Envelhecer

  • Duplo carpado

    Quando surgiu o papo de que 60+ era a melhor idade, eu não levei a sério. Julguei se tratar de ironia social ou brincadeira de mau gosto.

    A maioria de nós, obviamente, não deseja morrer. Mas, daí a achar que a velhice é a esperada sobremesa ao final do jantar, já é demais.

    Envelhecer, decerto, não é o fim do mundo, mas exige traquejo e criatividade para que o processo seja vivido como percurso e não como chegada.

    O discurso social não facilita o trabalho nem suaviza o trauma: você ainda está se familiarizando com as rugas, com o ganho de peso, lapsos de memória, ressecamento generalizado e já se depara com a placa de sinalização da vaga para idoso. Pelo amor de Deus, aquele boneco envergado, de bengala, é um algum tipo de mau presságio? Me causa calafrios de horror. Não teria outra forma de nos representar?

    Ouvi dizer que um supermercado aqui no Rio vai adotar outros símbolos como. por exemplo, um boneco surfando ou jogando tênis para sinalizar a vaga de idoso em seu estacionamento. É bem verdade que a figura do esportista está longe de me representar, mas prefiro. Pelo menos, me inspira. Além disso, a médio prazo, iniciativas como essa ajudarão a “descriminalizar” a velhice.

    Sabemos que envelhecer não é um exercício de baixa intensidade, pelo contrário, é uma acrobacia de alta complexidade. Para executá-la é preciso treino e persistência.

    Pensando bem, gosto da ideia de ter um(a) acrobata como símbolo da vaga de idoso. Como segunda opção, sugiro aquela trave de equilíbrio, o cavalo com alças ou as barras assimétricas da ginástica olímpica. Também simbolizam bem o desafio dessa fase da vida. Envelhecer é um exercício árduo. Nos exige foco, controle emocional e, acima de tudo, uma vontade enorme de bater recordes, vencer e escrever seu nome na história.

  • A recusa a envelhecer

    Tem crescido o número de pessoas que se submetem a procedimentos estéticos. Segundo li em matéria divulgada pela Internet, no Brasil houve um aumento de 390% na procura por esses procedimentos no primeiro trimestre de 2022, em comparação com o mesmo período do ano anterior”. Retirada de gordura, preenchimento facial ou mesmo a tradicional plástica são comuns nos que querem melhorar o seu aspecto físico.   

    Muitos desses procedimentos não são seguros, e a gente se pergunta o que leva as pessoas a correrem esse tipo de risco. A resposta parece óbvia: a recusa em aceitar a deterioração que a velhice traz. Se beleza é juventude, como se costuma dizer, envelhecer é ficar feio e ir de encontro às determinações de uma sociedade que exalta a aparência e pouco liga para o que há dentro de cada um.   

    Recentemente morreu Alain Delon, um dos ícones modernos da beleza masculina. A mídia fez questão de confrontar sua imagem de hoje com a do jovem que décadas atrás fazia as garotas suspirarem. Desse confronto emergia a dura percepção do que o tempo faz ao corpo, roubando-lhe o prumo, o viço, a esbeltez que ele ostenta nas primeiras décadas de vida.

    Bilac escreveu que a velhice é coisa vil – lembra Rubem Braga em uma de suas crônicas. “Vil” quer dizer “desprezível”, um adjetivo forte e talvez injusto, mas que muitos usam sem hesitação nem pejo para qualificar esse delicado momento da vida.

    Um paradoxo curioso é que antigamente, quando a ciência cosmética dispunha de poucos recursos, havia uma maior aceitação da chamada senectude (expressão ante a qual muitos se arrepiam, temerosos das macacoas comuns a esse estágio da vida). Envelhecia-se mais cedo, é verdade, mas havia uma maior tendência a aceitar o duro veredicto do tempo. Parecia não haver mesmo outro jeito.        

    Hoje o comum é se insurgir contra as transformações determinadas pela velhice. Se existem alternativas, por que aceitar as rugas, estrias e outras marcas que ela traz?  Não é melhor submeter o corpo aos reparos que, com o dispêndio de uma boa grana, podem lhe dar um aspecto de novo juvenil?

    Tudo seria simples e gratificante se a Natureza propiciasse esse tipo de reversão. Apesar de filosoficamente se falar em “eterno retorno”, a verdade é que o tempo não nos permite retroceder. No mais das vezes, os estratagemas com que procuramos nos furtar ao seu fluxo terminam por se voltar contra nós. Piorando, por exemplo, o aspecto que se queria esconder. Ou ironicamente antecipando o fim, como ocorre nos acidentes letais que vemos hoje em mesas e leitos de cirurgias estéticas.


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