Labuta de um quase concurseiro

  • Labuta de um quase concurseiro

    Joguei meus cadernos no lixo três semanas antes de saber que o concurso ia sair. Foram dois anos estudando, minguando as horas de sono e deixando o lazer para depois. Fumava uma carteira de cigarros por dia e isso era toda a minha diversão. O restante do tempo, ou trabalhava na loja ou estudava. Alguns amigos com quem saía me abandonaram, parece que desertei da vida ou virei um alienígena. Se pensar bem, no nosso país, quase todo mundo que estuda a sério é meio alienígena.

    Sempre fui vidrado nos livros do Erich Von Däniken e confabular sobre os deuses astronautas é um dos meus assuntos preferidos. Eu gosto dessa coisa de alienígenas. Talvez pensar que exista algo mais inteligente que o homem (o que não é muito difícil) em algum lugar por aí, me faça ter um tantinho de esperanças de que a vida não seja só isso, sabe? Só esse negócio da realidade construí por boa parte da vida, que se resume a trabalhar, trabalhar, trabalhar, esperar ansiosamente o fim de semana, beber igual uma jamanta no cio para esquecer a semana ou para tentar transar, passar o domingo regado a chás e remédios, e recomeçar. Trabalhar, trabalhar, trabalhar, esperar ansiosamente o fim de semana, beber igual um jamanta no cio para esquecer a semana ou para tentar transar, passar um domingo regado a chás e remédios, e recomeçar.

    Sim, estou generalizando e aumentando. Nem todo mundo bebia igual uma jamanta e quase ninguém transava, mas sempre estava no cio. Eu curtia essa vida, mas acabava arrependido no domingo, principalmente depois dos quarenta. Essa história de que os cinquenta são os novos quarenta, de que os quarenta são os novos trinta e assim por diante, vai fazendo a gente achar que é jovem para sempre e isso é absolutamente irritante. Gente jovem é chata e tem energia para fazer a sua chatice ser estrondosamente incômoda. Percebi isso quando estava lendo o Viagem a Kiribati, do Däniken, e o meu vizinho lavava a sua saveiro rebaixada com o som absurdamente alto, tocando uma música tão pornográfica que fiquei de pau duro. Aquilo era patético, principalmente porque eu tinha brochado umas duas vezes no mês anterior.

    Na crise dos quarenta, comecei a pensar na vida e decidi que pararia de viver como um adolescente. Sim! Eu era o tio da balada que muito raramente comia alguém, mas que estava sempre lá, louco para gastar o dinheiro que os jovens não têm e pronto para qualquer parada, achando que essa fase nunca terminaria. A gente só enxerga o quão estúpida é essa situação quando a poeira baixa. Nessa época decidi que faria um concurso. Escolhi, comprei cursos, organizei meus horários, deixei as baladinhas, reduzi quase completamente as saídas para beber, me isolei, meti a cara nos livros, e o concurso não abria.

    Estudava dia e noite, não tinha tempo para mais nada. Comecei a ficar mais triste, ou mais culto. No fundo, sem admitir, acho que sentia uma ponta de saudades do tempo em que saía toda semana e não me importava com nada. Por outro lado, não queria voltar para aquele estado. Vivia um estranho paradoxo, mas continuei estudando.

    O concurso simplesmente não abria e, vez ou outra, batia a sede de uma cervejinha gelada e inflacionada numa balada sem graça com músicas horríveis, do lado de meninas desconhecidas e com idade para serem minhas filhas. Acho que isso vicia um pouco. Deveríamos talvez criar um grupo parecido com os AA para nos apoiarmos, poderia ser algo como o Tio Da Balada Anônimos ou coisa do gênero. No entanto, era melhor manter o foco no concurso de data indefinida. Ouvi várias vezes os professores dizendo para esperar mais um pouco e mais um pouco. Comecei a achar que só queriam o meu dinheiro. Talvez estivesse paranoico.

    Uma noite calorosa de sábado, cansado de estudar, fui até um bar perto de casa, jurando que tomaria uma única gelada e voltaria. Feliz ou infelizmente encontrei alguns conhecidos que não via há muito tempo. Bebemos até amanhecer, rimos muito relembrando histórias, falamos de futebol, mulheres e outras bobagens de gente bêbada. Que saudades. Nem percebi o tempo passar e aquilo foi realmente relaxante. Meus pensamentos rondavam a desistência e acabei diminuindo as horas de estudo. Parei de frequentar as aulas e de quando em vez dava uma conferida nas matérias em casa. Na verdade, só pensava no concurso quando limpava a casa e via os livros e cadernos um tanto quanto empoeirados em cima da escrivaninha. Fui aceitando a derrota.

    Fiquei sabendo, tempos depois, que o edital do meu concurso havia sido lançado, quando as únicas informações que rondavam a minha cabeça eram os deuses astronautas e a festa do sábado seguinte. Não adiantava mais, eu não lembrava do conteúdo e tinha me desfeito dos materiais. Aqueles dois anos, no fim das contas, seriam uma mancha na minha biografia.

    Passados alguns meses, acabei aceitando um bico em um domingo à tarde para ter alguma coisa a fazer e ganhar um dinheirinho. Por ironia do destino, fui um dos aplicadores da prova do concurso para o qual estudei durante tanto tempo. Dolorosa ironia. Tive pena daqueles muitos concorrentes. Sabe-se lá o que estavam deixando de lado para tentar aquela vaga. Inocentes, talvez. Pelo menos tinha conseguido uma transa na noite anterior. Gente fina, a menina, mas acho que roubou uma garrafa de vinho que estava guardando para uma ocasião especial. Do concurso tirei apenas os cento e cinquenta reais que ganhei para aplicar a prova. Daria outra garrafa de vinho. Ou nem isso.

    *Publicado originalmente em 16 de out. de 2022, 21:30

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