância, ganham visibilidade na TV, fazendo do ofício do Big Brother orwelliano um mar de tédio. Os detalhes do seu comportamento são prescrutadas por centenas de câmaras e microfones estrategicamente posicionados na casa/estúdio para acompanhar minuciosamente os movimentos e reações dos participantes. Captam desde uma coçada de saco e peidos acidentais até opiniões preconceituosas acompanhadas de risadas de cumplicidade.

    Nesse circo, você poderá exercer sua vocação cívica elegendo o infeliz que vai para o paredão com a seletividade que lhe faltou na escolha do deputado do Centrão que seu voto colocou no parlamento, cujo nome certamente lhe fugiu da memória, sobre cujas maracutaias você reitera com desdém: “e eu com isso?”

  • Eu sou motoboy

    Você que me vê um pivete mau caráter, um delinquente montado numa moto assassina, presta atenção. Não fosse o motoboy aqui, o folgado aí não teria em domicílio o game das crianças, a ração do dogue ou o tênis da patroa comprado barato no aplicativo. Você me deve essa, mano.

    Então vê se te recolhe no teu mundinho mixuruca e para de praguejar do jeito que eu dirijo. Ou você acha que seguindo o guia de boas maneiras do Detran, eu faria a mágica de chegar no teu sofá hoje o bagulho que você pediu ontem no Shopee? Sou o zé-ninguém faz-tudo que dá conta do delivery do supermercado e da farmácia. O curinga que garante a marmita fresca do I-Food e a pizza quentinha no teu portão.

    Passo sim farol vermelho. E daí? Queimo as faixas, subo as calçadas, atropelo coroas ceguetas, entro na contramão. E não tem ‘otoridade’ que me enquadre, nem radar que anote minha placa coberta. Eu não importo pros caras.

    Mas nas ruas das cidades grandes só dá eu. Você pode cantar de galo no jardim da tua casa, no pátio do teu condomínio boiola. Mas dos muros pra fora, é do meu jeito que as coisas rolam. Fica na tua e bico calado.

    Os trouxas ficam cagando de medo dos pontos na carteira por queimar a faixa das avenidas. Já eu costuro, faço malabarismo, passo pela direita e ninguém é macho pra encarar ou caguetar o Zé-Mané aqui.  Então vê se tira esse carango fedorento da frente ou arranco fora teu espelho. E nem vem arrumar perrengue pro meu lado senão chamo os chapas e o prejuízo do retrovisor vai sair pior pra você, véi. Aceita que dói menos.

    Regrinhas de velocidade não vão me barrar de cumprir minha escala e faturar meu ganha-pão. Não tenho opção. Não tenho um puto no bolso. Não tenho carteira assinada. Não tenho férias. Não tenho plano de saúde. Não posso dar bobeira. Se um maluco passar de caminhão por cima, viro mais um presunto a entrar pras estatísticas de acidentes. Já era.

    Recebo por entrega e tem uns algoritmos atrozes que me fazem trabalhar como um camelo, sem tempo pra mijar ou bater umazinha pra aliviar. Fico sob estresse o dia todo, tiro do vale-miséria e dos trocados da caixinha os custos pra manter a máquina ativa. Nessa guerra desigual minha chance de sobrar inteiro é pequena. Mas se eu sair vivo dessa, um dia abrirei um trampo só meu, sem ninguém pra encher o saco. Pode crer.

    Sou produto do caos urbano e das tretas sociais sem saída. Venho das favelas, onde polícia não entra, juiz quer distância e político bambambã não apita. Lá manda quem pode mais. Uns traficam pó, outros se seguram com metranca. Minha arma pra me manter limpo e garantir o feijão do meu muquifo é minha fiel motoca.

    Trago para os bairros dos bacanas o som dos pancadões da perifa e libero os decibéis dos escapamentos envenenados para assombrar tuas noites de sono. É pra te lembrar que eu existo. E não tem GCM bunda mole que me faça aquietar.

    Por isso, bro’, arranca da minha frente e fica esperto. Eu sou motoboy e exijo respeito.

  • Infeliz Ano Novo

    Passadas as comemorações de fim de ano, quando já cumprimos o aborrecido ritual de cumprimentar por educação o petista (ou o bolsonarista) que mora ao lado, podemos voltar a odiá-lo como sempre e desejar-lhe, sem remorsos, uma morte sofrida.

    Após o congraçamento universal, quando somos enlevados pelo ‘espírito natalino’ e pelo ‘amor ao próximo’, estamos libertos para retomar nossa guerra contra o insidioso inimigo que nos assombra.

    Agora é cada um por si. Se não ocuparmos o espaço, um meritocrata em busca da prosperidade pessoal, vai passar à nossa frente. Nesse mundo competitivo, só os filhos mais espertos e eficientes de Deus estarão aptos a ingressar no paraíso da abundância material e da vida luxuriante a que só os guerreiros cristãos fazem jus. Já que,  nessa Cruzada, alguém vai se dar mal, antes seja ele do que nós.

    Após a enxurrada de whattsapps que entupiram a tela dos nossos celulares com ‘sinceros’ votos de Feliz Natal e Próspero Ano Novo, provindos de gente de que desconhecíamos a existência desde 31/12/24,  já devidamente encaminhados à lixeira do cancelamento, chegou a hora de afiar as garras e repassar para divulgação massiva de legionários da nossa turma os torpedos com injúrias inomináveis, mentiras inquestionáveis e fake news abomináveis contra a honra dos bastardos políticos da turma contrária que, por certo, nesse exato instante, estão fazendo o mesmo contra os que militam em nosso time.

    Os deslumbrantes fogos de artificio que, por 10 minutos, nos encantaram, já podem ceder lugar à artilharia pesada que os bravos governantes que nos protegem lançarão contra os maléficos adversários que, nos anteriores 364 dias, abasteceram-se de armas de destruição em massa para nos aniquilar.

    Os espetáculos de drones coloridos que rasgaram os céus de Sydney, Dubai e Copacabana remetem-nos com orgulho à certeza de que, com a mesma precisão, tal tecnologia está sendo usada para torrar corpos de homens, mulheres e crianças, livrando o mundo de potenciais inimigos, que se preparavam para nos dominar com sua perversa ideologia.

    O começo do ano nos enche de esperança de que em 2026, afinal estaremos livres das forças malignas que nos rondam.  

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    E um infeliz ano novo para todos.

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