gravatas sobre a cama

  • Cinco gravatas

    Cinco gravatas estavam sobre a cama. Ele as escolhera para aquela semana de trabalho. Fazia muito tempo que não vestia nada tão formal e curiosamente sentia saudade. Escolhera aquele quinteto cada uma por uma razão.

    A primeira era justamente como sua re-estréia no mundo formal. De cor sóbria, lembrou os momentos em que interagiu com pessoas sisudas e pouco afeitas aos sorrisos. Perfeita.

    Já a segunda evocou memórias mais doces. De alguém que um dia sorriu quando o viu com ela ao pescoço e disse que ele estava muito elegante. Só de lembrar seu rosto se alegrava ao ponto de sentir a doce fragrância de seu aroma de mulher recém saída do banho.

    A partir daí as portas de suas lembranças amorosas se escancararam.

    A terceira tinha sido presente de uma moça que gostava de dizer que tinha altura certa para ajustar sua gravata. E beijar seu queixo o que o fazia revirar os olhos.

    A seguinte ele comprara de impulso em um shopping. A maior parte das pessoas, em especial as mulheres, não aprovara sua compra. Os comentários iam de “é bonitinha mas..” até simplesmente detestarem a gravata. Mas nunca se desfizera dela porque um dia um alguém, antes de partir seu coração, dissera que a tal gravata caía muito bem nele.

    A quinta e última era o arremate para sua semana formal. Estilo sóbrio como a primeira mas atraente o suficiente para naquela ocasião a moça sair de onde estava e se postar à meia distância dele. O curioso é que ele demorou a perceber que ela estava ali diante dele. Ela olhava atenta mais para a gravata e menos para ele, verdade seja dita. Na conversa que se seguiu a moça disse que a gravata era linda e era igual a que ela vira em um filme clássico sobre aristocracia inglesa. Não lembrava mais do filme mas os momentos a dois nunca mais deixaram sua memória.

    Assim, gravatas postas lado a lado de suas memórias evocadas suspirou uma última vez. As lembranças de amores passados sempre o comoviam e, conforme o dia, o faziam pensar em hipóteses e histórias alternativas.

    Afastou os pensamentos. Eram só lembranças, mereciam seu lugar em sua memória afetiva e nada além disso. E ponto final. Pegou a primeira, olhou-se no espelho, preparou-se para dar o nó de Windsor, o único que ele sabia fazer na gravata e disse para si mesmo: hora do show.

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