Lêdo Ivo

  • Entre o que se escreve e o que se publica

    Até os melhores poetas já escreveram os piores versos, mas só os piores poetas os publicam. Isso já foi dito e redito, e aqui digo mais uma vez, porque parece extremamente certo e ainda necessário. A questão que se coloca é a da seleção dos poemas na formação de um livro e como a obra de um poeta se apresenta ao público.Aí o problema assume contornos matemáticos, de proporcionalidade. Porém, não se trata de porcentagem ou de qualquer expressão em valores numéricos propriamente (afinal, em termos de literatura, jamais poderia ser desse modo, bem como por falarmos em matemática mais em termos metafóricos), mas das impressões no leitor e no crítico.

    O tempo entre a publicação de um livro e outro precisa exceder o da escrita dos poemas que o leitor encontrará disponível para a leitura. Precisa ser maior não porque o poeta necessite observar esse ditame estabelecido e esperar para o lançamento, tendo o seu livro guardado. Mas porque se alcança uma quantidade de poemas suficiente para compor um livro antes, no entanto, se publicado prontamente, provavelmente, sua qualidade não será boa. Se selecionados criteriosamente, os poemas se reduzem em número, alarga-se o tempo necessário do livro.

    Alguns autores publicam livros quase que anualmente, com 100 poemas ou mais. A percepção que fica é a de que publicam absolutamente tudo que lhes sai da pena, sem qualquer crivo crítico e, como aparece em muitos casos, sem sequer revisão ou ajuste, o que é expelido da cabeça vai ao livro. Assim, em meio a bons versos que saem de todos os poetas de qualidade ou medíocres, estará uma enxurrada de ruins e médios poemas, suficientes para rebaixar a qualidade do livro na avaliação e na experiência que o leitor terá dele e com ele.

    Há poetas apressados, que procedem do referido modo pela freima de ver seu nome na capa de mais um impresso. Isso acontece principalmente com os iniciantes, que naturalmente possuem uma ânsia maior pela publicação e por serem lidos. Essa pressa pode conduzir facilmente à desilusão e ao fracasso. Se é isso que almejam, digo: publiquem tudo que escrevem, sem crítica e sem seleção, aqui está uma receita perfeita. Mas, se não for isso, esse cronista (que é também poeta) diz: é necessário ter, sobretudo, calma. Calma na escrita, na seleção e na publicação.

    Até os poetas mais experientes sabem disso, não deixam de escrever seus versos ruins, só não os publicam. Ou, alguns até fazem. Já se falou bastante como em meio à grandiosidade de Augusto Frederico Schmidt há certos desníveis, ou como existem poemas fora da curva na obra de Carlos Drummond de Andrade, marcada pela extrema qualidade.

    Mas, se não fosse suficiente, é necessário ter uma preocupação com a posteridade. Não para mim, poeta menor, que não serei objeto de estudo, mas para os grandes poetas ou os que pretendem ser um dia (e pretendam ser grande um dia). Imagine, você sempre realizou suas seleções muito bem, publicando os bons poemas e escondendo os ruins, porém guarda esses em casa. Após sua morte, um pós-graduando ou um crítico vai pesquisar em seu acervo pessoal e decide publicar seus inéditos. Pois é, estarão publicados os poemas ruins, eles contrabalançarão tendendo a prejudicar o juízo que se fazia sobre sua obra. É necessário estar de olhos abertos até após a morte. Lêdo Ivo talvez estive atento a isso, quando, em A queimada, deu-nos o seguinte conselho: “Destrua os poemas inacabados, os rascunhos, as variantes e os fragmentos Que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas. Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.”

  • Duas dedicatórias, duas supostas histórias

    Toda obra literária contém mais do que aquilo que o autor quis entregar nas linhas por ele redigidas. Mas os livros enquanto objetos (embora de caráter quase metafísico) também nos contam mais do que o que há impresso nas suas páginas. O processo de editoração, a capa, os paratextos, tudo isso diz algo. E há a própria história do exemplar que temos, assim como as que ocorreram em torno dele, ambas deixando os seus vestígios.

    Nesse aspecto, os antigos são infinitamente mais ricos que os virgens recém saídos da gráfica. Os sebos são verdadeiras minas. Ao longo das explorações pelas galerias de estantes e seções, damo-nos com volumes e experiências idas e vividas. Algumas destas deixaram suas marcas apenas nas pessoas, esvaindo-se com elas; outras, entretanto, fincaram-se no papel, clamando para serem exumadas.

    Esse protesto do passado contra o esquecimento se mostra de maneira especial nas dedicatórias. Sob suas diversas formas, carinhosas, de admiração ou apenas protocolares perante um pedido; essas inscrições dizem e guardam muito. A partir delas, se nos dermos o direito de imaginar, podemos recontar muitos casos e até os criar.

    Diante das várias com que já me deparei, duas despertaram minha curiosidade e fabulação. Apesar de ter sido comprado no sebo da cidade e haver pertencido a um paraibano, o oferecimento com que me deparei em O norte agrário e o império indica Recife como local do possível encontro. “A Odilon Ribeiro Coutinho, homenagem muito cordial de Evaldo Cabral de Mello. Recife, 1985”, escreveu o autor, deixando claro o erro dos editores ao gravarem o seu sobrenome na capa com apenas um “l”.

    Diplomata de carreira, Evaldo servia em Lima, quando, um ano após o lançamento daquele estudo, esteve em Recife, sua terra natal. Odilon também tinha suas ligações com a capital pernambucana, tendo se formado em direito pela UFPE e, posteriormente, vendo-se vinculado à Fundação Joaquim Nabuco. Embora nem tudo entre eles fosse semelhança, o interesse intelectual pelo que hoje compreendemos como Nordeste os unia, principalmente, o pelo Nordeste de verdes canaviais.

    Este se localizava nos seus trabalhos e nas suas origens familiares. Como também estava em Gilberto Freyre, primo de Evaldo e amigo de Odilon, que pode ter estado no centro dessa reunião, em alguma ocasião que desconheço, mas sobre a qual a fertilidade de minha mente não se nega a fantasiar.

    Não obstante aquele ainda fosse seu segundo livro, o autor de Olinda restaurada já aparecia como uma figura da maior importância para a historiografia brasileira. Certamente, poder dialogar com ele gerou entusiasmo no Ribeiro Coutinho. Produto da sua conhecida rabugice ou simplesmente falta de entusiasmo do recifense pelo seu interlocutor, convém ressaltar a secura do que foi grafado, que deve ter jogado alguma frustração no usineiro, caso este pretendesse uma maior aproximação.

    Maior afeto e cumplicidade parece ter permeado a relação entre dois poetas. “A Astier Basílio, poeta. Esta lembrança do seu novo amigo”, foi o que encontrei em um exemplar de Curral de peixe, de Lêdo Ivo, que assina a dedicatória, seguida da designação do ano, 2003.

    De um lado, Astier jovem; do outro, o já consagrado autor de Ninho de cobras. Sem data tópica, meus devaneios alcançam maior liberdade. Ainda iniciando a carreira literária, o pernambucano de Campina Grande teria entrado em contato e enviado um livro seu a Lêdo Ivo. Cortesmente, o alagoano remeteu outro, não o seu último, mas o publicado oito anos atrás.

    Devido ao reconhecimento e ao início de uma interação, Lêdo deve ter estado contente. Maior alegria teria experimentado o jovem literato, podendo encaminhar um material seu para o poeta que admira e recebendo resposta dele sobre o texto, algo que muito anima quem está a publicar os primeiros trabalhos.

    Talvez tenham existido outras trocas posteriores, através dessas amizades que muito enriquecem os escritores, tanto os que estão começando na literatura, como os que já estão terminando a vida. Odilon Ribeiro Coutinho morreu há 21 anos, dos diversos itinerários que seus bens devem ter tido, o dito exemplar acabou no sebo. Não sei o motivo pelo qual Curral de peixe caiu no mesmo lugar. Poderia procurar o destinatário daquela dedicatória para perguntar e, quem sabe, iniciar um diálogo. Talvez, faça isso um dia.

    Agora, porém, não desejo certezas, murchariam a imaginação. Nesse momento, quero apenas ficar em minhas fabulações, viajando pelas histórias que os livros contam e pelas que eu crio.

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