Olho para o vazio
de meus olhos.
O espelho
não reflete mais o amor,
outrora visível.
Imagens tão nítidas
se me afloram perdidas
na incongruência do vidro,
uma vez descascada sua tinta
prateada de reflexão.
E agora as manhãs
trazem o hálito da perda,
do que fui e que no meu delírio
se esgotou em fome.
Não a fome dos homens
do nordeste, biológica.
Tampouco a fome dos homens
civilizados, que inventaram a fome
para dois terços do mundo.
Mas fome ela mesma,
que não se come e me digere.
Não se alimenta e me fez assim
um antropófago de mim.
Fome que se reverte em morte
e não me assusta, pois construí
a vida a partir dela.
Sou um desses seres que acreditam
que na sombra se esconde a morte,
e se perde a vida e se ganha a vida.
A vida ganha com a morte
não é metafísica.
Por isso eu me mato a cada dia,
consciente de que um vazio com outro
não se compatibiliza.
O Acaso das Manhãs