Grêmio

  • Alguém salve a Língua Portuguesa!

    Queria falar de literatura. De literatura brasileira, especificamente. Gostaria, na verdade, de escrever sobre algumas das obras de Erico Verissimo, como O prisioneiro, que, por acaso, li os últimos capítulos hoje mesmo. E, preciso dizer, quanto mais leio as obras do Erico, mais certeza tenho de que se trata de um escritor absolutamente extraordinário. No entanto, não abordarei nem o romance e nem a guerra, sua temática principal. Falarei de Grêmio.

    E, vamos combinar, como tem sido difícil falar de Grêmio. Nossa geração cresceu vendo o Grêmio ganhar tudo e mais um pouco nos anos noventa. Passamos por uma década e meia sem títulos, é verdade, mas geralmente com times aguerridos, figurando quase sempre na parte de cima da tabela. Em 2016 veio a Copa do Brasil, depois a Libertadores, a Recopa e uma sequência de Gauchões. Também passamos por uma queda trágica para a segundona e, no retorno, tivemos um ano mágico com Suárez e companhia quase beliscando o título brasileiro.

    O fato é que hoje, ao assistir aos jogos, tenho vontade de criar palavrões. Sinto essa necessidade, às vezes, mesmo antes do início das partidas, bebendo ou não uma cervejinha. Nada contra o nosso novo treinador, nem contra os jogadores, que, em geral, respeito e admiro. O problema é que não há um palavrão específico que retrate exatamente a situação. Por vezes os jogos são tão constrangedores que nem mesmo o grande Erico Verissimo (caso fosse gremista) conseguiria descrever.

    No fim das contas, trata-se de um impulso, de uma onda de raiva, de ódio, de repulsa, de indignação, como só um futebol mal praticado consegue nos proporcionar. Durante os noventa minutos fico a cogitar neologismos e não encontro nada que represente tamanho desentrosamento. Falando sério, eu não sei qual urucubaca lançaram sobre o tricolor, mas passou da hora de nos desfazermos dela.

    De certa forma, sinto-me como o Tenente, de O prisioneiro, que, preso ao passado, não consegue seguir em frente, recaindo em elucubrações, questionamentos e fantasias das mais absurdas. Devo confessar que ainda sonho com as defesas do Marcelo Grohe, com a classe do Maicon, com a força do Edilson, com a canhota do Douglas, último camisa 10, e, claro, com a eterna dupla Geromel e Kannemann. Que saudades.

    Sei que para uns e outros pode parecer bobagem, mas a língua de Camões, de Machado de Assis, de Erico Verissimo, não precisa de palavrões criados durante uma partida de futebol. Já existem palavrões demais e geralmente eu os utilizo em demasia, inclusive em momentos não oportunos. Não adianta, nem nos porões do idioma há uma expressão de baixo calão que defina o futebol praticado pelo Grêmio nos últimos tempos. E, convenhamos, quem sou eu para querer criar neologismos? Deixemos isso para quem conhece. Perdão, Guimarães Rosa. Por isso, peço encarecidamente à equipe que não me permita fazer isso e passe a se apresentar de uma forma, ao menos, mais aprazível. Se não for pela taça, pela torcida, pela história do clube, que seja pela Língua Portuguesa…

  • De quando quase encontrei Givanildo Carmelino de Abreu Vasques

    Quando acabou a aula de química industrial, fui ao food truck mais frequentado dos arredores da faculdade. O cachorro-quente daquele lugar era tão conhecido quanto o seu Jacinto e a dona Cesárea, seu Jajá e dona Cesinha, para os íntimos. Nunca houve um food truck tão falado na cidade. Se não me engano, o seu Jajá foi até candidato a vereador uma vez, mas não se elegeu. Uma lástima, no fim das contas, pois se na câmara ele trabalhasse com a mesma destreza com que preparava os pedidos, teríamos avanços inimagináveis em todos os setores da máquina pública. Mas o povo é complicado, se vende fácil, sabe como é.

    Sempre que alguém fazia um pedido, ouvia um — Já já tá pronto —, e realmente estava, questão de minutos, de quando em vez, segundos até. A desenvoltura do casal em preparar os lanches num ritual sincopado era algo fora do comum. Mesmo com dezenas de clientes se acumulando, geralmente depois da aula, ninguém aguardava mais de cinco minutos para abocanhar o seu cachorro-quente.

    O furgãozinho ficava ao lado da entrada principal do câmpus. Era frequentado por alunos, funcionários, professores, diretores, população com fome e população com gula. Nunca fizeram merchan nem precisaram disso. Quando os conheci, aos dezoito anos mal completos, recém-ingressara no curso de química. A escolha se baseou num dos testes vocacionais que foram aplicados ainda na escola por simpáticas psicólogas em formação. Os colegas perceberam a minha inépcia para aquilo muito antes de mim. Aparentemente, ninguém na faculdade de química se interessava pelos romances policiais da modinha e ninguém tinha paciência para falar sobre os lançamentos, sobre a lista dos mais vendidos ou sobre as polêmicas do prêmio Jabuti. Pois é. Talvez eu não fizesse mesmo o estereótipo do estudante de química. Frequento o entrelugar desde muito.

    Seu Jajá e dona Cesinha eram bons de papo. Às vezes eu estacionava por ali e nem pisava no câmpus, sobretudo quando a televisão acoplada ao furgão transmitia os jogos do Grêmio. Foi numa dessas que o seu Jajá me perguntou enquanto preparava um lanche sincopado: — E aí, quando vai pra letras? Na hora achei até que falasse com outra pessoa. Eu tinha nas mãos um livro do Luiz Alfredo Garcia-Roza. O Grêmio ganhou com um gol do Barcos. A noite tinha um quê de minuano anunciando o inverno. E pela primeira vez cogitei a migração. Meio sem resposta, meio sem rumo. Era Achados e perdidos, o livro.

    Larguei a faculdade. Quando confessei aos colegas, ninguém esboçou reação contrária, ouvi apenas comentários inamistosos sobre a minha lerdeza. Todos sabiam que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde e a paciência comigo aparentava ter acabado há muito. Tinha uma ideia de que, formado em química, passaria o resto dos meus dias numa fábrica qualquer, daquelas com paredes altas e fedorentas, em que as pessoas entram recheadas de EPIs e ninguém sabe exatamente o que fazem lá dentro. Pois bem, não cumpri esse destino por conta de uma mísera pergunta do vendedor de cachorro-quente mais famoso da cidade.

    No duro, sem rodeios, o seu Jajá tinha razão, devo admitir. Química não combinava comigo. Infeliz coincidência ou não, nunca mais fui ao food truck. As aulas do mais novo destino eram EAD. Graduei-me sem sair de casa, antes mesmo dos antigos colegas, que acumulavam reprovações. A vida mudou um bocado desde então, mas ainda continuo lendo romances policiais e, por acaso, o da vez se chama Fantasma, do mesmo autor que lia quando fui alvo daquela questão. Não sei como andam o seu Jacinto e a dona Cesárea. Dos lanches, em particular, tenho saudades. Cursei economia.

    Numa daquelas noites frias, após uma aula de química industrial da qual não tenho recordações, cheguei um tanto apressado e flagrei ainda o largo sorriso do anfitrião. Logo me disse que Giva Vasques havia recém-saído de lá. De cara não acreditei, mas um outro estudante, de bigode besuntado com ketchup, confirmou a história. Era realmente Giva Vasques frequentando o food truck mais falado da cidade. Imagine você, justamente num daqueles momentos um tanto incômodos em que apenas cumpria tabela nas carteiras da Universidade, ainda antes de mudar de curso, quase encontrei Givanildo Carmelino de Abreu Vasques. E, desde então, nunca mais.

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