Crônica de Sexta

  • Lição

    Antes de sair, ouviu as recomendações da mulher: “Não beba muito, não se afaste dos amigos, não entre em bloco de mal-encarados… E sobretudo não se meta com nenhuma periguete” — arrematou ela com um sorriso entre malicioso e repreensivo.

    — Tudo bem… Não vou fazer nada disso.

    Lá fora, a turma o esperava para cair na folia. Etiquetou um beijo nos lábios da mulher e, saltitante, deixou a casa. Com os amigos, sentia-se mais animado. Iriam não se sabia para onde, pois no Carnaval ninguém tem rumo certo. Seguiriam os blocos, parando vez por outra para entrar nos bares. Sempre se encontravam por essa época e aproveitavam para matar as saudades. A turma era de velho conhecidos e havia muito o que lembrar.

    Passou o tempo em que eles se permitiam loucuras numa ocasião como essa, mas ainda assim era bom estar juntos. Divertiam-se falando das estripulias de anos atrás: “O dia em que Pedrinho vestiu calcinha em vez de cueca e mostrou pra rodo o mundo…”; “E quando Lopes, de tão bêbado, entrou no banheiro das mulheres… Lembra?”.

    Ao embalo da conversa, ele começou a esquecer o que a mulher lhe pedira. Bebia além da conta. Também, ela era meio exagerada! Mantinha-o na regra o ano todo. Que custava no Carnaval dar uma relaxada? Pediu outra caipirinha, ao mesmo tempo que recitava para os outros a sua máxima preferida: “A noite é criança”. Nunca entendeu bem a lógica dessa frase, que lhe soava como uma justificativa para os excessos. Era o “carpe diem” dos boêmios, alguma coisa como: “é preciso aproveitar a vida, e a vida está na noite”.

    Vinha um bloco. Ele começou a tamborilar na mesa, depois ficou em pé e se pôs a pular. Não resistia ao apelo da música e dos corpos que se comprimiam dentro do cordão. Tanto é assim que aproveitou o pretexto de ir ao banheiro e se deixou levar pela turba. Aderia à festa com uma inexplicável ânsia de fugir, perder-se, romper as amarras.

    Quando os amigos deram pela sua falta, ele já havia enlaçado uma morena de bustiê e saia curta que pareceu lhe dar bola. Pelo menos foi isso que o atordoamento do álcool o fez supor. Só percebeu que se enganara quando, ao tentar dar um abraço na garota, sentiu nas costas uma pancada aguda. Ao se virar, levou no rosto um soco que o faria cambalear se houvesse espaço para isso. Nunca soube como conseguiu se desvencilhar da massa e voltar à mesa, onde os amigos o esperavam com ar preocupado.  

    — Onde você estava, cara? E o que foi isso no seu rosto? 

    — Nada — respondeu, estranhamente sóbrio. — Um sujeito, em vez de acertar a baqueta no tambor, acertou na minha cara.

    — A gente já estava pensando como ia dizer a Leonor que você sumiu.

    Leonor era a sua mulher. Se ele demorasse mais, certamente teriam tido a ideia de ligar para ela. A mulher ia então querer saber por que ele não seguira suas recomendações. E o diabo é que ela estava com a razão! Passou a mão no rosto, que ainda doía, e pediu mais uma dose. Queria se embriagar de novo, e dessa vez não haveria bloco que o levasse dali.

  • Entre o que se escreve e o que se publica

    Até os melhores poetas já escreveram os piores versos, mas só os piores poetas os publicam. Isso já foi dito e redito, e aqui digo mais uma vez, porque parece extremamente certo e ainda necessário. A questão que se coloca é a da seleção dos poemas na formação de um livro e como a obra de um poeta se apresenta ao público.Aí o problema assume contornos matemáticos, de proporcionalidade. Porém, não se trata de porcentagem ou de qualquer expressão em valores numéricos propriamente (afinal, em termos de literatura, jamais poderia ser desse modo, bem como por falarmos em matemática mais em termos metafóricos), mas das impressões no leitor e no crítico.

    O tempo entre a publicação de um livro e outro precisa exceder o da escrita dos poemas que o leitor encontrará disponível para a leitura. Precisa ser maior não porque o poeta necessite observar esse ditame estabelecido e esperar para o lançamento, tendo o seu livro guardado. Mas porque se alcança uma quantidade de poemas suficiente para compor um livro antes, no entanto, se publicado prontamente, provavelmente, sua qualidade não será boa. Se selecionados criteriosamente, os poemas se reduzem em número, alarga-se o tempo necessário do livro.

    Alguns autores publicam livros quase que anualmente, com 100 poemas ou mais. A percepção que fica é a de que publicam absolutamente tudo que lhes sai da pena, sem qualquer crivo crítico e, como aparece em muitos casos, sem sequer revisão ou ajuste, o que é expelido da cabeça vai ao livro. Assim, em meio a bons versos que saem de todos os poetas de qualidade ou medíocres, estará uma enxurrada de ruins e médios poemas, suficientes para rebaixar a qualidade do livro na avaliação e na experiência que o leitor terá dele e com ele.

    Há poetas apressados, que procedem do referido modo pela freima de ver seu nome na capa de mais um impresso. Isso acontece principalmente com os iniciantes, que naturalmente possuem uma ânsia maior pela publicação e por serem lidos. Essa pressa pode conduzir facilmente à desilusão e ao fracasso. Se é isso que almejam, digo: publiquem tudo que escrevem, sem crítica e sem seleção, aqui está uma receita perfeita. Mas, se não for isso, esse cronista (que é também poeta) diz: é necessário ter, sobretudo, calma. Calma na escrita, na seleção e na publicação.

    Até os poetas mais experientes sabem disso, não deixam de escrever seus versos ruins, só não os publicam. Ou, alguns até fazem. Já se falou bastante como em meio à grandiosidade de Augusto Frederico Schmidt há certos desníveis, ou como existem poemas fora da curva na obra de Carlos Drummond de Andrade, marcada pela extrema qualidade.

    Mas, se não fosse suficiente, é necessário ter uma preocupação com a posteridade. Não para mim, poeta menor, que não serei objeto de estudo, mas para os grandes poetas ou os que pretendem ser um dia (e pretendam ser grande um dia). Imagine, você sempre realizou suas seleções muito bem, publicando os bons poemas e escondendo os ruins, porém guarda esses em casa. Após sua morte, um pós-graduando ou um crítico vai pesquisar em seu acervo pessoal e decide publicar seus inéditos. Pois é, estarão publicados os poemas ruins, eles contrabalançarão tendendo a prejudicar o juízo que se fazia sobre sua obra. É necessário estar de olhos abertos até após a morte. Lêdo Ivo talvez estive atento a isso, quando, em A queimada, deu-nos o seguinte conselho: “Destrua os poemas inacabados, os rascunhos, as variantes e os fragmentos Que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas. Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.”

  • Notas de Dezembro

    Minha filha se diz triste na noite de Natal. Informo-lhe que ninguém é alegre ou triste conforme o calendário. Explico-lhe que, por uma espécie de imposição da data, todos “devemos” nos sentir alegres nessa ocasião. Como nem sempre isso acontece, fatalmente confrontamos nosso estado com o que a regra determina – aí sim, acabamos ficando tristes de verdade. Ou seja: entristecemo-nos por não estarmos tão alegres quanto se exige que estejamos. É um típico fenômeno de época, alimentado por uma economia intrínseca ao calendário. E ninguém é alegre ou triste conforme a folhinha – repito-lhe na tentativa de tranquilizá-la.  

    Minha filha agora se diz mais triste por “não ter entendido nada”.

    * * *

    Aconteceu quando eu voltava do Recife, à tardinha, e já estava quase na estação rodoviária. Perto havia um bar, e no bar alguns homens. Um pouco ao lado, deitada entre os homens que bebiam, uma vaca. Ninguém lhe prestava a mínima atenção. Malhada, episcopal, a vaca reinava entre os homens que tentavam esquecer – erma de si mesma, ela já naturalmente esquecida. Talvez por isso ninguém a percebesse. Era apenas mais um espírito evadido, um ser sem angústia nem pressa no manso burburinho do bar.

    Eu me dei conta de que só ali aquela cena era possível. Somente num bar, e com tamanha naturalidade, uma vaca dividiria o espaço com o homem – os dois fazendo quase a mesma coisa. Tentasse o animal entrar numa igreja – por exemplo, na missa de domingo à tarde – e seria enxotado com horror. Esqueceriam o nascimento de Cristo entre cabras, porcos, jumentos, e rechaçariam essa vaca ao vivo. Pois no templo, conforme se vê nos presépios, ela só pode figurar como ícone, adorno, jamais com suas orelhas e seu rabo.

    A imagem desse quadro me ficou, confundida com a gravidade do crepúsculo. A vaca tão solene e tão pura, com o seu olhar desabrochado e líquido. Entre homens desocupados e sozinhos, que ali pastavam a vida.

    * * *

    Mais um ano se passa. Meu primeiro e natural impulso é dizer: e eu com isso? Queria ignorar a data, a convenção expressa na folhinha, e atravessar indiferente a passagem de um ano para o outro. Ignorar o tempo, como ele nos ignora. Acordar no novo ano sem ter me despedido do anterior, isto é, sem ter passado pela ingênua solenidade com que, vestidos de branco ou azul, nos postamos à beira de um túmulo invisível, vendo enterrar-se um cadáver feito de pequenas partes de mim, de ti, de nós.

    O ano velho é o rótulo sob o qual alinhamos nossos feitos – tantos deles, em verdade, malfeitos – a fim de proceder a uma espécie de contabilidade filosófica. Através dela buscamos provar que os bons momentos compensaram os maus, e que a vida, no fim das contas, vale mesmo a pena de ser vivida.

    Com filosofia ou não, o certo é que o tempo passa. É melhor não resistir e encarar isso com bom humor. Imaginando, por exemplo, como cada um dos tipos abaixo saúda a chegada do novo ano:

    • o otimista: “Um ano a mais!”
    • o pessimista: “Um ano a menos…”
    • o religioso: “Um ano… Amai!”
    • o niilista: “Um mal a menos.”
    • o agiota: “Um mais ao ano.”
    • o leiloeiro: “Um ano, e quem dá mais?”
    • o condenado: “Um ano, ao menos!…”
    • o asmático: “Um ano. Ar menos.”
    • o indiferente: “Mais ou menos um ano, tanto faz.”
    • o medíocre: “Um ano mais ou menos.”
    • o matemático: “1 ano é + e –”
    • o banqueiro: “Um ano e mais, mais, mais…”
    • o indeciso: “Um ano, a menos que…”
    • o belicista: “Um ano. Armemo-nos!”

              E um proveitoso 2026 para os leitores que tiveram a paciência de chegar até aqui! 

  • Deixe-se levar

    No ano que começou agora há pouco desejo menos organização e mais espontaneidade. Mais espaço para contemplação e menos para observação.

    Compromisso só nas obrigações, porque são implacáveis. No mais, vamos levando em espirais diáfanas.

    Planejar é preciso, certo, mas não pode ser um ato imperativo em nossas vidas. Umas boas doses de imprevisto, reunidas a golpes de vista felizes, não farão mal algum.

    Caminhar por caminhar. Espiar e deixar o olhar seguir até onde a vista alcança para só aí decidir se vamos por essa estrada ou por aquela ou, até, por nenhuma.

    Que nossas escolhas de onde ir possam seguir o que Robert Frost soprou suavemente em seu poema O caminho não percorrido:

    “Duas estradas divergiam em uma floresta, e eu…
    Peguei o menos percorrido,
    E isso tem feito toda a diferença.”

    Sim, fazer a diferença por nossas escolhas ainda é uma sábia opção.

    Que no próximo ano uma parte dos nossos movimentos sejam em direção ao estático. Parar por parar. Parar porque é bom.

    Olhar para um lado ao invés do outro e vice-versa.

    Escutar, falar, sorrir, chorar.

    Conter-se, expandir-se, rir-se.

    Deitar, dormir, sonhar.

    Sonhar acordado, sonhar enlevado por uma doce lembrança.

    E, para encerrar, desejo que tenhamos mais confiança e que olhemos mais para dentro de nós mesmos. Atitudes que só podem nos trazer coisas boas.

    Nem que nos conduzam somente à citação de Walt Whitman, na “Canção da estrada aberta”:

    “eu sou maior e melhor do que eu pensava”.

  • Cultura popular

    Ah, essa cultura popular do momento.

    Você leu direito: cultura popular do momento. Eu faço essa distinção porque entendo que existe aquela que é eterna em nossa memória. E outra que é tão densa quanto fumaça de xícara de café.

    Tem gente que prefere chamar esse tipo de manifestação cultural por outros termos mais pejorativos, alguns até derivados da própria palavra popular. Em respeito às leitoras e leitores que gentilmente se dão ao trabalho de ler o que escrevo não vou repetir as palavras usadas.

    Deixo por conta da imaginação e conhecimento de cada um.

    Retomando.

    Eterno não precisa ser nada do alvorecer do século XX, por favor nem tanto. Mas é algo que remeta à memória sempre.

    Por exemplo, eu aprecio chorinho e conheço expressões como “só falta combinar com os russos”. São manifestações que entendo serem eternas em nossa cultura. O “Carinhoso” é um dos exemplos mais bem acabados. Assino embaixo quando o Paulinho da Viola uma vez disse: experimente entrar em um bar lotado, abrir os braços e cantar “vem, vem, veeeem sentir o calor” que na hora surgirá o coro “dos lábios meus, a procura dos teus”. Isso é eterno.

    Já algumas expressões, ditas a exaustão nos programas de televisão que são exibidos nas tardes de sábado ou domingo, vão desaparecer. Por quê? Não sei, mas só sei que é assim.

    Mas por que estou com essa conversa toda? Para revelar minha total falta de intimidade com a cultura popular do momento. Verdade, verdadeira. A menor e mais simples expressão da moda para mim é como se fosse checheno clássico. Estou no extremo oposto.

    Eu sou aquele cara que sabe que no “Sétimo selo”, do Bergman, tem três cenas da Morte jogando xadrez. Isso mesmo, três. Aquela que todo mundo conhece a imagem e mais duas. Da mesma forma que sei quais foram os efeitos da lava no corpo do Anakin Skywalker. Certo, concordo que a cada lançamento do Star Wars a saga volta a se inserir por um breve tempo na cultura popular do momento. Mas saber esse nível de detalhe que contei, desculpa, está além do popular do momento. E é onde me encontro.

    Portanto, é assim que eu vejo as coisas: cultura popular é uma coisa, cultura popular do momento é outra. Pode ser esnobismo meu. Tenho um amigo que diz que é porque torço para o Fluminense. Exagero dele, eu acho. Mas a despeito do eventual esnobismo da parte eu simplesmente tenho pouca intimidade com a cultura popular do momento. É bom deixar isso claro.

    Esse meu jeito de ser já me colocou em situação constrangedora algumas vezes.

    Uma delas foi quando trabalhava no Jornal do Brasil. Sai cedo de casa e quando passei pela portaria do prédio onde eu morava o rapaz que lá trabalhava me disse: você viu, morreu João Paulo. Na mesma hora pensei: o papa, claro João Paulo II estava bem velhinho, como é de praxe entre os papas porque nenhum deles é escolhido na flor da idade.

    Já ia embora para a redação quando, sei lá por que, perguntei ao bem informado porteiro do que o papa havia morrido. Ele me olhou e disse: foi em um acidente na Dutra. Na hora me espantei: ué nem sabia que Sua Santidade estava no Brasil? Acidente na via Dutra? Devia estar voltando do santuário Nacional em Aparecida. Mas como é que não escutei nada disso na redação?

    Movido por uma inspiração repentina perguntei ao rapaz: mas de que João Paulo você está falando? Ai o garoto me olhou indignado e disse: João Paulo da dupla João Paulo e Daniel.

    Juro, nunca tinha ouvido falar deles. Mas para não atrair para mim a ira popular fiz um ar sério e disse por fim: uma perda irreparável.

    E toquei o pé para a redação.

  • Ultimo café

    Contemplou em silêncio o burburinho alegre à sua frente. Da mesa de canto no terraço onde estava sentado espiava as demais espalhadas.

    A maioria com casais, fora uma grande com seis pessoas. Na sua, permanecia só.

    O sol da tarde era ameno e com luz leve. Escondido atrás do telhado da cafeteria, fazia sombra em sua mesa. Enquanto todos tricotavam alegremente sob o sol gentil, ele permanecia silencioso na penumbra.

    Uma variedade de sucos, doces, chás e cafés ocupavam os tampos espalhados pelos terraços e eram consumidos distraidamente pelas pessoas. Na sua mesa, seu café duplo demorou a chegar. Veio acompanhado de um biscoitinho de sabor neutro e sem entusiasmo. Melhor se estivesse só, como ele.

    Não esperava ninguém, para ser honesto. Estava sozinho, bebendo devagar o café para não queimar a língua.

    Estava ali porque se convencera a conhecer o lugarzinho charmoso que abrira há pouco numa rua transversal à sua, ou melhor, aonde ele mora porque não era dono de rua alguma.

    Usou a desculpa de conhecer a cafeteria para sair de casa porque decidira que precisava ver a vida em movimento.

    E estava vendo. Espectador da alegria alheia, ouvinte de pedaços de conversas que nada lhe diziam. Flashes da vida mundana. Nada além.

    Por um momento imaginou que poderia ter alguma companhia para esse café à tarde.

    Mas a mínima hipótese de pensar em chamar alguém o fazia mudar de ideia. Suas amizades eram poucas, a despeito de conhecer bastante gente. Conhecimentos que não iam além do mais profundo “alô”.

    Suspirou, a tarde terminou de escoar, as mesas próximas ficaram vazias.

    A sua, em breve, seria a próxima porque iria embora. Não estava frustrado porque ninguém lhe fizera companhia. Não tinha de se queixar porque ela se atrasou ou não apareceu. Simplesmente, porque não chamara ninguém.

    Pensou, mas desistiu. Não queria ninguém para um alô. Nem para um último café.

  • Dia dos amantes

    Outrora eram somente os santos e as figuras históricas. Hoje praticamente todo profissional tem o seu dia. Mesmo fora das profissões, basta alguém pertencer a uma categoria para ter a sua data especial, tornando-se alvo de homenagens cujo objetivo não é outro senão incrementar o comércio. Há um dia para tudo e para todos, do faxineiro ao vendedor de picolé – o que, quanto a este, é muito justo. Num país quente como o nosso, o picolezeiro tem a nobre função de refrigerar os corpos e desentorpecer as almas, deixando-nos mais dispostos para enfrentar estações como o verão.

    A prova de que o hábito se disseminou é que no dia 22 de setembro comemorou-se o Dia dos Amantes. Catei nos jornais alguma referência mais extensa a tão curiosa efeméride, e nada encontrei; mas os amantes bem que mereciam uma crônica. Vejam que a data não se refere aos amados, ou às amadas, que são entidades nobres e gozam do prestígio da sociedade. Refere-se aos que amam com ímpeto transgressivo, o mais das vezes burlando normas e atropelando os papéis sociais. Os amantes são “os outros”, que por razões óbvias não podem se declarar. Daí a curiosidade que um dia dedicado a eles provoca.

    Machado não os tinha em alta conta – certamente pelo bom casamento que fizera com D. Carolina. Vejam o que ele diz no breve Capítulo XXXVIII de “Quincas Borba”, capítulo esse que antecede o da confissão amorosa do ingênuo Rubião à sagaz e interesseira Sofia: “Rubião estava resoluto. Nunca a alma de Sofia pareceu convidar a dele, com tamanha instância, a voarem juntas até às terras clandestinas, donde elas tornam, em geral, velhas e cansadas. Algumas não tornam. Outras param a meio caminho. Grande número não passa da beira dos telhados…”. Se os envolvidos retornam com as almas velhas e cansadas das “terras clandestinas”, melhor seria que por elas não se aventurassem… Mas não vai ser esse reparo, típico do Bruxo quanto a essa e outras falhas humanas, que vai enfraquecer o nosso registro.

    Fala-se que amantes são todos os que amam com paixão, sejam eles namorados ou esposos. Haverá nesse argumento um eufemismo interesseiro, cujo objetivo seria descaracterizar os homenageados a fim de incluí-los mais amplamente, e sem remorso, entre os que merecem os mimos adequados à ocasião. Tudo para vender mais. Os amantes habitam mesmo o “outro lado”, não são os parceiros institucionalizados do amor. São antes cúmplices, por isso não deixa de ser curioso escolher para eles um dia, à semelhança do que se faz com os santos, os avós, os pais e as mães.

    Notei que pouco se falou na data, mas certamente ela foi comemorada. Por meio não de cartões ou telegramas explícitos, mas de e-mails cifrados que atravessaram a Internet levando o apelo ansioso e triste de dois corpos solitários. Talvez em encontros furtivos num desses motéis promocionais, que além do preço módico prometem sigilo absoluto. Pois esse é o tipo do dia para se comemorar na surdina, à meia-luz, por debaixo do pano.

    Enfim, leitor, sem hipocrisia nem cinismo enalteçamos os amantes no seu dia. Deles é a glória da indústria de perfumes e lingeries. Sem falar de quanto faturam os sex shops numa ocasião como essa. Se hoje as datas valem sobretudo pelo que vendem, e os amantes têm lá a sua fatia de mercado, comemoremos sem preconceito a data a eles dedicada. Sem preconceito e com a sinceridade de reconhecer: que ser humano já não se deixou tocar pelo tentador mistério das “terras clandestinas”?

  • A verdade e o sonho

    Ele estava seriamente desconfiado de que Papai Noel não existia. Os pais protestavam, não queriam que se despedisse tão cedo da infância (como se não houvesse razões mais fortes que levavam a isso!), mas ele achava que o estavam tapeando. Enganavam-no além do tempo em que deveria ser enganado. De qualquer modo, com os seus onze anos, não tinha certeza.

    Valtinho, o melhor amigo, garantia que Papai Noel era uma invenção dos adultos para fazer as crianças irem para a cama mais cedo. E Valtinho sabia das coisas – foi ele quem lhe disse, por exemplo, que não existia cegonha. Se existisse, como explicar a barriga enorme das mulheres grávidas antes de descansar? Munido desse argumento ele interpelou a mãe, que desarmada lhe confessou a verdade. A cegonha era uma fantasia para enganar as crianças muito pequenas… Ao ouvir isso, ele se sentiu vaidoso. Estava se aproximando do mundo dos adultos, e um dia seria um adulto pleno, ou seja, alguém para o qual a vida não tinha segredos. “Ser adulto, saber tudo” – essa era a grande conquista que faria no futuro.

    No entanto a mãe, que desistira tão fácil da mentira da cegonha, insistia que Papai Noel não era uma fantasia. Vinha nas noites de Natal e deixava os presentes que as crianças pediam (anos depois, já adulto, ele criticaria a “irresponsabilidade social” dessa versão). O pai confirmava tudo, mas atualizava o contexto da história – em vez de trenó puxado por renas, por exemplo, falava num pequeno veículo movido a turbinas que permitia ao velhinho visitar numa noite todas as crianças do mundo. Era uma pequena concessão à inteligência do garoto, que ainda assim desconfiava da conversa.

    Por isso resolveu fazer um teste. Se Papai Noel vinha mesmo de noite, ou de madrugada, queria estar acordado para vê-lo entrar no quarto. Faria um esforço para não dormir e desvendar o enigma. Nos anos anteriores adormecia logo para abreviar o tempo e chegar a manhã do dia seguinte – mas essa era uma atitude de criança. Agora que estava se tornando adulto, e queria saber tudo, a melhor estratégia era fugir do sono… e do engano. Foi com essa disposição que se deitou na hora que os pais estabeleceram (não convinha resistir, para não despertar suspeitas) e ficou ali, de olhos arregalados, acompanhando o movimento da casa.

    Risos, fragmentos de conversas, barulho de talheres… De início tudo isso chegava ao seu quarto com uma intensidade que o incomodava; depois foi-se tornando distante, virando surdina, parecendo por fim uma cantiga de ninar. Ele aguentou o quanto pôde, mas terminou adormecendo. E teve um sonho. Sonhou que a porta se abria, aos poucos, e alguém entrava no aposento com o presente que ele pedira. Silenciosamente, para não o acordar, deixava o videogame ao lado da cama e se retirava depois de o beijar de manso na testa. Pelo vulto, e sobretudo pelo beijo, ele percebeu que era sua mãe.

    No dia seguinte, mal abriu os olhos, deu-se conta do seu fracasso. O propósito era manter-se acordado, mas não tivera forças para isso. Adormeceu como uma criança e teve aquele sonho… No sonho revelava-se o embuste, mas sonho é diferente de realidade. Sonhou com o que queria que acontecesse, pois desejava muito ser grande. Certamente não vira a mãe real, vira a mãe com que tinha sonhado. E como ficava a questão de Papai Noel? Existia ou não?

    No próximo ano ficaria “mesmo” acordado e descobriria a verdade. Com esse pensamento animador, ele começou a desfazer o embrulho do videogame novo.

  • Com um tirano na barriga

    “Fulano tem um rei na barriga”, todos conhecem o dito e, sem dúvida, ao menos uma pessoa que se enquadra no tipo que ele procura representar. De igual maneira, há quem possua um tirano na barriga. Mesmo que nunca tenha ouvido a expressão, tenho certeza de que o leitor conseguirá apontar alguém com essa característica.

    Esse tirano é também rei. Por vezes, crê ser um deus. O certo é que sempre corresponde a um déspota, mas nunca esclarecido (especialmente sobre si). Todavia, essa tirania só possui fundamento na mente do próprio indivíduo, repleta de megalomanias e delírios de poder.

    Ele está em todo lugar, no trabalho, dentro de casa, nas repartições públicas, na direção das empresas privadas, pode até ser você. Só há um lugar em que não é capaz de o encontrar: no consultório de psicologia. Aí, jamais! O divã se transforma em uma verdadeira maca cirúrgica, a partir de onde o tirano será extraído.

    Para comandar, não precisa da opinião alheia; afinal, se difere da dele, você está errado e é um ignorante. Em nenhuma hipótese, ouse discordar de Sua Alteza, a detentora da verdade universal e absoluta. Aliás, se há quem ainda acredite nesse tipo de verdade, são esses senhores, que não a veem na ciência ou em qualquer entidade religiosa, mas em si.

    O ideal de humano, claro, é ele próprio, o arquétipo da perfeição. Os outros habitantes da Terra, vis e repletos de defeitos, são hierarquizados de acordo com a proximidade ou distância das características divinas representadas nele. Casos de flagrante diferença não serão aceitos pacificamente em seu reino; pelo contrário, o anormal e problemático terá de ser açoitado e inferiorizado cotidianamente.

    Detentor do poder sobre tudo (poder outorgado e aclamado por ele mesmo), buscará reger o mundo, governando pela ordem e pelo arbítrio, como um autocrata. Casos de desobediência são julgados como lesa majestade. Quem tentar seguir um caminho diferente do decretado, estará sujeito à fúria do tirano.

    Sabedor de todas as verdades, não se equivoca nas suas ordens, que devem ser acatadas e cumpridas. Quem tem um tirano na barriga cobra obediência. Não é para menos, imagina-se em uma posição de direção e mando. Anda como um capataz a vigiar os subordinados; com estes, só se comunica de cima.

    Nada pode se suceder no espaço sob sua jurisdição sem que passe por ele. No seu domínio, tudo precisa estar nos conformes (vale dizer, nos seus conformes). Não espirre quando o ser supremo não quiser, ainda que não saiba da indisposição desse sujeito para tão pequeno e incontrolável ato.

    O cuidado é sempre necessário e deve ser constante, não se sabe o que pode despertar aquela ira. Todavia, isso não basta, a nação vive ao sabor das flutuações do ânimo da potestade. Ao acordar, reze para que ele tenha despertado bem.

    Não é só o referido procedimento cirúrgico que corresponde ao motivo pelo qual não vemos esses sujeitos no psicólogo. Quem carrega um tirano na barriga nunca irá aceitar a necessidade de ser acompanhado por um profissional dessa área. Aliada ao preconceito que ainda existe em torno da terapia, a empáfia dessas pessoas não permite isso.

    Admitir que possui problemas, aceitar que carece de ajuda? De maneira nenhuma. No tirano, abunda a sobranceria. Seus devaneios de superioridade não permitem qualquer ato que possa parecer fraqueza ou rebaixamento ao nível dos mortais. Aquela suposta posição cimeira precisa ser defendida a qualquer custo e a todo momento, inclusive diante dos casos mais fúteis e que não trazem nenhum questionamento.

    No fundo, o tirano todo-poderoso sente sua enorme fragilidade.

  • Ruptura

    Toda vez que olhava pela janela era em busca de distração. A vista não era de frente para o mar mas também não era para alguma parede. Do alto de sua janela avistava a cidade com sua arquitetura confusa e mista. Prédios clássicos que evocavam o passado de glória do bairro resistiam em meio a edifícios decadentes e lançamentos imobiliários de residências claustrofóbicas.

    Durava pouco a tentativa de desviar a atenção. Invariavelmente algo a puxava pelo pé e seus olhos voltavam para as obrigações. Agora, chamadas de obrigações mas que um dia foram recebidas com entusiasmo porque faziam parte de sua escolha.

    A opção por essa vida tinha sido sua há 20 anos. Era mais jovem do que hoje, naturalmente, mas ainda estava em boa forma. Toda manhã se olhava no espelho e sorria constatando: ainda sou um mulherão.
    Mesmo com sua rotina pesada e complexa, não abria mão dos cuidados essenciais. Unhas toda semana, para citar somente um aspecto, em nome do que ela chamava ser seu pacote básico feminino.

    Por dentro, mantinha alguns hábitos de higiene intelectual, como cinema e encontros com as amigas. Ver um filme, como ela sempre falava, era a forma de enxaguar seu cérebro. E encontrar as amigas era para deixar a gargalhada em forma. Mulherão por dentro e por fora, era assim que se definia.

    Por conta do seu cotidiano hiper atarefado era chamada de guerreira. Houve uma época em que sorria envaidecida quando escutava isso. Nos últimos anos, no entanto, esse suposto elogio a tirava do sério. Não era mal criada, longe disso, mas não deixava passar em branco.

    Toda vez que escutava que era “guerreira” respondia: guerreira não, sou sobrecarregada. Intimamente sempre soube que um dia teria que dar um fim a isso tudo. Aquela vida que um dia fora boa hoje se tornara um tormento. O problema estava em pegar a faca e cortar as cordas. Romper é um processo doloroso e necessário. Para ela, se desvincular e seguir adiante se tornaram situações que um dia ela teria que vivenciar.

    Só não imaginava que romperiam por ela. Doeu fundo quando escutou as palavras duras. Por fora manteve a postura corajosa, afinal é uma mulher adulta e independente. Mas por dentro escorreram lágrimas por sua alma que por pouco não transbordaram.

    Dedicara mais de 20 anos de sua vida para ser dispensada sem mais nem menos. Mas honestamente, ela esperava o que? Um número musical? Mãozinhas dadas e palavras doces?

    Sem chance. A vida era dura e isso fazia parte dela.

    Ergueu-se, ajeitou o vestido e olhou em volta para ver se faltava algo a ser levado. Parecia que estava tudo encaixotado, mas talvez ainda precisasse dar mais uma olhada. No coração, as mágoas que sentia pela ruptura ainda pulsavam. Arqueou as sobrancelhas e disse para si mesma: pode doer agora mas nada disso vai me abalar.

    Nesse instante lembrou-se das sábias palavras de uma amiga do tempo de escola. Sorriu para si e concluiu que naquele instante aquele conselho se tornara um imperativo em sua vida.

    A amiga disse certa vez: Para estar sempre preparada tenha à mão um bom advogado…trabalhista!

    Suspirou fundo e pensou: sem emprego mas isso não vai me abalar porque ainda sou um mulherão. E foi em busca de mais uma caixa de papelão.

  • Montanha

    A inspiração é forte. A concentração, igual.

    Olha-se adiante, para cima, em busca de cada reentrância na pedra que permita firmar as mãos ou só os dedos. Meio pé em um calço é o suficiente para subir mais um pouco no paredão.

    Visto por baixo, a parede parece lisa e impossível de ser conquistada. De perto, a visão é outra.

    Apoios para as mãos e pés se multiplicam, mas não estão expostos. É preciso atenção e muita observação para achá-los.

    A cada momento da jornada, entre um trecho de parede íngreme e outro, surge um platô mais amigável. Está ali para lembrar que ainda há mais a ser escalado.

    A sensação de estar lá, subindo devagar e firme, é única. Nada melhor que sentir a pedra quente nas mãos. A montanha firme, imóvel, e você subindo por ela.

    Silêncio profundo. Há vida à sua volta. Mas nenhum som chega até você. Impera a quietude.

    Um vulto passa longe. Você vira o rosto um pouco e vê um urubu voando. Sorri, e a ideia de a presença dele ser um presságio brinca na sua mente. Mas, qual nada. É só um urubu aproveitando uma térmica, a corrente quente ascendente. Ou, como diria Tom Jobim, dormindo na perna do vento.

    Admirar o voo do urubu serve para descansar um pouco. Mas agora, adiante. Aspirar o ar puro do alto da montanha. E seguir. Sem pressa, domando a ansiedade que cresce à medida que o cume se avizinha.

    O topo é o final da jornada. Cume ou chapadão, é para lá que você vai. O prazer da conquista é só seu. Egoísta? Nem de perto.

    Ninguém pode sentir o que você realmente sente nesse momento. Ou em outro qualquer da sua vida. Nenhuma narrativa, nenhuma imagem captada, nada na tecnologia humana é capaz de passar a outra pessoa o que você sente. A sensação, seja ela qual for, sempre será unicamente sua.

    No topo, você olhará para os lados. Para baixo. Vai suspirar satisfeito com sua conquista, para depois tomar o caminho de volta. Por onde subiu, vai descer. No mesmo ritmo, com o mesmo cuidado.

    E, a cada movimento para baixo na descida pelo paredão, a cada parada nos platôs, vai se lembrar de que cada conquista é única, mas não definitiva.

  • Conversas aos pedaços

    Nada mais moderno e urbano do que escutar parte de uma conversa. Na rua, no elevador, em uma loja, no metrô, no cinema, enfim em qualquer lugar onde seres humanos circulem falando. Você passa e capta um pedaço da frase.

    Algo como “leva o cachorro para passear antes” e não conseguia escutar mais nada. Tinha que imaginar o restante do que seria dito. Na maior parte dos casos não valia à pena o exercício mental porque era sempre algum papo trivial demais. Ao menos para você, o ouvinte, porque para quem falava devia ser algo essencial. Ou não, vai saber.

    Antes para por em prática a arte de pescar conversas aos pedaços você precisava de ao menos dois indivíduos de nossa espécie. Um falava com o outro e a gente, de passagem, tropeçava nas partes das frases. Agora ficou fácil. Basta uma única criatura munida de seu telefone celular para fazer a festa dos caçadores de pedaços de conversa.

    E a coisa se ampliou bastante nos últimos tempos. A popularização do uso dos fones de ouvido, conectados aos telefones celulares, criou um festival de gente andando e falando pelas ruas que chega a ser assustador. Circulam no maior desembaraço tagarelando em alto e bom som. É uma falta de cuidado com o que falam misturado com uma necessidade de se mostrarem ocupados que nem sei onde vão parar.

    Quando os ladrões passarem a roubar fones de ouvido essa gente vai se inibir. Já o conteúdo das conversas mudou pouco. Pode fazer o teste. A maior parte da tagarelice continua sendo bobagem.

    Minha última experiência como pescador de conversa alheia, no entanto, me surpreendeu.

    Estava caminhando no parque da Aclimação, em São Paulo. Domingo de sol que me chamou para dar umas voltas e queimar calorias. Estava na terceira volta pelo lago, não, mentira, era o fim da segunda volta. De todo modo, ia animado quando passei por uma mulher que, no exato momento em que eu a ultrapassei, disse a seguinte frase: não se arruma alguém para matar esse cara.

    Parei na hora. Me virei espantado encarando-a. Ela percebeu, deu um sorrisinho e disse que não era comigo. Olhei em volta e não vi mais ninguém espantado com a frase. Será que ela tinha o hábito de acertar essas, digamos, pendências, dando voltas no lago e falando em alto e bom som?

    A mulher, ainda parada perto de mim, insistiu que não era nada demais. Concordei, deu um sorrisinho débil, me virei e fui embora.

    Por via das dúvidas acelerei o passo e fiz o caminho em zigue-zague para dificultar a mira do atirador. Vai quê…

  • Cinco gravatas

    Cinco gravatas estavam sobre a cama. Ele as escolhera para aquela semana de trabalho. Fazia muito tempo que não vestia nada tão formal e curiosamente sentia saudade. Escolhera aquele quinteto cada uma por uma razão.

    A primeira era justamente como sua re-estréia no mundo formal. De cor sóbria, lembrou os momentos em que interagiu com pessoas sisudas e pouco afeitas aos sorrisos. Perfeita.

    Já a segunda evocou memórias mais doces. De alguém que um dia sorriu quando o viu com ela ao pescoço e disse que ele estava muito elegante. Só de lembrar seu rosto se alegrava ao ponto de sentir a doce fragrância de seu aroma de mulher recém saída do banho.

    A partir daí as portas de suas lembranças amorosas se escancararam.

    A terceira tinha sido presente de uma moça que gostava de dizer que tinha altura certa para ajustar sua gravata. E beijar seu queixo o que o fazia revirar os olhos.

    A seguinte ele comprara de impulso em um shopping. A maior parte das pessoas, em especial as mulheres, não aprovara sua compra. Os comentários iam de “é bonitinha mas..” até simplesmente detestarem a gravata. Mas nunca se desfizera dela porque um dia um alguém, antes de partir seu coração, dissera que a tal gravata caía muito bem nele.

    A quinta e última era o arremate para sua semana formal. Estilo sóbrio como a primeira mas atraente o suficiente para naquela ocasião a moça sair de onde estava e se postar à meia distância dele. O curioso é que ele demorou a perceber que ela estava ali diante dele. Ela olhava atenta mais para a gravata e menos para ele, verdade seja dita. Na conversa que se seguiu a moça disse que a gravata era linda e era igual a que ela vira em um filme clássico sobre aristocracia inglesa. Não lembrava mais do filme mas os momentos a dois nunca mais deixaram sua memória.

    Assim, gravatas postas lado a lado de suas memórias evocadas suspirou uma última vez. As lembranças de amores passados sempre o comoviam e, conforme o dia, o faziam pensar em hipóteses e histórias alternativas.

    Afastou os pensamentos. Eram só lembranças, mereciam seu lugar em sua memória afetiva e nada além disso. E ponto final. Pegou a primeira, olhou-se no espelho, preparou-se para dar o nó de Windsor, o único que ele sabia fazer na gravata e disse para si mesmo: hora do show.

  • Notícia primeira da morte

    Eu tinha quatro, talvez cinco anos. Lembro perfeitamente da situação, das pessoas, dos gestos, das reações, menos dos diálogos. Quanto a estes, o tempo fez questão de enterrar; minhas inúmeras tentativas de rememoração nunca lograram os exumar. Mas o que jamais se encaminhou para o esquecimento foi o efeito e o significado daquela conversa que tive com meu avô.

    Ninguém nasce sabendo, vai-se aprendendo. Do mesmo modo que, ao aparecermos para o mundo, somos incapazes de andar; não compreendemos uma série de fenômenos da vida, como o mais importante deles, a morte. Na verdade, nem sequer sabemos que ela existe.

    Foi no sítio de vovô Chico, em Bananeiras, que lhe fui apresentado; não ao seu inevitável efeito concreto, mas à ideia da sua existência. Até então, faltava-me qualquer noção do que seria isso, nem sei se já havia ouvido diretamente palavras referentes a ela. Porém, ali, tive sua primeira notícia.

    Minha mãe lavava os pratos e papeava com a cunhada. Enquanto parolavam, por algum motivo que desconheço ou apenas pela inexistência de um que fosse contrário à nossa estada, eu e meu avô também nos fazíamos presentes na cozinha. Surgindo a temática funesta e com a completa ignorância que eu detinha sobre o assunto, fiz o que parecia natural, perguntei.

    O que me foi respondido não ficou gravado; mas, evidentemente, desagradou-me, já que engatei um choro e, em seguida, corri. É difícil asseverar se foi uma fala muito crua para uma criança, sem que se realizasse um sopesamento na explicação para o filho ainda muito pequeno. Todavia, tenho certeza do que senti. Ao contrário do que as lágrimas poderiam levar a pensar, não foi tristeza. O sentimento era de indignação.

    No momento em que tomei conhecimento da finitude da vida, portanto, ao começar a entender ela própria, senti uma inconformidade enorme diante da percepção que tudo aquilo acabaria. Como, de repente, eu deixaria de existir e nada mais haveria? Como era possível aceitar que meus pais e avós, que eu acreditava serem eternos (como tudo parecia ser), iriam desaparecer? Era implausível admitir isso, não fazia sentido. Impotente, chorei um pranto de revolta.

    Encerrando a chispada no alpendre da casa, sentei-me. Ainda soluçava, tentando digerir a ideia que tinha acabado de me penetrar. Sem tardar, vô veio atrás de mim, sentando-se também no batente, onde me deu a primeira lição do que seria a morte e, o que é mais importante, o que é a vida perante ela.

    Certamente, a conversa possuiu os traços característicos dele, como o “pois bem” sempre a interligar as frases. Entretanto, não me recordo das palavras que ele utilizou, nem o conteúdo em si. O que sei é que foi o suficiente para estancar as lágrimas e aplacar a dor da consciência súbita.

    Ao iniciar o berreiro, mãe riu, deve ter achado ridícula a reação. Provavelmente, já havia passado pela mesma interlocução com seu pai, o que fazia com que o assunto não lhe fosse novidade e pudesse parecer mais banal. Para mim, era diferente, a morte só começava a existir naquele momento.

    Porém, seriam somente alguns anos depois que o decesso e o luto viriam a se mostrar para mim na prática, com o falecimento da minha avó. De certo modo, ao ir me ver na frente da casa, Chico também preparava o neto para a futura perda, que nenhum dos dois imaginava que iria ocorrer tão cedo.

    Minha memória guardou a lembrança do momento e a imagem de vovô ao meu lado. Mas não pôde preservar as falas. Sou incapaz de reproduzir um termo sequer que meu avô tenha utilizado. Mas foi na dita prosa (como ele gostava de chamar os diálogos), que eu pude começar a entender o que seria a morte e, portanto, o que é a vida.

  • O principal

    Antes de viajar, ela chamou o marido e recomendou:

    — Não se esqueça de aguar a minhas orquídeas. Basta uma vez por semana. Uma, não mais. Se você esquecer, elas morrem.

    Ele ouviu com ar compenetrado e prometeu que aguaria as orquídeas. Uma vez por semana. Feita a promessa, ajudou-a a botar as malas no carro e a levou para o aeroporto. Na despedida, beijaram-se. Ele lhe desejou boa sorte no estágio e fez a carinhosa recomendação:

    — Cuide-se!

    — Você também!!

    Para ele, foi um teste cuidar da casa. Não tinha jeito nem paciência. Precisava levar o cachorro para fazer as necessidades, lavar a roupa que se acumulava, ir ao supermercado e à feira, pois só comia fora no almoço. Não tinham filhos, o que simplificava muito as coisas, mas ainda assim as tarefas lhe pesavam.

    Além do mais, havia os contratempos da rotina. O cão, por exemplo, às vezes fazia pipi antes da hora. Lá ia ele buscar estopa e água sanitária para limpar a poça na sala ou em um dos quartos. Noutra ocasião, a válvula da descarga quebrou. Teve que procurar um encanador bem cedo, quando deveria estar no trabalho. Nesse dia chegou atrasado e não pôde assinar o ponto.

    O tempo foi passando. Os dois conversavam raramente pelo celular, pois ela tinha uma série de obrigações ligadas ao estágio. Falavam da nova experiência de cada um – ela se aventurando no exterior, ele como dono de casa. Era uma espécie de inversão que os fazia rir.  Até então ocorrera o oposto, mas agora o mundo era outro. Falavam disso e da saudade, que começava a apertar. Para se assegurar de que tudo transcorria normalmente, ela lhe fazia perguntas: “Tem cuidado de Sultão?” “Agendou todos os pagamentos?” “Está passado o pano nos quartos?” Ele respondia “sim” a todas.   

    Pouco antes de ela chegar, ele fez uma vigorosa faxina na casa. Bateu tapetes, lavou e desinfetou os banheiros, limpou o filtro do ar-condicionado. De noite estava exausto e com tosse, pois tinha alergia a poeira. No dia seguinte foi ao supermercado levando uma lista com o nome das comidas de que ela mais gostava. Trouxe iogurte, compota de pêssego, pão de milho.  

    Chegado o grande dia, postou-se bem cedo na sala de espera do aeroporto. Felizmente o avião não atrasou. Na volta para casa, ela quis saber se tudo correra bem; ele respondeu que tinha trabalhado muito, mas valera a pena. Achava-se, agora, um marido completo. 

    Mal entrou em casa, ela se encaminhou para a varanda. Foi quando viu uma pequena orquídea no chão. Aproximou-se do vaso e percebeu que estava seco. As outras flores se desprendiam do caule e estavam prestes a tombar. Olhou transtornada para o marido, que entrava chamando-a para ver as gostosuras que havia na mesa… Ele então se deu conta do que havia esquecido.   

    Nessa noite os dois brigaram. Ele tentou se defender mostrando como cuidara de tudo com esmero, tanto que a casa estava cheirosa e não tinha um grão de pó. Fora tanto o esforço, que ele chegou a ficar doente.

    — Você não fez o principal! — interrompeu-o a mulher. E foi dormir cheia de mágoa.

  • Crepúsculo da bruxa

    A chuva forte não convidava a sair. Em outros tempos era o momento de dar uma ajeitadinha no visual, montar na vassoura e voar pelo mundo.

    Agora não. A vassoura está ali mas a confiança em subir nela desapareceu. Ou melhor, está adormecida. Não é de hoje que ela duvida se ainda sabe mexer com os poderes que a tornaram notória. No fundo ela acha que ainda conseguiria dar umas voltinhas sentindo o vento nos cabelos. Mas na dúvida prefere não arriscar. E no embalo, não tem muito tempo cortou os cabelos bem curtinhos.

    Se ajeitou no sofá examinando a chuva que caía forte. Da janela via a encosta verde, pulsando de vida com as águas límpidas do céu que balançam os galhos das árvores e lavam as vidraças de sua casa. Suspira, resignada.

    Já tinha sido curandeira. Mas isso fora em outra vida, como se dizia. Há muito não exercia os poderes de cura, só muito eventualmente em casos especiais. Tinha receio de errar a poção ou não saber mais recitar os encantamentos corretos. Pelo sim, pelo não recomendava as pessoas que a procuravam que buscassem outra colega feiticeira.

    Os dotes adivinhatórios ainda existiam mas ela não estava tão segura se ainda eram precisos. Vez ou outra achava que conseguia entender o que se passava na cabeça das pessoas, adivinhando suas intenções e desejos. Qual nada.

    Nos tempos atuais as imagens surgiam borradas em sua mente e mais confundiam do que esclareciam. Isso explicava suas últimas trapalhadas no campo pessoal. Confiara demais na interpretação do que achava que tinha visto nas brumas.

    O resultado tinha sido o oposto do que desejara. Onde esperava presença, veio indiferença. Onde esperava proximidade, veio afastamento. Onde esperava afeto, percebeu decepção com toques de mágoa silenciosa.

    Em princípio, por seu temperamento, achara que a culpa estava nos outros. Mas depois de repetidos tropeços, decidira admitir que talvez fosse alguma falha sua. E depois de muito negar o óbvio rendeu-se as evidências. Seu crepúsculo como bruxa chegara.

    Feiticeiras mais experientes e antigas nas artes ocultas haviam advertido que poderes mágicos não são eternos. Eles somem mais rápido na proporção do descaso que a bruxa tem com eles. A arrogância e a soberba da feiticeira que acha que seus poderes são eternos costumam acelerar o contrário, escutara certa vez. Ao que parecia, era essa sua situação.

    Não havia mais como remediar.

    Os encantamentos recitados em outros tempos ficaram para trás. Agora as palavras eram usadas por ela somente como esconderijo. Usava e abusava de vocabulário rebuscado criando barreiras entre si e o mundo. Gerava cortina de fumaça e sua imagem ficava algo difusa, protegendo-se.

    Ali sozinha em seu sofá, sem coragem de subir na vassoura e contemplando a chuva, chegou a conclusão que se isolara do mundo voluntariamente. E sem olhares capazes de perscrutar sua alma, suspirou resignada. E disse para si mesma que já era hora de voltar ao mundo dos vivos.

    Arqueou o corpo, fez força para levantar mas..voltou a se sentar. Tivera uma ligeira tontura e em meio a névoa que surgiu diante dos seus olhos veio um rosto do passado recente. Um rosto afastado dela por ela. Piscou os olhos tentando fixar a imagem que rapidamente desaparecia diante de si.

    Acomodada novamente no sofá ela sorriu. Aquela visão trouxe a sensação de esperança que há muito não sentia. De que ele, afinal, não seria um caso perdido em sua vida. Sorriu novamente, olhou a vassoura e passou a considerar tentar voar. Nem que fosse para subir só até as nuvens e espiar lá de cima o que ele estava fazendo…

  • Sobre a mentira

    A mentira é também a nossa verdade. É uma forma estratégica de nos relacionarmos com o mundo. Que seria de nós sem esse espaço de manobra que nos permite lidar com a pressão dos outros? Acossado por deveres sociais, éticos, econômicos, não resta ao homem senão mentir.

            O problema não está em mentir ou não mentir. Está no intuito com que se mente. Não se deve, por exemplo, usar a mentira para prejudicar ninguém. Ela é um meio de preservação pessoal, não uma arma para agredir o semelhante. Serve à defesa, não ao ataque. Machado fala de uma “mentira piedosa”, dita para poupar os outros. O tipo mais comum de mentira, no entanto, é o que se inventa para poupar a si mesmo.

              O amor e a política são os domínios em que mais se mente. No primeiro imperam as promessas, as famosas “juras”, que nem sempre correspondem ao que sente o coração. Na segunda prevalece a demagogia, que do seu sentido etimológico de “condução do povo” passou ao de conjunto de estratagemas para enganá-lo. O eleitorado sabe disso, mas não tem outra saída senão fingir que acredita e votar em quem o engana. A isto se dá o nome de logro, digo, jogo democrático.

             A mentira é inevitável porque o homem existe a partir da linguagem, que é por si “mentirosa”. A linguagem não passa de um artifício com que representamos o mundo, e toda representação é um disfarce, uma tentativa fracassada de transmitir a verdade que se quer traduzir. O que dizemos, mesmo que sejamos sinceros, sempre é distinto do que pretendemos significar. Alguém já falou, e com razão, que a verdade é indizível.

              Por outro lado, como isso foi dito por meio de palavras, é também uma frase mentirosa. Deve então haver uma verdade dizível; o grande problema (hermenêutico, filosófico, metafísico) é descobrir qual. Enquanto isso não ocorre, vamos continuar mentindo. 

              Costuma-se perguntar quem mente mais – se o homem, ou a mulher. Diz-se que é a mulher, com base no ardil que Eva usou para iludir Adão e levá-lo a comer o fruto proibido – início de todos os nossos males. Mas isso é uma injustiça com a mulher, que não tinha como adivinhar que a serpente era o Tinhoso, ou seja, o Pai da Mentira. Ficava difícil escapar de alguém que tinha esta simbólica denominação.

           Acredito que o maior mentiroso seja o homem, pois ele faz mais coisas erradas. A mentira é diretamente proporcional ao que se tem a esconder. Visa a nos redimir, pelas palavras, de erros pelos quais não queremos nos responsabilizar. As mulheres, por serem emocionais e afetivas, são também mais sinceras. Deixam transparecer pelo olhar o que está nas entrelinhas e falam através do coração.   

             A pior mentira é a que o indivíduo prega em si mesmo. É o autoengano, que por covardia ou impotência nos alheia da nossa verdade interior. A maioria das pessoas finge ser o que não é para parecer bem diante dos outros. Se parecem bem, sentem-se bem. Saber que os outros as imaginam felizes lhes traz felicidade – uma felicidade superficial, que não resiste ao veredicto do espelho.

  • Viver é melhor que sonhar

    Viver é melhor que sonhar. É do Belchior e está na belíssima canção “Como nossos pais”. A letra é um primor e acredito que as leitoras e leitores – sei que são poucos rsrs – que eventualmente se aventuram em ler o que eu escrevo têm idade para conhecer a letra.

    Mas vale lembra-la.

    Está lá que “Eles venceram/E o sinal está fechado prá nós”. Será mesmo? Acho que não. Nada está terminado. Ainda dá tempo de fazer sua parte “para o dia nascer feliz” – isso é Cazuza, tá?

    O sinal no máximo está amarelo sem garantia de qual cor ele vai se tornar. Depende essencialmente de nós, do que podemos fazer. Conformismo não resolve.

    Gilberto Gil ensina: “Sente-se a moçada descontente/Onde quer que se vá sente-se/Que a coisa já não pode ficar”. Isso é de “O grande Deus Mu Dança”.

    Exemplos do que os mais antigos faziam são eventualmente bem vindos. Mas veja bem o que vai escolher. Se for viver como os seus pais, que ao menos sejam pais que saborearam a vida intensamente.

    Não do tipo que “Tá em casa/Guardado por deus/Contando vil metal”. Para fazer o que com isso? Levar para a pirâmide

    Ainda sobre mudança, lembra que não depende só dos outros mas de você. Que é muito bonitinho fazer postagens “engajadinhas” no Facebook. Mas é bom que saiba que elas serão lidas por aqueles que pensam como você. Sabia disso? Sim, é culpa do tal do algoritmo.

    Então, se vai fazer algo de verdade saia da bolha ou, de outra forma, para de falar aos convertidos. Busque quem precisa escutar a razão e pode mudar seu olhar sobre a realidade.

    Ainda dá tempo de fazer algo por você, por mim e por muita gente. Já vi muito campeonato ser decidido nos 44 minutos do segundo tempo.

    Não perca a fé.

    Não dê ouvidos a Lissa, divindade grega da raiva; ou a Fobos, divindade do medo. Ambos péssimas companhias.

    Escolha ouvir Gil mais um pouco: “A gente quer mudança/O dia da mudança/A hora da mudança/O gesto da mudança”. De coração leve. Com esperança em realizar.

    Afinal, viver é melhor que sonhar.

  • Aos sonhos, afinal

    Acordou mal. A noite foi ruim. Um sonho, o único que ele lembra, foi o responsável pelo seu estado atual.

    Um sonho ruim onde a dúvida se tornava certeza. Nada mais dela na sua vida, nada mais com ela ou sobre ela. Nada mais.

    Passou o dia angustiado com a mera lembrança do sonho. Piorou quando recordou que à luz da psicanálise o sonho pode ser a manifestação de desejos inconscientes. Pode, no condicional, mas por conta do estado de angústia em que se encontrava tornou-se certeza.

    Desejo é sempre ligado a algo que se quer, lembrou ele ao longo do dia. O sonho revelador seria isso então, um desejo?

    Mas por que sua mente lhe pregara essa peça? Por que desejar o que não nos faz bem?

    Desejar ela longe de si, seria o desejo oculto guardado no fundo de seu inconsciente que nas horas silenciosas da madrugada emergia suave mas decidido? Mas por que essa certeza de não a ter mais seria de fato algo ruim?

    Talvez precisasse assumir para si mesmo que nada mais de bom haveria de vir dela, ou melhor da relação com ela. Projetar uma reconciliação era fantasia. A distância talvez seja melhor do que a proximidade?

    Sonhar com a certeza, disse para si mesmo, não era de todo ruim. Melhor que viver na dúvida.

    A certeza ruim dói uma vez, ou duas. A dúvida imobiliza eternamente.

    Afinal, disse para si quando voltou para casa, o sonho não teria trazido o desejo de algo ruim mas sim da mudança necessária. Adiada por razões várias, da falta de coragem à esperança fútil. Mudança necessária? E, quem sabe, mesmo bem vinda?

    Sim, definitivamente.

    Nada mais de buscar a mensagem dela que nunca virá, a atenção que ele não recebe mais dela. Livre, afinal. Liberto por vontade própria. Livre para dar outro rumo à sua vida.

    Naquela noite deitou-se ansioso, reconciliado. Que venham os sonhos, afinal.

  • Cobra no ventilador

    Juro, mas deu cobra no ventilador da minha avó. Mas esse negócio aconteceu lá em Minas, terra da sua avó? Que Minas que nada, isso foi com minha outra avó e aconteceu no Rio de Janeiro, lá no Recreio dos Bandeirantes.

    Ah, que é isso? No Recreio? Zona Oeste do Rio, selvagem desse jeito? Como é possível? Porque naquele tempo era tudo mato não era como hoje, um bairro urbanizado. Era uma casa aqui, outra acolá, a da minha avó, mais outra lá longe e por ai até aonde a vista alcançava.

    Nossa parece estória passada na roça. Mas na minha infância, a roça era o Recreio. Tá bom e o negócio da cobra. Sim, foi minha avó quem descobriu. A cobra estava enrocada no motor de um ventilador pequeno de plástico, azulzinho, acho que a marca era Faet.

    Sim eu lembro, pequeno e tinha um motor forte.

    Esse mesmo. Bom a cobra estava dentro do ventilador. Exato e o ventilador estava na sala. Pera aí, na sala? Como foi que a cobra entrou lá? Não lembrei de perguntar a ela.

    Muito engraçadinho. Continua.

    Bom ai foi um drama. Minha avó pescou o ventilador com uma vassoura e pôs do lado de fora da casa. Aquela tensão no ar, eu e outras crianças de olhos arregalados esperando o desfecho da situação e minha avó com aquela expressão de alguém corroída pela dúvida. Por que?

    Porque a única solução que ela via para resolver o problema era tacar fogo no ventilador. Ai matava a cobra. E minha avó perdia o ventilador. Sério? Sua avó estava em dúvida por que ia perder o ventilador?

    Sério. Minha avó tinha muito respeito pelo dinheiro que meu avô ganhava, eram outros tempos lá nos loucos anos 70 do século XX. Sei, claro, mas e aí?

    Ai aconteceu o inacreditável.

    A cobra saiu do ventilador? Não, surgiu um sorveteiro. Sorveteiro?

    É, um cara com um isopor no ombro cheio de sorvete. Isso era comum. Surgiu do nada? Isso mesmo, do nada. O cara apareceu no portão vendendo sorvete. Minha avó gritou que não queria nada porque tinha uma cobra no ventilador. E o cara?

    Como se fosse a coisa mais natural da face Terra ter uma cobra no ventilador ele nem discutiu nem perguntou nada. Mas disse que se minha avó quisesse ele pegava a cobra sem estragar o ventilador.

    Sua avó topou na hora, pelo visto.

    Claro. Prendeu o Nero, o primeiro pastor alemão que ela teve, e deixou o cara entrar. Ai foi um momento de raro sangue frio. O sujeito pegou um alicate e com ele bateu de leve na carcaça do ventilador. E aí?

    A cobra foi espiar o que era e ele num gesto rápido apertou a cabeça dela. Ponto final. No duro? No duro. O cara puxou o corpo morto da cobra, que minha avó mandou queimar e incensar a casa por fora para espantar as outras cobras.

    E o sorveteiro? Vendeu o isopor inteiro para a minha avó. Olha com todo respeito isso está parecendo conto de realismo fantástico. Por que?

    Como é que surge do nada um sorveteiro naquela roça que era o Recreio naquela época? Você não acha isso possível? Ah bem sei lá, é estranho. Depois, que fim levou o sorveteiro. Foi embora, ora.

    E quem deu a idéia de usar a cobra para defumar a casa da sua avó por fora? Acho que foi o sorveteiro. Ah é? Sei tô achando que esse sorveteiro era outra coisa. O que por exemplo?

    Ah não sei, uma entidade, um orixá, um anjo da guarda, um protetor espiritual.

    Posso te falar uma coisa? Pode. Larga do copo ou me diz o que você anda bebendo porque também quero viajar.

    Xau.

  • Da glória ao fracasso

    Impressionam-me os casos, muito noticiados pela mídia, de pessoas que eram famosas, endinheiradas, e depois perderam tudo. Geralmente são artistas ou ases do esporte. Sabe-se que o sucesso é fugaz, mas há uma diferença entre sair dos holofotes e mergulhar na escuridão do anonimato ou nos confins da miséria.  

    Recentemente se noticiou o caso de Mário Gomes, que teve a mansão leiloada para pagar dívidas trabalhistas. Desconsolado, o ator revelou que estava por enquanto na casa de uma filha e não tinha ideia de onde ia morar – talvez “embaixo de uma ponte”!  

    Há muitos outros casos. Entre eles está, por exemplo, o de Regininha Poltergeist; depois da fama nos anos 1990, ela perdeu  o que havia conquistado e chegou a morar num posto de gasolina. Outro é o do ator César Macedo, que atuou na “Escolinha do Professor Raimundo” e, fora da TV, enfrentou muitas dificuldades financeiras. Veio a morar nas ruas depois que a esposa morreu.

    E quem não se lembra do ator Rubens Sabino, que fez o papel de Neguinho  no filme “Cidade de Deus”? Depois de abandonar a carreira, ele chegou a viver na Cracolândia, em São Paulo, por cerca de quatro anos.

    Muitos perdem seus bens e ficam mesmo sem ter onde morar. Caso não sejam amparados por um algum parente generoso, têm que apelar para a generosidade dos transeuntes. Na melhor das hipóteses, passam a vender cachorros-quentes, bombons ou água para sobreviver.   

    Se a ambição maior deles é galgar a escada da fama, o que os faz descê-la de forma assim melancólica? A explicação comum, e um tanto óbvia, é que não pensam no futuro. Deslumbrados com os aplausos e paparicos dos fãs, esquecem que essas manifestações passam e com elas o dinheiro que lhes permite o conforto de uma boa vida.

    Alguém já disse que, a ter e perder, é preferível nunca ter tido. A memória dos bons tempos dói mais do que a tristeza por eles nunca terem chegado. Enfim, não se perde o que não se teve.

    Outros atribuem a derrocada à fatalidade, que escolhe algumas pessoas para nelas imprimir negativamente a sua marca. Mas fatalidade não é destino. Para que nele se transforme, é preciso que a vítima de algum modo aceite o que lhe é infligido, ou vá ao seu encontro.   

    Talvez os que descem do chamado “pedestal da glória” façam isso por não se julgarem aptos a lá estar. Talvez procurem a obscuridade por não se acharem merecedores de ficar sob a luz. Nesse caso não é o descuido com o futuro que os leva a tal situação, mas algum tipo de prisão ligada ao passado.   

    Há quem ache que não faz jus ao sucesso que a vida lhe concedeu. Por alguma obscura falha interior, considera injusto o que alcançou na arte, na profissão ou mesmo nas relações sociais. Trata então de “reparar o engano”, infligindo-se um fracasso que compensa o que por equívoco lhe teria sido dado. A alma humana tem desses mistérios.

    Essa tese psicológica não se aplica a todos os casos e pode ser contestada. Mas não deixa de nos fazer pensar. Só ela explica que chegue ao declínio alguém que tanto lutou para alcançar o apogeu.

  • Retorno às névoas perfumadas

    Chegou antes da hora marcada. Uns minutinhos somente mas tempo suficiente para se acomodar no café. Escolheu uma mesa na parte externa que dava para o jardim interno da ala elegante do shopping. E ficou ali.

    Marcou o encontro com uma amiga de anos e escolheu aquele lugar para agradar a ela e, sendo sincero, também a si mesmo. A atmosfera do ambiente fazia seu senso estético se manifestar contente. A idéia do encontro era marcar o fim de dois anos de isolamento forçado. Eles não estavam desatualizados a respeito dos respectivos assuntos particulares e comuns. A internet ajudara bastante a manter as conversas constantes. Porém, faltava a proximidade física.

    Os dois encaravam aquele encontro como sua celebração pós pandemia. A volta ao mundo real. Mas o que ela não sabia é que para ele havia um algo a mais por trás daquele encontro. Sem alarde e em segredo ele decidira começar naquele dia um ritual íntimo que ele chamara de retorno às névoas perfumadas.

    Das ausências provocadas pela pandemia em sua vida uma das mais significativas foi a falta de aspirar perfumes. Conversar com as pessoas, manter um contato mínimo, pôde ser contornado com as webconferences. Mas sentir aquele aroma agradável especial, sem chance.

    Não perfume do vidro mas sim aquele cheiro perfumado que sobe das pessoas. Esse é insubstituível. Fica gravado na memória para sempre.

    E sua predileção era pelas fragrâncias que envolviam as mulheres. Sentia uma falta imensa de encontrar alguma mulher perfumada.

    Logo que tomou coragem para sair de casa, tentara um paliativo que era circular pela rua ou pelo shopping e passar pelas pessoas que emanassem nuvens perfumadas. Não dera certo.

    Tinha que entrar em contato com as mulheres para sentir de perto o perfume feminino. A química entre fragrância e a pele de cada pessoa era única, ensinava o senso comum e ele assinava embaixo com todas as letras. Sabia que não precisaria de muito para satisfazer seu olfato. O aperto de mão seria suficiente para trazer para perto de si a nuvem de aroma perfumado. Aspiraria profundamente arquivando na memória o cheiro suave e envolvente daquela névoa deliciosa.

    Aos poucos fora formulando em sua cabeça a idéia desse ritual íntimo. Não via maldade nem inconveniência em sua busca. Era um movimento puramente estético e sensorial, dizia para si.

    Nada abusivo ou ofensivo.

    Não se considerava invasivo, nem tarado ou pervertido. Apenas um apreciador desse aspecto sensorial do mundo feminino. Outra forma de justificar o que iria dar início naquele dia.

    Honestamente não tinha pretensão alguma em se envolver com ninguém. Bastava para seu prazer captar aquele aroma particular. O arrebatamento do encontro do perfume com suas narinas seria sem igual.

    Depois de muito pensar e pesar decidira passar a ação. Agora estava ali, prestes ao primeiro encontro de retomada do prazer sensorial provocado pelo perfume de uma mulher.

    Selecionara com cuidado quem seria sua primeira convidada e optara por uma amiga de longa data e apurado senso estético. Ela era um dos melhores exemplos de química perfeita entre perfume e pessoa. Não conhecia ninguém que combinasse tão bem com a fragrância daquele perfume de nome exótico.

    Portanto, para abrir os trabalhos seria com ela.

    Seus pensamentos foram interrompidos com a visão de sua amiga chegando. Ela caminhava devagar e sorridente. Ele se levantou sorrindo, aspirou o ar profundamente e pensou: seja bem vinda névoa perfumada.

    Crônica escrita originalmente em 5 de outubro de 2022

  • O cronista em caça

    O cronista é um caçador, não o homem que sai com sua espingarda a fim de conseguir algo para comer ou por pura diversão pela morte. É um animal eternamente faminto e em constante situação de caça. A todo momento, está em busca da sua próxima vítima, que alimentará a si e aos outros.

    Ser esse caçador é consequência de ser cronista.

    Onde estiver, estará em caçada. Não importa a situação, o momento ou o lugar. Qualquer um pode ser propício, todos são capazes de lhe oferecer uma nova presa. Ele sabe disso, está sempre à espreita. Diante de um alvo que se mostre, não titubeia; na primeira oportunidade, irá agir.

    Por onde passa, segue perseguindo algo, que os outros não veem e ele, talvez, ainda não saiba ao certo. Não sai de casa necessariamente com o intuito de executar o apresamento subsequente. Entretanto, para onde vá ou onde se encontre, o gênio de cronista está agindo dentro dele.

    Não é caçador apenas por escolha ou por aptidão adquirida, mas por uma condição intrínseca, ínsita ao seu próprio ser cronista. Ela garante o sucesso na localização do alvo de cada empreitada, seja mensal, semanal ou diária; por obrigação ou puro deleite.

    O predicado disso está na procura constante, mas também, por vezes, não deliberada. Está no instinto e nos olhos que só podem ser encontrados em indivíduos dessa espécie. Possui um olhar particular, olhar de caçador, olhar de cronista, essencial para produzir novas presas. Ele não enxerga como os demais. Seus olhos de rapina são capazes de transformar o mais insignificante elemento em uma preia útil.

    Esconder-se ou se esgueirar são desnecessários. Para o bote, precisa de ouvidos vigilantes, visão precisa e argúcia em seu faro. Todos muito bem treinados e experimentados. Assim como os seus gadanhos, que, se não forem cultivados e afiados cotidianamente pelo predador, tornam-se ineficazes no assalto.

    Essa fera não distingue suas vítimas. Qualquer um pode vir a ser o próximo. Tudo lhe interessa, desde o gesto mais inocente à hecatombe mundial, do último acontecimento político ao café que coa todas as manhãs. Não há nada que não esteja passível de se converter no seu mais recente abate.

    Mal tendo digerido o último, já se lança à procura do seguinte. Seu ímpeto jamais cessa, precisa estar sempre em caça. E ele estará.

  • Do anonimato e outras não-percepções modernas

    Em meio a muitos, me diluo. Entre tantos, sou menos que um. Passo despercebido aos olhares. Percebo que alguns olhos passam por mim. Eu noto esses olhares discretos. Olhos que não me registram em sua retina. Não focam em mim porque não me percebem. Minha imagem sumirá da lembrança deles antes que percebam. Lembrança efêmera, tão consistente quanto a névoa diáfana que sobe do cubo de gelo.

    Nenhum registro, nem o da minha voz. O que eu disse não foi escutado. Se fui ouvido, minhas palavras não ficaram na memória. E se algo permaneceu gravado, será atribuído a outra pessoa aparentemente mais presente.

    Os atos que fiz não deixaram rastros. Nenhuma pegada. Nada será atribuído a mim mesmo tendo feito algo. Minhas realizações não ecoarão na eternidade. Ou serão creditadas a outros. Sou capaz de ir antes, vasculhar e retornar acompanhado sem que percebam que lá estive. Completamente despercebido exploro sem ser notado. Vejo, sem ser visto. Nada de especial, perfeitamente mimetizado na paisagem.

    Mas estou ali. Estive ali. Ocupei espaço, me movimentei. Mesmo ignorado.

    Anônimo, eu sou.

  • Maria Lattes

    Eu tenho uma amiga que é Maria Lattes. Não, ela não é parente do Cesar Lattes, físico e prêmio Nobel ainda não reconhecido, e que dá nome ao serviço do CNPq que registra a vida acadêmica e profissional de pesquisadores e estudantes. Não sabe o que é CNPq? Pesquisa, vai, porque a estória que vou contar é outra.

    Como eu dizia, tenho uma amiga que é Maria Lattes. Não existe Maria Gasolina? Maria Chuteira? Então, ela é Maria Lattes. Só sai com alguém depois de checar o Lattes da criatura. Juro.

    O motivo faz sentido. Se tem um Lattes robusto é com certeza um homem inteligente, argumenta. Tem assunto, sabe dialogar, não é um bugre. Ou arú, como dizem no Pará, que é a mesma coisa que ignorante mas expresso com menos letras. E tambem uma espécie de sapo.

    Desisti de lembrar a ela que doutorado não é garantia de a criatura ser agradável. Ela sempre rebate e diz que ao menos é uma boa nota de corte social.

    Mas as vezes essa fissura no Lattes cria situações embaraçosas.

    Teve uma ocasião em que ela desmarcou o encontro porque o Lattes do cara era anêmico, palavras dela. Perguntei porque ela tinha marcado sem antes ver o bendito Lattes. Embaraçada ela me estendeu o celular com a foto do cidadão. O cara tinha bom fisico e sorriso confiante, pouco cabelo na cabeça é verdade, mas com mestrado em química em universidade europeia.

    Ela admitiu que marcou por puro entusiasmo inicial. Mas no exame do Lattes, dançou. Ela descobriu que ele estava há um ano sem publicar artigo. Preguiça intelectual é inconcebível, disse-me ela e completou o veto me informando que o cara declarou que na juventude tinha sido remador do Vasco. Ela bufou e, ao descartá-lo disse, Lattes anêmico e eu sou rubro-negra? Sem chance desse arú encostar em mim!

  • Para melhor agradecer

    Tenho lido críticas por parte de estudiosos da língua ao uso de “Gratidão” no lugar de “Obrigado”. Alegam que esse é um caso de pedantismo e não deve substituir a forma clássica com que nos acostumamos a reconhecer um favor. “Gratidão”, de fato, soa um tanto pomposo. É como se, com a escolha do substantivo, o favorecido quisesse enfatizar o sentimento e não simplesmente mostrar que dele está imbuído.

           – Já que você não pôde ir para o almoço, vim aqui lhe trazer uns sanduíches.   

           – Gratidão.

    Vejam que o beneficiário, ou beneficiária, não se limitou a mostrar-se agradecido(a). Evocou o que no ser humano é uma manifestação de grandeza de alma. Escolhendo o substantivo, leva o receptor a preencher todo um contexto elíptico (“Diante do favor que me fez, demonstro-lhe minha…”). Convenhamos em que isso torna o diálogo um tanto solene e pouco natural.   

    Risque-se então “Gratidão”, estou de acordo. Mas por que usar necessariamente “Obrigado”, e não “Grato”?  Este é sintético, franco, e não sugere nenhum prévio compromisso da parte do favorecido.

    No “Obrigado”, como se sabe, o contemplado “se obriga” ao dever da retribuição. Confessa-se compelido a retribuir o favor mesmo que não esteja sendo sincero. Fala mais por um dever social do que por um impulso espontâneo, que traduza o reconhecimento pelo benefício recebido.

    As coisas que fazemos por obrigação nem sempre são prazerosas. Quem já não ouviu de alguém a justificativa de que “fez porque foi obrigado”, ou seja, de que agiu de determinada maneira porque não tinha alternativa? Por que transferir essa possibilidade ao domínio das gentilezas e dos favores?

    Se “me obrigo” diante de alguém, tenho-o como credor ou juiz – tipos sociais que não nos acostumamos a ver com simpatia. O primeiro nos cobra, o segundo nos julga, e ninguém se sente à vontade quando submetido a tais injunções. 

    Sei que a sociedade se rege por obrigações de uns para com os outros. Mas não fica bem estendê-las ao domínio das reações espontâneas e afetuosas, como as que experimentamos diante de quem nos presta um favor ou concede uma graça. 

    Não vou deixar de dizer “Obrigado”, que já é um clichê e cujo esvaziamento semântico vem se estendendo ao plano morfológico. Tanto é assim que o vêm empregando tanto homens quanto mulheres (para desespero dos adeptos da linguagem neutra, que escolheriam “Obrigade”).

    Mas confesso que prefiro mesmo “Grato”, que não comporta nenhum dever retributivo e tem o mesmo étimo de “Gratidão”. Além do mais, sendo um adjetivo, enfatiza o estado do beneficiário e não a substanciosa grandeza do sentimento. Sem falar que ganha da concorrente pela extensão. Os manuais de estilo, como se sabe, recomendam o uso de palavras curtas, e por esse critério o dissílabo “Grato” é preferível ao polissilábico “Obrigado”.

  • Considerações de véspera sobre a véspera

    Véspera. Do latim vesperae. A tarde, ao cerrar da noite. Poeticamente, ao encerrar um ciclo solar. Dos pequenos, claro.

    Deriva também de Vésper, a estrela que não é estrela, visível a olho nu quando a tarde cai.

    Véspera é o território preferencial da ansiedade. Quando estamos a poucos passos ou horas daquilo que desejamos. Ou não desejamos mas é inevitável que venha até nós.

    Dizem por aí que a arte reside em controlar a ansiedade da véspera. Papo. Eu já tentei inúmeras vezes em mais de cinquenta anos de existência. Nesse tempo todo jamais – ou quase jamais – tive sucesso. Perco o sono que é uma beleza.

    Achei seis dicas para domar a ansiedade, reunidas pela BBC, British Broadcasting Corporation, fundada em 1922. As dicas da centenária BBC são:

    Monitore os seus pensamentos.

    Faça atividades físicas e pratique meditação.

    Encontre um propósito – nem que seja cuidar de seu animal de estimação.

    Veja o lado bom da vida (por mais que isso seja desafiador)

    Viva no presente.

    Busque terapia – na sexta posição e, a meu ver, como último recurso se os demais falharem. Ainda não cheguei aqui mas é bom ter a lista à mão. Se bem que umas linhas acima eu admito que perco o sono por ansiedade. É, acho que já é o caso de terapia. Mas vejo isso depois de malhar na academia.

    Voltando.

    Há sucessos que só duram até a véspera, como o reinado daquele rei destronado em batalha no dia seguinte. Ricardo III que teve insônia – olha mais um!!! – na noite anterior ao combate e foi assombrado por fantasmas daqueles que morreram por sua culpa. Ao menos é o que está na peça de Shakespeare que já se sabe é historicamente imprecisa. Um detalhe que não ofusca sua beleza dramática.

    Seguindo.

    Véspera da decisão daquele jogo em que o craque de um time foi para a farra e o outro foi atender ao chamado de um menino que acordou na emergência infantil do hospital chamando pelo seu ídolo. Foi na zona sul do Rio de Janeiro, no século passado, o craque prometeu ao garoto o título. E no dia seguinte, com gol de barriga cumpriu a promessa.

    No século XVII o pintor, arquiteto e artesão espanhol Alonso Cano fez uma obra em madeira intitulada “Véspera” que está na catedral de Granada, Espanha.

    O bem humorado Adoniran Barbosa tem um samba chamado “Véspera de Natal”. Termina em comédia pastelão com direito a ação do corpo de bombeiros

    “Véspera” é o nome do terceiro livro da escritora mineira Carla Madeira. Não li mas espiei uma resenha e acho que deve ser uma obra bem interessante. Vou em busca.

    Todo esse papo aleatório porque hoje, sexta-feira, 23 de setembro, é véspera. Mais uma de muitas, dirão.

    Mas para mim, a mais importante das vésperas. Quando o sábado chegar será festa. Contemplarei o momento e o viverei na boa companhia das estrelas da minha vida. Andaremos pelo mundo, plenos de alegria e em busca de diversão tendo aos ouvidos “Ode à alegria”, de Beethoven. Ao cair da noite, estaremos juntos, cansados e felizes.

    Agora, na véspera, tentarei inutilmente ao longo do dia domar a ansiedade. E a noite, só me restará achar o sono.

  • Considerações heterodoxas sobre a mulher ideal

    O mito da mulher perfeita foi criado pelos trovadores. Como a sociedade feudal era extremamente machista, e lá a figura feminina não decidia nada (a não ser, por exemplo, com que plantas aromáticas iria lavar os pés do marido), era necessário compensar essa inferioridade dando a ela contornos ideais. Nas cantigas, a mulher não é a escrava do cotidiano — é a senhora, ou a “mia senhor”. Esse tipo de culto se limitava ao plano da arte, claro; no dia a dia, a discriminação continuava a mesma.

    Do trovadorismo a imagem da mulher ideal passou ao Romantismo, que lhe acrescentou traços de santidade e morbidez. Em vez de “senhora”, ela virou santa, diva, anjo. Além de adquirir esse aspecto espiritualizado, apresentava-se pálida, clorótica, enfermiça. Freud a considerou uma representação da morte.

    Imagem da morte ou não, o fato é que os homens a perseguem. Como não a encontram, pensam que ela não existe. Engano. A mulher ideal existe, sim. Só não a encontramos porque, no momento em que a achamos, ela se torna real. Daí…

    É possível conhecer a mulher ideal mesmo que ela, acercando-se de você, não fale nada. Ou melhor: sobretudo se não falar nada, pois falando ela pode quebrar o encanto. Dirá coisas prosaicas como “nasceu uma espinha no meu rosto”, “ontem vomitei aquela buchada” ou “sou fã de Michel Teló”.

    Existe a teoria de que não achamos a mulher ideal porque, sendo o mundo muito grande, ela pode estar a milhares de quilômetros de onde vivemos. É possível que alguém more no Brasil e sua mulher ideal esteja, por exemplo, no Kuwait, namorando um sheik ou coisa parecida. A maioria dos homens tem que se contentar com a mulher viável, possível, ao alcance da mão (e de outras partes do corpo, é claro). Felizes são aqueles que nascem onde sua mulher ideal se encontra. Mas dizem que, quando isso acontece, alguma circunstância a faz mudar de lugar.

    Que características procuramos na mulher ideal? Compreensão infinita, tolerância absoluta, beleza perene. Ela deve ser irrepreensível, não repreensiva, e estar sempre pronta para o amor mesmo que tenha passado o dia à beira do fogão ou limpando o cocô das crianças.  

    Existe um teste simples para você saber se a mulher com quem se pretende casar é mesmo a ideal (embora haja algum paradoxo nisso; ninguém se casa com a mulher ideal. Ela existe para ser objeto de uma grande paixão). O teste é: não compareça a um compromisso combinado, saia com amigos em vez de sair com ela, esqueça quando ela aniversaria, diga que a sua mãe (e não ela) é a pessoa mais importante para você. Se ela quiser matá-lo depois de ouvir coisas como essas, é porque não se trata da mulher ideal. Se apenas botar uma cara feia, aproveite, pois você não vai encontrar outra que reaja de forma tão branda.

    A mulher ideal, como todos os mitos, foi criada para se constituir em referência. Lembra outro mito, o da “mulher fatal”, devoradora de corações, com quem a maioria das outras mulheres gostaria de se confundir. Não a rejeitemos, pois a função dos mitos é tornar suportável a realidade. Como, afinal de contas, se contentar com a mulher possível sem imaginar que em algum lugar do mundo se encarna aquela miragem? E que ela só não chegou até nós por um capricho da sorte?

  • Jogo contra jogo

    Era para ser xadrez. Um jogo elegante e íntimo. Como se as mentes por instantes se vaporizassem se entrelaçando no espaço entre os dois.

    Peças brancas e pretas, com dois reis impávidos e duas rainhas poderosas. Ao redor seus respectivos exércitos prontos para matar e morrer. Sem contudo faltar a admiração mútua, parte integrante da relação dos dois. Elegante.

    Mas de uma hora para outra vira pôquer. As rainhas e os reis permanecem mas as cores foram alteradas.

    Onde antes havia um par de monarcas agora existem quatro pares. As peças se transmutaram quase em sua totalidade em números, a exceção de mais uma figura humana.

    As três dimensões do xadrez foram trocadas pela bidimensionalidade do carteado.

    A tensão e o raciocínio do jogo aumentaram nos dois motivados pela competição. Antes havia observação e tentativa de entender as jogadas do outro. Agora instalou-se outra forma de raciocínio ditado pela sorte.

    Cada ação do passado, as cartas que se vão, ganha mais intensidade no presente como forma de prever o futuro. A capacidade de memorizar os descartes é fundamental para tentar prever o que ainda está por vir. Incontrolável. A sorte tomou lugar da ação consciente.

    Quase que instantaneamente vem a necessidade de camuflar suas intenções. É preciso mascarar quem é você. E o que antes era para ser um ballet suave a dois se torna a meticulosa arte de dissimular. Sai o passo sincronizado e entra o blefe.

    A verdade passou a ser rara. Duvidar tornou-se regra.

    As palavras se tornaram cartas que são posicionadas cuidadosamente de forma a manipular as reações da outra pessoa.

    Cada descarte, uma reação. Cada reação, um blefe, um engano.

    A intensidade da troca de cartas do jogo afasta da lembrança os movimentos suaves das peças deslizando no tabuleiro. Sem perceber, os dois se distanciam.

    O tempo apagou os rastros do caminho que eles percorreram entre o tabuleiro de xadrez e a mesa de pôquer. O caminho de volta, se perdeu. Onde um dia foram duas pessoas próximas e íntimas agora são somente mais duas pessoas. Sem nada de especial, nem nada que os identifique. Mais dois na multidão.

  • O CACHORRO ENCADERNADO

    Tenho uma relação antiga com o livro. E feliz. Eu acredito que ninguém é obrigado a ler tudo. O básico de cada um é o resultado de suas predileções e inclinações. Momentâneas ou não, ditadas por tantas coisas que reúnem um pouco de tudo que se chama você. Mutante por natureza, esponja que absorve e que despeja os excessos pelo caminho.

    O olhar muda com o tempo porque é forjado por nossa maturidade. Não ter idade para ler alguém é uma verdade, mesmo que incomode nossa vaidade intelectual. Acontece. As vezes você retorna ao livro mais adiante na sua vida. As vezes ele desaparece pelo caminho.

    Nossa estante de livros, a metafórica quero dizer, não é melhor nem pior do que a dos outros. São nossas escolhas, sem competir com ninguém.

    Na adolescência uns amigos se tornaram fãs do J.R.R. Tolkien e sua saga “O Senhor dos Anéis”.

    Eu descobrira Garcia Marques a partir de “Cem anos de solidão”. Nossos caminhos literários não se cruzavam.

    Eles insistiam em me dizer que eu não sabia o que estava perdendo por não conhecer a Terra Média. Lá em Macondo eu balançava minha rede e suspirava.

    Influências externas podem te empurrar na direção de uma estante. Ou te afastar dela. Mas o que dizer dos estalos que nos chegam de repente? Sabe quando nosso olhar examina a obra e uma voz baixinha nos diz “acho que vou experimentar esse ai”…

    Ser leitor é muito bom.

    Houve uma época da minha vida em que levava, por baixo, uma hora e meia de casa ao trabalho. E para voltar também, não tinha refresco.

    Pegava duas conduções e na primeira, a de uma hora, eu conseguia viajar sentado. Como sempre pegava o ônibus no ponto final, tanto na ida quanto na volta, era tranquilo. E para ocupar o tempo, eu lia.

    Foram mais de seis meses nesse trajeto até mudar de casa. Nesse tempo, Guimarães Rosa me fez companhia. Li “Grande Sertão: Veredas” nessas duas horas diárias de viagem. Lembro até o que eu fiz no dia em que Riobaldo uivou de tristeza. Interrompi a leitura, completamente afogado pelas emoções do jagunço e lancei um olhar perdido na cidade à minha volta. Sertão bruto me cercava. E Riobaldo uivava.

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