Givanildo Carmelino

  • De quando quase encontrei Givanildo Carmelino de Abreu Vasques

    Quando acabou a aula de química industrial, fui ao food truck mais frequentado dos arredores da faculdade. O cachorro-quente daquele lugar era tão conhecido quanto o seu Jacinto e a dona Cesárea, seu Jajá e dona Cesinha, para os íntimos. Nunca houve um food truck tão falado na cidade. Se não me engano, o seu Jajá foi até candidato a vereador uma vez, mas não se elegeu. Uma lástima, no fim das contas, pois se na câmara ele trabalhasse com a mesma destreza com que preparava os pedidos, teríamos avanços inimagináveis em todos os setores da máquina pública. Mas o povo é complicado, se vende fácil, sabe como é.

    Sempre que alguém fazia um pedido, ouvia um — Já já tá pronto —, e realmente estava, questão de minutos, de quando em vez, segundos até. A desenvoltura do casal em preparar os lanches num ritual sincopado era algo fora do comum. Mesmo com dezenas de clientes se acumulando, geralmente depois da aula, ninguém aguardava mais de cinco minutos para abocanhar o seu cachorro-quente.

    O furgãozinho ficava ao lado da entrada principal do câmpus. Era frequentado por alunos, funcionários, professores, diretores, população com fome e população com gula. Nunca fizeram merchan nem precisaram disso. Quando os conheci, aos dezoito anos mal completos, recém-ingressara no curso de química. A escolha se baseou num dos testes vocacionais que foram aplicados ainda na escola por simpáticas psicólogas em formação. Os colegas perceberam a minha inépcia para aquilo muito antes de mim. Aparentemente, ninguém na faculdade de química se interessava pelos romances policiais da modinha e ninguém tinha paciência para falar sobre os lançamentos, sobre a lista dos mais vendidos ou sobre as polêmicas do prêmio Jabuti. Pois é. Talvez eu não fizesse mesmo o estereótipo do estudante de química. Frequento o entrelugar desde muito.

    Seu Jajá e dona Cesinha eram bons de papo. Às vezes eu estacionava por ali e nem pisava no câmpus, sobretudo quando a televisão acoplada ao furgão transmitia os jogos do Grêmio. Foi numa dessas que o seu Jajá me perguntou enquanto preparava um lanche sincopado: — E aí, quando vai pra letras? Na hora achei até que falasse com outra pessoa. Eu tinha nas mãos um livro do Luiz Alfredo Garcia-Roza. O Grêmio ganhou com um gol do Barcos. A noite tinha um quê de minuano anunciando o inverno. E pela primeira vez cogitei a migração. Meio sem resposta, meio sem rumo. Era Achados e perdidos, o livro.

    Larguei a faculdade. Quando confessei aos colegas, ninguém esboçou reação contrária, ouvi apenas comentários inamistosos sobre a minha lerdeza. Todos sabiam que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde e a paciência comigo aparentava ter acabado há muito. Tinha uma ideia de que, formado em química, passaria o resto dos meus dias numa fábrica qualquer, daquelas com paredes altas e fedorentas, em que as pessoas entram recheadas de EPIs e ninguém sabe exatamente o que fazem lá dentro. Pois bem, não cumpri esse destino por conta de uma mísera pergunta do vendedor de cachorro-quente mais famoso da cidade.

    No duro, sem rodeios, o seu Jajá tinha razão, devo admitir. Química não combinava comigo. Infeliz coincidência ou não, nunca mais fui ao food truck. As aulas do mais novo destino eram EAD. Graduei-me sem sair de casa, antes mesmo dos antigos colegas, que acumulavam reprovações. A vida mudou um bocado desde então, mas ainda continuo lendo romances policiais e, por acaso, o da vez se chama Fantasma, do mesmo autor que lia quando fui alvo daquela questão. Não sei como andam o seu Jacinto e a dona Cesárea. Dos lanches, em particular, tenho saudades. Cursei economia.

    Numa daquelas noites frias, após uma aula de química industrial da qual não tenho recordações, cheguei um tanto apressado e flagrei ainda o largo sorriso do anfitrião. Logo me disse que Giva Vasques havia recém-saído de lá. De cara não acreditei, mas um outro estudante, de bigode besuntado com ketchup, confirmou a história. Era realmente Giva Vasques frequentando o food truck mais falado da cidade. Imagine você, justamente num daqueles momentos um tanto incômodos em que apenas cumpria tabela nas carteiras da Universidade, ainda antes de mudar de curso, quase encontrei Givanildo Carmelino de Abreu Vasques. E, desde então, nunca mais.

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