Nunca tinha me atentado para a existência desse termo. Com a morte prematura de Marília Mendonça e a retomada dos comentários sobre a autora, que faria 30 anos em 2025, a palavra ganhou espaço na mídia e me levou a pensar um pouco no sentido de se cantar a sofrência — e no quanto esse canto ecoou no coração de uma multidão.
Procurando pela origem da palavra, descobri que se trata de um neologismo da língua portuguesa, formado pela junção de “sofrimento” e “carência”, sentimentos associados à falta de alguém, normalmente em uma relação amorosa.
Acredito, porém, que a sofrência vai além disso: é o sofrimento causado também por outros tipos de vazio, ausência e perda.
Durante a pandemia, depois de mais de dois anos de restrições, aprendemos a reconhecer algumas dessas ausências:
1 – Sofrência pelo distanciamento dos amigos.
Algumas pessoas mantiveram contato apenas com um círculo pequeno; outras, mais rigorosas, cortaram qualquer convivência. Os encontros virtuais, que no início tinham até certa graça pelo inusitado, com o tempo se tornaram enfadonhos. De amigos íntimos, passamos a conhecidos — a conversa já não fluía. Foi uma sofrência nostálgica, a percepção de que, pelo hiato imposto, a amizade nunca mais seria a mesma.
2 – Sofrência pela perda do prazer gastronômico.
Aqui não me refiro à perda de paladar, mas à impossibilidade de frequentar bares e restaurantes. O delivery banalizou o momento da refeição, tirando-lhe o brilho. Descobrimos que o sabor não está só no prato, mas no ritual, no encontro, no ambiente.
3 – Sofrência pela inutilidade do que acumulamos.
Roupas sociais, malas de viagem, louças de festa, cartões de visita… tudo ficou guardado, sem função. A sofrência, nesse caso, não era pela perda, mas pela constatação da inutilidade: “Fez sentido acumular tantas coisas?” Essas foram algumas das sofrências que marcaram aquele tempo. Mas a vida seguiu, e novos vazios começaram a se revelar.
4 – Sofrência pela falta de tempo.
Depois de uma rotina desacelerada, hoje a sensação é de estarmos sempre correndo para “recuperar o tempo perdido”. Voltaram o trânsito, as agendas lotadas e a pressa.
5 – Sofrência digital.
Se antes a queixa era a distância, hoje é o excesso de conexão: reuniões online que não acabaram, grupos de WhatsApp sem fim, redes sociais que nos roubam silêncio e presença.
6 – Sofrência pelo custo de vida.
Prazeres simples, como sair para jantar ou viajar, tornaram-se pesados para o bolso. A cada escolha, a saudade de uma vida menos cara.
7 – Sofrência climática.
Ondas de calor, enchentes e queimadas lembram que o planeta também sofre. E que nossa segurança depende de algo maior do que nós.
8 – Sofrência das relações frágeis.
Amizades e vínculos que pareciam sólidos revelaram-se frágeis. Algumas relações se fortaleceram, mas outras nunca mais voltaram a ser como antes.
9 – Sofrência da memória.
Muitos carregam ainda a sensação de que o tempo pandêmico ficou suspenso, deixando lacunas na lembrança, marcas sutis de ansiedade e esquecimento.
Carência, perdas, faltas… poderíamos listar muitas outras. Mas, ao refletir sobre elas, me deparei com a mais grave das sofrências: perceber que, se tudo nos faz falta, é porque o que mais nos faz falta está dentro de nós.