Fernando Neves

  • Solidão nos olhos

    Saio de casa para me encontrar sozinho. Em meio a tantas pessoas, nenhum olhar se prende ao meu. Nenhum par de olhos me atrai.

    Uma nesga de rosto permitida pela máscara é insuficiente para perceber outra pessoa. Tenho dificuldade em interagir assim.

    Sem a máscara os olhos adquirem outra forma, outra capacidade de interação. Só os percebo em sua plenitude se consigo ver o conjunto do rosto. Acompanhar as mínimas expressões é para mim essencial. São gestos milimetricamente orquestrados que são capazes de revelar um universo inteiro de intenções e emoções.

    Com a máscara sobre a boca e o nariz, nada disso é,para mim, possível. Por mais próxima que a pessoa se permita estar, temos entre nós uma barreira, como uma névoa, que me impede de saber quem é ela, com quem estou conversando.

    Minha atenção fica prejudicada, me disperso. A janela da alma para mim é uma parede de tijolos. Inexpressiva e distante porque não tenho capacidade de ler esta pequena parte visível do outro.

    Não há palavras nem gestos que compensem o que de outra pessoa está escondido. Em nome do bem maior, a necessidade sanitária, os olhos ficam mudos para mim.

    Não se discute a importância da medida. Mas a perda imposta por essa pequena barreira, para pessoas como eu, é imensa.

    A pequena cobertura de tecido me afasta ainda mais dos demais seres humanos. O isolamento fica mais profundo. Os olhos se tornam subitamente inexpressivos para mim.

    Nada entendo dos que me fitam. Nada transmito a eles a meu respeito.

    Me sinto completamente isolado em frente às pessoas que me fitam.

    Meu par de olhos é incapaz de ler o que os outros pares tentam me mostrar.

    Nada alivia a distância.

    A todo lado olhos desconhecidos vêem meus olhos solitários.

  • 10 para 14

    Se você é um dos seis leitores que caridosamente escolhem ler o que eu escrevo às sextas-feiras aqui nesse nobre espaço saiba que, hoje, 27 de fevereiro de 2026, faltam 10 para 14.

    10 dias para minhas filhas completarem 14 anos. (Suspiro, sorrio e continuo.)

    14 anos… Que aventura!

    Pintam os cabelos. Pintam as unhas. Pintam os olhos. Pintam o caneco. Mas não quebram a louça.

    Se vestem de preto. Usam coturno. Amam blusinhas. E adoram chaveiros de K-pop.

    Se xingam. Se amam. Se riem. Se conversam. Se encantam. Se fofocam. Se protegem.

    Andam de mãos dadas na rua.

    Olham cada uma para um lado. Mas atravessam na faixa.

    Sonham acordadas. Voam pela Liberdade. Se enroscam nos meandros da galeria Sogo.

    Conhecem tudo como a palma das mãos.

    São curiosas. São entediadas. São impacientes. São presentes. Mesmo de fone de ouvido.

    Questionam. Respondem. Afirmam. Teorizam. Reafirmam. Defendem. Atacam.

    Concluem.

    Sempre tem razão mas amam saber mais.

    Têm certeza que são, que estão e que serão.

    E nisso tudo eu, o espectador privilegiado, sorrio e aperto os olhos espremendo uma lágrima pequena em nome da mais pura contemplação.

  • Ofensas mal disfarçadas

    Para viver em sociedade é preciso estar atento. Olhos bem abertos e ouvidos bem sintonizados.

    Por que existem várias maneiras de se ofender alguém sem usar palavreado de baixo calão. Por exemplo, atribuir à sorte as conquistas dos outros é uma delas. É uma forma velada de desprezar a preparação e o esforço que outros tiveram.

    Como se as coisas só dessem certo para uns como resultado da ocorrência de eventos positivos, favoráveis ou inesperados. Coisas que acontecem fora do controle ou da vontade humana mas que nunca dão errado. Aleatório puro ou sorte em estado bruto.

    Para essa classe de escolhidos não é preciso fazer esforço algum. Basta ficar lá sentado, embaixo da árvore como aquele primo do pato Donald, o Gastão, que o universo se movimentará a seu favor. Afinal, eles foram ungidos pela sorte, sem saberem porque e sem terem feito nada para isso.

    Bem feitas as contas, é maluquice das boas imaginar que a vida possa se organizar dessa forma. Mas para gente que acredita em terra plana, achar que a sorte é só para uns e não para outros é café pequeno.

    Outra forma de ofender sem arreganhar os dentes é mostrar surpresa ante uma demonstração de esforço genuíno ou conhecimento. Nesses casos a frase do ofensor vem acompanhada de um sorriso, ou mesmo riso, em que diz “nunca imaginei que você fosse capaz de se classificar” ou “nunca pensei que você conhecesse Moliére” (ia escrever Shakespeare mas decidi dar uma folga ao britânico).

    Nos dois casos, para ficar só em dois, não raro o ofendido não percebe que está sendo espezinhado. Fica meio atônito, sem ter o que falar direito, tentando compreender se aquilo que escutou é elogio ou crítica. É quase paralisador.

    Mas há raros momentos em que percebe a ofensa e reage, mesmo fazendo uso de ironia para não perder a linha nem provocar uma briga. Aí, o efeito é devastador contra…ele próprio! O ofensor se ofende e diz que não se pode elogiar. Faz uma bela volta no salão interpretando a vítima, em um papel escrito com a mais fina arte da manipulação. Envergonhado, o ofendido se cala e se esconde ante a culpa que lhe impingem. Quanta maldade.

    Se você chegou até aqui é porque testemunhou – ou foi vítima – dessas formas de ofensa. E se arrepende de não ter dado a resposta adequada ou ter se afastado diplomaticamente, sem oferecer o espetáculo patético da sua falta de ação.

    Isso agora é passado. O que foi não pode ser mudado. E mesmo que você consiga enterrar no mais profundo de si essas ofensas sofridas, isolando essa bagagem da superfície onde vive, o reflexo delas ocasionalmente vai latejar na sua mente. Pode não ser sempre mas em algum momento, quando você escutar um elogio, aquele parasita desprezível vai rastejar para fora do buraco em que você o confinou. Só para plantar a dúvida em você, tirando o gosto doce das coisas boas e legítimas da vida.

  • Ser surpreendido

    Não tenho vergonha alguma em ser surpreendido. Já superei faz muitos anos aquela necessidade de ter que mostrar que sabia de tudo antes de todos.

    Desprezo a sensação de poder que a clarividência traz.

    A verdade é que adoro não saber das coisas antes que elas aconteçam.

    Toda vez que eu converso com alguém que me diz “eu já sabia” eu me alegro por nada saber antecipadamente. Sou curioso, como todo mundo, mas não perco meu tempo tentando adivinhar.

    Por dever de oficio de escrita sinto prazer em imaginar situações, futuros alternativos, caminhos diferentes. E se ao invés de entrar naquela pizzaria às moscas eu tivesse ido embora para casa? E se ela tivesse jogado fora meu bilhete ao invés de ler o pedacinho de papel, sorrindo com a ousadia? Pois é, esse exercício é legal porque não antecipa algo na sua linha do tempo mas propõe alternativas para o que já passou.

    Voltando.

    Não quero ser adivinho. Não desejo ser blasé ou falar com tom morno e fazer aquele ar superior que acompanha as três palavrinhas “eu já sabia”. Dispenso o pedantismo expresso nessas palavras.

    Antecipar o trivial, o cotidiano é perder a oportunidade de voltar a se portar como criança. Sim, criança mesmo, rindo do novo porque é novo, é inédito. Com aquele riso frouxo carregado de esperança porque a novidade veio para nos alegrar.

    Por isso repudio a soberba dos que olham altaneiramente a vida, com eterno ar de deja vu.

    Quero ser testemunha da estréia.

    Quero participar dos fatos.

    Quero me emocionar com as novidades.

    Quero sorrir ante a surpresa.

    Quero deixar o coração saltar alegre pelo inesperado.

    Quero porque quero nada saber e tudo descobrir.

  • Voz de IA

    Vou te falar, adotar essa postura tem evitado que eu me aborrecesse com mais frequência. Você tira a emoção das palavras e responde praticamente ao pé da letra tudo que te perguntam. Em alguns casos repete a mesma resposta se a pergunta for igual ou bem parecida.

    E como é que isso dá certo?

    As pessoas ficam sem muita alternativa para conversar porque você tira o espaço para estabelecer qualquer conexão que gere um diálogo mais extenso. Sem agressividade você cria uma barreira de desconforto diante dos demais seres humanos.

    Mas ninguém estranha, não acha você meio maluco por causa desse jeito assim…

    Assim como? Antissocial.

    Ah, bom, é isso pode acontecer. Um efeito colateral dessa postura é, as pessoas ao seu redor, criarem uma imagem pública a seu respeito que varia entre a maluquice e a grosseria. Pode resultar também em um certo isolamento social, sabe as pessoas param de te mandar memes, de te convidar para sair, entre outras atividades da vida em sociedade. Mas tem suas vantagens sim.

    E onde isso pode ser vantajoso?

    Você se livra do convívio de uma pensa de gente desagradável. Faça as contas, dos corpos humanos que orbitam ao seu redor, o número dos que merecem a sua atenção não cabem nos dedos das suas duas mãos juntas.

    Bom, pensando dessa forma eu acho que você tem razoa em parte.

    Viu? Essa seleção social é mais fácil se você se portar como uma IA, neutro, sem emoção e irritantemente funcional.

    Mas isso não parece com IA.

    Isso é o que menos importa porque na percepção das pessoas, por falta de repertório para conseguir definir o que você está fazendo, te classificam como IA. Admito que esse jeito de falar também me remete aquele personagem maravilhoso do cinema.

    Qual deles, o robô de Perdidos no Espaço?

    O robô não era do cinema, mas da televisão e a voz dele era carregada de emoção.

    Então quem?

    Hannibal Lecter.

    Você não pode estar falando sério.

    Estou sim.

    O Lecter é o psicopata dos psicopatas.

    Ah mas é um grande personagem, concorda?

    Claro, totalmente, mas deixa te perguntar uma coisa.

    Sim, claro, o que é?

    Seu plano de saúde cobre tratamento mental também?

  • Para entender aquarela – ou não

    É assim, quando você pinta aquarela você se põe diante de uma situação que beira a ficção. No momento em que você coloca as tintas sobre o papel tem início uma relação estranha, quase surreal, entre artista e cores.

    Veja bem, você sabe o que você quer pintar mas depende da colaboração da tinta.

    Você não comanda as cores, elas são surdas aos seus apelos desesperados quando se espalham à vontade e aleatoriamente pelo papel.

    Se a superfície estiver seca, elas vão reagir de uma forma. Se o papel estiver úmido, a estória é outra e, claro, vai sempre depender do grau de umidade da superfície. E, por falar nela, a umidade, há outra muito importante, a do ar, que interfere decisivamente na consistência das tintas à medida que deixam os tubos onde jaziam no escuro, compactas e imóveis. Pintar aquarela no deserto do Thar não deve ser a mesma coisa que pintar em Belém do Pará, pode estar certo.

    Assim, quando o artista aperta o tubo tem início uma reação que dificilmente ele terá controle completo. Não há diálogo possível com substâncias que se movem ao seu bel prazer. As tintas são manhosas, caprichosas, donas de suas efêmeras vidas. Se espalham da forma que querem e na direção que decidem, independente da vontade da pintora ou do pintor. Ao artista cabe somente tentar corrigir o curso que as cores tomam à sua frente.

    Alguns conseguem, outros não. Na fúria de não ver seu talento expresso pelas tintas, muitos rasgam o papel e o atiram a lixeira, encerrando o que as tintas decidiram fazer, se obra de arte ou esboço colorido. Como saber? Não há, e por vezes é um teste supremo de paciência. Mas uma coisa eu tenho certeza é que as melhores aquarelistas do mundo, como a Gemma Capdevila ou a Anna Mason, com certeza sabem conversar com as cores. Elas, assim como os demais expoentes dessa bela arte, seguramente falam a língua das cores, elas falam tintês.

    E, você, minha amiga, já aprendeu esse idioma misterioso?

    Ainda não, mas me disseram que tem um aplicativo de tradução universal que é uma coisa!

    Tá bom, vou querer mais desse seu chá, por favor.

  • Morrer de amor

    Uma noite dessas tive a boa ideia de assistir a apresentação de um coral onde uma amiga querida canta. O programa foi todo dedicado à Rita Lee e, de repente, durante a apresentação algo me tocou e foi a letra de “Saúde”. A parte que acendeu uma lâmpada, ou chama se preferir, é a seguinte: Se por acaso morrer do coração/É sinal que amei demais. Confesso que sorri.

    Por que sorriu? Lembrou dos amores passados?

    Sabe que não. Eu sorri porque ali naquele teatro escutando o coral cantar eu me dei conta que morro do coração por amor desde que era adolescente. Não é exagero, é verdade. Eu sei que é difícil acreditar porque usualmente eu projeto uma imagem séria e bem controlada, até porque a grande maioria das pessoas que convivem comigo atualmente são do campo profissional. Portanto, a gente até sorri mas é algo mais corporativo.

    Tá, sem viagem por favor. Continua porque estou tentando te entender.

    Às vezes nem eu consigo isso. Mas enfim ai me veio à cabeça a ideia que nas multidões anônimas que se esbarram todos os dias pelas ruas existem aqueles cujos corações pararam. As razões são as mais variadas, isto é, as dores de amor são múltiplas. Tem pela pessoa amada, a mais comum, mas tem por filhos, animais de estimação, carros, casas, relíquias e até por livros que se perderam. Tudo pode provocar paixão ao mesmo tempo em que tudo pode partir o coração.

    Verdade, concordo com você.

    Então, nas noites com ou sem lua se fosse possivel escutar a frequência dos uivos de quem padece por amor seria ensurdecedor. Cada um, com sua dor, uivando aos prantos. Mas uivo de amor tem uma frequência tão alta que nem os cães captam. Toda noite, tão certo quanto há estrelas no firmamento, tem a sinfonia dos desesperados que morrem de amor.

    Ai quanta dor ao luar!

    Mas nada é para sempre muito menos as mortes de amor. O que vem avassalador, vai embora suavemente, escorrendo para fora dos corpos. Memórias são criadas, decisões são tomadas. Uma vida recomeça sobre as partes, as vezes até escombros, da anterior. Vida surge onde antes havia… vida. E assim, sem que se dê conta, levantamos da fria cripta e saímos andando ao calor do sol.

    Sou uma dessas almas que ressuscitam. E antes que eu em esqueça, como chama o coral onde sua amiga canta?

    Gogós.

    Gostei.

  • Cultura popular

    Ah, essa cultura popular do momento.

    Você leu direito: cultura popular do momento. Eu faço essa distinção porque entendo que existe aquela que é eterna em nossa memória. E outra que é tão densa quanto fumaça de xícara de café.

    Tem gente que prefere chamar esse tipo de manifestação cultural por outros termos mais pejorativos, alguns até derivados da própria palavra popular. Em respeito às leitoras e leitores que gentilmente se dão ao trabalho de ler o que escrevo não vou repetir as palavras usadas.

    Deixo por conta da imaginação e conhecimento de cada um.

    Retomando.

    Eterno não precisa ser nada do alvorecer do século XX, por favor nem tanto. Mas é algo que remeta à memória sempre.

    Por exemplo, eu aprecio chorinho e conheço expressões como “só falta combinar com os russos”. São manifestações que entendo serem eternas em nossa cultura. O “Carinhoso” é um dos exemplos mais bem acabados. Assino embaixo quando o Paulinho da Viola uma vez disse: experimente entrar em um bar lotado, abrir os braços e cantar “vem, vem, veeeem sentir o calor” que na hora surgirá o coro “dos lábios meus, a procura dos teus”. Isso é eterno.

    Já algumas expressões, ditas a exaustão nos programas de televisão que são exibidos nas tardes de sábado ou domingo, vão desaparecer. Por quê? Não sei, mas só sei que é assim.

    Mas por que estou com essa conversa toda? Para revelar minha total falta de intimidade com a cultura popular do momento. Verdade, verdadeira. A menor e mais simples expressão da moda para mim é como se fosse checheno clássico. Estou no extremo oposto.

    Eu sou aquele cara que sabe que no “Sétimo selo”, do Bergman, tem três cenas da Morte jogando xadrez. Isso mesmo, três. Aquela que todo mundo conhece a imagem e mais duas. Da mesma forma que sei quais foram os efeitos da lava no corpo do Anakin Skywalker. Certo, concordo que a cada lançamento do Star Wars a saga volta a se inserir por um breve tempo na cultura popular do momento. Mas saber esse nível de detalhe que contei, desculpa, está além do popular do momento. E é onde me encontro.

    Portanto, é assim que eu vejo as coisas: cultura popular é uma coisa, cultura popular do momento é outra. Pode ser esnobismo meu. Tenho um amigo que diz que é porque torço para o Fluminense. Exagero dele, eu acho. Mas a despeito do eventual esnobismo da parte eu simplesmente tenho pouca intimidade com a cultura popular do momento. É bom deixar isso claro.

    Esse meu jeito de ser já me colocou em situação constrangedora algumas vezes.

    Uma delas foi quando trabalhava no Jornal do Brasil. Sai cedo de casa e quando passei pela portaria do prédio onde eu morava o rapaz que lá trabalhava me disse: você viu, morreu João Paulo. Na mesma hora pensei: o papa, claro João Paulo II estava bem velhinho, como é de praxe entre os papas porque nenhum deles é escolhido na flor da idade.

    Já ia embora para a redação quando, sei lá por que, perguntei ao bem informado porteiro do que o papa havia morrido. Ele me olhou e disse: foi em um acidente na Dutra. Na hora me espantei: ué nem sabia que Sua Santidade estava no Brasil? Acidente na via Dutra? Devia estar voltando do santuário Nacional em Aparecida. Mas como é que não escutei nada disso na redação?

    Movido por uma inspiração repentina perguntei ao rapaz: mas de que João Paulo você está falando? Ai o garoto me olhou indignado e disse: João Paulo da dupla João Paulo e Daniel.

    Juro, nunca tinha ouvido falar deles. Mas para não atrair para mim a ira popular fiz um ar sério e disse por fim: uma perda irreparável.

    E toquei o pé para a redação.

  • Vê se me enrola pouco, pediu a musa

    Vamos esclarecer esse negócio de musa inspiradora. Para início de conversa na tradição clássica ocidental eram nove as musas, todas filhas de Mnemósine, divindade grega da Memória, com o todo poderoso Zeus. Elas eram Calíope, Clio, Érato, Euterpe, Melpômene, Polímnia, Terpsícore, Talia e Urânia.

    Cada uma inspirava a arte nos homens e nas mulheres, sempre de alguma maneira direta ou indireta como é próprio nas relações do divino com nós mortais. Por conta de suas qualidades é impossível dizer que quem escreve se inspira em uma musa só.

    Calíope era a musa da eloquência e de certa forma está presente em tudo que se escreve ou fala. As vezes se confunde com verborragia mas para essa não há divindade determinada. Ao menos não para os gregos. Calíope é uma das musas inspiradoras mais presentes na minha vida, admito, porque já escutei e li que sei usar bem as palavras, com desenvoltura e quando há motivo mais ainda. Isso dito inclusive por você.

    Culpada, meu escriba! Mas siga.

    Vamos lá, quando alguém ou alguma coisa é citada, pode se atribuir a inspiração a Clio. Ela era a musa da História, a que conferia fama às pessoas. A fama aqui está subentendida como algo bacana, a despeito de atualmente se relativizar a idéia lembrando que existe boa e má fama. Mas no tempo da Grécia clássica fama era coisa boa. Daí ter sua musa.

    Para aqueles momentos mais leves e mais amorosos ninguém escapa da influência das musas Érato, inspiradora da poesia lírica; e Polímnia, da poesia amorosa. São elas, as vezes em separado as vezes juntas quem fazem os escribas escolherem aquelas palavras mais adocicadas e que eventualmente tem poder de envolver e encantar quem as lê.

    A da música é Euterpe e ela é para poucos haja visto a quantidade de gente desafinada que agride as mais belas canções já compostas. Fora os que acham que são inspirados por ela e insistem em escrever e musicar uns pseudo-versinhos para lá de sem vergonhas. Daqueles que só a claque aplaude, sabe?

    Na sequência vem Terpsícore, musa da dança. Mesmo no ofício de juntar letras para formar palavras ela traz inspiração pois nada mais gracioso que um texto que se move aos nossos olhos.

    Há a dupla de musas que parecem se opor: Melpômene, a tragédia; e Talia, a comédia. Essas duas usualmente não estão presentes ao mesmo tempo para inspirar. Mas há exceções. As vezes elas se conjugam com outras, como Érato ou Polímnia, o que traz bastante sabor ao que se escreve e explica o amor trágico ou a comédia romântica. Tudo obra da conjunção delas.

    Por fim a última e para mim ainda inexplicável musa é Urânia.

    Por que inexplicável?

    Porque ela é musa da astronomia e da astrologia.

    Sério?

    Sim enquanto astronomia é ciência astrologia está mais para…

    Não fala, sei sua opinião a respeito da astrologia.

    Tá bom.

    Devo entender depois de sua vasta explanação que é por isso que não sou sua única musa?

    Mais ou menos.

    Mais ou menos?

    Sim, porque isso de ser musa não é assim algo tão exato.

    Então me explica mas por favor vê se me enrola pouco.

    Olha, eventualmente você é a única musa. Por outras vezes a inspiração é diversa, vem de várias musas ao mesmo tempo que se apresentam a me inspirar e o que escrevo é resultado dessas múltiplas influências. Mas há também aquelas situações em que uma única musa se mostra para mim com diversas formas. Isso é mais comum do que parece dado o caráter multifacetado dessas musas.

    Pode ser mais claro com esse negócio de “caráter multifacetado dessas musas”?

    Claro. Eu quero dizer que por vezes a mesma pessoa pode me apresentar a inspiração de mais de uma musa. Como se combinasse …

    Calíope e Polímnia?

    Sim, como se combinasse a inspiração essas duas musas. Daí ser a musa multifacetada.

    Uma dessas pessoas seria euzinha aqui?

    Sim, você.

    Mas tem outras na sua vida.

    Ao redor de mim você quer dizer. Sim é natural porque a convivência permite beber em fontes variadas.

    Você bebe muito?

    Com moderação, você sabe.

    Hum, sei. E como é viver sob a influência de tantas musas?

    Tem dias que vai bem, em especial quando estão calmas. Mas tem outros em que elas estão encapetadas.

    Ah é, tem isso de musa endiabrada?

    Tem sim, aí é um Deus nos acuda delas querendo inspirar a todo custo, eventualmente até impondo sua inspiração sobre as demais. É uma luta.

    E como você resolve?

    Respiro fundo e deixo fluir. Naturalmente a que estiver mais presente, mais conectada com o que penso e sinto no momento leva a melhor sobre as demais.

    E quem costuma levar a melhor mais vezes? As musas de face única ou as multifacetadas?

    É fácil, basta ver o que eu escrevo.

    Nem sempre, porque as vezes suas palavras simples escondem emoções herméticas.

    Mas para senti-las e entende-las não é difícil.

    Ah não? O que é preciso, meu querido escriba?

    A receita vem de longe, de um escriba anos-luz maior do que eu.

    Sinta quem lê.
    De quem?
    Do Pessoa.
    O que ele diz?

  • Página virada

    Virar na vida uma página é mostrar atitude. Existem páginas mais pesadas, outras que quase se rasgam no manuseio e aquelas que praticamente pedem para ser viradas. Mas tenha certeza que na vida sempre há alguma página a ser virada. Quer você queira, quer não.

    As razões para se virar uma página em nossas vidas existem e nunca são poucas. Deixar para trás uma parte da própria história é um momento forte, de decisão firme que não permite vacilo.

    As motivações que nos fazem mover a mão e mandar aquela página para o passado são várias. Algumas boas, outras ruins, as vezes alternadas, as vezes misturadas.

    Se houvesse uma receita para se virar uma página na vida talvez ela começasse pela leitura da própria página. Se o que foi escrito ali perdeu o sentido não adianta lamentar. Se a leitura do episódio incomoda, rápida irá a mão à folha para vira-la.

    Nem sempre virar a página significa se livrar de um problema.

    Problemas todos têm. Eu tenho os meus, você tem os seus. Eu sei a medida que os meus me afetam e quão difíceis eles podem ser. Da mesma forma, você conhece os pesos dos que te afligem. Por isso não entro em competição de problemas por diversas razões. A primeira porque é uma grande imbecilidade, o que dispensa citar as demais.

    Assim as páginas viradas de cada um são suas páginas, incomparáveis porque elas trazem sua história gravada. Boas anedotas ao lado de momentos difíceis, alegrias, amores, tristezas, corações partidos e por aí vai formando o mosaico de nossas vidas.

    Elas não vão sumir, tenha certeza. Até porque continuam por ali, encadernadas juntas as demais, inclusive aquelas que ainda estão em branco. As páginas viradas simplesmente foram empurradas para o passado. Se der vontade de rememorar, basta procurar com calma.

    Afinal, página virada não é página rasgada. As rasgadas são outra estória. E requerem o dobro de coragem.

  • Toxidade a conta-gotas

    Sair da vida de alguém é uma decisão unilateral. Não há consulta nem aviso prévio. Às vezes, se o processo é lento, a outra pessoa percebe. Às vezes, não.

    Os motivos para a ruptura na convivência podem ser vários. O mais comum é dar um basta em uma relação tóxica. Depois dos mais variados episódios, das pequenas descortesias até insultos de diferentes graduações, finalmente se toma a decisão. Para alguns ela vem logo, para outros muito além do tempo razoável.

    A toxidade tem seus graus. Ela é mais percebida nas situações extremas. Mas nos graus mais leves é igualmente nociva.

    Seu efeito contaminante não é imediato e arrasador. Ao contrário, é suave porque envenena pouco a pouco. Os bons momentos convivem lado a lado com as situações ruins, mascarando-as.

    Por isso é difícil de detectar que há uma intoxicação em andamento mas ela está lá. Dia a pós dia criando depósitos de substâncias nocivas dentro de nós. Minando nossa vontade, nos transformando em algo que não somos.

    O que viramos? Um pouco de tudo e menos de nós. O basta é o ponto de ruptura da relação e da existência daquela persona que permitimos que surgisse. Uma representação simplória do nosso “eu” que pode ser tudo menos “nós”. Nossa vasta complexidade de faces foram submergidas enquanto nadávamos no lago frio e parado dessa relação tóxica. Mais um pouco e nos afogamos.

    O “basta” traz à toa quem somos e andávamos esquecidos. Não à toa, a leveza se acomoda a partir do dia em que decidimos negar a outra pessoa nossa companhia, desatando as cordas
    gastas dos restos insistentes do afeto que estava moribundo.

    Cria-se distância entre os dois.

    Pela natureza desse tipo de relação tóxica, suave em seu cotidiano contaminante, o rompimento é semelhante. Não há rompantes, discursos, choros, recriminações ou gritos. As poucas palavras ditas são suaves e que pouco a pouco vão ficando desprovidas de calor. A antiga intimidade é coberta por camadas de superficialidade.

    Aos poucos, no sentido inverso do envenenamento, vai se criando a capa de proteção. O silêncio ocasional oculta as intenções, as palavras vagas mascaram os pensamentos e os clichês tomam o espaço onde antes habitou a originalidade. Pouco a pouco vão se tornando estranhos um ao outro.

    Ocasionalmente, é verdade, a antiga convivência volta a memória. A persona tóxica pensará na outra com saudade e se perguntará onde ela anda e o que faz. Quem se desintoxicou suspirará um instante sorrindo em homenagem aos momentos felizes mas afastará logo do pensamento a lembrança. Aquele cotidiano contaminado deixou avisos em sua memória.

    A lembrança daqueles tempos afastará seu olhar para longe. Lá, onde quero estar.

  • Um Xamã para o meu piano

    Vou te contar o que vim fazer aqui. Faz algum tempo, uns meses já, que meu desempenho ao piano não avança. Estava muito preocupada em especial quando tentava executar “A Chegada da Rainha de Sabá”, de Handel. Pela sua cara nunca escutou, mas não tem problema é uma composição alegre, um pouco difícil eu admito, mas que merece ser tocada com precisão.

    Vai daí que ultimamente não tenho obtido nenhum progresso. Meu professor tem me olhado feio e insistido que não estou me esforçando. Eu pratico bastante mas sabe o que aconteceu?

    Aos poucos fui percebendo que algumas notas aparentemente fáceis e até básicas da composição não estavam saindo direito.

    Foi então que ouvi dizer que os pianos eventualmente carregavam os espíritos da natureza.

    Todo piano é feito de madeira, você sabe, e ela traz em si essa ligação com a mãe-natureza, foi o que me explicaram.

    Quando corta a madeira esses espíritos são separados dela, ficam perdidos. Desde então eles vagam de um piano para outro buscando seu lar. Nessa busca eles assombram os pianistas.

    Por vezes você vai tocar e o som sai tão pesado que parece que tem um elefante dentro do piano. Em outras ocasiões esses espíritos travessos camuflam a nota tocada certa tornando-a ruim.

    Enfim, um inferno.

    Ai me disseram que precisa pesquisar de onde vem a madeira do piano. Foi um trabalhão, já te digo. Meu piano é um Fritz, Fritz Dobbert. É, parece alemão, não é ? Só que não, porque a Frtiz Dobbert fabrica pianos no Brasil há quase 100 anos. Portanto, os espíritos são brasileiros certo? Aí a coisa complica.

    Com esse caldo de culturas que a gente tem que misturou índio com português, com africano com europeu, com jacaré e cobra d’água não dá para ter certeza da origem desses espíritos.

    Eles todos se misturaram aqui também.

    Os que moravam na árvore que foi cortada para fazer o piano se juntaram com os que vieram de fora, nos navios. Pensa, se as pessoas fizeram isso, por que não os espíritos? Tudo é possível nesse mundo fantástico que nos cerca, acredite em mim.

    Por isso que eu vim aqui. Me disseram que esse Xamã era a última palavra em conhecimento sobre essas coisas espirituais, sabe. Nem estranhei que ele ficava aqui em Copacabana mas tudo bem, o bairro é grande e tem de tudo um pouco, estou acostumada.

    Você sabia que ali um pouco depois da galeria Menescal tinha uma vidente turca que lia a sorte na borra do café? Menina, era uma coisa de louco! Não errava uma, segundo uma tia me contou que ficou sabendo por uma vizinha cuja prima veio de Minas só para se consultar. Tiro e queda.

    De qualquer forma, meu assunto aqui é um pouco mais focado, eu diria. Tenho fé que o Xamã vai me orientar, vai iluminar meus caminhos. Tomara que não me peça para fazer sacrifícios com animais que isso faz uma sujeirada da nada.

    Queimar incenso e até um fuminho assim diferente, se é que você me entende, eu topo.

    Opa, minha vez, até daqui a pouco amiga. (um tempo, assim, não tão grande depois…)

    Você não vai acreditar. Estou passada. Vim para pedir orientação ao Xamã e ele foi rápido como quem rouba. Depois de me escutar relatar o que estava acontecendo ele me perguntou quantas horas eu pratico ao piano. Eu respondi que duas horas por dia. Sabe o que ele me disse? Que se eu dobrar para quatro horas os espíritos irão embora.

    Acho que o Xamã está gozando da minha cara.

  • Pavê da vovó

    A receita era antiga e sua avó quando era viva nem lembrava mais sua origem. Talvez fosse portuguesa, talvez holandesa ou uma mistureba de influências. Mas assegurava que tinha aprendido ainda mocinha quando morava em Vassouras, no interior do estado do Rio. Seu avô nunca foi muito fã desse pavê, dizia ela rindo, nem seu pai. Mas você meu neto, faz a minha alegria. Era verdade. Ele comia tudo que ela fizesse e tinha uma predileção toda especial pelo pavê da vovó.

    Os ingredientes não tinham nada de especial. O pavê leva leite, creme de leite, baunilha, leite condensado, uma gema de ovo e biscoito de maisena claro, dizia sua avó. Biscoito champagne não se usava porque era caro e nem tinha lá na roça.

    Mas ele sabia que não era só isso. Não podia ser só isso. Outras pessoas tinham feito pavê com rigorosamente os mesmos ingredientes mas o sabor nunca era o mesmo. Tinha algo que sua avó fazia que dava aquele gosto especial. O que seria? A qualidade dos ingredientes? As marcas escolhidas? A forma de misturar? Não tinha a mínima idéia mas era insuperável.

    Uma vez quando era menino pediu de presente um pavê para comer sozinho, sem ter de dividir com as primas e os primos. Era uma das lembranças mais doces de sua infância.

    Sua avó morrera há uns 10 anos e não passou a receita para ninguém simplesmente porque ela tinha tudo de cabeça. Anotar para quê se eu faço pavê desde o século passado, ria.

    Com o passar dos anos, o assunto pavê da vovó acabava entrando até nas conversas entre amigos. Sabe quando alguém tem aquelas idéias pretensamente saudosistas de recordar o que tinha de bom na infância? Em verdade é só para alguém se mostrar contando aos outros como ele foi feliz quando era criança, blá, blá, blá. Mas para ele, felicidade era doce e gelada e atendia pelo nome de pavê da vovó. E todo mundo já sabia disso e dava risada porque ele nunca falava outra recordação da infância.

    Na última vez em que esse assunto veio à tona foi na festa de noivado dele. Ah sim, não contei mas o rapaz encontrou o amor de sua vida e, à moda antiga, noivou com a moça. Por sinal foi uma bela festa em um sitiozinho lá em Vargem Grande, na zona Oeste do Rio, mas isso eu conto outra hora.

    Ao ouvir pela enésima vez que bom mesmo era o “pavê da vovó” a moça se encheu de coragem e disse: vou fazer um igual ao dela. Todos olharam na direção dela e aplaudiram sua atitude. Afinal, já era hora do rapaz voltar a sentir aquele prazer de sua infância e quem melhor do que ela para fazer esse mimo com ele?

    Qualificações ela tinha de sobra. A moça era craque na cozinha, neta de mineira com baiana e com curso de pâtisserie na França. Na semana seguinte quando ele foi visita-la em casa, surpresa: pavê! Ela fizera sua sobremesa favorita. Das brumas do seu passado para o nosso doce presente, meu amor, cantarolou ela contente.

    O noivo se sentou na mesa da cozinha mesmo, pegou uma fatia generosa de pavê e comeu de lamber o prato. A noiva sorriu vitoriosa aguardando ele falar que era igual ao da avó. O noivo rasgou elogios sinceros, disse que estava maravilhoso, mas não era o da vovó!

    Ela não se abalou. Nas semanas seguintes ela arregaçou as mangas com decisão e entregou-se ao desafio: o pavê da vovó. Fez de novo, de novo, de novo e de novo. Passou semanas em pesquisas pela internet, em livros de receita e trocando informações com seus professores franceses. Buscava pessoalmente os ingredientes de melhor qualidade, a despeito do isolamento social provocado pela pandemia do Covid-19. Trocava as marcas, buscava alguma mais regional que não se encontrava no Rio de Janeiro, enfim fez piruetas. Ela dizia que valia o esforço para agradar o amor da sua vida.

    E em todas as vezes ela entregava um pavê diferente de tudo que seu noivo já havia provado na vida. Ela se superava a cada receita, a família acompanhava entre orgulhosa e tensa. O rapaz como era de se esperar dava cambalhota de prazer mas ao final tinha sempre aquele “mas” terrível.

    A moça não se abalava mas diante da situação que se repetia – “meu amorzinho está uma delícia mas…” – decidiu apelar: convocou sua avó, mais duas tias-avós de Barbacena e foram as quatro para a cozinha. Agora não tem mais jeito: esse pavê vai ter de sair nem que seja na marra, decretou a indignada noiva.

    Foram dois dias de trabalho, experiências e tentativas. Até que finalmente chegaram a uma conclusão e fizeram o pavê. O noivo foi chamado e apresentado ao doce. Ela estranhou que dessa vez ele não parecia tão animado como das outras ocasiões mas relevou. Deve ser receio de me desapontar ou cansaço de tanto comer, tadinho.

    O pavê foi posto na sua frente, uma fatia foi cortada. As quatro mulheres estavam à mesa com os olhos pregados nele. Com tanta pressão em cima, o noivo sorriu sem graça e disse que antes de provar precisava dizer uma coisa. A noiva se aproximou e olhou séria. Pode falar, disse.

    Sabe meu amor eu aprecio muito mas muito mesmo toda essa dedicação que você tem em fazer aquele pavê da minha avó. Mas tem um porém.

    Já sei, vai dizer que o pavê não existe, era delírio de criança, disse uma das tias-avós.

    Ou o ingrediente secreto era maconha, rebateu a outra tia-avó às gargalhadas.

    Tias, por favor, deixa ele falar, reclamou a noiva. Vai meu amor, me conta se abre comigo qual é o porém.

    Então como eu ia dizendo, lembra que eu tive Covid-19?, falou devagar o noivo.

    Sim, meu amor, foi um susto danado. Ainda bem que você teve a forma mais branda, recordou a noiva.

    Sim, foi mesmo mas tive sequelas, avançou o noivo.

    Quais?, espantou-se a noiva.

    Eu estou com anesmia, disse o rapaz.

    Você vai contar para a gente que diabo é isso ou vou ter de pesquisar no google?, disse a avó da noiva.

    Anosmia é perda de olfato, explicou ele.

    A noiva arregalou os olhos e ficou muda.

    O rapaz olhou para ela triste e segurou suas mãos: não sinto cheiro de nada e não tem qualquer perspectiva de que volte a sentir. E sem olfato não consigo sentir o gosto de nadinha…

    Xii, então fodeu de verde e amarelo, resmungou a avó.

  • Fábula do Afeto e do Amor

    Um dia Afeto chamou Amor para conversar. O olhar de Afeto era afetuoso, assim como o tom de suas palavras. Mas aos ouvidos de Amor dessa vez elas soaram estranhas, porque inéditas. Nunca ouvira da boca de Afeto nada tão neutro. Não havia agressividade, verdade seja dita, mas faltava algo. Calor.

    As palavras escolhidas por Afeto eram muito distantes das que Amor se acostumara a escutar em sua convivência. O que Afeto disse, a sugestão de conversarem, desceu pelos ouvidos de Amor causando calafrios. Isso, as palavras eram frias.

    Amor se arrepiou e custou a acreditar que estava mesmo diante de Afeto e não de Rancor ou Mágoa. Afeto queria conversar mas o convite vinha desprovido de afeto. Era algo quase formal, como se cumprisse uma obrigação desagradável.

    Amor engoliu em seco, sorriu sem graça para disfarçar o incômodo e disse que sim, claro, vamos conversar. Os dois se encontraram e aconteceu o inesperado: da boca de Afeto nenhuma palavra saiu. Amor espiava curioso sem entender o que estava acontecendo. E Afeto ficava ali sem jeito, sorrindo tímido como se esperasse que Amor tomasse a iniciativa.

    O silêncio entre os dois perdurou o tempo de ficar constrangedor além da conta e a ansiedade de Amor transbordar. Se controlando e usando voz suave e tom baixo, com receio de desagradar, Amor perguntou porque Afeto não falava nada. Ao que Afeto retrucou sem graça que a iniciativa de falar sempre fora de Amor e que Afeto sempre respondia ou reagia às palavras de amor do Amor. Você sempre falou tão bem, tem um domínio tão lindo das palavras, sorriu Afeto, utilizando um encantamento corriqueiro entre eles. Um charminho quase dengoso que era o início de conversas sinuosamente agradáveis e íntimas. Mas que dessa vez não surtiu efeito. A química entre os dois fora afetada.

    Amor lembrou a Afeto que quem havia sugerido a conversa tinha sido ele, Afeto, e por isso ele, Amor, entendia que a iniciativa não cabia a si. Sorrindo sem jeito Afeto concordou porém nada disse.

    Enquanto permanecia silenciosamente diante de Afeto, Amor percebeu que estavam sentados curiosamente próximos mas ao mesmo tempo distantes. Em outras eras quando Amor encontrava Afeto sempre se aproximavam mais, chegando ao ápice de se misturarem a tal ponto que ficava difícil saber onde terminava o Afeto e começava o Amor. Difícil e desnecessário, dizia nessas ocasiões Amor, derramando todo seu repertório amoroso para deleite de Afeto.

    Mas agora, tudo mudara. Afeto percebeu que Amor notou a distância que surgira entre eles. De sua parte, seguia em seu mutismo constrangido. Como se não soubesse o que fazer. Afeto e Amor pela primeira vez desde que se conheciam não conseguiram falar nada um para o outro.

    Amor se mexia em seu assento, inquieto. Não tinha costume de ficar longe de Afeto e a cada momento notava alarmado que eles se distanciavam cada vez mais. O olhar de Amor era agonia e ansiedade. O de Afeto, tristeza.

    Para piorar, Amor estava com receio de falar. Sempre foram sinceros e transparentes um com o outro. Mas ali, naquele momento, não mais. Algo se quebrara e Amor não sabia o quê, nem como, nem porquê. Decidiu perguntar a Afeto. Amor escolhia as palavras, selecionava o tom de voz mais tranquilo para se expressar mas nada saía ainda de sua boca. Na hora de dizer algo, calou-se indeciso e triste sob o olhar enigmático de Afeto. O mutismo constrangedor era contagiante.

    Por quanto tempo eles ficaram assim, nesse impasse, ninguém sabe dizer. Se fosse perguntado, Afeto diria que foi um pouco, talvez mais. Amor diria que durou uma eternidade ou um pouco menos.

    Há várias verdades no mundo e uma delas é que ninguém mora na casa da Tristeza para sempre. Ela tem um bom número de hóspedes ocasionais mas nenhum morador fixo. Amor foi um deles. Mudou-se para lá logo após esse encontro silencioso. Se Afeto também tomou essa decisão, Amor não saberia dizer. A morada da Tristeza era enorme e dava para ter muitos hóspedes ao mesmo tempo sem que eles se cruzassem por seus frios e silenciosos corredores. Amor ficou lá até o dia em que abriu a janela do seu quarto e viu o Sol com outros olhos.

    Chegou até a janela do seu quarto para se aquecer e sentiu o vento matinal que parecia convida-lo a fazer algo, tomar uma atitude. Por fim, Amor ouviu as ondas do mar ao longe e disse para si: hora de ir embora.

    Arrumou sua bagagem, pequena em comparação com a que tinha trazido, e botou o pé na estrada. Se sentia um pouco melhor, não por completo, mas o suficiente para caminhar. Saiu devagar pela porta da morada da Tristeza enquanto cantarolava bem baixinho os versos de Travessia, de Milton Nascimento.

    Diante de si surgiram vários caminhos. Alguns ainda com suas pegadas e outros com marcas difíceis de identificar. Amor suspirou profundamente e seguiu em frente por um deles. A brisa que soprava era agradável e por quase todo o trajeto ele sorriu leve. Eventualmente a cada nuvem que encobria um pouco o Sol lembrava do que ocorrera entre ele e Afeto. Primeiro forte, depois mais branda a lembrança foi diminuindo até sobrar um eco triste e carregado de decepção. Nada além. No fim do caminho ele encontrou a praia de areia branca indicando ao Amor que havia chegado ao local de descanso e paz.

    O tempo passou, não se sabe quanto. O Amor seguia leve de frente para o mar. Um dia qualquer, com Sol quente mas não muito, mar calmo e água convidativamente fria, estava o Amor conversando alegremente com Compreensão, Razão e Felicidade. Ao se virar distraído, para sua surpresa viu, a meia distância de onde estava, Afeto. Calou-se estático e sentiu um aperto no coração.

    Afeto sorriu tímido. Compreensão, Razão e Felicidade olhavam perplexas de um para outro. O silêncio e a imobilidade dos dois era angustiante. Ali diante de Afeto, Amor repassou toda a existência em comum deles dois. Toda a lembrança do que haviam passado veio forte novamente. Os bons momentos, que não foram poucos e muito quentes, e o final triste e gélido.

    Então, Amor se virou devagar e tomou outro rumo. Sem acenar ou olhar para trás. Felicidade ficou com lágrimas nos olhos, Compreensão suspirou e Razão nem se mexeu, lançando somente seu olhar neutro. Afeto ficou perplexo com a atitude de Amor. Sentiu um aperto na garganta enquanto ele se distanciava devagar e sozinho.

    Dizem que à noite, cada um em seu bangalô à beira mar, os dois choraram baixinho.

  • Ruptura

    Toda vez que olhava pela janela era em busca de distração. A vista não era de frente para o mar mas também não era para alguma parede. Do alto de sua janela avistava a cidade com sua arquitetura confusa e mista. Prédios clássicos que evocavam o passado de glória do bairro resistiam em meio a edifícios decadentes e lançamentos imobiliários de residências claustrofóbicas.

    Durava pouco a tentativa de desviar a atenção. Invariavelmente algo a puxava pelo pé e seus olhos voltavam para as obrigações. Agora, chamadas de obrigações mas que um dia foram recebidas com entusiasmo porque faziam parte de sua escolha.

    A opção por essa vida tinha sido sua há 20 anos. Era mais jovem do que hoje, naturalmente, mas ainda estava em boa forma. Toda manhã se olhava no espelho e sorria constatando: ainda sou um mulherão.
    Mesmo com sua rotina pesada e complexa, não abria mão dos cuidados essenciais. Unhas toda semana, para citar somente um aspecto, em nome do que ela chamava ser seu pacote básico feminino.

    Por dentro, mantinha alguns hábitos de higiene intelectual, como cinema e encontros com as amigas. Ver um filme, como ela sempre falava, era a forma de enxaguar seu cérebro. E encontrar as amigas era para deixar a gargalhada em forma. Mulherão por dentro e por fora, era assim que se definia.

    Por conta do seu cotidiano hiper atarefado era chamada de guerreira. Houve uma época em que sorria envaidecida quando escutava isso. Nos últimos anos, no entanto, esse suposto elogio a tirava do sério. Não era mal criada, longe disso, mas não deixava passar em branco.

    Toda vez que escutava que era “guerreira” respondia: guerreira não, sou sobrecarregada. Intimamente sempre soube que um dia teria que dar um fim a isso tudo. Aquela vida que um dia fora boa hoje se tornara um tormento. O problema estava em pegar a faca e cortar as cordas. Romper é um processo doloroso e necessário. Para ela, se desvincular e seguir adiante se tornaram situações que um dia ela teria que vivenciar.

    Só não imaginava que romperiam por ela. Doeu fundo quando escutou as palavras duras. Por fora manteve a postura corajosa, afinal é uma mulher adulta e independente. Mas por dentro escorreram lágrimas por sua alma que por pouco não transbordaram.

    Dedicara mais de 20 anos de sua vida para ser dispensada sem mais nem menos. Mas honestamente, ela esperava o que? Um número musical? Mãozinhas dadas e palavras doces?

    Sem chance. A vida era dura e isso fazia parte dela.

    Ergueu-se, ajeitou o vestido e olhou em volta para ver se faltava algo a ser levado. Parecia que estava tudo encaixotado, mas talvez ainda precisasse dar mais uma olhada. No coração, as mágoas que sentia pela ruptura ainda pulsavam. Arqueou as sobrancelhas e disse para si mesma: pode doer agora mas nada disso vai me abalar.

    Nesse instante lembrou-se das sábias palavras de uma amiga do tempo de escola. Sorriu para si e concluiu que naquele instante aquele conselho se tornara um imperativo em sua vida.

    A amiga disse certa vez: Para estar sempre preparada tenha à mão um bom advogado…trabalhista!

    Suspirou fundo e pensou: sem emprego mas isso não vai me abalar porque ainda sou um mulherão. E foi em busca de mais uma caixa de papelão.

  • Montanha

    A inspiração é forte. A concentração, igual.

    Olha-se adiante, para cima, em busca de cada reentrância na pedra que permita firmar as mãos ou só os dedos. Meio pé em um calço é o suficiente para subir mais um pouco no paredão.

    Visto por baixo, a parede parece lisa e impossível de ser conquistada. De perto, a visão é outra.

    Apoios para as mãos e pés se multiplicam, mas não estão expostos. É preciso atenção e muita observação para achá-los.

    A cada momento da jornada, entre um trecho de parede íngreme e outro, surge um platô mais amigável. Está ali para lembrar que ainda há mais a ser escalado.

    A sensação de estar lá, subindo devagar e firme, é única. Nada melhor que sentir a pedra quente nas mãos. A montanha firme, imóvel, e você subindo por ela.

    Silêncio profundo. Há vida à sua volta. Mas nenhum som chega até você. Impera a quietude.

    Um vulto passa longe. Você vira o rosto um pouco e vê um urubu voando. Sorri, e a ideia de a presença dele ser um presságio brinca na sua mente. Mas, qual nada. É só um urubu aproveitando uma térmica, a corrente quente ascendente. Ou, como diria Tom Jobim, dormindo na perna do vento.

    Admirar o voo do urubu serve para descansar um pouco. Mas agora, adiante. Aspirar o ar puro do alto da montanha. E seguir. Sem pressa, domando a ansiedade que cresce à medida que o cume se avizinha.

    O topo é o final da jornada. Cume ou chapadão, é para lá que você vai. O prazer da conquista é só seu. Egoísta? Nem de perto.

    Ninguém pode sentir o que você realmente sente nesse momento. Ou em outro qualquer da sua vida. Nenhuma narrativa, nenhuma imagem captada, nada na tecnologia humana é capaz de passar a outra pessoa o que você sente. A sensação, seja ela qual for, sempre será unicamente sua.

    No topo, você olhará para os lados. Para baixo. Vai suspirar satisfeito com sua conquista, para depois tomar o caminho de volta. Por onde subiu, vai descer. No mesmo ritmo, com o mesmo cuidado.

    E, a cada movimento para baixo na descida pelo paredão, a cada parada nos platôs, vai se lembrar de que cada conquista é única, mas não definitiva.

  • Crepúsculo da bruxa

    A chuva forte não convidava a sair. Em outros tempos era o momento de dar uma ajeitadinha no visual, montar na vassoura e voar pelo mundo.

    Agora não. A vassoura está ali mas a confiança em subir nela desapareceu. Ou melhor, está adormecida. Não é de hoje que ela duvida se ainda sabe mexer com os poderes que a tornaram notória. No fundo ela acha que ainda conseguiria dar umas voltinhas sentindo o vento nos cabelos. Mas na dúvida prefere não arriscar. E no embalo, não tem muito tempo cortou os cabelos bem curtinhos.

    Se ajeitou no sofá examinando a chuva que caía forte. Da janela via a encosta verde, pulsando de vida com as águas límpidas do céu que balançam os galhos das árvores e lavam as vidraças de sua casa. Suspira, resignada.

    Já tinha sido curandeira. Mas isso fora em outra vida, como se dizia. Há muito não exercia os poderes de cura, só muito eventualmente em casos especiais. Tinha receio de errar a poção ou não saber mais recitar os encantamentos corretos. Pelo sim, pelo não recomendava as pessoas que a procuravam que buscassem outra colega feiticeira.

    Os dotes adivinhatórios ainda existiam mas ela não estava tão segura se ainda eram precisos. Vez ou outra achava que conseguia entender o que se passava na cabeça das pessoas, adivinhando suas intenções e desejos. Qual nada.

    Nos tempos atuais as imagens surgiam borradas em sua mente e mais confundiam do que esclareciam. Isso explicava suas últimas trapalhadas no campo pessoal. Confiara demais na interpretação do que achava que tinha visto nas brumas.

    O resultado tinha sido o oposto do que desejara. Onde esperava presença, veio indiferença. Onde esperava proximidade, veio afastamento. Onde esperava afeto, percebeu decepção com toques de mágoa silenciosa.

    Em princípio, por seu temperamento, achara que a culpa estava nos outros. Mas depois de repetidos tropeços, decidira admitir que talvez fosse alguma falha sua. E depois de muito negar o óbvio rendeu-se as evidências. Seu crepúsculo como bruxa chegara.

    Feiticeiras mais experientes e antigas nas artes ocultas haviam advertido que poderes mágicos não são eternos. Eles somem mais rápido na proporção do descaso que a bruxa tem com eles. A arrogância e a soberba da feiticeira que acha que seus poderes são eternos costumam acelerar o contrário, escutara certa vez. Ao que parecia, era essa sua situação.

    Não havia mais como remediar.

    Os encantamentos recitados em outros tempos ficaram para trás. Agora as palavras eram usadas por ela somente como esconderijo. Usava e abusava de vocabulário rebuscado criando barreiras entre si e o mundo. Gerava cortina de fumaça e sua imagem ficava algo difusa, protegendo-se.

    Ali sozinha em seu sofá, sem coragem de subir na vassoura e contemplando a chuva, chegou a conclusão que se isolara do mundo voluntariamente. E sem olhares capazes de perscrutar sua alma, suspirou resignada. E disse para si mesma que já era hora de voltar ao mundo dos vivos.

    Arqueou o corpo, fez força para levantar mas..voltou a se sentar. Tivera uma ligeira tontura e em meio a névoa que surgiu diante dos seus olhos veio um rosto do passado recente. Um rosto afastado dela por ela. Piscou os olhos tentando fixar a imagem que rapidamente desaparecia diante de si.

    Acomodada novamente no sofá ela sorriu. Aquela visão trouxe a sensação de esperança que há muito não sentia. De que ele, afinal, não seria um caso perdido em sua vida. Sorriu novamente, olhou a vassoura e passou a considerar tentar voar. Nem que fosse para subir só até as nuvens e espiar lá de cima o que ele estava fazendo…

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