Leandro Alves

  • Beijos

    Em Belo Horizonte, foliões reclamam: beija-se muito pouco no carnaval atual. Mulheres solteiras, gays, homens desempregados no “mapa da fome do amor” – todos declaram urgência no coração. Não dá para se iludir: você pode sambar na ponta do pé no Bainas Ozadas, curtir a vibe romântica e antiga do beiço do Wando, se jogar no Bloco da Calixto ou sensualizar na Corte Devassa. Mas passar um carnaval sem beijo algum é como um feriado tão guardado cair num domingo sem graça.

    Há beijos de vários tipos. Algumas mulheres, fazendo charme, premiam o folião corajoso – ou pela cantada ensaiada no espelho – com uma bitoquinha, um selinho, um toque fugaz de lábios. Outro é o beijo de língua ardente, intenso mas efêmero: o rapaz fecha os olhos em paixão, mas logo se desvencilha e volta pro bloco. Os mais ousados trocam Instagram, telefone, combinam um depois – que pode rolar ou virar ghost. Afinal, o que vale mais: o beijo ou o flerte? O beijo tem gosto de sedução, adrenalina misturada a música, alegria e muita fantasia.

    Ah, e tem o beijo transgressor: de padre fantasiado, homem de freira, Homem-Aranha ou  Mulher-Maravilha. Estamos beijando a pessoa ou a imaginação solta na folia?

    Mas os beijos escasseiam entre pierrots e colombinas, virando desespero. Gays exigem corpo perfeito e status; mulheres solteiras dizem “não há homem no mercado”; homens reclamam do “jogo duro”. Culpa da pandemia: o Covid trancou o mundo, e desaprendemos o outro. Celular virou melhor amigo – home office, família no Zoom, sexo por câmera. Na volta da folia, ficamos virtuais demais, sérios, até caretas.

    Agora, os memes do “placar de beijo” capturam isso genial: foliões desfilam com cartazes irônicos como “Beijos: zero de dez” ou “Meta diária: um (falhou)“, zombando da escassez romântica pós-pandemia em BH e SP – placas de “Beijômetro: menos dois” ou desafios virais no Instagram, como a jovem com “valores” pra beijo, virando hit na folia mineira.

    Pra reacender, pensemos em Auguste Rodin, o escultor que eternizou o beijo em mármore: em “O Beijo”, um casal nu se entrega num êxtase fluido, esculpido num bloco único, exposto no Musée Rodin – desejo proibido em pedra. Ou  “A Catedral”, mãos entrelaçadas em tensão erótica, quase se tocando. Contrastando com nosso “placar zero”, Rodin sussurra: o beijo verdadeiro é marmóreo, eterno, não um like esquecido.

    Há um lado bom: se tanta gente reclama, é sinal que clamamos pela volta do beijo na boca – na folia e depois. Juntos, chegamos lá. Um bom beijo na boca ainda é santo remédio pros dissabores da vida.

  • Gastando a Vida nos Bloquinhos

    Outro dia, me lembrei de uma frase que me caiu no colo de graça no Instagram. É de Mário de Andrade: “Viver é gastar a vida e não conservar a vida”. E eu penso: às vezes, a gente economiza tudo – até o que não era pra economizar. Economiza amizade, esperando a pessoa perfeita, aquela que preenche todas as necessidades, que não enche o saco, não cobra e não liga na hora errada. O amigo sem defeitos. E, com essa exigência toda, quantos amigos a gente deixa passar?

    Às vezes, economiza o riso. Ri pouco, preocupado se alguém está olhando. Queremos gargalhar de uma piada boba ou dançar soltos, mas guardamos tudo. Esses dias, fui no Bloco do Padreco – um pré-carnaval aqui em Belo Horizonte, no mesmo dia da Banda Mole. O bordão diz que “o carnaval só começa quando a Banda Mole passa”. Pra mim, só começa quando o Bloco do Padreco sai. Perto dos músicos, na comissão de frente, um grupo de freirinhas que se reúnem todo ano atrás da igreja. Fui com um amigo: duas freirinhas desgarradas rezando no meio do bloco. Tinha de tudo ali – freiras perdidas, padres bêbados, homem das cavernas, Batman. Ninguém economizava nada. Risos? Sambavam à vontade, dançavam e quebravam tudo até onde a coluna permitia. No resto do ano, essa turma só se encontra no pré-carnaval.

    Fico pensando: em que época do ano a gente gasta a vida sem ser no carnaval? Em que momento chega pra um estranho, ali meio sozinho na porta de um bar, e o leva pro meio do bloco? “Ei, não fica sozinho, vem brincar com a gente!” Gasta-se torto e a direito aquilo que não era pra economizar: amor, amizade. Quando pinta um clima, uma paquera, basta olhar de longe e sorrir com os olhos, esperando o convite. No resto do ano, a gente se quer, mas olha pro lado – tanta pressa de ganhar dinheiro, fazer coisas, pagar contas.

    A chuva não poupou ninguém. A multidão se aglomerava, se espremia perto da padaria na Praça Geraldo Torres. De vez em quando, alguém se animava e voltava a dançar na chuva. Fora do carnaval, mal nos olhamos. Vestida de freira, rezando pela alma dos pecaminosos, vi uma Kombi com “Carreto” escrito. Anotei o número, tirei uma foto sensual e mandei pro cara. O carnaval liberta, solta. Enquanto o bloco cantava “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, “Marcha do Saca-Rolha”, “A Cabeleira do Zezé”, a energia que a gente economizou ia pro ralo. Gastamos a vida e, de certa forma, nos renovamos. Não há tristeza que sobreviva àquela algazarra toda – ela vai pra algum lugar.

    Carnaval deveria ser o ano inteiro. No fim do bloco, comentei com um amigo: “As pessoas andam tão sozinhas, só os celulares conversam pelas ruas. Mas é daquilo que a gente fez no Bloco do Padreco que sentimos falta”. Aquele abraço amigo em gente desconhecida, quando o estranho vira parceiro e os olhos sorridentes viram possível amor. E a música? “Toque que a gente vai pro meio do bloco e não se segura”. É disso que precisamos o ano todo – disso que vivemos em quatro dias intensos.

  • Meu primeiro grito de carnaval

    Sempre fui tímido. E, para piorar, me meti muito cedo com os livros. Só através da imaginação eu viajava — na vida real, não. Todo carnaval, eu me escondia: procurava ler uma montanha interminável de livros, me informava sozinho no cinema ou passava horas tediosas vendo televisão. Aquela alegria lá fora não me pertencia.

    Até que um dia cansei de ficar em casa. Vou para a rua, nem que seja para fazer uma caminhada, bater perna, invejar a alegria dos outros.

    De repente, ali no centro, descendo a Rua dos Goitacazes e chegando à Rua da Bahia, um rapaz me parou. Ele estava fantasiado: usava um vestido rosa, batom, luvas. Estava acompanhado de uma senhora vestida de bruxinha.

    — Você sabe onde tem um bloco legal por aqui?

    — Infelizmente não — respondi.

    — Um bloquinho com a gente?

    Eu disse que sim. E aqueles dois carnavalescos foram me levando.

    Subimos de volta a Rua dos Goitacazes, sentido Barro Preto, e figuras hilárias foram passando por nós. Um palhaço se aproximou e falou para mim:

    — Descubra os braços, moço!

    A bruxinha e meu outro amigo riram. Logo depois, cruzamos com um casal: o moço vestido de Mulher-Maravilha, a mulher de Superman.

    — Ô, casal, vocês sabem onde tem um bloquinho bacana? — perguntou a bruxinha.

    — Não. A gente também está procurando.

    — Quer ir procurar um bloquinho com a gente?

    O casal se recusou, desejou bom carnaval, e nós seguimos.

    No Shopping Cidade, o segurança — depois de segurar o riso — nos informou que ali na Augusto de Lima, perto do fórum, tinha um bloquinho. Não sabia o nome. Rumamos para lá.

    No caminho, vimos um homem fantasiado de Chaves, segurando uma maçã. Um rapaz vestido de Quico pegou a maçã dele e saiu correndo.

    — Ora, meninos, não brinque! — disse a bruxinha.

    Passou um padre — um homem fantasiado de padre — e realizou um casamento de brincadeira entre mim e a bruxinha, nos convidando a dar um selinho. Uma policial me colocou contra a parede.

    Quando chegamos à Augusto de Lima, cantamos abraçados: “Alalaô, mas que calor!”. Depois: “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é?”. A multidão se espremia, se abraçava, se apertava, mostrando que, na rua, em dias de carnaval, a gente nem precisa saber sambar.

    Daí em diante, decidi que nunca mais ia para o carnaval — sem fantasia.

    Como não fui até hoje.

  • O Bom Humor de Cada Dia

    Não sei quanto a vocês, mas acho que o bom humor anda em falta no mercado. Houve um tempo em que bastava virar pro sujeito no ponto de ônibus, reclamar da demora, e alguém já emendava uma piada. O dono da banca comentava o calor, o porteiro dizia qualquer bobagem, o manobrista ria de si mesmo, o flanelinha improvisava um comentário espirituoso, a moça da farmácia devolvia o troco com uma graça inesperada. A gente ria no meio do dia, sem perceber. De uns tempos pra cá, perdemos esse jeito tão brasileiro de ser, trocar o mau humor por uma boa risada virou exceção.

    Pensei nisso quando reli a oração de São Tomás More, inglês do século XVI, nascido em Londres em 1477, juiz conhecido pela honestidade, de quem o Papa Francisco tanto gostava. “Dai-me, Senhor, um pouco de sol, algum trabalho e um pouco de alegria”, pedia ele. Veio a pandemia, depois a morte do Papa, e alguma coisa se perdeu pelo caminho. As pessoas andam sérias demais, economizando o riso, como se ele fosse artigo de luxo, reservado às festas de família.

    Não sou lá muito religioso, mas desconfio que a alegria seja a coisa mais sagrada. Mesmo sem missa aos domingos, faço dela a minha. “Dai-me uma boa digestão e algo para digerir”, rezo no trânsito, parado, olhando o sinal fechar outra vez. Todo mundo deveria pedir o mesmo, criança, velho, adolescente, marido, mulher, jovem. O bom humor sempre foi traço do nosso povo, algo espontâneo, quase automático.

    Condenado por não aderir ao cisma religioso, São Tomás More escreveu essa oração na prisão. “Dai-me a graça de encontrar o bom sentido”, suplicava. Nós também vivemos cercados, cada um em sua pequena prisão particular, o trânsito, as contas, a solidão. Um sorriso ao porteiro, retribuído, ainda faz diferença, mesmo que a gente não saiba medir.

  • Anotações sobre Mario Quintana

    “Porta giratória”, de Mário Quintana, é, de longe, o melhor livro de crônicas que já li na minha vida. Se levanto de manhã, quero abrir o livro. Se estou longe de casa, quero chegar logo para ler, nem que seja um trecho, antes de dormir. Neste caso, como beleza é algo que eu não consigo ver sozinho, aproveitei minha coluna de hoje para que vocês vejam também.

    “Diálogo familiar

    — Mas por que você não escreve umas coisas mais sérias?

    — Ora, tia Élida! Eu já não sou mais criança…”

    “Retrato

    … aquele renomado economista, com sua cara compenetrada de ovo choco…”

    “Sentimentalismos

    Quando uma dessas vovozinhas me exibe umas fotografias e vai me apontando e explicando:

    — Este aqui é meu último netinho, o outro é o mais velhinho, a do meio, seu Mario, é a que está sentada na areia.

    — Ah, vocês nem acreditariam, mas essa é a única chateação que eu suporto com gosto.”

    “Respostas tiradas de uma entrevista

    — Quais são as personalidades a quem mais admira

    — Greta Garbo e Sherlock Holmes

    — Qual o maior poeta brasileiro atual?

    — Deixe disso. Nenhum poeta é cavalo de corrida para ser obrigado a chegar em primeiro lugar.

    — Sua principal qualidade?

    — O bom senso (não confundir com senso comum).

    — Seu principal defeito?

    — O de todos, isto é, o de não saber qual seja.

    — O que você acha da poesia engajada?

    — O mesmo que acho das perguntas engajadas.”

    “Não é possível

    O futuro é uma espécie de Banco ao qual vamos remetendo, um a um, os cheques das nossas esperanças. Ora, não é possível que todos os cheques sejam sem fundo!”

    “Os silêncios

    Não é possível amizade quando dois silêncios não combinam.”

    “Da arte de fazer visitas

    Sempre que o convidavam a uma casa, perguntava-lhes se se podia levar um amigo. Deixava então os outros conversarem enquanto ele fingia que escutava.

    O ruim de uma visita familiar é que a dona da casa sempre faz perguntas quando a gente está de boca cheia.”

  • Sem frases motivacionais daqui pra frente

    Não sei se vocês já repararam, mas, depois dos 40, o mundo parece decretar: “Pronto, acabou o estoque de incentivos”. Aos 20, todo mundo te empurra pra frente — “Estuda! Viaja! Conquista o mundo!”. Aos 30, ainda rola um “Vai lá, compra a casa, casa, tenha filhos”. Mas aos 40? Silêncio radioativo. 

    É como se a sociedade tivesse investido tudo em você e agora só contasse os prejuízos. “Já casou, já doutorou, pós-doutorou, comprou o carro, a casa na praia, aprendeu três idiomas. E agora? Desiste, vai”. Ninguém mais te motiva a recomeçar. Ninguém diz: “Ei, e aquele sonho engavetado? Corre atrás!”. Aos 40, você vira um capítulo fechado no livro alheio. 

    Só muito tempo depois eu parei e pensei: espera aí, onde foram parar aquelas frases motivacionais que eu ouvia tanto aos 20? “Cara, você consegue! Não desiste, não! Você ainda tem muito tempo pela frente. Tem muitos amores pra você viver ainda. Aprende um quarto idioma, por que não? Você consegue, você é novo, inteligente! Para de sofrer por este ingrato, é essa ingrata. Vai viajar o mundo!”.

    Mas o que muda — e o que torna essa fase fascinante — é que você só conta com você mesmo. Precisa encontrar seus próprios motivos pra levantar da cama de manhã. Precisa ser um pouco maluco, porque a felicidade depois dos 40 é uma espécie de maluquice. Se encontrar simplesmente aquilo que te faz feliz e correr atrás. Nessa idade, se for esperar alguém empurrando, a gente nem sai da cama. Aquelas frases bonitinhas — “Você consegue, você chega lá” — param quando você faz 30.

    Eu olho pros lados e vejo amigos fingindo contentamento, mas no fundo é um vazio quieto. Onde foram parar aqueles “você consegue”? Talvez a gente precise se incentivar sozinho agora. Ou quem sabe inventar nossos próprios troféus — um idioma novo aos 45, uma viagem maluca aos 50. Porque parar de ser incentivado não significa parar de voar.

  • O mar é logo ali

    Na semana passada, fui ao Rio de Janeiro para o lançamento do livro “A reinvenção da metáfora: as bodas de Rogério Salgado”, publicado pela Ventura Editora, com organização do poeta Luiz Otávio Oliani, e que tive o orgulho de apresentar na orelha.

    Enquanto estive no Rio, uma frase não saía do meu pensamento: “Poxa vida, o mar está tão perto, é logo ali.” O carioca vive tão perto do mar que, às vezes, parece fingir que não se dá conta, fingir que não liga, fingir que desdenha. Mas é tudo aparência.

    O mar, no Rio, é uma espécie de arranjador, um maestro que comanda a música que toma conta da cidade. Onde quer que você esteja, é o mar quem dita o ritmo.

    Ao andar pelo Rio, tenho sempre a sensação de que as pessoas estão, de alguma forma, sempre prontas para pegar uma praia. Se você duvida, eu te provo.

    Basta reparar — você, que mora longe da praia — como tudo é diferente em lugares como Belo Horizonte, onde eu moro. Quem vive longe do mar passa a vida vestido, e acha que precisa escolher roupa para tudo. O carioca, não. Porque o mar está logo ali.

    Percebi isso quando fui curtir a noite numa boate de Copacabana, na Rua Raul Pompéia. Na farra, o carioca raiz não liga para roupa: se quiser ir de jeans, camiseta e pochete, ele vai; se a mulher quiser ir com um conjunto monocromático, ou com um vestido, ela vai também. Maquiada ou de cara limpa, com batom ou sem batom — tanto faz. O mar está a poucos metros dali.

    Se quiser sair de madrugada da boate e pular no mar, pula. Antes do café da manhã, pula também. Por ser uma cidade com mar, o Rio está sempre mais interessado em tirar a sua roupa do que em te ver vestido. Você me entende.

    A vida na praia é diferente da vida longe dela, e, mesmo quando não é, ainda assim você vive envolvido por essa música invisível do mar.

    Se você conhece São Paulo, sabe que, em algumas casas noturnas, você não entra de bermuda. Assim que a recepcionista percebe o turista desavisado, logo aparece um ambulante oferecendo uma calça para alugar, com maquininha de cartão e Pix.

    Se você se senta numa lanchonete usando boné, é provável que alguém peça para você tirar. No Rio, isso seria impensável.

    Sou mineiro. Moro em Belo Horizonte. Estou acostumado à calça comprida, a ficar vestido o tempo todo, a escolher a melhor roupa para cada ocasião, a combinar cores, a tentar parecer mais bonito, ou até a aparentar uma condição social melhor do que realmente tenho. Quem é mineiro sabe.

    O carioca, não. Usa bermuda para quase tudo: ir à praia, ao banco, ao mercado. Só coloca calça quando realmente precisa: museu, missa, casamento, show, concerto. De resto, roupa de calor, só se for leve.

    Um executivo carioca faz cooper em Ipanema de bermuda, tênis, e sem camisa. A mulher carioca, quando sai da praia, coloca um short por cima do biquíni e uma camiseta para entrar numa loja ou num restaurante.

    Quer reconhecer um estrangeiro em Ipanema? Olhe o Posto 9: é o cara de bermuda, camisa com a manga dobrada, e tênis. A estrangeira é a que veste uma bata por cima do biquíni, usa um chapéu Panamá, e óculos escuros.

    Tudo isso porque o mar é o maestro. Criou a música silenciosa que envolve o Rio, e a coreografia que encanta meus olhos de cronista.

    Mas eu fui mesmo para o lançamento da antologia dos melhores poemas de Rogério Salgado. Fui comemorar os 50 anos desse poeta mineiro radicado no Rio — e aproveitei para bater perna, confesso.

    No evento, na Lapa, pouca gente emperequetada além do necessário. Homens de bermuda, chapéu, camiseta floral, jeans, tênis. É impossível não notar o quanto o mar influenciava tudo aquilo: era uma música silenciosa, um poema, uma liberdade.

    Nem todo carioca gosta de mar, eu sei, mas, no fundo, eles sabem que é o mar quem manda — e nós obedecemos.

    Mesmo quem está no Rio só a passeio acaba entrando na atmosfera carioca. Ganha, sem perceber, uma pequena alminha carioca.

    Com o tempo, você passa a achar uma Havaiana mais charmosa que qualquer tênis caro; anda sem camisa; toma sol; percebe que cada corpo é único, quando está à vontade. O executivo troca o terno pela bermuda; a turista descobre que só precisa de um vestido para tudo.

    Quanto mais tempo você passa no Rio, mais carioca você fica. Gosta de mate, de biscoito Globo, de sorvete de pistache, de samba. Aprende as delícias de andar descalço, de entrar no mar, de esquecer da vida.

    Por isso, estou sempre arrumando uma desculpa para fugir para o Rio. Porque, ali, o mar está sempre por perto — e, acredite, isso faz toda a diferença.

  • Quando um amigo bom tem uma playlist ruim

    Pois é: eu ali, de carona com um amigo que não via fazia um tempo, recém-chegado da Europa, que me chamou para um chope — e eu aceitei. Só que, infelizmente, não sei se tinha tomado iogurte vencido, ou algo parecido, mas a playlist do meu amigo estava horrível.

    No caminho, “Beija Eu”, da Marisa Monte; depois, “Já Sei Namorar”, dos Tribalistas. Até que, de uma hora para outra, me toca Ivo Pessoa, com “Quando Eu Te Vi”.

    — Linda, né?
    — É…!

    Ouvir Ivo Pessoa, para ser mais generoso, é como ouvir a vizinha do apartamento de cima andar de um lado para o outro, de salto alto. Pior que barulho de furadeira, pernilongo em noite de calor ou a empregada da vizinha cantando louvor.

    — Falta muito para esta música acabar?
    — Três minutos.
    — O quê? Não tem como tirar?
    — Não.

    E começou, ali mesmo, a cantarolar, numa espécie de karaokê involuntário. Uma música que fala de anjos, outras vidas, aves, aquele romantismo boboca de adolescente apaixonado, espinhento, virgem.

    Prefiro mil vezes A Hora do Brasil ou as músicas do Padre Marcelo.

    — Nossa. Mas que trânsito, hein!?
    — Pois é.
    — Falta muito pra chegar?

    A todo momento eu perguntava: “Tá chegando?”. Tem gente que luta para sobreviver a um amigo com TOC; outros pelejam com um amigo de tique nervoso; alguns tentam tolerar o boca-livre, o que pede dinheiro emprestado, o que assalta a geladeira, o pessimista, o ruim de bola. Mas um que realmente merece o Nobel da Paz é aquele que sobrevive — resignado e mudo — à playlist pavorosa do amigo.

    — Mas você não gostou mesmo, não é?
    — Meus ouvidos já viveram tempos melhores.

    Ivo Pessoa é aquela música besta que mistura vibe de novela das seis, barulho de obra e o som de um caco de vidro arranhando o capô do carro.

    Minha alma queria descer, pegar carona em outro carro, com outras pessoas, outra playlist.

    Quando finalmente desci, falei pra ele:

    — Da próxima vez coloca outra coisa. Até barulho de obra.

    Meu amigo riu. Eu não.

    Fomos tomar um chope que, numa hora dessas, é só o que se pode fazer.

  • A guerra íntima de todo leitor

    Quando ia escrever seus livros, o escritor Moacyr Scliar aproveitava, como dizia nas entrevistas, os intervalos da vida: a poltrona de um avião, a palestra do fulano, o aeroporto — qualquer brecha que, entre um compromisso e outro, a rotina oferecesse.

    Para nós, leitores, não é diferente. Lemos na sala de espera do médico, no sacolejo de uma viagem de ônibus, no aeroporto, esperando um amigo no shopping. Quem lê há muito tempo sabe bem o que é isso. Tenho amigos que, apenas para me causar inveja, juram que não se incomodam com barulho; eu, ao contrário, acho que o silêncio virou um artigo de luxo — e pagaria qualquer coisa por ele.

    Como grande parte dos leitores, tudo o que quero é um refúgio. Que, como já disse, anda cada vez mais raro.

    Se abro um livro em casa, num domingo à tarde, o vizinho resolve comemorar o aniversário da esposa, com direito a karaokê, música alta (quando estou lendo, odeio qualquer tipo de música; qualquer uma, até as minhas preferidas) e aquelas palmas estrondosas. Tento ser tolerante. Tento.

    Aí aproveito a sala de espera da dentista, abro o livro, começo a minha viagem… mas alguém liga o WhatsApp, manda e recebe áudios, depois desliza o dedo pelo feed do Instagram. Lá se vai o meu silêncio outra vez.

    Outro dia, no parque, procurei um lugar com sombra, longe dos casais, das crianças, dos grupos com violão. De repente, um sujeito para perto de mim, diz “bom dia”, começa a se alongar e — adivinhem — está acompanhado do seu inseparável radinho de pilha.

    Não sei se você reparou, mas, atualmente, ninguém faz nada em silêncio: academia, caminhada, natação, estudos, dirigir. Só resta ao leitor a sua luta diária por um pouco de sossego.

    Outro dia, sentado num banco bem no centro da cidade, minha viagem pela imaginação era frequentemente interrompida pelo flanelinha: “Aí, gente boa!”, “Aqui, gente boa!”.

    Abro o livro, fecho. Torno a abrir, fecho de novo. E assim, sem sucesso, vou tentando.

    Tento a sala de espera do teatro, do dentista, a praça, a biblioteca, o pronto-socorro, as gôndolas do supermercado, um lugar debaixo da árvore do estacionamento. Às vezes — como já me aconteceu — vou ler em frente aos hospitais, onde não se pode buzinar, falar alto ou fazer festa.

    Exageros à parte, é maravilhoso quando, em meio a este mundo tão barulhento, encontro um lugar quieto e posso saborear, finalmente, o livro. Só a imaginação me ajuda a suportar a vida. Tudo o que peço é que me deixem em paz.

  • Reencontros

    Reencontrar alguém é como ganhar presente de Natal antecipado, de aniversário ou de amigo oculto. É como se, de certa forma, fosse possível voltar ao passado, reviver um tempo antigo de alegrias e ingenuidade.

    Outro dia reencontrei uma amiga que não via há três ou quatro anos. Ela é médica e, há vinte anos, ajudou a criar um grupo de teatro para adolescentes. Na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, naquele campus cheio de árvores e flores, vivi alguns dos momentos mais lindos da minha adolescência. Uma vez por semana, às terças, sentávamo-nos no chão com folhas de papel A4 e canetas, escrevendo juntos peças de teatro. Duas vezes por ano, apresentávamos as peças — podia ser no campus da Alfredo Balena, podia ser na Pampulha. Foi ali, no final do ano, na Escola de Enfermagem, depois de uma apresentação, que essa médica fez algo que nunca esqueci: leu poemas em voz alta e nos inspirou a fazer o mesmo.

    Anos depois, num sarau em Santa Tereza, aqui em Belo Horizonte, revi essa médica. Cheguei cedo, escolhi uma mesa e esperei. De repente, a vi entrar com a irmã, que também é poeta. Fui até elas. Nos abraçamos. Sentamos juntos. Foi como se tudo voltasse: escrever peças, apresentações de fim de ano, rodas de conversa — e eu ali, menino de novo.

    Aí pude dizer, como um personagem antigo de Machado de Assis, o José Dias, de Dom Casmurro: “A vida é lindíssima”.

  • Aprendizado à beira-mar

    A primeira vez que vi o mar foi um acontecimento. Foram horas — acho que oito, talvez dez — de Belo Horizonte até Marataízes, com aquelas paradas que hoje soariam enfadonhas, mas que na infância tinham gosto de festa: milho cozido na beira da estrada, mingau de milho fumegante, almoço simples com farofa crocante. Eu achava tudo aquilo uma delícia.

    Mas o verdadeiro banquete foi quando o mar apareceu. Imenso, azul, impossível. E justo no instante em que meus olhos de menino se perderam naquele horizonte de sal, tocou no rádio: “Não adianta fugir, nem mentir pra si mesmo agora… há tanta vida lá fora… e aqui dentro, sempre… como uma onda no mar.” Lulu Santos e Nelson Motta. Não foi no primeiro dia, foi no segundo. Mas foi como se fosse a primeira vez que eu visse qualquer coisa no mundo.

    Eu caminhava na areia, jogava peteca com uns meninos do outro hotel, deixava as ondas molharem meus pés num vai e vem que era quase música. Tudo parecia fácil: rir, correr, perder a peteca, achar de novo. Não havia sombra de desafio — era só o sol, o sal, e aquele sentimento de que o mundo estava pronto para mim.

    O mar era novidade, força, descoberta. Especialmente naquele momento em que, num descuido meu, ele levou um pé de chinelo embora.

    Eu desconhecia a força das ondas. Só conhecia as águas paradas da piscina e da lagoa — nenhuma delas tinha surrupiado meu chinelo daquele jeito, com tanta facilidade e sem aviso.

    Eu era um garoto que brincava sem camisa na rua, fazia do chinelo Havaiana a trave do gol. Ali, na areia, de pé e de sunga, eu ia para lá e para cá — era toda novidade para mim.

    Mas havia outra novidade ali — as meninas. Elas andavam por todo lado, de biquíni, com corpos molhados e cabelos escorrendo do mar. E como eram lindas.

    Comecei a andar livremente até a padaria da esquina, comprar picolé e voltar sozinho para o hotel.

    Foi quando, olhando com atenção, reparei em dois meninos cercados por várias meninas sentadas numa escadaria. Eles estavam num hotel vizinho, bem ao lado do nosso.

    Falavam com intimidade, riam, brincavam — naquela época, as meninas só falavam comigo na minha imaginação, em cenas e diálogos que eu mesmo inventava.

    Até que um dos meninos me viu voltando da padaria e veio andando até o meu lado:

    — Cara, as meninas pediram para te chamar. Tá só a gente lá, tem menina sobrando.

    — Depois eu vou.

    Não fui. Depois, passei por lá, vi aqueles meninos namorando as garotas e lembrei do convite. Não entendi por que, na vida, a gente tem tanto medo de coisas boas.

    Ao escrever esta crônica, já homem feito, aquele menino que fui me sussurra algo: deixar que os outros gostem da gente é tão difícil quanto encontrar alguém.

  • O porteiro que era dono de uma ilha de livros

    No trabalho, ele anotava placas e nomes de pessoas. Na hora do almoço, abria livros.

    Porteiro da Praia do Forte, na Bahia, dono de uma ilha de livros, guardião de entradas e saídas. E, sem que ninguém desconfiasse, dono também de uma ilha de livros.

    Começou quando foi fazer o primeiro ano do fundamental. Analfabeto funcional até os 13 anos, vendedor de geladinho, picolés, ambulante para sobreviver. A professora, comovida, deu para ele a chave da biblioteca. Pegou, folheou livros, se sentiu desafiado — adorou. Não largou nunca mais os livros. Hoje, leu mais de mil obras. Rui Barbosa, Machado de Assis, “Capitães de areia”, de Jorge Amado.

    Ele mora em Barra do Pojuca, litoral norte da Bahia, onde trabalhadores partem rumo aos condomínios de luxo.

    Não deixou de ser porteiro. Quer uma vida simples: café, trabalho, almoço, janta, fim de semana com a mulher — e livros sempre por perto.

    Espia a lista: “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Machado de Assis; “1984”, George Orwell; “Assim falou Zaratustra”, Nietzsche.

    Enquanto muitos trabalham e dormem aos domingos, ele viaja por outros mundos, em épocas e terras distantes.

    Descobriu que ler é viver muitas vidas. E que, ao fechar o livro, as histórias continuam na cabeça dele.

    Muitos imaginam esse porteiro lendo com filho no colo, “O Sítio do Picapau Amarelo”. Ele sorri e cita Machado de Assis: “Não tive filhos, não transmiti a ninguém o legado da miséria humana”.

     Ele lê por prazer — rir, chorar, viajar.

    Agora, quer estudar e prestar concurso público. Sabe: existe uma vida para viver, e outra para sonhar. Este vai longe.

  • Cachaça, reza e um Papa gente boa

    Naquela segunda-feira chuvosa em Ipanema, o sol tirou folga. Depois de um fim de semana vaidoso, ensolarado e cheio de turistas na areia, ele se recolheu como quem respeita um luto.

    No lugar dele, veio a garoa. Capas de chuva nas calçadas, cangas de folga no armário e um silêncio molhado pairando sobre a cidade. Eu, mineiro de férias no Rio, escrevia umas crônicas no bloco de notas do celular quando veio a notícia: Papa Francisco morreu.

    Fiquei abalado. Abaladíssimo. Nem sou católico — sou do time que entra na igreja pra admirar o forro de madeira —, mas meu amigo é. E com ele, missa é antes do café. Domingo mesmo fomos ao Mosteiro de São Bento, na Praça Mauá. Missa linda. Depois, um café da manhã  na Visconde com Farme.

    Dizer que o céu chorava pode parecer exagero. Mas ali, com meu amigo ao lado e o coração um pouco apertado, chorei debaixo do guarda-chuva.

    Gostava de Francisco como se gosta de uma avó italiana: ele falava com firmeza, ria com os olhos e dava bronca com afeto. Canonizou Irmã Dulce, beatificou Frei Galvão, estendeu a mão pros refugiados, acolheu os gays e soltava frases que viravam camiseta.

    Um dia, disse a um brasileiro: “Vocês não têm salvação. Muita cachaça e pouca reza.” Depois, deu a bênção com seriedade franciscana.

    Talvez nenhum outro Papa tenha entendido tão bem o Brasil. Nosso jeito de rir da desgraça, de rezar e de fazer piada ao mesmo tempo. Francisco era argentino, mas ganhou a alma da gente.

    Ali, naquela manhã nublada de Ipanema, eu não rezei um terço. Mas agradeci em silêncio.

    Obrigado, Papa Francisco.

  • A coleira do cão e a coleira do homem

    Um homem de “maus bofes” passeia pela rua com seu cachorro de estimação que, apesar do jeito ranzinza do seu dono, vai caminhando ao lado dele alegre, saltitante, interessado, bem mais que o seu dono, nas alegrias do mundo.

    A alegria do cachorrinho é fascinante, parece totalmente livre e independente do péssimo humor do seu dono; homem que, ao contrário do cachorrinho, é quem parece estar numa coleira. Invisível, sim, mas uma coleira de qualquer forma.

    Bom, pessoalmente, gosto de um trecho das Escrituras Sagradas que diz que “Basta a cada dia o seu próprio mal”; o problema é que, preso por uma coleira invisível amarrada ao pescoço, o homem vai imerso nos seus pensamentos, apegado ao seu humor, sua má sorte; ao contrário do cachorrinho de estimação dele, que celebra dos primeiros raios de sol, cumprimenta os desconhecidos na rua com olhos sorridentes, pula, agita-se, late e, para desgosto do dono, puxa a coleira, arranca o dono de seus pensamentos automáticos, seu jeito robótico e aí o homem puxa violentamente a coleira do cachorro, puxa com raiva.

    Ora, a mesma cena vi em outros dias, outras praças quando, cúmplices da alegria do bicho de estimação, outros donos soltavam a coleira e deixavam o cachorro correr livre, olhavam de longe, deixavam o bichinho gastar energia, experimentar a alegria, o sol da manhã. Depois, chamavam o cachorro pelo nome, pegavam a coleira de volta, seguiam o rumo numa amizade tão bonita de se ver.

    Porém (ah, porém), este não é o caso do homem que vai agora na rua. O cachorro e seu dono, visivelmente incompatíveis, seguem o rumo deles até que, já distantes de mim e do amigo que voltava  comigo de um bloco de carnaval, somem das nossas vistas para sempre.

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