É impossível ser brasileiro e não ter passado por um ou mais concursos. O concurso é um resíduo da nossa formação cartorial e burocrática, que desde cedo coloca nossos projetos, nosso prestígio, nosso destino na dependência do Estado. A necessidade de derrubar outras pessoas, característica dos concursos, fomentou o maquievalismo do nosso caráter e deve ter concorrido para o famoso jeitinho brasileiro – que, no início, consistia em descobrir um expediente, uma forma ladina e sobretudo discreta, de conseguir aprovação num concurso.
Somos marcados pelo estigma da concorrência com os outros, a fim de conseguir um lugar ao sol, e um dos prazeres que muitos aprenderam a desenvolver foi o de – ao contrário dos japoneses, por exemplo – passar os concorrentes para trás não pelo estudo, não pelo mérito, mas pelo apadrinhamento ou pela cola. Nossos programas humorísticos, cuja função é liberar o inconsciente reprimido e, ao mesmo tempo, fazer a catarse dos desejos inconfessáveis, não param de ilustrar esse aspecto do nosso caráter. Através, por exemplo, da mulher boa e bonita que derrota outras eficientes, porém feias. Ou do candidato incompetente que consegue a vaga pela “fila”, pelo parentesco ou pelo favor.
De uma forma ou de outra, o certo é que ninguém neste país escapa de um concurso. Para o bem ou para o mal. Para o sério ou para o jocoso. O primeiro de que participei, já lá vão mais de quatro décadas, ocorreu no auditório da velha Rádio Borborema, em Campina Grande. Eu tinha, então, menos de um ano. E que a modéstia não me impeça de antecipar que fui, entre vários concorrentes da mesma faixa de idade, o primeiro colocado.
Havia por esse tempo um programa infantil chamado Clube Papai Noel, comandado por um senhor de nome Heraldo César. Fui várias vezes a esse programa, onde até me apresentei tocando acordeon. Um suplício, sobretudo pelo tamanho do instrumento, que eu a custo carregava até o centro do palco. E ali tocava dispneico, sentado. A família certamente me prognosticava um grande futuro musical, pois além da prosaica e nordestina sanfona fui também obrigado a aprender violino. Entre o regional e o clássico, optei por nada, mas até hoje me fica a nostalgia daquelas notas mal tocadas – e nas quais, por um instante de sonho, vislumbrei um futuro de glória.
Conta-me a família que, aí pelo início da década de 1950, Heraldo César promovia em seu programa concursos de robustez. Crianças bem-nutridas eram levadas pelos pais vaidosos, que as exibiam como provas de saúde e bons cuidados. Não sei se havia um júri específico ou se todo o auditório votava. Sei que minha mãe costurou uma sunga especial e, num domingo, meu pai me levou a participar do concurso. Havia dezenas de garotos e garotas no palco, cada qual mais risonho e “saudável”. Era um tempo simples e bom, de poucos produtos industrializados, no qual a araruta e a velha Maizena (o rótulo, contrariando a ortografia oficial, se escrevia com “z”) pareciam suficientes para nos deixar sãos e fortes.
Contam-me que, ao dizerem o meu nome, fui levado para o centro do palco e alçado como um troféu eugênico. Depois me mediram a barriga, os braços, as coxas. Existe uma pequena foto que comprova isso. É um retrato em preto-e-branco, onde sorrio como um bácoro inocente nos braços do meu pai. A fotografia semiapagada atesta que eu merecia ganhar. Aos nove meses, eu tinha a lustrosa redondez de um anjinho barroco.
Contam-me ainda que não houve suspense na divulgação do resultado. Fui escolhido por aclamação. Ignoro que prêmio me deram ou mesmo se houve algum prêmio além do rótulo de garoto robusto, que não deixou de ser um prólogo irônico à asma que viria depois. Com o “puxado”, destruiu-se a imagem de robustez. Não fosse ele e Campina teria – quem sabe? – dado ao mundo um Mister Universo.