curso chico viana

  • História arcaica

    Essa história aconteceu no tempo do ronca, quando o recato das moçoilas era-lhes o maior trunfo para os casórios. Quanto mais pudibundas, mais candidatas à celebração nupcial. Daí que se esmeravam em ostentar um ilibado comportamento em sociedade; quando iam às tertúlias, era na companhia das genitoras ou de alguém a quem incumbia vigiá-las.      

    Conta-se que um mancebo sem eira nem beira intentava namorar uma dessas donzelas de truz. Para isso usava toda a sua léria, mas o pai da moça se opunha por achar que ele era um mandrião. Não se ocupava em nada que lhe trouxesse algum tipo de estipêndio.  O moço pretendia convolar de estado civil – mas como, se mais parecia um mequetrefe?

    O pai então lançou-lhe um repto: ele casaria com a sua filha se jungisse a tal desiderato a demonstração de que não era um soez.

    – E o que devo fazer? – quis saber o rapaz. 

    – Deves dar-me a prova de que tens futuro. 

    Em meio a tão escorchante desafio, o moço foi aos poucos sentindo gorarem-se-lhe as pretensões. Não era nenhum abilolado e percebeu que o queriam apartar da contenda.  Caminhou a esmo na noite até que, esfalfado, resolveu tomar um pifão. Quando a ebriedade lhe turvou o bestunto, dirigiu-se à casa da moça.   

    Postado em frente à alcova onde ela dormia, encetou uma elocução:

    – Não tenho prebenda, mas não sou nenhum sorrelfa. Juntos viveríamos com parcimônia, mas não à míngua. Juro-to.

    A moça, já adormecida, despertou num sobressalto. Colocou furibunda o corselete, que preferia ao califom, e foi até a janela:

    – Arreda-te, doidivanas. Não vês que nada ganhas com tais ululações? Além disso, tiraste-me dos braços de Morfeu.

    – Morfeu?! Então tens outro… Por que não me falaste? – gorgolejou o rapaz, já pensando em cascar a marreta. Mas logo tirou da cabeça essa ideia, pois no fundo era um poltrão.   

    – Se não sabes quem é Morfeu, com isso apenas provas a tua estultice. E dás razão a meu pai… – continuou a moça. Dito isso, fechou com estrépito a janela.

    O rapaz foi embora achando-se um alarve. Ainda pensou em ir até uma botica comprar um sanativo que lhe diminuísse a coita. Ao mesmo tempo, contudo, sentia-se ditoso por haver descoberto a traição. Melhor saber-se guampudo agora do que depois.

  • A idade do bobo

    A idade do lobo é a expressão com que se costuma designar a andropausa. Não sei por que foram escolher o lobo como referência para esse delicado período, que se traduziria melhor por meio de um bicho menos feroz. Geralmente nessa época o indivíduo tem pouca coisa de lupino; está mais para cágado, coruja, caramujo ou qualquer desses animais estáticos e meditabundos.

    Talvez a analogia com lobo venha da tristeza uivante com que ele vê o desejo indo embora. Não propriamente o desejo, que esse não se extingue nunca, mas a plena possibilidade de satisfazê-lo. Os uivos seriam uma demonstração de desespero impotente, um ganir melancólico de quem sente a aproximação da morte.

    Há quem diga que a designação de “lobo” deve-se a que o crepúsculo da libido se reveste de uma aparência oposta. Por uma espécie de compensação, o indivíduo se tornaria agressivo e conquistador. Perseguiria com insaciável ousadia as mulheres mais novas, lembrando nisso um lobo faminto à cata de ovelhas.  E quanto mais tenras, mais apetecíveis.

    Acredito que tanto a melancolia quanto a afetada hipersexualidade justificam a denominação. E que por esse último aspecto a Idade do Lobo comumente se transforma em idade do bobo. Nada haveria de grave se o indivíduo sofresse o seu banzo de forma recolhida, aceitando com superioridade e compostura o arrefecer do desejo e (o que mais dói!) a indiferença das mulheres.

    Mas o comum é ele descambar de lobo para bobo, o que só tende a piorar o quadro. É típico do processo, por exemplo, interpretar como sinal de correspondência ao seu olhar faminto um simples sorriso ou um gesto despretensioso de carinho. Isso o faz deveras sofrer, pois é próprio das mulheres novas sorrir muito e ser naturalmente carinhosas (as maduras são mais sérias).

    Cada sorriso, cada aceno de voz gentil deflagra nele uma paixão. Só muito depois, diante do espelho, ele compreende que aquela meiguice tinha alguma coisa de filial. Fora tratado, por deferência à idade, como uma espécie de pai. Ou pior: de tio. Quando se dá conta disso, seus uivos se tornam mais tristes.

    O limite da idade do bobo pode ser o extremo ridículo ou um recuo tático rumo às atividades do intelecto e do espírito. Uns fazem poemas, outros se voltam para a filosofia (filosofar, como alguém já disse, é aprender a morrer) ou se tornam adeptos de alguma religião. Se nada mais esperam do corpo, que pelo menos se salve a alma.

    Mas há os que se recusam a cair na real. E podem, nesse cultivo de paixões impossíveis, até chegar à tragédia. São bobos tristes, terminais, que tingem os cabelos – e a careca – para disfarçar os efeitos do tempo. Em vão.

  • Sobre a mentira

    A mentira é também a nossa verdade. É uma forma estratégica de nos relacionarmos com o mundo. Que seria de nós sem esse espaço de manobra que nos permite lidar com a pressão dos outros? Acossado por deveres sociais, éticos, econômicos, não resta ao homem senão mentir.

            O problema não está em mentir ou não mentir. Está no intuito com que se mente. Não se deve, por exemplo, usar a mentira para prejudicar ninguém. Ela é um meio de preservação pessoal, não uma arma para agredir o semelhante. Serve à defesa, não ao ataque. Machado fala de uma “mentira piedosa”, dita para poupar os outros. O tipo mais comum de mentira, no entanto, é o que se inventa para poupar a si mesmo.

              O amor e a política são os domínios em que mais se mente. No primeiro imperam as promessas, as famosas “juras”, que nem sempre correspondem ao que sente o coração. Na segunda prevalece a demagogia, que do seu sentido etimológico de “condução do povo” passou ao de conjunto de estratagemas para enganá-lo. O eleitorado sabe disso, mas não tem outra saída senão fingir que acredita e votar em quem o engana. A isto se dá o nome de logro, digo, jogo democrático.

             A mentira é inevitável porque o homem existe a partir da linguagem, que é por si “mentirosa”. A linguagem não passa de um artifício com que representamos o mundo, e toda representação é um disfarce, uma tentativa fracassada de transmitir a verdade que se quer traduzir. O que dizemos, mesmo que sejamos sinceros, sempre é distinto do que pretendemos significar. Alguém já falou, e com razão, que a verdade é indizível.

              Por outro lado, como isso foi dito por meio de palavras, é também uma frase mentirosa. Deve então haver uma verdade dizível; o grande problema (hermenêutico, filosófico, metafísico) é descobrir qual. Enquanto isso não ocorre, vamos continuar mentindo. 

              Costuma-se perguntar quem mente mais – se o homem, ou a mulher. Diz-se que é a mulher, com base no ardil que Eva usou para iludir Adão e levá-lo a comer o fruto proibido – início de todos os nossos males. Mas isso é uma injustiça com a mulher, que não tinha como adivinhar que a serpente era o Tinhoso, ou seja, o Pai da Mentira. Ficava difícil escapar de alguém que tinha esta simbólica denominação.

           Acredito que o maior mentiroso seja o homem, pois ele faz mais coisas erradas. A mentira é diretamente proporcional ao que se tem a esconder. Visa a nos redimir, pelas palavras, de erros pelos quais não queremos nos responsabilizar. As mulheres, por serem emocionais e afetivas, são também mais sinceras. Deixam transparecer pelo olhar o que está nas entrelinhas e falam através do coração.   

             A pior mentira é a que o indivíduo prega em si mesmo. É o autoengano, que por covardia ou impotência nos alheia da nossa verdade interior. A maioria das pessoas finge ser o que não é para parecer bem diante dos outros. Se parecem bem, sentem-se bem. Saber que os outros as imaginam felizes lhes traz felicidade – uma felicidade superficial, que não resiste ao veredicto do espelho.

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