Feira do Livro de Porto Alegre

  • Palavras insólitas, insólitas palavras

    Viajava de ônibus outra vez pelo interior do estado. Na época, isso me era tão rotineiro quanto a atual preocupação com os seguidos e rechonchudos boletos, que parecem ter um prazer mórbido em aparecer sem avisar no meu e-mail, ou, de quando em vez, aqueles mais austeros e resolutos, na minha caixa de correio. Saímos de Porto Alegre com vinte minutos de atraso por conta de algum problema no trânsito próximo à rodoviária. Chovia torrencialmente desde a madrugada.

    O ônibus lotado bufava um ar quente que nos tragava a cada curva. O incômodo era grande também pelas estradas sofríveis e esburacadas que pegamos assim que saímos da região metropolitana. O asfalto picotado do interior havia se tornado uma marca registrada. Como atestado de bravura ou conquista pessoal, os viajantes se vangloriavam por atravessar o estado naquelas condições, tal qual tivessem escalado o Everest ou corrido uma maratona. Nem todos caíam nesse papinho, entretanto. A chuva, por exemplo, não quis nos acompanhar.

    Na noite anterior eu tinha ido a um show do Vera Loca e, quando tirei da mochila um dos livros que havia comprado na feira, minha cabeça ainda rebobinava o refrão de Meu toca-discos se matou. O autor era português, Jorge Reis Sá, o livro: O Dom. Comprei-o na esperança de uma agradável surpresa, afinal, sempre estimei os portugueses. O valor compensava: dez reais.

    Não fosse o seguido flerte com o horizonte, terminaria a leitura ainda no ônibus. O pampa é um convite ao deslumbramento estético/paisagístico, mesmo com o sistemático e antagônico solavanco das estradas. No bagageiro, a minha mala dançava espremida dentre tantas outras com uma dezena de livros e uma muda de roupa suja. Em verdade, não sei por que escolhi O Dom para a viagem.

    Após alguns sacolejantes capítulos, fechei-o um tanto enfastiado. Ao meu lado estava um homem que não parecia interessado em nada além dos próprios devaneios. Me olhou com certa curiosidade e, com um aceno de cabeça, indagou o motivo da minha reação. Disse-lhe que não estava gostando. O Dom parecia uma cópia fajuta e sem escrúpulos do Ensaio sobre a cegueira, do Saramago. Só não reprovava mais aquele livro porque o autor tinha muita coragem em propor aquilo e, de certa forma, a editora também demonstrava coragem ao publicá-lo. O mercado editorial, por sua vez, é uma eterna incógnita. Livros de colorir para adultos são mais vendidos do que o Érico Veríssimo, a Nélida Piñon, o João Ubaldo Ribeiro, vai entender.

    Meu colega sequer respondeu, apenas fechou o cenho. Eu continuei a leitura na certeza de que incrementaria o meu veredito. Em certo momento pedi licença para ir ao banheiro. Tradicionalmente, escolho o banco da janela por conta da claridade, mesmo que em alguns casos dependa da complacência do viajante ao lado. Demorei um pouco para retornar porque um ônibus cambaleante é sempre um desafio para as bexigas inflamadas.

    Quando voltei, o horizonte fisgou minha atenção até entrarmos numa pequena cidade. Pensei ter deixado uma impressão ruim ao me queixar tão acintosamente. Aquele homem não conhecia o Saramago, nem o Érico, a Nélida e o João Ubaldo. O mercado editorial talvez tenha lhe soado grego. E eu não passava de um reclamão excêntrico com o qual estava disposto a não gastar uma frase. Cogitei puxar um assunto qualquer a fim de melhorar minha reputação, mas enquanto elegia alguma banalidade, o ônibus parou na rodoviária e, novamente com um aceno de cabeça, me cumprimentou e saiu. Ainda o assisti andar de maneira solene e ereta até o táxi ali próximo. Sem uma única palavra, sujeito estranho, pensei.

    No bar da rodoviária tocava a música do momento: Borracho y loco, do Vera Loca. Justo quando os zunidos veralouquianos pareciam ter abandonado minhas têmporas. Outro passageiro acompanhava a música aos sussurros. Se havia mais um remanescente do show por ali ou se era apenas um ouvinte aleatório, jamais saberei. Coincidência ou não, agora não importa. O ônibus saía da cidadezinha quando abri novamente o livro e encontrei na primeira página uma dedicatória breve, num português gentil, agradecendo a crítica sincera. Havia também uma assinatura em rabiscos.

    Não consegui terminar a leitura na viagem. Demorei, na verdade, uns três ou quatro dias para digerir aquela cena e ler os capítulos finais. Até hoje acho um tanto ilógico encontrar um escritor português num ônibus pinga-pinga, vagando por horas e horas e entrando em qualquer biboca no interior do Rio Grande do Sul. O seu nome não estava na programação oficial da Feira do Livro de Porto Alegre e na internet também não havia nenhuma evidência de que tivesse viajado ao Brasil naquele período.

    Não me impressiono tão facilmente, às vezes sofro com a alcunha de ranzinza e mal-humorado, mas isso não condiz com a verdade. O fato é o seguinte: mudei de ideia quando terminei a leitura. Sendo franco, o livro é muito bom. E o pior é que depois também gostei de mais uns dois ou três livros dele. Desconfio um pouco dessa minha opinião porque ela talvez se ancore mais nesse encontro insólito do que nas próprias narrativas e, analisando bem, isso demonstraria um lapso de personalidade para o qual jamais me dobraria. Então, hoje só lido com certezas. Isso tudo foi uma brincadeira esdrúxula de um sujeito com senso de humor questionável. E ponto.

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