Festa ao Entardecer

  • Festa ao Entardecer

    Daqui a poucos dias faço aniversário… O que vou pedir de presente? Alguma lembrancinha, mais para atender aos filhos e netos que me olham atentamente, tentando adivinhar meus sentimentos, ou meu estado de espírito, nesse dia que me leva cada vez mais ao entardecer da vida.

    Eu os conheço bem: cada um, à sua maneira, vai me sondar, tentar “me ler” nas entrelinhas.

    Não os condeno, pois por longos anos também passei pelo estranho papel de me sentir mãe, em vez de filha.

    Sendo assim, sei bem dos subterfúgios, das desculpas e disfarces para não preocupar os nossos.

    Minha mãe, aos 93 anos, ainda pedia vestido novo para ir às consultas médicas.

    Não saía sem passar o seu batonzinho rosa e não perdia nenhum evento familiar: aniversários, batizados, colações de grau. 

    Tanto podia ser do jardim de infância ou de graduação das suas três dezenas de netos. Ah, festejou também nascimentos e batizados de bisnetos e até uma tataraneta! 

    Eu penso que ela de fato tinha o espírito festeiro do povo latino. 

    Tenho a descendência e as lembranças do convívio  e costumes da minha grande família de origem. Festas, rezas, procissões… sentimentos externados… eu diria até exagerados. Bonitos e barulhentos, que acalentam as minhas memórias afetivas.

    O problema está nessa minha predileção em conversar com os meus pensamentos.

    Sinto que, nesta fase da vida, a calmaria tomou o trono, a paciência encontrou o seu espaço, os hormônios impetuosos se aplacaram, e tudo o que antes demandava tempo e urgência passou a ter a placidez que pode ser resumida com apenas uma expressão: E daí?

    E daí?

    Daí que, apesar de gostar da minha solitude, vou passar o meu aniversário com filhos e netos, sorrindo feliz com as demonstrações de carinho, festejando a vida.

    Tenho a convicção de que fui e sou importante na dinâmica familiar. Meus filhos e netos me reverenciam e agem de forma a me fazer crer na grandeza dos inúmeros papéis que desempenhei, mesmo quando eu mesma ainda estava perdida na ignorância e falta de prática. 

    Sendo assim, pegando carona no amor e carinho amealhado em meus anos de vida, vou me alegrar com a alegria deles.

    Afinal, viver é uma dádiva, em todas as fases, em várias nuances. Buscar e distribuir sorrisos, amar e ser amado, ser a presença amiga na caminhada e no repouso. 

    Aqui onde minha alma encontrou abrigo e serenidade, vou festejar com alegria e emoção dizendo: 

    Feliz aniversário para mim!

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