Dona Maria era uma mulher metódica. Todos os dias cumpria seu ritual sem faltar. Acordava pelas manhãs logo que o dia raiava, preparava um café bem preto, forte e aguardava por Zequinha, o menino que vinha trazer seu pão, sempre quentinho e fresquinho. Quando chegava, ela despejava o líquido, ainda quente, em sua xicara e ia bater ponto em sua janela. Maria jamais atrasava nesse compromisso matinal.
Gostava sempre de chegar em seu “serviço” bem cedo, pois o tempo perdido poderia ser o causo não presenciado.
Geralmente, logo pela manhã era difícil que algo acontecesse. Todo mundo da vila passava em disparada para que não atrasasse no seu dever sagrado diário. Cada pessoa que passava pela janela daquela casa falava “Bom dia Dona Namoradeira” e ela retrucava “Meu nome é Maria, fio(a) de satanás”. A verdade é que todos sabiam que já havia adotado aquele apelido carinhoso, mas ela fazia questão de demonstrar que não gostava nada daquilo.
Certa vez, um garoto que costumava passar o dia brincando naquela rua e era bem do atrevido decidiu lhe perguntar de onde vinha aquele apelido. Brava, ela respondeu:
— Foi um sujeitinho saidinho que andava por essas bandas faz muito tempo e era doidinho pra se engraçar pro meu lado. Como eu nunca dei bola, ele tentou criar essa história de namoradeira, vê se pode meu fio?
Nada que acontecia por naquela vila passava despercebido aos olhos da senhorinha. Por esse motivo, o povo da vila criou o hábito de logo de noitinha, um pouco depois da noite tomar conta da cidade, se reunir na casa de Maria. Nessa hora, ela se dedicava a contar os causos do dia. As histórias eram diversas, como no dia em que o marido da vizinha voltou mais cedo pra casa e encontrou sua mulher na cama com o carteiro. Ela contou, a quem estava naquela sala a seguinte história:
— Meus fios, hoje aconteceu por aqui a tragédia que estava se anunciando faz é tempo. Todo dia eu percebia que o carteiro trazia uma carta pra Celinha e ficava lá dentro da casa dela de proza. O ritual era sagrado. Até que hoje, o Gumercindo, coitado desse homi trabalhado que só ele, decidiu voltar pra casa mais cedo, Trouxe até flores! Só que quando chegou viu a danada da Celinha no rala e rola com o carteiro. Que confusão meus fios. Vuou foi roupa e mala pra todo lado. Tadinho do seu Gumercindo, tão trabalhadô.
Geralmente, ela procurava contar as histórias e acontecimentos do dia, mas nem sempre seu radar conseguia apurar notícias fresquinhas. Nesse caso, era comum que ela contasse histórias do passado, de uma época em que nenhum dos que se faziam presentes naquela sala viveu. Foi assim que descobriram que certa vez morou naquela vila um homem bem estranho que, como muitos falavam na época, todo dia de lua cheia saia de sua casa uivando atordoado igual a um animal descontrolado.
Certo dia, o povo daquela vila passou pela janela da namoradeira e viu que ela não estava cumprindo seu dever diário. Todo mundo estranhou, mas, na correria do dia, ninguém teve tempo de ir perguntar a senhora o que havia acontecido.
De noite, ao perceberem que ela não apareceu em sua janela durante nem uma hora daquele dia, os moradores decidiram bater em sua casa. Batidas sem nenhuma resposta… Alfredo, o fortão da vila, decidiu arrombar a porta e, quando todos entraram, se depararam com Dona Maria totalmente em paz em sua cama dormindo um sono eterno. Ao lado, na cabeceira, havia um bilhete que dizia “meus fios, o homem e a muié morrem, a carne vira comida pra bicho, mas as histórias nunca podem morrer. Eu estou indo, mas nunca deixem que morram as histórias que contei e as histórias que ainda acontecerão nesse lugar.”