Francci Lunguinho

  • A tragédia dos pitbulls: o que ainda podemos fazer?

    Durante muito tempo, sempre que a mídia destacava um ataque envolvendo pitbulls, sobretudo quando havia feridos graves ou mortes, eu me via quase instintivamente na defesa da raça, devolvendo a responsabilidade aos donos. Essa convicção, de fato, não se alterou. No entanto, diante da sucessão de episódios recentes, muitos deles de extrema gravidade, incluindo o ataque mais recente a uma criança de quatro anos que perdeu a vida, sinto-me obrigado a revisar e aprofundar o meu posicionamento.

    Não deposito culpa no cão, jamais. Mas é inegável que a raça entrou num estágio crítico provocado pela irresponsabilidade de alguns donos. Eu não gostaria que tivéssemos chegado a este ponto; era para termos mais controle sobre tantas tragédias. A realidade, contudo, se impõe. E ela exige que abandonemos certas ilusões regulatórias: não adianta criar novas leis quando não existe fiscalização capaz de sustentá-las.

    É verdade que qualquer apaixonado pela raça pode desejar ter um pitbull. Mas desejar não é o mesmo que estar preparado. A raça demanda conhecimento, equilíbrio emocional, senso de responsabilidade e humildade para aprender. Como treinador, reafirmo o que sempre disse: um cão só se torna perigoso quando cai nas mãos de pessoas despreparadas, muitas delas movidas por vaidade, impulso ou fantasia de poder.

    Sempre defendi que todo interessado em ter um cão da raça deveria obrigatoriamente passar por um treinamento sério, capaz de oferecer compreensão real sobre o temperamento, as necessidades e os riscos envolvidos. Hoje, reconheço que isso não basta. É preciso algo mais: leis mais rigorosas, fiscalização presente, punições claras e multas severas para quem desrespeitar as normas.

    O problema — e aqui se revela uma ferida antiga — é que a fiscalização raramente alcança os criadores clandestinos. É nesse subterrâneo que a raiz do desastre se instala. Ali, multiplicam-se cães sem critério, sem ética, sem qualquer responsabilidade. Enquanto isso, os criadores sérios, que trabalham com transparência e compromisso, acabam carregando um peso que não lhes pertence. No Brasil, infelizmente, a lógica costuma ser essa: pune-se quem faz certo, ignora-se quem faz errado.

    E quem perde com isso? Perde o cão, que não tem voz para se defender. Perde a raça, marcada injustamente por estigmas que não nasceu para carregar. Perde a sociedade, que desperdiça a chance de aprender com as tragédias e impedir que se repitam. Perdem também aqueles que sempre amaram o pitbull com consciência, respeito e responsabilidade. Se existe algo a salvar, começa por admitir o óbvio: o problema não é o pitbull. O problema é o caminho torto que alguns humanos insistem em trilhar.

    É por isso que deixo aqui um alerta que não nasce de teorias, nem de exageros, tampouco de histeria coletiva. É constatação dolorosa de quem convive com cães todos os dias: estamos colocando o pitbull à beira de um abismo que ele não cavou. Se continuarmos tratando a raça como vilã, permitindo que criadores clandestinos se multipliquem impunemente, entregando cães potentes a pessoas despreparadas e fingindo que leis sem fiscalização resolvem alguma coisa, teremos um fim irreversível.

    O pitbull precisa de nós agora. Não de capas de jornal inflamadas, nem de discursos vazios, muito menos de ondas de ódio ou de um sensacionalismo que o confunda com qualquer outro cão de cabeça larga e focinho profundo. Isso, sim, é injusto. O que ele precisa é de responsabilidade, educação, vigilância e coragem pública para enfrentar o problema onde ele realmente nasce.

    Se nada for feito, poderemos ter mais mortes. Ou perderemos a chance de corrigir um erro que não é deles. Este texto é, ao mesmo tempo, um alerta e um pedido de socorro. Salvemos a raça antes que a ignorância a condene definitivamente.

    Menino de quatro anos morre após ser atacado por pitbull na zona norte do Rio
  • A tarde e a crase

    Quando Carlos Emilio Faraco disse: “Se você me desse a tarde, eu alegremente a trocaria por uma crase”, não falava apenas de gramática. Ele nos oferecia um jogo perigoso, desses em que uma vírgula é um abismo e um acento decide o destino de uma frase. Um duplo sentido que escancara a língua como ela é: erótica, sedutora, quase obscena.

    Sem a crase, “a tarde” é um corpo inteiro: pedaço de vida, presente concreto, quase palpável. Algo que se pode dar: como se alguém entregasse ao outro um tempo, uma presença, um encontro. Com a crase, “à tarde” muda completamente: já não se trata de um presente ou de uma posse, mas de um tempo em que algo acontece (“marcar um encontro à tarde para se entregar ao sexo”).

    Assim, ao propor a troca, Faraco mostra como a ausência ou a presença da crase altera radicalmente o sentido. Ele brinca com a ideia de que alguém poderia lhe dar a própria tarde (um pedaço da vida, um corpo, um tempo), mas ao mesmo tempo, revela a importância de escrever corretamente para não perder o sentido pretendido. A frase ganha, então, um perfume de sedução, transformando uma lição gramatical em jogo sensual de linguagem.

    É nesse risco invisível que mora a diferença: de um lado, o desejo; do outro, a obrigação. De um lado, carne; do outro, horário. A língua portuguesa tem dessas perversões: uma partícula mínima, expletiva para uns, é capaz de acender ou apagar a chama de um texto inteiro.

    Faraco sabia disso. Jogava com a ambiguidade, mas também nos alertava: escrever errado é perder o sentido; escrever certo é ganhar vertigem. Entre a gramática e o erotismo, mostrou-nos que a língua é também um corpo que respira.

    Porque a vida é feita desses detalhes. Uma oração subordinada mal compreendida pode roubar o sentido de um texto. Um pronome possessivo mal colocado pode alterar a intenção de quem ama. Um verbo bitransitivo mal conduzido pode inverter agente e paciente da ação. E, nesse descuido, a pressa nos engole.

    No fim, Faraco nos lembra que a gramática não é um conjunto de regras mortas, mas um organismo pulsante. É corpo e é espírito. É rotina e é vertigem.

    Eu, se pudesse escolher, ficaria com as duas coisas:
    — A tarde, para viver com ela.
    — A crase, para possuí-la.

  • O menino que pintava cidades

    Sempre identifiquei as cidades pelas cores. Mesmo antes de visitá-las, ainda garoto – empinando pipas nos arredores de casa ou jogando bola dente-de-leite pelas ruas – eu já sabia que o Rio de Janeiro era azul, igual ao céu em dia claro, e São Paulo, de um cinza faiscante.

    Pensava nisso e começava a desenhar em um papel pequenos quadrados, dentro dos quais escrevia os nomes das cidades. A partir dali, cada uma passava a ser classificada por uma cor: Curitiba-Cor-de-Gelo, Salvador-Alaranjado, João Pessoa-Azul-Anil e Espírito Santo-Cor-de-Mel. Abaixo de cada nome, colocava um número. Dependendo do tempo que eu tivesse, aquele quadrado ganhava contorno, ornamento ou traço estilizado. Ao lado, em uma coluna paralela, repetia os números, indicando a posição das cidades no “meu mapa”. Assim, podia provar a autenticidade da criação quando mostrava para minha família ou a algum amigo das brincadeiras.

    Para muitos, claro, parecia uma ideia estapafúrdia.

    — Tá maluco? Onde já se viu dizer que cidade tem cor, menino? O que tem é ladrão e gente doida, isso sim — retrucava minha mãe, toda vez que eu insistia no assunto.

    Às vezes, ouvia dos mais velhos que São Paulo era a “cidade da garoa”. Isso me deixava intrigado: tentava imaginar a cor turva de um dia chuvoso, em um lugar que, para mim, só podia ser cinza faiscante.

    Tinha meu amigo Zeca, o único que acreditava nessas descobertas. Mas ele não espalhava nada, porque acreditava em tudo o que eu falasse.

    — Qual é mesmo a cor de Brasília? — perguntava em tom provocativo.

    — Brasília-Branco-Neve, Zeca — respondia, exibindo o número correspondente nas folhas dobradas que carregava no bolso.

    Um dia, ele me lançou uma pergunta que mudaria para sempre o rumo do meu raciocínio:

    — E a nossa cidade, que cor ela tem?

    Fiquei paralisado, tentando imaginar. Mas simplesmente não havia resposta. Durante semanas, busquei a cor certa para a nossa cidade. Fechava os olhos e nada me vinha. Comecei a evitar o Zeca, temendo que descobrisse meu vazio. “Como não saber a cor da nossa cidade, se você sabe até a cor de Nova Iorque?”, provavelmente ele diria.

    Cansado de esperar, Zeca tentou por conta própria. Disse-me, certa vez, que sua cabeça chegou a doer de tanto esforço em traduzir uma cidade inteira em uma única cor.

    — Na nossa tem casa de tudo que é cor, primo — disse.

    O tempo passou. Muitas coisas mudaram, e eu ainda pensava nas cidades coloridas, mas já sem o mesmo entusiasmo infantil. Perdi o contato com minhas raízes; Zeca virou lembrança. Conheci algumas das cidades rabiscadas no meu caderno, e elas se apresentaram exatamente como eu havia imaginado: o Rio de Janeiro é mesmo o azul intenso do mar em dia ensolarado.

    Esta manhã, acordei pensando no Zeca. Queria contar-lhe o quanto fiquei preso àquela questão: a cor da nossa cidade. Mas ele já não está entre nós. Passados quase quatro décadas daquele episódio, ainda sonho com a resposta. E hoje, enfim, posso dizê-la: nossa cidade tem cor, sim. É verde-limão.

  • Destino

    Ela buscava a perfeição nas pequenas coisas. Não por vaidade – que tolice seria pensar assim – , mas porque temia que, se um detalhe lhe escapasse, o resto se desfaria junto. Como se a vida fosse tecida de minúcias frágeis, e bastasse um único fio solto para que tudo se desfiasse.

    Naquela tarde, após o encontro inesperado com alguns colegas do antigo curso de Arquitetura, decidiu retardar a volta para casa. Um happy hour. Um instante de distração. E nesse gesto havia quase um crime: quebrar a rotina perfeita que sustentara por vinte anos de casamento. Estranho como a alegria, quando não estava prevista, parecia culpa.

    A noite avançava. Os amigos insistiam para que ficasse. Ela sabia que não devia prolongar aquele instante. O corpo dizia: fique. A consciência sussurrava: vá. Riam, insistiam, queriam retê-la. Ela ponderou: a música era boa, fazia tanto tempo que não tinha momentos só dela. Mas não conseguiu se entregar. Sentia-se dividida: entre o prazer de estar ali e a voz severa dentro de si, que lembrava sempre o “certo”. Presa ao medo de parecer chata, quase cedeu. Sempre houvera em sua vida um juiz oculto, vigilante, capaz de tolher qualquer leveza. É curioso como, às vezes, o que nos prende não é a obrigação, mas o receio da opinião alheia.

    Entre eles, Augusto. Não era apenas um amigo antigo. Era a lembrança de um caminho perdido. Ao vê-lo, sua alma estremeceu, frágil, como uma casa durante um terremoto. Pensou: se não tivesse obedecido à ordem das mulheres de sua família. Casar, ter filhos, cuidar da casa, como sua mãe fizera e a mãe de sua mãe antes dela, talvez tivesse permitido uma aproximação, quem sabe uma aventura. Recordou os corredores da PUC, os bancos da praça de alimentação, as conversas que nunca chegaram a ser promessa. E agora ele estava ali, diante dela, intacto. Como se o tempo não tivesse passado. Como se tivesse ficado, de propósito, à sua espera.

    E, de repente, bastou uma frase. Palavras comuns, triviais até, mas que carregavam o peso de uma chave guardada por décadas:

    – Nos trilhos somos livres. De uma estação a outra, seguimos nosso destino.

    Ela respondeu sem pensar, como se a voz não fosse dela, mas de algo mais antigo:

    – Para onde quer que você vá, levará consigo você mesma.

    Riram, mas não das palavras em si. Riram de si mesmos, do espanto de se ouvirem repetir o que soava tão gasto, tão decorado. O clichê, afinal, não estava nas frases escritas anos antes, por Augusto e por ela, no banco da praça: estava no tempo que haviam perdido. E foi por isso que aquelas palavras banais soaram como um segredo enfim revelado.

    O silêncio seguinte foi decisivo. E, de repente, já não importava mais a música, os protestos dos amigos, nem a madrugada que avançava. No olhar entre eles havia já um pacto. Sem despedidas, sem desculpas, de mãos dadas, abandonaram o bar.

    Daquele dia em diante, ela nunca mais foi a mesma. Começou a perceber fissuras no mundo perfeito que construíra: os filhos já não pareciam os mais belos, o chulé do marido lhe dava enjoo, a toalha molhada esquecida no banheiro tornara-se insuportável. Não era novidade nenhuma, mas agora ela via. E ver é diferente de saber.

    Numa manhã de sol quente, desceu as escadas para atender à campainha. Era Augusto, com dois envelopes timbrados de uma companhia aérea. Não houve palavra entre eles. Apenas o gesto. Um convite mudo. E ela aceitou.

    Enquanto partia, teve a impressão de que não deixava nada para trás. Ou talvez deixasse tudo: os filhos, o chulé, a toalha molhada, a casa perfeita. Ainda assim, não se despedia de nada. Era como se permanecesse ali, presa ao corpo que caminhava, à casa que ficava, aos seus demônios interiores. Ele, ainda embriagado pelo acaso. Ela, estranhamente vivendo a sensação de ter encontrado a si mesma, ao mesmo tempo, de estar se perdendo para sempre.

    E se perguntou: quem é que parte, afinal?

  • O segredo do nervo vago

    Dentro de nós e dos cães corre um fio invisível chamado nervo vago. Ele não aparece em exames, mas é peça central do sistema nervoso autônomo. Atua como maestro da calma: regula os batimentos cardíacos, conduz a respiração, organiza a digestão e até equaliza o tom da voz. O fisiologista Stephen Porges, criador da Teoria Polivagal, chama esse nervo de “ponte biológica da segurança”, pois traduz nossos estados emocionais em respostas corporais.

    Nos cães, esse nervo também está presente, mas sua ativação acontece de forma natural. Basta observá-los deitados de lado, barriga entregue pra cima, respirando devagar: nesse instante, o corpo inteiro se ajusta em harmonia. Para eles, o descanso não é estratégia; é vida. Eis a razão pela qual têm o dom de não se prender ao passado nem ao futuro. Já nós, humanos, tendemos a desafinar: corremos mais do que o coração suporta, comemos sem mastigar, falamos alto demais e tomamos decisões precipitadas. Assim, os instintos se confundem e a ansiedade toma espaço. Como lembrava Epicuro, “quem não sabe viver com simplicidade, não sabe viver com serenidade”.

    O aprendizado silencioso

    Quando passamos a mão no peito de um cão, percebemos algo que a ciência confirma: o toque lento e constante estimula o nervo vago, reduzindo a frequência cardíaca e induzindo calma. É nesse instante que surge a pergunta inevitável: afinal, quem ensina quem? Eles, que vivem o óbvio, ou nós, que inventamos protocolos para reencontrar o caminho da tranquilidade? O filósofo Viktor Frankl recordava que o ser humano precisa de um “sentido” para suportar a vida. Talvez o cão nos lembre justamente disso: respirar com atenção, mastigar devagar, confiar no vínculo e viver o presente.

    No fim, o nervo vago não é apenas uma linha que liga órgãos e funções: é o elo entre corpo, mente e laço afetivo. Em nós, exige disciplina e consciência. Nos cães, acontece como respiração: sem esforço, sem cálculo. E é justamente nessa diferença que se oculta a lição – aquela que nos distancia deles. Os cães vivem o que, muitas vezes, para nós sequer faz sentido.

    Cada respiração lenta, cada mastigada devagar, cada toque silencioso é um convite para retornar ao essencial. O cão não nos pede teorias; pede ação, plenitude, compreensão. E talvez seja essa a maior prova de sabedoria: enquanto nós buscamos protocolos para reencontrar a paz, eles a oferecem de graça, no simples gesto de existir tal como são.

    Assim, quando dono e cão respiram juntos, não é apenas o corpo que se acalma; é a vida que se afina, como dois acordes vibrando em uníssono, lembrando ao mundo que a serenidade não se explica, apenas se pratica.

    A seguir, uma sugestão prática para ativar diariamente o seu nervo vago.

    🐾 Ativando o nervo vago junto do seu cão

    1. Respiração conjunta:
    ■ Sente-se ao lado do seu cão, em silêncio. Busque um ambiente sossegado.
    ■ Coloque a mão suavemente sobre o peito dele, sentindo o ritmo da respiração.
    ■ Inspire fundo pelo nariz e solte o ar devagar. Ele tende a espelhar seu ritmo.
    ■ Repita por 3 a 5 minutos.

    2. Toque calmante:
    ■ Apoie a mão aberta no peito ou na base da orelha do cão.
    ■ Faça movimentos lentos e circulares, sem falar.
    ■ Permaneça assim por 5 minutos. Observe sinais de relaxamento: bocejo, respiração lenta, olhos semicerrados.

    3. Mastigação consciente:
    ■ Ofereça um petisco pequeno e crocante. A mastigação estimula a deglutição, ativando o nervo vago.
    ■ Observe o ritmo dele e acompanhe com calma, sem distrações ou pressa.

    4. Voz serena:
    ■ Fale com ele em tom baixo, compassado.
    ■ Pode ser uma canção suave, uma oração curta ou apenas sons suaves.
    ■ Controle as suas emoções.
    ■ Mantenha esse exercício por 2 a 3 minutos.

    5. Caminhada atenta:
    ■ Faça um passeio com seu cão e deixo-o explorar, sem agitá-lo.
    ■ Evite o celular e concentre-se apenas nos movimentos dele.
    ■ Observe como ele fareja, para, respira. Acompanhe o ritmo dele, sem pressa.

    ✨ Repita esse ritual uma vez por dia, de preferência em um momento de calma (pela manhã ou à noite). Aos poucos, você perceberá que não é apenas o cão que relaxa: você também se harmoniza.

    Referências: *Porges, S. (2011). The Polyvagal Theory: Neurophysiological Foundations of Emotions, Attachment, Communication, and Self-Regulation. **Epicuro. Carta a Meneceu. ***Frankl, V. (1946). Em busca de sentido.

  • O paradoxo das leis de proteção aos cães no Brasil

    De vez em quando, o Brasil acerta na proteção aos animais. O Governo de São Paulo, por exemplo, tomou uma decisão justa ao proibir o acorrentamento de cães e gatos no Estado. Uma lei que soa óbvia, mas que só agora, em pleno século XXI, recorda o que qualquer responsável sempre soube: prender um animal pelo pescoço não é educar, é torturar. Cães não nasceram para viver sob grilhões. Nasceram para correr, farejar, vigiar, proteger e amar. Quando lhes roubam esse direito, não é apenas a liberdade que se perde, é a dignidade de um ser senciente que é negada.

    Nem toda lei criada pode ser chamada de necessária. Muitas vezes, são apenas cortinas de fumaça que não atingem o problema em seu cerne. A falta de conhecimento leva a legislar mal. Foi o que aconteceu em Campinas, onde vereadores propuseram proibir de vez o uso das coleiras eletrônicas, os chamados e-collars. A boa intenção é inegável. Afinal, quem gosta da ideia de dar choque em cachorro? Só que a vida é mais complicada do que a pauta de uma sessão de Câmara Municipal. Essa lei pode acabar virando um tiro no pé: condenando justamente os cães que poderiam ser salvos por um último recurso. A vida não cabe em generalizações. Há cães que não se enquadram no “sempre” ou no “nunca”. E é justamente aí que mora o perigo de uma proibição cega.

    A ciência já mostrou que reforço positivo pode ser um caminho mais adequado para substituir métodos arcaicos. Cães educados sem violência tornam-se mais estáveis, confiantes e felizes. Bater, ameaçar, causar dor, nada disso é linguagem canina. Além de não educar, semeia medo e alimenta a agressividade. Mas a realidade, áspera como é, também impõe exceções. Nos registros silenciosos das estatísticas aparecem os casos extremos: cães que se tornam ameaça constante, que atacam seus próprios donos, que colocam em risco vizinhos e famílias inteiras. Donos exaustos, depois de verem todas as técnicas falharem, encontram-se diante de um dilema cruel. Nesse contexto, sob protocolo clínico, técnico e ético, o e-collar deixa de ser castigo e torna-se ferramenta de resgate.

    A filosofia já dizia, muito antes de a ciência confirmar: a virtude está no meio-termo. Aristóteles chamava de phronesis, a prudência. Nem a tirania da dor, nem a ilusão permissiva do “tudo pode”. Entre esses dois extremos ergue-se o ponto de equilíbrio: autoridade sem crueldade, firmeza sem violência, atitude sem condenação. No Treinamento Invisível seguimos essa linha. A guia funciona como extensão do corpo, o olhar age no instante preciso; o gesto conduz sem brutalidade. Tudo isso vale mais do que qualquer mecanismo elétrico. Mas também sabemos reconhecer o imponderável. Em situações complexas, uma ferramenta pode significar a diferença entre a vida e a morte. Negar sua existência pode soar confortável, mas na prática é condenar cães ao abandono ou à eutanásia.

    Por isso, é preciso afirmar sem rodeios: sou contra cães acorrentados. A imagem de um animal acorrentado é, por si só, angustiante. Mas sejamos honestos: em alguns casos extremos, recorrer ao e-collar para evitar um fim trágico pode ser a única saída. Não é escolha fácil, nem deve ser banalizada. Só se justifica quando ciência, ética e circunstância caminham juntas, quando tudo já falhou e não restam alternativas. O risco, nesses momentos, não é apenas técnico: é moral.

    E é nesse contraste que mora o paradoxo: São Paulo quebra as correntes para que os cães vivam. Campinas ameaça abolir a última porta para que alguns condenados continuem vivos. Uma lei que liberta, outra que, se não refletida com prudência, pode aprisionar de outra forma. Entre as duas, está o desafio maior: compreender que educar não é prender nem castigar, mas também não é cruzar os braços diante do irremediável. A vida pede equilíbrio. E os cães, mais do que ninguém, estão entre nós para ajudar a trazer discernimento.

  • Uma História de Pai, Filho, Avô

    Para Matheus, meu filho.
    Para Francisco, seu avô
    .

    Matheus fez trinta, a vida falou sem gritar,
    o corpo avisa, a alma aprende a escutar.
    A dor não pede licença: entra e ensina,
    quem ama, simplifica, ampara e ilumina.

    O tempo é lavrador: ara a gente por dentro.
    Quem aceita o sulco, colhe entendimento.

    Fala, meu filho, que hoje o verbo é ouvir,
    ouvir é cuidar: verdade a seguir.
    Se o fardo pesa, nós dois vamos dividir,
    a coragem é quieta, mas sabe resistir.
    O vô plantou raiz pra eu não me perder,
    agora, contigo, aprendo a renascer.

    Eu, que era resposta antes da pergunta,
    descobri que o amor é a pausa que junta.
    “Pai, respira. Vai no passo que dá.”
    No teu conselho simples, mora o verbo amar.

    O vô dizia: “Filho, firme o pé no chão,
    tradição é mapa, futuro é direção.”

    Tudo passa, menos o que a gente passa adiante,
    mesa posta, fé breve, silêncio constante.
    Três tempos, uma voz: o que foi, o que é, o que vem,
    sertão por dentro, onde a gente se mantém.

    Ouça, filho, o pai está aqui,
    a escuta é a forma mais pura de dizer “estou”.
    Se a vida insiste, a gente insiste em si,
    com o vô na lembrança, o amor que nos guiou.
    Raiz bem funda abraça qualquer vento:
    pai, filho e avô: três nomes do mesmo tempo.

  • Adotei um border collie com genes recessivos. E agora?

    Havia cinco filhotes naquela ninhada. Quatro pareciam feitos da mesma matéria: pretos, compactos, quietos, como se o tempo, para eles, fosse mais lento. Mas um, o quinto, era diferente: albino, um olho de cada cor e esperto por natureza. Maior, mais firme nas patas, olhos acesos como se lesse pensamentos, o primeiro a alcançar as tetas da mãe, o único a reclamar quando um irmão tentou dividir espaço. Um pai que chegava para escolher o cão ideal para a sua família, viu aquele filhote branquinho e disse, com a falsa intuição de quem se julga conhecedor:

    — Filha, vamos levar esse!

    A garotinha, sem dizer muito, pulou no colo do pai e disparou uma centena de beijos em suas bochechas.

    Levaram-no para casa no banco de trás, entre a filha entusiasmada e a mulher preocupada com o cheiro de urina. Deram-lhe o nome de Pompom, porque era macio, redondinho, quase irreal. Tinha o pelo branco como neve recém-caída, olhos de botão e patas desajeitadas que escorregavam no banco de couro. Talvez, no fundo, acreditassem que o nome pudesse conter o ímpeto daquele filhote que, aos olhos da menina, mais parecia um brinquedo de pelúcia prestes a ganhar vida

    Nos primeiros dias, Pompom dormia como qualquer cão recém-chegado. Mostrava-se assustado, medroso com os ruídos, e choramingava com a ausência da mãe. Mas logo a rotina ganhou outros contornos. Descobriu como explorar a casa, fazer xixi e cocô por tudo quanto é lugar — menos na fralda. Quando arrastou o tapete até o quintal e roeu o que pôde dos móveis da casa, deixou de ser engraçado.

    Não demorou para começar a rosnar ao redor da comida. A mãe estranhou e o chamou de ciumento. Quando passou a latir para carros e motos, ou a correr atrás das pessoas mordiscando calcanhares e cercando o grupo como se fosse gado, o pai ficou desesperado… Ele ainda não sabia, mas adotara um cão de linha de trabalho, descendente de campeões e com um drive altíssimo.

    O pai até cogitou a devolução, mas sentia-se responsável por aquela vida. Ligou para o dono do canil em busca de uma solução imediata, e ouviu, do outro lado da linha, a resposta fria de quem já não podia, ou não queria, se envolver:

    — Esse cão não foi feito pra sofá. Ele precisa de função.

    Foi a primeira vez que a palavra função apareceu. A partir daí, as coisas pareceram desandar entre o cão e o resto do mundo. Um cão que só faz o que quer é incontrolável. Disse a si mesmo:

    — Um cão que só faz o que quer é incontrolável.

    Pompom era, de fato, um legítimo border collie, embora o pai mal soubesse o que isso significava. Não era apenas uma raça, mas uma potência. Um corpo moldado por gerações para pensar em movimento, responder a comandos invisíveis, pastorear o caos. E, mais do que tudo, um cérebro preparado para trabalhar horas a fio com um único propósito: controlar rebanhos vivos. Na ausência de ovelhas, bastava-lhe algo que se movesse.

    Mas ali não havia rebanhos. Só almofadas, tapetes e uma menina que sonhava com um amiguinho. E, quando não se dá uma missão a um cão com a inteligência de um border, ele inventa uma. Pompom pastoreava a casa inteira: cercava portas, montava guarda, rosnava quando o aspirador mudava de direção. Seguia sombras, latia para ventiladores, mordia o próprio rabo. Rodeava, sem parar, a mesa de jantar e até bebia a água da piscina. Tudo parecia brincadeira ou jogo. Para um leigo, era difícil saber.

    O primeiro adestrador tentou o método positivo. Disse que não havia caminho melhor. O segundo, estúpido e apressado, propôs colocar uma coleira de choque no filhote. O terceiro, adepto de florais, também não teve progresso. Restava estudar. Mergulhar nos livros, entender o comportamento canino. E foi assim que, com a ajuda de um novo treinador, começou a compreender as raízes de tantos transtornos.

    Enfim, surgiu uma nova teoria: genes recessivos comportamentais. Traços invisíveis à primeira vista, mas capazes de emergir quando duas linhagens equivocadas se cruzam. Características que não apareciam nem no pai, nem na mãe, mas que, uma vez ativadas, exigiam contenção. E não qualquer contenção: rotina, clareza, estímulo, constância.

    A palavra recessivo ficou martelando na cabeça do pai. Começou a ler. Descobriu que a genética não é destino. É mapa. E que esses genes não vêm sozinhos: carregam comportamentos instintivos que, quando ignorados, explodem. Ansiedade por movimento, obsessão por tarefa, reatividade emocional. Era isso que pulsava dentro de Pompom. Ele não era um cão-problema. Era um cão incompreendido.

    E então, finalmente, o pai fez o que jamais havia feito: olhou para dentro e traçou novas metas.

    Começou a levar Pompom ao futebol. Passou a acordar mais cedo para correr com o cão. Leu livros de comportamento canino com a mesma atenção que antes dava ao noticiário esportivo. Aprendeu sobre epigenética , o modo como o ambiente pode acender ou apagar comportamentos nos cães. Entendeu que amor, sozinho, não basta para dar direção. Que amor sem conhecimento vira pena. E pena, quase sempre, vem seguida de raiva. Frustrações pelas “provocações” que Pompom fazia.

    Como diria Edmund Burke, “a sociedade é um contrato entre os vivos, os mortos e os que ainda hão de nascer”. O pai compreendeu que, entre homem e cão, também existia um pacto silencioso — selado pela ancestralidade, pela vocação impressa na carne. e que esse pacto precisava ser honrado, não ignorado.

    A rotina da casa mudou. Pompom passou a ter tarefas, jogos de olfato, percursos no mato, comandos de espera e recompensa. O treinador ensinou novos comandos, sempre desafiando sua capacidade mental. A ansiedade deu lugar à escuta. O corpo deixou de implodir. O olhar, antes elétrico, tornou-se profundo.

    A menina voltou a brincar com ele. A mãe, a sorrir das travessuras de Pompom. Ele já não mordia, nem destruía os móveis. Deixou de ter posse do sofá ou da comida, mas ganhou um cantinho na cama, toda vez que entrava no quarto devagarinho.

    — Quando ele faz essa carinha, a gente pode deixar entrar!

    O pai compreendeu, por fim, que não havia adotado um ursinho de pelúcia, mas um ser com passado. Que os cães que parecem mais brilhantes, mais ágeis, mais espertos são, muitas vezes, os mais difíceis de manter. Que herança genética não se reverte com agrado, mas se conduz com consciência. E vigiar, para ele, é função. Porque cães como ele não descansam.

    Se o seu cão tem genes recessivos, não procure culpados. Não tente corrigi-lo com vídeos da internet. Não espere que ele se adapte ao seu sofá, ao seu tédio, à sua pressa. Porque, cedo ou tarde, o que ele carrega vai emergir. E, quando isso acontecer, você vai ter que escolher entre fugir ou tornar-se melhor.

    Pompom, por sorte, teve pessoas que decidiram mudar hábitos para construir uma relação melhor. Mas a sorte, você sabe, não é o que determina o fim da história. É a escolha. E a coragem de sustentá-la.

  • O cão que sabia esperar

    Chamava-se Mingau. Era jovem ainda. Uma mistura de beagle com sei lá o quê.

    Chegou a casa numa noite de chuva, só pele e osso, com os pelos encharcados e a cabeça cheia de feridas. Meu pai lhe deu o resto do prato. Pedi para ficar com ele, mas minha mãe disse que ia dar trabalho e que acabaria sobrando para ela. Mesmo assim, ele ficou.

    Nunca pulou em ninguém. Não pedia comida. Dormia num canto da sala e vigiava, atento, quando deixávamos o portão aberto.

    Quando cresci, ele já andava torto. O rabo balançava devagar. Uma orelha ficava ereta; a outra, caída. Só os olhos continuavam espertos: dois furos negros cravados no pátio, como se esperassem que os passarinhos viessem bicá-los.

    A rotina era essa: eu saía, ele ficava parado. Não corria atrás de nada. Nem de gato, nem de galinha. Também não latia. Apenas acompanhava com o olhar. E ficava.

    À tarde, quando eu voltava da escola, lá estava ele. No mesmo lugar. Sentado. Às vezes deitado. Mas sempre ali.

    Uma vez perguntei por quê. Meu pai disse:

    — Cachorro é bicho que espera.

    Na aula de História, o professor — sujeito que gostava de tudo quanto era bicho — contou sobre um cachorro japonês que esperou o dono por anos na porta da estação. O homem morreu, mas o cão continuou voltando ali, dia após dia, até o fim da vida. Virou estátua. E, até hoje, é lembrado.

    Achei bonito. Contei pro meu pai.

    Ele apenas disse:

    — É Hachiko.

    Saí de casa ainda adolescente. Faculdade, primeiro emprego, a correria do mundo lá fora. Mas, sempre que eu voltava, lá estava Mingau — no mesmo canto, diante do portão — como se o tempo tivesse passado só para mim. Cego, como se sempre tivesse sido. As patas trêmulas. O corpo frágil, tombado de lado.

    Da última vez que o vi, não me reconheceu de imediato. Depois, mexeu as narinas e me farejou. E então fez aquele ruído baixo de cão, que não é choro, mas é pior do que isso.

    Sentei com ele no chão. Cocei atrás da orelha, como ele gostava. Mingau encostou a cabeça na minha perna e dormiu. Ficou ali até o anoitecer. Eu fiquei em silêncio, até minha mãe acender a luz da varanda e perguntar se eu ia entrar.

    E eu disse:

    — Daqui a pouco eu entro.

    Na semana seguinte, fui embora. Mingau morreu três dias depois.

    Na manhã do quarto dia, minha mãe o encontrou caído de lado, com os olhos abertos. Olhos de quem, talvez, ainda esperasse uma última visita.

    Ela contou que Mingau passou os três dias deitado no portão. Não comeu. Não dormiu. Não se moveu.

    Meu pai chorou. Disse que aquele cão só podia ser a reencarnação do Hachiko. Minha mãe não confirmou nem negou, também não se surpreendeu. Apenas baixou o olhar e pediu que me ligassem, para que eu pudesse vê-lo.

    Naquela época, eu não acreditava que bicho entendesse de ausência. Mas sei disso agora, quando penso no Mingau.

    Foi no silêncio daquele portão, diante de um cão que esperava mesmo quando ninguém mais vinha, que me dei conta do que queria fazer da vida.

    Hoje, sigo o rastro de outros cães. Procuro histórias que me façam lembrar do que vivi com o Mingau. Tento ajudar os que ainda não aprenderam a escutar os animais.

    Larguei o emprego. Tornei-me treinador. E, no fundo, nunca deixei de voltar àquele primeiro cão.

    Acho que ele ainda está lá. Não em corpo, mas no gesto de cada cão que sabe esperar. Como quem ensina, sem palavras, que amar também é saber permanecer.

    *Ao meu cão Duque, por todas as vezes em que ele espera sua doninha junto ao portão.

  • Uma história fictícia em homenagem à cadela Cerys

    Era cedo, e o céu pendia sob o peso das águas. As botas afundavam-se na lama espessa. O cheiro, áspero, pungia o ar. Podiam-se enganar os olhos. Podia-se calar um país inteiro. Mas o odor… o odor jamais mentia. Em qualquer busca, servia-se de um estalar de língua. O som seco bastava: cadela e bombeiro seguiam juntos. Ela, sem guia; ele, sem alarde. Unidos não por coleira ou comandos, mas pela tarefa silenciosa e nobre de socorrer o próximo.

    O homem-bombeiro desceu do caminhão com rapidez e silêncio. Ao seu lado, a companheira canina. Toda pretinha, o pelo endurecido pelos dias de trabalho ininterrupto. Cão de busca. Fêmea. Pronta para salvar uma espécie que não era a sua. Para o mundo, não precisava de nome. Mas tinha. Chamava-se Cerys. Nome simples, de origem galesa, que significa “amor”. E talvez não houvesse nome mais justo. Ela não amava com gestos humanos, amava com o faro, com o silêncio, com a entrega. O filósofo Emmanuel Levinas dizia que o rosto do outro é um chamado ético. Cerys, ao farejar corpos sob a lama, respondia a esse apelo sem precisar ver rostos. Bastava-lhe seguir o instinto, mover-se com a nobreza dos que servem sem calcular o esforço.

    A cidade estava submersa. E sob as águas, escorria a lama. E sob a pastosa camada da terra, os corpos. Centenas deles. Cerys sabia. Farejava. Não chorava. Não latia. Não tentava consolar. Só cumpria. Enfiava-se entre os destroços com o faro tenso, feito corrente de aço pendendo do pescoço. Era isso que fazia. Era isso que sempre fizera.

    — Vai — disse o homem-bombeiro, com a voz de quem sabe que não adianta pedir desculpas por nada.

    Só naquela manhã, foram três.

    Um corpo de mulher, rosto já indistinto. Depois, um velho, metade preso sob os escombros da própria casa. Por fim, uma criança. Pequena. Encolhida. Como se ainda esperasse que alguém dissesse: “Calma, já vai passar.”

    Na mão da criança, um ursinho inchado de água e silêncio.

    Cerys sentou-se ao lado do corpinho sem vida. Apenas isso. Sentou. O homem-bombeiro entendeu. Aproximou-se devagar, como quem não quer acordar o que já não sonha mais. Agachou-se. Fez um afago sincero atrás da orelha da cadela. Disse baixo:

    — Mais um, parceira.

    Depois, nada. Nada além da lama. Do cheiro da morte. Do silêncio.

    No noticiário, um representante do governo apareceu para acalmar a população. Disse que o sistema funcionara. Que a resposta fora rápida. Disse estar orgulhoso do trabalho das autoridades. E que, em breve, haveria lares para todos os desobrigados. Promessas falsas.

    Não falou da cadela.
    Não falou do homem-bombeiro.
    Não falou da criança.

    E o silêncio, aquele mesmo que já havia sido farejado ali por dois seres que sabiam escutar com a alma, espalhou-se feito mofo em parede úmida.

    O homem-bombeiro sabia: seu sacrifício não seria lembrado. Já Cerys, essa não podia saber. O tempo que havia dado ao ser humano não lhe traria fama. Morreu jovem, aos cinco anos, em decorrência de uma leptospirose contraída no lamaçal. Morreu sem saber da glória. Mas soube servir. E isso, talvez, seja o que resta de mais nobre no que ainda ousamos chamar de amor.

    A travessia de Cerys foi feita em cortejo, ladeada pelos companheiros de farda do respeitado Corpo de Bombeiros de sua cidade. E a ela, enfim, foram rendidas todas as honras.

    *História fictícia em homenagem à cadela Cerys, especialista em salvamentos em locais de difícil acesso.

  • O comando que nunca dei

    Quando abri a porta, meu cão já sabia.

    Ele me olhou sem esperar que eu falasse. Fez aquele gesto de quem antecipa o resultado antes mesmo de acontecer: abanou o coto de rabo, espreguiçou-se com uma elegância despretensiosa — a graça dos que não precisam provar nada — e me seguiu em silêncio. Não o chamei, nem era necessário. Também não fiz aquele som ordinário de estalar a língua ou bater na coxa, como fazem os entendidos. Apenas me levantei e meneei a cabeça com leveza. Para Rex, esse era um discurso inteiro.

    Já morei com gente que não me entendia, mesmo com todas as palavras à disposição. Rex, não. Rex compreende o que não é dito. Talvez porque, no silêncio, eu seja mais objetivo.

    Quem convive com cães por tempo suficiente acaba aprendendo — ou se rendendo — a uma linguagem anterior à linguagem. Aquela que, como diria Wittgenstein, “só pode ser mostrada, não dita”. No mundo dos cães, um gesto é uma frase com sujeito, verbo e confirmação. Um olhar basta. Expressões corporais são analisadas constantemente pelos cães. Um deslocamento de peso, uma hesitação no ar, e tudo está dito. A verdadeira eloquência mora nos detalhes.

    E não se trata apenas de romantismo. A ciência já se curvou a isso. Pesquisadores da Universidade de Budapeste demonstraram que os cães leem nossos rostos, a direção de nosso olhar, os gestos mínimos, assim como quem lê um roteiro. Segundo Ádám Miklósi, referência mundial na cognição canina, os cães desenvolveram uma habilidade rara: entender os humanos como espécie emocional, previsível e cheia de sinais. Um talento evolutivo que nem os chimpanzés conseguiram refinar.

    Mas essa dança silenciosa entre espécies não é automática. Levei tempo — e vários erros — para perceber que, quase sempre, o problema não era o cão. Era a minha pressa. A ansiedade que atravessa o corpo e contamina o gesto. Muitos acreditam que educar um animal é gritar mais alto do que ele. Que é preciso impô-lo à força, como quem vence uma queda de braço. Mas a verdade é que o grito desinforma. A grosseria confunde. A incoerência desorienta. A ameaça vira chacota. E assim, educadores frustrados colhem cães inseguros.

    Há uma elegância em educar um cão sem adestrar a alma. Educar, afinal, é mais sobre o que você é do que sobre o que você diz. Um cão não está interessado se você diz “senta” (ou “stay”), com sotaque de tutorial americano. Ele percebe — e responde — à coerência entre verdade e atitude. Ele lê a dúvida nos seus ombros. Fareja o medo no seu suor. Se você acredita nele, ele acredita em você. Mas se você finge firmeza, ele hesita. E com razão.

    Educar um cão é, antes de tudo, educar-se. Um exercício involuntário de autoconhecimento. Por isso falhamos tanto. Porque é mais fácil culpar o cachorro do que confrontar a própria falta de presença, o nervosismo crônico, o ego em desalinho. O cão não erra, ele quase sempre reflete nossos erros.

    Quando Rex está ao meu lado, ele sabe quando estou inteiro. E sabe também quando sou apenas uma casca funcionando no modo automático. Ele me lê antes mesmo que eu consiga me ler. Talvez por isso tenha se tornado meu melhor espelho. Não daqueles que mostram o rosto, mas os que revelam os gestos e meus desejos mais silenciosos de companhia.

    Naquela manhã, ao abrir a porta e ver meu cão me seguir, não fomos apenas eu e ele saindo à rua. Éramos dois cúmplices de uma linguagem invisível. Ele ia à frente, com a minha permissão, como quem desbrava uma estrada. Eu logo atrás, com o coração sossegado. E, no compasso das nossas pegadas, talvez — só talvez — o mundo estivesse, enfim, no lugar certo.

  • Cães e o Poder de Curar a Depressão

    Quantas pessoas acordam todas as manhãs sem grande propósito? Permanecem deitadas, sem forças para romper a gravidade invisível que as prende ao abismo da depressão. Pare essas pessoas, a cama se torna uma prisão, como se a vida estivesse suspensa e elas impedidas de viver.

    Nesse cenário devastador, onde a dependência de medicamentos é uma realidade frequente, a chegada de um cão pode ser transformadora. Diferente dos humanos, os cães não compreendem o que é depressão, mas percebem quando algo não vai bem. Eles possuem uma sensibilidade extraordinária, capaz de refletir o que muitas vezes escondemos até de nós mesmos.

    O simples toque de uma pata, um olhar atento que convida a sair ou o abanar de um rabo podem quebrar o ciclo de apatia. Eles nos lembram, sem palavras, que há um mundo lá fora, repleto de brilho e possibilidades. É um convite sutil, mas poderoso, para explorar, respirar, viver.

    Muitas pessoas encontram em seus cães a motivação para se levantar. Uma pequena caminhada pela rua deixa de ser um fardo e se torna um momento de prazer. É nesse ato quase mágico que os cães se entreguem por inteiros. Com sua companhia serena e amor incondicional, se oferecem para nos animar a seguir em frente, a redescobrir o milagre que é estar vivo.

    Cuidar de um cão nos faz olhar mais para o presente, e nos conectarmos ao aqui e agora. Eles nos mostram que, mesmo nos dias mais sombrios, há sempre uma chance de escapar da tristeza profunda. Talvez a maior cura que os cães oferecem seja a de nos ensinar a reencontrar a simplicidade da vida.

    No final, não são apenas os cães que nos salvam, mas também o amor que cultivamos ao lado deles. Eles não precisam de palavras para transformar vidas. Enquanto farejam, correm ou se deitam calmamente ao lado de quem precisa, passam uma lição simples: felicidade não é algo distante, mas algo que pode ser encontrado em pequenos instantes.

    O vínculo entre cães e pessoas vai além da companhia; é uma troca silenciosa de cuidado e afeto. Para quem enfrenta a depressão, um cão pode ser um guia que o conduz de volta à luz, mesmo quando tudo lhe parece cinza e sem propósito.


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