Focar

  • O Prazer de Desviar

    Não sei quanto a vocês, mas há palavras que me cansam só de ouvir. “Focar”, por exemplo. Palavra querida de coachs e gurus, parece um cabresto moderno: manda olhar sempre na mesma direção, quando é das distrações que a vida se enche de beleza.

    É como se, nos últimos tempos, quiséssemos eliminar do mundo todos os imprevistos: o botão da camisa que arrebenta, o carro que passa veloz numa poça d’água, molhando nossa roupa de lama, o outro que fala alto no ônibus e desconcentra a leitura. A vida, nessas horas, parece mostrar quem manda — que a gente não a controla, apenas se adapta, improvisa.

    Outro dia, num vídeo no YouTube, um psicólogo dizia para o espectador: “Você não pode namorar agora. Está ‘casado com seu mestrado’, tem que renunciar.” O rapaz estava com uma moça, mas era claro para quem assistia que ele estava sem tesão, que a mulher não o empolgava, que o coração não batia. Ele se enganava: “Estou casado com meu mestrado.” Mal sabia que o coração não conhece foco, o tesão menos ainda; é ele quem manda — e as surpresas da vida que dão as cartas.

    E aquela gente que programa as leituras para o próximo ano, para a próxima década, para as outras duas: “Agora, estou focado em ler os contemporâneos, agora, nos clássicos.” E se surgir algo mais interessante? Não pode?

    Tem também a pessoa que decidiu, sei lá por que cargas d’água, que precisa emagrecer. Você a convida para um restaurante novo, quer apresentar um sabor diferente, um vinho, um prato… e ela responde: “Mas agora, estou focada em emagrecer, perder peso, é minha meta do ano.”

    É como se, dentro dela, houvesse um Galvão Bueno gritando: “Foco, campeão! Não perca sua meta, não desista dos seus sonhos, dos seus objetivos.”

    Mas, como disse antes, a vida tem sempre razão. Ela muda, é imprevisível, escapa do nosso controle. Só que também traz surpresas boas. Um amor que surge de repente, a possibilidade de uma viagem, uma torta de chocolate que enche a boca d’água, um cheiro delicioso de café. Nesses momentos, pelo menos eu me permito gritar: “Dane-se esse tal de foco.”

    Um cheiro delicioso de café que a gente sente do outro lado da rua.

    Claro, na vida, precisamos fazer escolhas. “Ou isto ou aquilo”, como naquele poema de Cecília Meireles. Nem sempre dá para fazer tudo; escolher uma coisa é, às vezes, desistir da outra. Mas que saibamos que escolhemos — e, se quisermos, possamos chutar tudo para o alto se um caminho mais interessante surgir. Não precisamos que ninguém buzine no nosso ouvido: “Foco, foco.”

    Fazemos escolhas, sim. Sempre. Mas sempre temos a oportunidade de mudar, de fazer diferente, de deixar o coração querer outra coisa. É essa liberdade que torna a vida tão bonita.

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