Escola de Samba

  • 8ª Escola a Desfilar: Unidos da Tijuca – Carolina Maria de Jesus

    “Meu quarto foi despejo de agonia / a palavra é arma contra a tirania’’. Essa frase do samba da Unidos da Tijuca revela muito bem como sua homenageada utilizou a palavra como uma arma denunciando as desigualdades brasileiras e dando voz a pessoas esquecidas. Trata-se de Carolina Maria de Jesus, como o próprio título do enredo já revela.

    Pela sinopse de seu enredo, a Tijuca fará uma homenagem ao estilo tradicional. Ou seja, ela pretende contar a história de Carolina que começa no cerrado de Minas Gerais, onde a gigantesca mulher, ainda criança, aprendeu com os ensinamentos de seus ancestrais. Dentre eles, está o seu avó Benedito, o tal “preto velho que lhe ensinou os mistérios” como o próprio samba enredo já diz.

    Desse jeito, o enredo vai acontecendo em capítulos. Entre eles, está aquele em que ela vai trabalhar na roça e acaba presa e humilhada por portar um dicionário! Além disso, foi acusada de feiticeira e de ser uma mulher que queria causar prejuízos aos brancos, os donos do local (ou melhor, que achavam ser isso). Pensar em uma Carolina acusada de bruxaria é pensar no destino de várias mulheres que, ao se indignarem com as injustiças que o mundo lhes impunha, foram acusadas do mesmo.

    Infelizmente, vivemos uma realidade em que cada característica física de uma pessoa faz com que ela desça um degrau na escala social. Aí, quem é homem e branco fica lá em cima, já uma mulher, preta, que mora na periferia fica lá embaixo nessa escala que impõe diversas dificuldades para que essas pessoas sejam vistas.

    Carolina não só viveu essa realidade, ela se indignou com ela e resolveu contar. Isso porque, tinha uma arma muito mais barulhenta e potente que qualquer calibre que só se presta para calar vozes. Assim, fez de seu lápis megafone e falou para a sociedade sobre sua realidade, ainda que tenha tentado ser calada.

    Por todos esses motivos, fica claro que a Tijuca acertou muito em seu enredo. É necessário homenagear a coragem de uma mulher que nunca se calou diante de sua situação. Que a força de Carolina Maria de Jesus se espalhe para outras mulheres de fibra como ela, pois serão capazes de mudar esse país.

  • 6ª Escola a Desfilar: G.R.E.S. Beija-Flor de Nilópolis – Bembé

    “Deixa girar, que a rua virou Bembé/ Deixa girar que a rua virou Bembé”. Começo a escrever esse texto escutando a versão cantada pelo lendário Neguinho da Beija-Flor. Será que o primeiro ano sem ele vai gerar saudades? Pergunta retórica, não é? Fato é que seus substitutos também parecem estar em total condição de levar o bonito samba da escola na avenida. Agora, vocês sabem o que é o Bembé de Mercado?

    De acordo com o próprio enredo trata-se do “maior candomblé do mundo-nascido da transgressão de João de Obá, mantido na resistência do Pai Tidu, acalentado na doçura de Mãe Lidia, insistido na inquietude de Pai Pote e preservado na firmeza de sua Iyá Egbé e de seus detentores.”

    Acho importante citar todas essas figuras. Também o é falar um pouco sobre a história dessa festa que nasceu em Santo Amaro, no ano de 1889, por meio da ocupação de João de Obá para realizar uma grande festa de candomblé que durou três dias. Desde então, todo 13 de maio, a festa se repete no Largo do Xeréu e reúne quase uma centena de casas dedicadas a essa religião.

    É essa festa carregada de representatividade e de poder ancestral que a Beija-Flor pretende reproduzir na Sapucai. Quando falo em reprodução, o faço em sentido literal. Isso porque, tanto o samba-enredo quanto o enredo indicam que a escola pretende fazer um grande Xirê na avenida.

    Conseguem imaginar a força que esse desfile promete trazer para a avenida? A Beija-Flor, atual campeã do carnaval carioca, vem forte com um desfile que parece prometer colocá-la como forte candidata ao bicampeonato. Como um amante do carnaval posso dizer que esse enredo causou grande impacto e
    uma promessa de muitos arrepios ao longo do desfile. As forças ancestrais agradecem a escola por trazer ao conhecimento do Brasil que não conhecia uma festa tão cercada de representatividade e brasilidade.

  • 3ª Escola – Portela: O Mistério do Príncipe do Bará – A oração do Negrinhoe a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande

    “O pampa é terra negra em sua essência”. Essa é uma das frases presente no samba-enredo da Portela em 2026. É possível que essa afirmação seja questionada por quem acredita que o Estado do Rio Grande do Sul tem influência unicamente europeia. A maior vencedora do carnaval carioca vem questionar essa versão com um enredo afro-gaúcho que vai falar sobre o Príncipe Custódio por meio de um encontro entre o Negrinho do Pastoreio e Bará. Você sabe quem são essas figuras?

    A lenda do Negrinho do Pastoreio conta a história de um menino escravizado que foi severamente abandonado em um formigueiro como forma de punição.

    Esse garoto se recupera e se torna uma entidade protetora famosa no folclore gaúcho.

    Já Bará é o senhor dos caminhos e das encruzilhadas, do movimento, abertura de portas, justiça a prosperidade. Também é chamado de Exu Bará e o enredo o caracteriza como o dono dos caminhos e senhor das histórias.

    Em relação ao grande protagonista desse enredo, ou seja, o Principe Custódio (Osuanlele Okiziero), trata-se de um Principe que chega ao Brasil, ainda na condição de príncipe e não como escravizado e, após mudar-se para a região Sul, torna-se o fundador da religião conhecida como Batuque, a religião com mais adeptos e casas abertas no Brasil.

    A Portela conterá sua história em partes e envolvendo as duas primeiras figuras apresentadas. Na primeira parte, o Negrinho do Pastoreio comunica a Bará sobre o achado de uma coroa cujo dono (o príncipe) é desconhecido pelo brasileiro. Depois, a chegada desse príncipe ao Rio Grande com posterior criação do Batuque. Criação essa que assentou a cultura negra nos Pampas.

    No final Negrinho do Pastoreio, representando a juventude negra sulista, recebe a missão de levar adiante as lições de Custódio, o príncipe negro dos Pampas Gaúchos.

    Todo esse bonito enredo merece que seja dado o devido destaque a uma frase do samba: “Enquanto houver um pastoreio/ A chama não apagará”. Essa parece ser a principal mensagem do enredo portelense, ou seja, a esperança de manutenção deste legado está na juventude negra gaúcha.

  • 1ª Escola a Desfilar: Acadêmicos de Niterói – Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil

    “Vale uma nação/ Vale um grande enredo/Em Niterói o amor venceu o medo”. Será que o medo foi realmente vencido? O samba-enredo da Acadêmicos de Niterói, ao menos, mostra que essa escola não teve medo nenhum ao escolher qual seria o tema de seu desfile. Isso porque, em um país extremamente polarizado, essa escolha certamente despertará a admiração de alguns e o ódio de outros. A escola (estreante no grupo especial) de Niterói promete que passará na avenida mais um samba popular. Será?

    Sem mais perguntas, vamos falar mais um pouco sobre o enredo da Acadêmicos de Niterói. Conforme já deve ter percebido, a escola fará uma homenagem ao atual presidente Luiz Inácio da Silva, o Lula, que, segundo cita a sinopse, é o político mais bem sucedido de seu tempo. Concorda com essa afirmação? Independente disso, fato é que Lula tem uma história a ser contada. Se assim o é, como isso será feito?

    De acordo com a sinopse, tudo se inicia em sua infância no agreste pernambucano, onde Lula, menino pobre, foi criado por Dona Lindu junto aos seus sete outros irmãos, ouvindo histórias de almas penadas. Diante da seca de 1952, saiu de Pernambuco em migração para São Paulo em viagem que durou 13 dias e 13 noites. Na nova cidade, tornou-se operário, virou figura chave na luta sindical durante a ditadura militar e tornou-se presidente com mais de 52 milhões de votos.

    Essa claro, é a história super resumida. Fato é que a escola pretende exaltar os feitos de Lula voltados aos trabalhadores e a redução da pobreza. Isso, é claro, sem perder a oportunidade de alfinetar o seu grande adversário no cenário político atual.

    Sobre o samba e o enredo que será apresentado pela escola, a maior curiosidade está relacionada a aceitação do público. Será que o samba será cantado pela Sapucai? Vamos aguardar. Além disso, será que a escola vai conseguir cumprir o desafio de se manter no Grupo Especial?

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar