Ficção

  • Para entender aquarela – ou não

    É assim, quando você pinta aquarela você se põe diante de uma situação que beira a ficção. No momento em que você coloca as tintas sobre o papel tem início uma relação estranha, quase surreal, entre artista e cores.

    Veja bem, você sabe o que você quer pintar mas depende da colaboração da tinta.

    Você não comanda as cores, elas são surdas aos seus apelos desesperados quando se espalham à vontade e aleatoriamente pelo papel.

    Se a superfície estiver seca, elas vão reagir de uma forma. Se o papel estiver úmido, a estória é outra e, claro, vai sempre depender do grau de umidade da superfície. E, por falar nela, a umidade, há outra muito importante, a do ar, que interfere decisivamente na consistência das tintas à medida que deixam os tubos onde jaziam no escuro, compactas e imóveis. Pintar aquarela no deserto do Thar não deve ser a mesma coisa que pintar em Belém do Pará, pode estar certo.

    Assim, quando o artista aperta o tubo tem início uma reação que dificilmente ele terá controle completo. Não há diálogo possível com substâncias que se movem ao seu bel prazer. As tintas são manhosas, caprichosas, donas de suas efêmeras vidas. Se espalham da forma que querem e na direção que decidem, independente da vontade da pintora ou do pintor. Ao artista cabe somente tentar corrigir o curso que as cores tomam à sua frente.

    Alguns conseguem, outros não. Na fúria de não ver seu talento expresso pelas tintas, muitos rasgam o papel e o atiram a lixeira, encerrando o que as tintas decidiram fazer, se obra de arte ou esboço colorido. Como saber? Não há, e por vezes é um teste supremo de paciência. Mas uma coisa eu tenho certeza é que as melhores aquarelistas do mundo, como a Gemma Capdevila ou a Anna Mason, com certeza sabem conversar com as cores. Elas, assim como os demais expoentes dessa bela arte, seguramente falam a língua das cores, elas falam tintês.

    E, você, minha amiga, já aprendeu esse idioma misterioso?

    Ainda não, mas me disseram que tem um aplicativo de tradução universal que é uma coisa!

    Tá bom, vou querer mais desse seu chá, por favor.

  • Os dedos de fogo de Angústias

    Angústias é uma menina com dedos de fogo e por isso é uma menina triste. Tudo o que toca arde. Vive longe do mar, num lugar parecido a um deserto, mas muito frio, com terra avermelhada como tingida de sangue. Pouco chove ali e, quando isso acontece, a terra se transforma num espelho e lança brilhos que chegam às nuvens. Só em ocasiões assim Angústias fica feliz, chora de alegria e passa horas admirando as poças d’água, tocando-as com a ponta dos dedos que, assim, ficam livres do fogo por algum tempo. Angústias é uma menina sem amigos.

    Agora é inverno onde Angústias mora e o frio tem sido impiedoso. As aves e os roedores foram embora em busca de paragens mais quentes. A menina sofre com o vento e o ar gelado, que lhe trincam os dentes, mas sai de casa mesmo assim, ao menor sinal dos primeiros e débeis raios de sol. Sai para admirar os montes esbranquiçados de geada e orvalho, as lágrimas que pendem do olho verde das folhas, a manada de búfalos correndo com elegância e fúria pelo descampado. É dessa forma que ameniza a tristeza que traz na testa franzida e no olhar que busca lonjuras. Mas hoje os búfalos não apareceram, e Angústias se fechou em melancolia profunda. Ficou sem sua pequena alegria. Teria gostado de escutar de novo o barulho do galope dos animais enormes tremendo na sola de seus pés e em seu coração, como se todo o seu corpo galopasse junto. Para a menina, os búfalos são força e poder, nada fica em pé na frente deles, ninguém consegue domá-los ou prendê-los. São bichos valentes, corajosos, truculentos, destemidos. Angústias queria um dia ser como eles.

    Mesmo sem querer, Angústias provoca fogo no que está ao seu redor. Por isso não pode fazer tarefas corriqueiras como colher uma flor ou ler um livro sem destruir o objeto sobre o qual se debruça. Não pode fazer nada sem luvas corta-fogo. Se não usá-las, tem que molhar os dedos o tempo todo. Até se vestir é arriscado, mas com as mãos protegidas, evita incendiar o vestido.

    Em sua cama de pedra, Angústias costuma sonhar com pássaros de grande envergadura, sobre os quais, agarrada ao pescoço delgado e duro, pode subir e subir e subir mais alto, planando sobre o descampado até chegar ao mar imenso. E essa imensidão líquida a acolhe e a abraça como faria uma mãe. É quando ela sente que nada mais pode representar perigo, nem mesmo a terra avermelhada do deserto, onde as florestas e bosques estão em risco permanente com sua presença. No sonho, Angústias está carregadinha de mar, as mãos ensopadas, e as árvores e toda a vegetação estão a salvo de seu toque: não arderão, não crepitarão como antes, quando bastava um leve roçar de seus dedos no tronco, nas ramas, nas folhas, nas flores, no sumo, e tudo virava labareda e, depois, cinza.

    É um sonho recorrente esse, que traz um pouco de felicidade ao rosto de Angústias. Quando acorda, percebe que as coisas não mudaram e seus dedos continuam quentes, faiscantes, capazes de provocar tragédias. Ainda assim, fica quieta e pensa nos búfalos. Todo dia espera vê-los em corrida destrambelhada pelo campo, só parando quando sentirem fome; então se aquietarão e comerão o almoço já servido ali mesmo, ao pé deles. A grama que pisotearam com fúria minutos antes é agora a sua refeição.

    Enquanto eles não vêm, a ela, Angústias, só resta passar as horas e brincar perto do rio que circunda a cidade (a cidade que mais parece um deserto): ali não há perigo de incendiar tudo e transformar um povoado inteiro num terreno devastado, cheio de fumaça e cheirando a queimado, como uma grande fogueira que lentamente perdesse labaredas, faíscas e brilhos e, no fim, se apagasse.

    Angústias já nasceu com as ilusões mortas. Sabe que não é como as outras meninas de sua idade. É perigosa. Desde cedo intuiu que era preciso ter coração de ferro para suportar o inferno, ou não ter coração. Enquanto houver água por perto, porém, ela ficará tranquila e seus dedos não causarão mal a nada nem a ninguém.

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