Escola Lobatos

  • O paradoxo das leis de proteção aos cães no Brasil

    De vez em quando, o Brasil acerta na proteção aos animais. O Governo de São Paulo, por exemplo, tomou uma decisão justa ao proibir o acorrentamento de cães e gatos no Estado. Uma lei que soa óbvia, mas que só agora, em pleno século XXI, recorda o que qualquer responsável sempre soube: prender um animal pelo pescoço não é educar, é torturar. Cães não nasceram para viver sob grilhões. Nasceram para correr, farejar, vigiar, proteger e amar. Quando lhes roubam esse direito, não é apenas a liberdade que se perde, é a dignidade de um ser senciente que é negada.

    Nem toda lei criada pode ser chamada de necessária. Muitas vezes, são apenas cortinas de fumaça que não atingem o problema em seu cerne. A falta de conhecimento leva a legislar mal. Foi o que aconteceu em Campinas, onde vereadores propuseram proibir de vez o uso das coleiras eletrônicas, os chamados e-collars. A boa intenção é inegável. Afinal, quem gosta da ideia de dar choque em cachorro? Só que a vida é mais complicada do que a pauta de uma sessão de Câmara Municipal. Essa lei pode acabar virando um tiro no pé: condenando justamente os cães que poderiam ser salvos por um último recurso. A vida não cabe em generalizações. Há cães que não se enquadram no “sempre” ou no “nunca”. E é justamente aí que mora o perigo de uma proibição cega.

    A ciência já mostrou que reforço positivo pode ser um caminho mais adequado para substituir métodos arcaicos. Cães educados sem violência tornam-se mais estáveis, confiantes e felizes. Bater, ameaçar, causar dor, nada disso é linguagem canina. Além de não educar, semeia medo e alimenta a agressividade. Mas a realidade, áspera como é, também impõe exceções. Nos registros silenciosos das estatísticas aparecem os casos extremos: cães que se tornam ameaça constante, que atacam seus próprios donos, que colocam em risco vizinhos e famílias inteiras. Donos exaustos, depois de verem todas as técnicas falharem, encontram-se diante de um dilema cruel. Nesse contexto, sob protocolo clínico, técnico e ético, o e-collar deixa de ser castigo e torna-se ferramenta de resgate.

    A filosofia já dizia, muito antes de a ciência confirmar: a virtude está no meio-termo. Aristóteles chamava de phronesis, a prudência. Nem a tirania da dor, nem a ilusão permissiva do “tudo pode”. Entre esses dois extremos ergue-se o ponto de equilíbrio: autoridade sem crueldade, firmeza sem violência, atitude sem condenação. No Treinamento Invisível seguimos essa linha. A guia funciona como extensão do corpo, o olhar age no instante preciso; o gesto conduz sem brutalidade. Tudo isso vale mais do que qualquer mecanismo elétrico. Mas também sabemos reconhecer o imponderável. Em situações complexas, uma ferramenta pode significar a diferença entre a vida e a morte. Negar sua existência pode soar confortável, mas na prática é condenar cães ao abandono ou à eutanásia.

    Por isso, é preciso afirmar sem rodeios: sou contra cães acorrentados. A imagem de um animal acorrentado é, por si só, angustiante. Mas sejamos honestos: em alguns casos extremos, recorrer ao e-collar para evitar um fim trágico pode ser a única saída. Não é escolha fácil, nem deve ser banalizada. Só se justifica quando ciência, ética e circunstância caminham juntas, quando tudo já falhou e não restam alternativas. O risco, nesses momentos, não é apenas técnico: é moral.

    E é nesse contraste que mora o paradoxo: São Paulo quebra as correntes para que os cães vivam. Campinas ameaça abolir a última porta para que alguns condenados continuem vivos. Uma lei que liberta, outra que, se não refletida com prudência, pode aprisionar de outra forma. Entre as duas, está o desafio maior: compreender que educar não é prender nem castigar, mas também não é cruzar os braços diante do irremediável. A vida pede equilíbrio. E os cães, mais do que ninguém, estão entre nós para ajudar a trazer discernimento.

  • Adotei um border collie com genes recessivos. E agora?

    Havia cinco filhotes naquela ninhada. Quatro pareciam feitos da mesma matéria: pretos, compactos, quietos, como se o tempo, para eles, fosse mais lento. Mas um, o quinto, era diferente: albino, um olho de cada cor e esperto por natureza. Maior, mais firme nas patas, olhos acesos como se lesse pensamentos, o primeiro a alcançar as tetas da mãe, o único a reclamar quando um irmão tentou dividir espaço. Um pai que chegava para escolher o cão ideal para a sua família, viu aquele filhote branquinho e disse, com a falsa intuição de quem se julga conhecedor:

    — Filha, vamos levar esse!

    A garotinha, sem dizer muito, pulou no colo do pai e disparou uma centena de beijos em suas bochechas.

    Levaram-no para casa no banco de trás, entre a filha entusiasmada e a mulher preocupada com o cheiro de urina. Deram-lhe o nome de Pompom, porque era macio, redondinho, quase irreal. Tinha o pelo branco como neve recém-caída, olhos de botão e patas desajeitadas que escorregavam no banco de couro. Talvez, no fundo, acreditassem que o nome pudesse conter o ímpeto daquele filhote que, aos olhos da menina, mais parecia um brinquedo de pelúcia prestes a ganhar vida

    Nos primeiros dias, Pompom dormia como qualquer cão recém-chegado. Mostrava-se assustado, medroso com os ruídos, e choramingava com a ausência da mãe. Mas logo a rotina ganhou outros contornos. Descobriu como explorar a casa, fazer xixi e cocô por tudo quanto é lugar — menos na fralda. Quando arrastou o tapete até o quintal e roeu o que pôde dos móveis da casa, deixou de ser engraçado.

    Não demorou para começar a rosnar ao redor da comida. A mãe estranhou e o chamou de ciumento. Quando passou a latir para carros e motos, ou a correr atrás das pessoas mordiscando calcanhares e cercando o grupo como se fosse gado, o pai ficou desesperado… Ele ainda não sabia, mas adotara um cão de linha de trabalho, descendente de campeões e com um drive altíssimo.

    O pai até cogitou a devolução, mas sentia-se responsável por aquela vida. Ligou para o dono do canil em busca de uma solução imediata, e ouviu, do outro lado da linha, a resposta fria de quem já não podia, ou não queria, se envolver:

    — Esse cão não foi feito pra sofá. Ele precisa de função.

    Foi a primeira vez que a palavra função apareceu. A partir daí, as coisas pareceram desandar entre o cão e o resto do mundo. Um cão que só faz o que quer é incontrolável. Disse a si mesmo:

    — Um cão que só faz o que quer é incontrolável.

    Pompom era, de fato, um legítimo border collie, embora o pai mal soubesse o que isso significava. Não era apenas uma raça, mas uma potência. Um corpo moldado por gerações para pensar em movimento, responder a comandos invisíveis, pastorear o caos. E, mais do que tudo, um cérebro preparado para trabalhar horas a fio com um único propósito: controlar rebanhos vivos. Na ausência de ovelhas, bastava-lhe algo que se movesse.

    Mas ali não havia rebanhos. Só almofadas, tapetes e uma menina que sonhava com um amiguinho. E, quando não se dá uma missão a um cão com a inteligência de um border, ele inventa uma. Pompom pastoreava a casa inteira: cercava portas, montava guarda, rosnava quando o aspirador mudava de direção. Seguia sombras, latia para ventiladores, mordia o próprio rabo. Rodeava, sem parar, a mesa de jantar e até bebia a água da piscina. Tudo parecia brincadeira ou jogo. Para um leigo, era difícil saber.

    O primeiro adestrador tentou o método positivo. Disse que não havia caminho melhor. O segundo, estúpido e apressado, propôs colocar uma coleira de choque no filhote. O terceiro, adepto de florais, também não teve progresso. Restava estudar. Mergulhar nos livros, entender o comportamento canino. E foi assim que, com a ajuda de um novo treinador, começou a compreender as raízes de tantos transtornos.

    Enfim, surgiu uma nova teoria: genes recessivos comportamentais. Traços invisíveis à primeira vista, mas capazes de emergir quando duas linhagens equivocadas se cruzam. Características que não apareciam nem no pai, nem na mãe, mas que, uma vez ativadas, exigiam contenção. E não qualquer contenção: rotina, clareza, estímulo, constância.

    A palavra recessivo ficou martelando na cabeça do pai. Começou a ler. Descobriu que a genética não é destino. É mapa. E que esses genes não vêm sozinhos: carregam comportamentos instintivos que, quando ignorados, explodem. Ansiedade por movimento, obsessão por tarefa, reatividade emocional. Era isso que pulsava dentro de Pompom. Ele não era um cão-problema. Era um cão incompreendido.

    E então, finalmente, o pai fez o que jamais havia feito: olhou para dentro e traçou novas metas.

    Começou a levar Pompom ao futebol. Passou a acordar mais cedo para correr com o cão. Leu livros de comportamento canino com a mesma atenção que antes dava ao noticiário esportivo. Aprendeu sobre epigenética , o modo como o ambiente pode acender ou apagar comportamentos nos cães. Entendeu que amor, sozinho, não basta para dar direção. Que amor sem conhecimento vira pena. E pena, quase sempre, vem seguida de raiva. Frustrações pelas “provocações” que Pompom fazia.

    Como diria Edmund Burke, “a sociedade é um contrato entre os vivos, os mortos e os que ainda hão de nascer”. O pai compreendeu que, entre homem e cão, também existia um pacto silencioso — selado pela ancestralidade, pela vocação impressa na carne. e que esse pacto precisava ser honrado, não ignorado.

    A rotina da casa mudou. Pompom passou a ter tarefas, jogos de olfato, percursos no mato, comandos de espera e recompensa. O treinador ensinou novos comandos, sempre desafiando sua capacidade mental. A ansiedade deu lugar à escuta. O corpo deixou de implodir. O olhar, antes elétrico, tornou-se profundo.

    A menina voltou a brincar com ele. A mãe, a sorrir das travessuras de Pompom. Ele já não mordia, nem destruía os móveis. Deixou de ter posse do sofá ou da comida, mas ganhou um cantinho na cama, toda vez que entrava no quarto devagarinho.

    — Quando ele faz essa carinha, a gente pode deixar entrar!

    O pai compreendeu, por fim, que não havia adotado um ursinho de pelúcia, mas um ser com passado. Que os cães que parecem mais brilhantes, mais ágeis, mais espertos são, muitas vezes, os mais difíceis de manter. Que herança genética não se reverte com agrado, mas se conduz com consciência. E vigiar, para ele, é função. Porque cães como ele não descansam.

    Se o seu cão tem genes recessivos, não procure culpados. Não tente corrigi-lo com vídeos da internet. Não espere que ele se adapte ao seu sofá, ao seu tédio, à sua pressa. Porque, cedo ou tarde, o que ele carrega vai emergir. E, quando isso acontecer, você vai ter que escolher entre fugir ou tornar-se melhor.

    Pompom, por sorte, teve pessoas que decidiram mudar hábitos para construir uma relação melhor. Mas a sorte, você sabe, não é o que determina o fim da história. É a escolha. E a coragem de sustentá-la.

  • O espelho invisível: o que seu cão reflete sobre você?

    Nossos hábitos moldam o comportamento dos cães e, muitas vezes, sem perceber, os transformamos exatamente naquilo que não gostaríamos que fossem. Essa reflexão pode soar dura, mas carrega uma verdade inegável que frequentemente é ignorada. Por trás de cada olhar atento e de cada rabo que balança diante de nós, há um reflexo sutil de nossas ações, emoções e até mesmo de nossos pensamentos.

    É intrigante como as pessoas se esforçam para ensinar comandos como “senta” ou “fica”, enquanto negligenciam a poderosa linguagem invisível que permeia suas expressões corporais e verbais. Cada interação, por menor que seja, contribui para a construção da personalidade e do comportamento dos cães. Sentar-se à mesa é um momento que simboliza respeito e, por isso, não deve ser compartilhado com cães, a menos que eles demonstrem equilíbrio e saibam se comportar educadamente. Ainda que essas regras possam ser flexibilizadas, isso só deve ocorrer quando o ser humano estabelecer uma liderança clara e for capaz de gerenciar o cão com segurança em qualquer situação ou ambiente.

    Oferecer um petisco porque “ele latiu” pode parecer inofensivo, mas reforça comportamentos que podem se tornar inconvenientes em momentos impróprios. Brincadeiras agitadas antes de dormir, por exemplo, podem resultar em noites interrompidas por um cão que não sabe como desacelerar. São nesses detalhes que os cães revelam sua legítima essência. Como observadores natos, eles se tornam verdadeiras esponjas das emoções e sentimentos humanos.

    No livro O Treinamento Invisível, exploramos essas habilidades incríveis dos cães. Educar um cão não é apenas moldar um comportamento, mas aceitar o convite para uma transformação pessoal. Quando controlamos nossa ansiedade, ensinamos calma. Ao sermos consistentes, cultivamos respeito e admiração. E, ao sermos generosos com nosso tempo e paciência, não apenas ajudamos o cão a se equilibrar, mas nos tornamos pessoas melhores no processo.

    Entretanto, a lição mais desafiadora é reconhecer que, muitas vezes, o problema não está no cão, mas na própria pessoa. A história de Bob, um labrador que treinei há cerca de 10 anos, ilustra bem esse sentimento imperceptível que existe dentro de nós. Certa vez, Bob destruiu toda a fiação da moto Harley-Davidson do meu cliente ao ser deixado sozinho em casa. O dono, frustrado, culpou o cão pela “desobediência”, mas, na realidade, o verdadeiro erro estava na falta de planejamento e no ambiente mal preparado que ele, inconscientemente, mantinha. É mais fácil acusar o cão do que enfrentar as próprias falhas. Só o conhecimento leva uma pessoa a buscar as ferramentas adequadas para cada solução.

    A verdadeira mudança começa quando deixamos de enxergar o cão como um projeto a ser moldado e passamos a tratá-lo como um parceiro de aprendizado. Um ser que observa, absorve e responde muito mais ao que fazemos do que ao que dizemos. Essa percepção transforma a relação: o que antes era correção se torna conexão; o que antes era comando se transforma em espontaneidade. Assim como as crianças aprendem observando, os cães absorvem cada uma de nossas atitudes, sejam elas conscientes ou não.

    Na próxima vez que se qustionar sobre o comportamento do seu cão, pergunte a si mesmo: o que ele está aprendendo comigo? A resposta pode não ser satisfatória, mas, certamente, será o ponto de partida para uma relação mais profunda. É nesse quesito que reside o início de uma relação baseada em respeito mútuo, paciência e desenvolvimento. Uma convivência que vai além de comandos e liderança, mas que alcança o que realmente importa: a essência da intimidade entre as espécies.


  • A fronteira entre pena e amor por um cão

    Entre sentir pena e amar um cão há uma tênue linha que define a profundidade da relação que temos com eles. Sentir pena muitas vezes nasce da percepção de vulnerabilidade do animal — o olhar triste, a situação de abandono ou a incapacidade física. É uma emoção que nos impulsiona a agir para aliviar o sofrimento, mas que, sozinha, não fortalece a confiança mútua.

    A pena excessiva por um cão é como colocar um véu sobre os olhos: faz-nos enxergar a fraqueza antes da força, a dependência antes da capacidade e a carência antes da autonomia. É um sentimento que brota da compaixão, da vontade visceral de zelar, de amparar quem parece não ter como se defender. Porém, essa piedade, por mais nobre que aparenta ser, carrega em si uma armadilha silenciosa: transforma o amor em condescendência e o cuidado em servidão. Ou seja, a pena, em sua forma, é um sentimento exclusivamente humano, reflexo de nossas fragilidades projetadas no outro.

    Amar é diferente. É permitir que o cão enfrente desafios, explore e descubra suas próprias capacidades enquanto trilha o mundo ao seu redor. É compreender que, por trás de cada obstáculo, está uma oportunidade de desenvolvimento, reafirmação de instintos e fortalecimento de sua natureza como um ser pleno, capaz de agir com confiança e liberdade. Amar um cão é respeitar e valorizar sua natureza — suas necessidades biológicas e comportamentais —, sem importar a ele o peso de nossas próprias dores e ansiedades.

    Quando deixamos a pena guiar nossas ações, tendemos a superproteger o cão, ver nele o símbolo do abandono ou do sofrimento que imaginamos, carregando um peso emocional que não é dele, mas nosso. Refletir sobre essa fronteira é essencial, pois, muitas vezes, o ato de sentir pena pode ser confundido com amor. Enquanto a pena pode levar a uma relação paternalista ou mesmo temporária, o amor verdadeiro promove harmonia, sem previsões de inferioridade ou necessidade.

    Isso nos leva a acreditar que temos o poder de eliminar riscos e desconfortos, confundindo proteção com limitações. Mas será que, ao agir assim, estamos realmente amando? Os cães precisam treinar seus instintos de sobrevivência para se sentirem conectados ao ambiente em que vivem. Explorar, errar, sentir o chão áspero sob as patas ou se sujar são partes fundamentais de sua experiência. Privá-los disso é negar-lhes a oportunidade de crescer.

    Amar um cão é permitir que ele sinta o desafio de algo novo. É confiar que ele tem dentro de si as ferramentas para lidar com pequenas adversidades. É um ato de fé em sua natureza. Claro, o cuidado é essencial — assim como os humanos, os cães precisam de ar fresco e proteção contra o asfalto quente. Mas o limite entre cuidado e superproteção está na intenção: ajudamos o cão a crescer ou apenas tentamos preencher nossos próprios medos? É crucial afastar-se de nossas percepções humanas para compreender a mente de um cão.

    Excessos de pena, mesmo bem-intencionados, podem gerar confusão. Para o cão, atos exagerados de carinho podem parecer sinais de instabilidade, de incertezas e até de fraqueza. Isso não significa que devamos deixar de ser afetuosos, mas que precisamos ser conscientes. Cães prosperam em ambientes equilibrados, onde regras e cuidados caminham lado a lado. Liderança equilibrada, baseada na confiança e segurança é o que realmente fortalece o vínculo humano-canino.

    O convite é simples: observe seu cão. Diante de uma dificuldade, antes de intervir, pergunte-se: ele pode resolver isso sozinho? Se a resposta for sim, dê-lhe o espaço para tentar. Esteja presente, pronto para agir apenas se realmente for necessário — essa é a essência de uma relação de verdade. Assim, o amor que oferecemos não apenas protege, mas também expande.

    Sentir pena é uma ocorrência natural humana, mas amar é uma decisão consciente. Escolha amar. Não apenas pelo bem do seu cão, mas pelo vínculo único que vocês irão construir juntos.


  • Como pode uma pessoa viver tanto tempo sem um cão?

    Outro dia, deparei-me com uma foto simples, mas cheia de significado: um cão da raça shih tzu fofo e a legenda que dizia, com uma sinceridade quase cortante: “Como pude viver 58 anos sem um cão?” Aquilo me fez refletir profundamente sobre a força desse questionamento. Não era apenas uma questão retórica ou um desabafo casual; era um grito silencioso sobre o impacto de algo que muitos ignoram até o dia em que se deparam com as evidências. Quantas pessoas, por diversas razões, deixam de viver a experiência única de compartilhar o cotidiano com um cão? Quantas, por escolha, circunstâncias ou até por falta de oportunidade, acabam privadas de algo tão poderoso e, ao mesmo tempo, tão simples. É uma relação que dispensa explicação, que não se justifica em palavras, mas que transforma vidas com uma intensidade quase inexplicável.

    Quando reflito sobre isso, o que sinto não é pena pelos cães. Eles sempre encontram formas de amar, de se fazer, de fazer parte do mundo ao seu redor. Minha tristeza é pelas pessoas. Por quem nunca se permitiu experimentar a leveza, o carinho e a simplicidade que vem de um olhar canino. Eles não sabem o que perdem: uma companhia que não exige nada além de presença, uma lição diária sobre amor incondicional. Uma relação tão pura e transformadora que só quem já teve ou tem um animal de estimação pode compreender plenamente.

    Não escrevo para convencer ninguém. Cada um tem suas razões e seu momento. Mas acredito, com cada fibra do meu ser, que a presença de um cão na vida de qualquer pessoa é uma dádiva. Eles trazem mais do que alegrias passageiras; trazem permanência em meio ao efêmero. Um cão nos ensina a desacelerar, a ouvir com o coração, a encontrar beleza na rotina e valor nos pequenos gestos. É uma troca que transcende palavras, um privilégio que muitos talvez só percebam tarde demais.

    Quem já teve um cachorro sabe do que estou falando. São momentos únicos, pequenos instantes que se tornam memoráveis.

    E, para aqueles que ainda não vivenciaram essa experiência, talvez ainda seja tempo de descobrir o que um cão pode fazer por sua vida. A vida tem um jeito curioso de nos surpreender, de nos oferecer segundas chances quando menos esperamos. Acolher um cão, conviver com um ser que nos ama sem reservas, não é apenas um ato de generosidade; é um privilégio. É um aprendizado diário sobre paciência, afeto e simplicidade. E, muitas vezes, são essas lições que mais nos faltam na correria insana dos dias.

    Se eu tivesse que dar uma única dica, diria que um cão é um lembrete claro de que a vida pode ser mais do que contas a pagar e metas a cumprir. É sobre conexões reais, sobre estar presente e sobre amar sem esperar nada em troca.

    Para aqueles que ainda duvidam do que a companhia de um cão pode ser capaz, talvez a pergunta não seja “Como pude viver tanto tempo sem um cão?” e sim “O que estou esperando para descobrir o que um cão pode me ensinar?”. Afinal, não importa quando o laço começa, ele sempre tem o poder de durar (ou curar o) para sempre.

    *Inspirado numa publicação de Roberto Motta, extraído do Threads.


  • Cães em condomínios: convivência harmoniosa e educação à luz da Lei

    É alarmante o número de conflitos que surgem em condomínios envolvendo cães. Situações de estresse são cada vez mais frequentes, principalmente devido à permissão de cães nas áreas comuns. As reclamações mais recorrentes envolvem barulho, cheiro, limpeza e a circulação dos animais nos espaços externos e nos elevadores. Por outro lado, também é inegável o direito à propriedade e à liberdade individual dos condôminos nas suas áreas privativas. Os cães são os que mais sofrem com essa falta de entendimento. É possível sanar a maioria dos problemas de maneira simples: o treinamento e a conscientização são as formas mais eficazes de amenizar conflitos e equilibrar as relações entre as espécies. Cão treinado não causa problema!

    O que diz a lei sobre animais em condomínios

    Em dezembro de 2019, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que os condomínios não podem proibir os moradores de terem animais de estimação. No entanto, há situações em que a convivência com determinado animal pode se tornar inviável, e nesses casos, cada situação deve ser avaliada judicialmente.

    Vale ressaltar que nenhum regulamento impede que os condôminos busquem suporte jurídico para contestar decisões. O Código Civil oferece respaldo para que essas situações sejam resolvidas de maneira justa e, sobretudo, de forma a garantir a segurança e o bem-estar de todos os envolvidos. A posse de um animal doméstico, sendo um direito individual, só pode ser contestada quando houver riscos comprovados à segurança ou à saúde da comunidade condominial.

    Para resumir…

    O que a lei diz sobre a presença de animais em condomínios? De acordo com o STJ, os condomínios não podem proibir a posse de animais de estimação. Entretanto, quando a convivência com um animal se torna inviável, o caso deve ser analisado individualmente ou na justiça. O bom senso e o diálogo devem ser praticados. Conversar sobre o comportamento dos cães com os donos pode ser o primeiro passo.

    Algumas regras estabelecidas na convenção sobre cães em condomínios? Ter a obrigação de carregar os cães no colo, sem levar em consideração o porte do animal, e não permitir a entrada dos cães nos elevadores são regras questionáveis, mesmo que estejam em conformidade com a legislação vigente. No entanto, transitar nas áreas comuns sem coleira, deixar que os cães façam suas necessidades nas áreas comuns sem a preocupação de limpar ou não se atentar ao controle do barulho produzido pelos latidos e pela agitação dos cães são pontos fundamentais para a convivência em sociedade.

    Relacionando com “O Treinamento Invisível”

    No livro “O Treinamento Invisível”, Francci Lunguinho e Vladimir Lobato destacam que o treinamento de cães envolve não só a mudança de comportamento dos animais, mas também a transformação das pessoas ao seu redor. Assim como em condomínios, onde a convivência entre condôminos e animais depende de respeito mútuo e de regras claras, o processo de educar um cão requer disciplina, empatia e paciência. Em ambos os casos, é necessário criar um ambiente equilibrado, onde todos possam conviver de forma harmônica e respeitosa, cumprindo direitos e deveres.


  • “Apenas um cachorro”, de Richard A. Biby

    Há pouquíssimas informações disponíveis sobre a vida de Richard A. Biby, autor do livro Apenas um Cachorro. Apesar disso, ele nos presenteou com uma das mais belas e comoventes obras literárias dedicadas a um cão. Seu poema, de uma profundidade tocante, expressa de maneira única e sensível o amor e a conexão entre ele e seu fiel companheiro canino, revelando sentimentos que ecoam no coração de qualquer pessoa que já tenha vivido a experiência de amar um animal.

    Abaixo, os poemas no original em inglês e em tradução livre:

    Apenas um cachorro

    Muitas horas passaram sendo minha única empresa “apenas um cachorro”, mas não por um único momento eu me senti desprezado. Alguns dos meus momentos mais tristes foram para “apenas um cachorro”, e naqueles dias cinzentos, o toque suave de “apenas um cachorro” me deu o conforto e a razão para passar o dia.

    Se você também pensa “é apenas um cachorro”, então você provavelmente entenderá frases como “apenas um amigo”, “apenas um nascer do sol” ou “apenas uma promessa”. “Somente um cão” traz à minha vida a própria essência da amizade, da confiança e da alegria pura e desenfreada. “Somente um cão” traz a compaixão e paciência que me tornam uma pessoa melhor.

    Por “apenas um cão”, vou me levantar cedo, vou fazer longas caminhadas e ansioso para o futuro. Então, para mim, e para pessoas como eu, não é “apenas um cão”, mas uma encarnação de todas as esperanças e sonhos do futuro, as lembranças do passado e a alegria absoluta do momento. “Somente um cão” traz o bem em mim e desvia meus pensamentos para longe de mim e das preocupações diárias.

    Espero que um dia você possa entender que não é “apenas um cachorro”, mas o que me dá a humanidade e me impede de ser “apenas um humano”. Então, na próxima vez que você ouvir a frase “apenas um cachorro”, apenas sorria porque “simplesmente não entende”.

    *Richard A. Biby


    JUST A DOG

    From time to time, people tell me, “Lighten up; it’s just a dog,”

    or, “That’s a lot of money for just a dog.” They don’t understand the distance traveled, the time spent, or the costs involved for “just a dog.”

    Some of my proudest moments have come about with “just a dog.”

    Many hours have passed and my only company was “just a dog,” but I did not once feel slighted.

    Some of my saddest moments have been brought about by “just a dog,” and in those days of darkness, the gentle touch of “just a dog”gave me comfort and reason to overcome the day.

    If you, too, think it’s “just a dog,” then you will probably understand phrases like “just a friend,” “just a sunrise” or “just a promise.”

    “Just a dog” brings into my life the very essence of friendship, trust, and pure unbridled joy.

    “Just a dog” brings out the compassion and patience that make me a better person.

    Because of “just a dog” I will rise early, take long walks and look longingly to the future.

    So for me and folks like me, it’s not “just a dog” but an embodiment of all the hopes and dreams of the future, the fond memories of the past, and the pure joy of the moment.

    “Just a dog” brings out what’s good in me and diverts my thoughts away from myself and the worries of the day.

    I hope that someday they can understand that it’s not “just a dog” but the thing that gives me humanity and keeps me from being “just a human.”

    So the next time you hear the phrase “just a dog,” just smile, because they “just don’t understand.”

    “Just a Dog” was written by Richard Biby.


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