enxeridas

  • Conversar ou “zapear”?

    Alguém ainda tem comadres?

    Conheceu algumas? Elas eram parte do cotidiano das famílias.

    Eram respeitadas, ouvidas, esperadas. “Vamos cortar o bolo quando a comadre chegar.” Tinha também as enxeridas, aquelas que sempre sabiam mais ou fariam melhor. Com um detalhe: entre comadres perdoa-se tudo! 

    Mas o principal atributo delas era conversar.

    Lembro-me de que, quando criança, ao final da tarde era o nosso horário de lazer, de brincar, correr… Nossas mães sentavam-se à sombra das árvores ou nas varandas para nos cuidar e ter um “dedo de prosa” com suas comadres. Esse momento do dia as fazia espairecer, esquecer as dificuldades que houvesse e, renovadas, crianças e adultos, preparavam-se para o dia seguinte. Falavam muito, é verdade, mas também escutavam. Havia tempo, havia presença.

    Tempo que já não temos. Ou nem precisamos. Crianças brincam e jogam dentro de seus quartos, umas com as outras, em jogos virtuais. Que não as atrapalhemos, elas estão “brincando”.

    Adultos? Encontram-se, com certeza, mas nos ambientes de trabalho, em restaurantes ou em compromissos sociais. Conversam, sim. Digitam, enviam, respondem. Tudo rápido, tudo imediato. A comunicação é instantânea, os assuntos são variados, as opiniões são dadas sem nenhum constrangimento. Para isso estão as redes sociais, os grupos de amigos e os da família.

    Estamos sem tempo… Falamos muito. Escutamos pouco.

    No entanto, o colóquio, a conversa, o olhar nos olhos, o cuidado ao falar, tudo isso vai ficando mais escasso. A interação deixou de ser genuína, afetuosa, despretensiosa, leve. A presença tornou-se rara, embora estejamos permanentemente conectados.

    É muito estranho isso. Comunicamo-nos veementemente pelo WhatsApp, mas não temos o que conversar se estivermos presencialmente, pois a impessoalidade e a indiferença dominam o cenário atual.

    Qual será o futuro da humanidade? Onde ficará a solidariedade, o estender a mão, os olhos nos olhos, a atenção real, o jogar conversa fora das antigas comadres?

    E o sorriso feliz da criança ao receber o presente de aniversário da madrinha, afoita para desmanchar o laço e arregalar os olhos de surpresa? Como se hoje o presente viesse por “pix”?

    Deixo aqui essa reflexão e não me estendo mais, porque a amiga está me chamando no WhatsApp.

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